Gambiólogos: do digital, do analógico e de elementos da cultura

Fred Paulino, Lucas Mafra

Fred Paulino é artista visual e designer, bacharel em Ciências da Computação pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e em Arte Contemporânea pela UEMG (Universidade Estadual de Minas Gerais). Realiza obras em suportes diversos, desde experimentações gráficas, vídeo e intervenções urbanas até eletrônica e programação de sistemas. Foi diretor criativo do Estúdio Osso e um dos fundadores do Coletivo Mosquito. É colaborador do Graffiti Research Lab (EUA) e coordenador do seu núcleo brasileiro, o Graffiti Research Lab Brasil.

Lucas Mafra é designer de produto pela Universidade FUMEC (Fundação Mineira de Educação e Cultura), e autodidata em eletrônica. Projeta, desenha e constrói produtos eletrônicos e luminárias a partir de materiais reciclados, e possui ampla experiência na utilização de LED’s e em circuit bending. É colaborador do Graffiti Research Lab Brasil.


Como citar esse texto: PAULINO, F; MAFRA, L. Gambiólogos: do digital, do analógico e de elementos da cultura. Entrevista. V!RUS, São Carlos, n. 7, junho 2012. Disponível em: <http://www.nomads.usp.br/virus/virus07/?sec=2&item=1&lang=pt>. Acesso em: 19 Dez. 2018.


Começamos uma conversa com dois fundadores do coletivo Gambiologia. O coletivo se inspira na tradição da “gambiarra”, a adaptação e improvisação para encontrar soluções simples e criativas utilizando recursos de baixo custo. O Coletivo é formado por Fred Paulino, Lucas Mafra e Paulo Henrique Pessoa [Ganso] e tem projetos apresentados em várias exposições. O grupo apresenta discussões que perpassam temas de inclusão, indeterminismo e a estética da “gambiarra”. Participaram dessa entrevista Fred Paulino e Lucas Mafra.


Vídeo: Gambiociclo no Evento Interólogos Gambioactivos em Belo Horizonte-MG, Brasil. Fonte: Coletivo Gambiologia.

V!RUS: Fred e Lucas, obrigado por aceitarem o nosso convite! O tema desse número da revista é “Ações culturais e meios digitais” e gostaríamos de conversar com vocês sobre essa temática em relação ao trabalho do Coletivo Gambiologia. Podemos começar com uma pequena apresentação do que é esse trabalho?

Fred Paulino: Nós somos um trio de artistas-designers, que começaram a trabalhar juntos em 2008 por ocasião de um trabalho comissionado, que seria usado nas peças de comunicação do festival Arte.mov Arte.mov: Refere-se ao 3o. Festival Internacional de Arte em Mídias Móveis em 2008, realizado no Palácio das Artes em Belo Horizonte, Minas Gerais. Foi um espaço para produção e reflexão crítica sobre “arte da mobilidade”, explorando as possibilidades criativas no campo das mídias móveis e locativas. Fonte: http://www.artemov.net/sobre.php e http://www.gambiologia.net/blog/2009/05/20/artemov-2008/ em Belo Horizonte, Minas Gerais. Na época, eu ainda tinha escritório de design e chamei o Ganso (Paulo Henrique Pessoa) para elaborar a Armadura Gambiológica A Armadura Gambiológica trata-se de dispositivos móveis vestíveis que o Coletivo Gambiologia construiu com tecnologias de baixo custo. Fonte: http://www.gambiologia.net/blog/2009/05/20/a-armadura-gambiologica-the-gambiological-armour/ conosco. Ele trouxe o Lucas Mafra para colaborar também, e o trabalho foi muito bem recebido, chegando a ser convidado para integrar a exposição na galeria de arte do evento.

Foi um encontro saudável, já tínhamos afinidades sem nos conhecermos muito bem, mas aconteceu uma dessas coincidências da "coisa certa na hora certa". Os trabalhos eram bem complementares e nos empolgamos em realizar outros projetos coletivamente, o que tem acontecido de forma incessante desde então. Fazemos objetos eletrônicos, instalações, esculturas, quadros, luminárias, inspirados na cultura de improviso da gambiarra, mantendo um vínculo forte com uma estética brasileira da precariedade e propondo um diálogo dessa precariedade com a arte contemporânea, digital ou analógica, interativa ou não.

V!RUS: Interessante! O que seriam os "elementos da cultura popular da rua" que vocês incorporam nesse trabalho?

Fred Paulino: São intervenções espontâneas sobre o cotidiano, que podemos observar principalmente nas metrópoles, especialmente em países de terceiro mundo, que contam com menos recursos, carência material... A cultura da gambiarra, de improvisar com o que se tem à mão, um tipo de criatividade quase seminal, que não exige uma formação técnica ou acadêmica para resolver certo tipo de problema prático. O que tem se chamado de "inovação social". Buscamos incorporar essas ideias e nos deixar influenciar por camelôs, vendedores ambulantes, sistemas de som, catadores de sucatas, artistas de rua. Captar um tipo de criatividade muito espontânea que surge nesse contexto e aplicar isso em um contexto artístico, sempre usando a eletrônica. É uma espécie de "metodologia do improviso".

V!RUS: Essa ideia de improviso se relaciona estreitamente com a noção de indeterminismo, sugerindo que cada obra permanece aberta e seu resultado vai depender de circunstâncias.

Que circunstâncias você acha serem mais centrais nesse processo?

Fred Paulino: Acho que as circunstâncias, nesse caso, vão estar mais ligadas ao público que presencia o trabalho e ao espaço em que é apresentado. Cada trabalho se relaciona de uma forma distinta. Alguns são somente para serem vistos, e nesse caso a obra já sugere por si só grande parcela da mensagem. Outros trabalhos, como o Gambiociclo Gambiociclo: uma bicicleta que agrega em si dispositivos e meios digitais de baixo custo, uma estação móvel utilizada para promover ações do coletivo Gambiologia. Fonte: http://www.gambiologia.net/blog/category/artwork/gambiociclo/ , por exemplo, são mais mediadores de uma experiência do que um objeto acabado - e dessa forma dependem em grande parte do contexto em que está sendo apresentado. A própria circunstância de criação dos trabalhos também influencia, dependendo dos recursos que temos naquele momento, e mesmo do prazo de entrega!

V!RUS: Essa ideia de improviso também está presente no processo de criação das obras? Ou seja, ao conceberem uma obra, ainda sem participação de público, vocês não têm exatamente claro qual será o resultado?

Fred Paulino: Sim, optamos por isso na verdade. A maior parte das vezes também tentamos usar o máximo possível os materiais que já temos no ateliê, evitando comprar componentes novos, reaproveitar... Acredito que isso torna os trabalhos mais espontâneos e, portanto, mais humanos.

Em geral temos sim um objetivo final sobre em que a obra deve resultar, mas a forma em si só se define no instante da realização.

V!RUS: Essa edição da revista V!RUS trata da relação entre meios digitais e ações culturais. Nós gostaríamos de saber qual o peso do digital no trabalho de vocês, com quais objetivos ele é usado, em geral.

Fred Paulino: O digital possibilita uma transversalidade em todos os sentidos, além de ser inevitável hoje em dia. Em alguns casos usamos o digital como recurso criativo, como forma de atingir uma "técnica" necessária no projeto - por exemplo, o uso e programação de microcontroladores -, em outros o digital é usado de forma mais sutil, somente como uma extensão do analógico, por exemplo, precisamos do computador para criar adesivos. O digital também é necessário para propormos um passo além, pensarmos a cultura da gambiarra não só como uma referência estética (o que não seria nada novo), mas como formas alternativas de resolver problemas, seja no domínio físico - o mundo real - ou virtual/digital. É quase como uma diferença entre o "gambiarrento" e o "gambiológico". O digital possibilita todo esse diálogo entre low tech e high tech. O próprio hackeamento de códigos é um tipo de gambiarra.

V!RUS: Existe uma preocupação no coletivo de permitir que o público se aproprie de modos de fazer desses meios digitais? Seja no low ou high level da tecnologia, a cultura da gambiarra pressuporia uma abertura para o improviso do público que utiliza a obra, correto? Portanto funcionaria como estimulante à criação. Isso vale para o digital?

Lucas Mafra: Temos uma preocupação em distribuir mini apostilas em oficinas, por exemplo, para transmitir o conhecimento de uma forma mais sólida, palpável. Queremos que o nosso público absorva mais as informações e despertem para a criatividade gambiológica, que abre as portas para mais possibilidades, portanto estimula sim, gostamos de dizer que "libertamos" a criatividade da pessoa durante um workshop.

Fred Paulino: Eu acho que os modos de fazer dos meios digitais aparecem mais espontaneamente hoje em dia. Todo mundo nasce navegando na internet e pode aprender a programar lendo meia dúzia de tutoriais online. Pode parecer paradoxal, mas a grande dificuldade, hoje, em minha opinião é uma habilidade com o analógico, o artesanal, o manual. Eu acho que a Gambiologia se preocupa mais em resgatar essas habilidades, mostrando que não estão assim tão distantes do que se entende por tecnologia. Como o Lucas falou, sempre brincamos que as nossas oficinas oferecem uma "inclusão analógica", pois a digital o governo já fornece com um simples acesso à internet.

V!RUS: Esse interesse tem a ver então com duas frentes: formação de público, em certa medida, e formação de multiplicadores? Isso seria uma preocupação de vocês? Em que medida o coletivo tem interesse em conformar redes a partir de suas ações?

Fred Paulino: Com certeza. Acho que os trabalhos que são reconhecidos como arte digital, ainda são muito frios, dependentes de tecnologias X ou Y, muito ligados a uma ideia de digital como amostragem tecnológica. É uma armadilha sutil da indústria que se apropria dos meios criativos. Sinto falta de aspectos mais humanos, sensoriais, na maioria dos trabalhos, e uma necessidade de um background do público para que seja "entendido", o que é exigir demais. Pra mim arte tem que ser mais espontânea. Assim, acho que acabamos ajudando em uma formação de público, os trabalhos se explicam por si só, as pessoas se reconhecem, curtem sem necessidade de ler um livro de história da arte. (O que não quer dizer que não dialogamos com ela). A formação de multiplicadores e redes vem a partir disso, as oficinas são sempre muito bem recebidas, o público sai com uma visão mais desmistificada sobre a tecnologia (ou técnica). A formação de redes surge naturalmente a partir desse contato com o público e outros artistas, e fazemos questão de compartilhar todas essas experiências, seja distribuindo apostilas, disponibilizando material no site, propondo exposições coletivas - como fizemos em 2010 -, e agora na revista FACTA, que lançaremos em agosto.

V!RUS: De um ponto de vista de interlocução com outros grupos, artistas e coletivos, essa ideia de ampliação de compreensões através de redes é uma realidade? Isso se daria tanto no sentido de divulgação do trabalho de vocês quanto, no sentido inverso, na realimentação do coletivo pelas trocas e reflexões conjuntas? Nesse caso, o uso da internet passaria a ter um papel importante na própria construção do ideário do coletivo?

Lucas Mafra: A internet é uma necessidade básica. No ponto em que estamos é impraticável viver sem ela. Ela é a grande responsável por tudo.

Fred Paulino: A cada contato com outros grupos a compreensão sobre o nosso próprio trabalho é ampliada. Isso é fascinante. Porque nós não somos teóricos, acadêmicos, palestrantes. Antes de mais nada somos artistas, queremos colocar os trabalhos no mundo e isso supostamente seria suficiente. Mas é muito interessante esse feedback através das redes, sejam virtuais ou presenciais, realmente amplia a compreensão sobre o que estamos fazendo, e há sempre uma costura importante com outros criadores. Acho que todo artista quer, de uma forma ou outra, influenciar e ser influenciado, e como opinião pessoal, acho imprescindível dialogar com o seu tempo atual, em que você vive, usar os recursos e estratégias do hoje. Nesse sentido a internet é sim imprescindível, e nos preocupamos em ter também uma boa documentação dos trabalhos, pois é a partir desse material que o público conhece a obra sem a necessidade presencial.

V!RUS: O uso da internet em intervenções pode às vezes ser prejudicado por problemas pontuais como dificuldades de boa conexão, timing da comunicação com parceiros remotos, e mesmo da própria disponibilidade do público em interagir remotamente. Vocês notam resistências ou aberturas por parte do público para ser ativo (e não passivo como é de hábito em espetáculos promovidos por iniciativas comerciais, por exemplo) nas intervenções?

Ou talvez vocês trabalhem com perfis onde essa resistência seja menor? Nesse caso, vocês têm interesse em atingir outros públicos?

Lucas Mafra: O uso da internet no Brasil em certos lugares é complicado, porque somos deficientes no aspecto de velocidade de conexão (megabits por segundo), e isso às vezes atrapalha. Mas em relação a nossas obras e trabalhos, sempre tentamos interagir com o público através de nossas oficinas, intervenções e etc..

Fred Paulino: Na verdade não nos interessa tanto trabalhos remotos. Eu acho que essa resistência deve-se, em parte, ao fato de ser muito incomodo depender de um aparelho, ou sinal, para que o trabalho aconteça. Algumas vezes é tecnicamente complicado. Não estou dizendo que artistas não devam explorar isso, mas como falei antes, acho que ainda falta sensorialidade, emoção. Realmente acho que seguimos em uma direção diferente.

V!RUS: Mesmo que essa comunicação signifique aproximar realidades distantes, borrar limites entre diversidades, ou mesmo sugerir que contatos presenciais poderiam ser estimulados a partir dessa experiência mediada? A sensorialidade e a emoção estariam menos presentes em uma comunicação pelo fato de ela ser mediada?

Fred Paulino: Eu acho que esse é o discurso das operadoras e sua publicidade. Até entendo que contatos presenciais possam ser estimulados, e é possível certo grau de "emoção" ao se fazer uma vídeo conferência, caso contrário exemplos como os chats roulettes Chat Roulettes: sites de conversa por texto ou vídeo, que une usuários randomicamente para se comunicarem. não causariam tamanha repercussão. Mas como forma de expressão artística ainda considero acanhado nesse sentido.

Lucas Mafra: Acho que o público interage facilmente, por se identificarem com a nossa estética “gambiarrenta” brasileira, nossa informalidade torna mais fácil a interação.

V!RUS: Em uma ação do projeto Territórios Híbridos, usamos a internet para permitir que grafiteiros de São Carlos grafitassem à distância em paredes de belo horizonte e vice-versa, que grafiteiros daí grafitassem em paredes daqui, através de projeções. Além disso, a ideia era permitir que a população que não possui afinidade pelo graffiti pudesse grafitar nos tablets e perceber a força desse gesto em termos de expressão no espaço público.

O que vocês achariam desse tipo de uso, que não envolve videoconferência em seu sentido convencional, nem forçosamente a palavra falada ou a linguagem textual?

Fred Paulino: Eu acho que há sim esboços de ferramentas que possibilitam a transposição dessas barreiras, mas na prática as pessoas preferem uma experiência mais presencial. Quase sempre, inclusive, trabalhos bem sucedidos nessa direção estão intimamente ligados a uma experiência analógica, ou tentam reproduzi-la, simulá-la. O desafio que estou provocando seria como o digital, por si só, com as peculiaridades exclusivas do seu "alfabeto", poderia propor experiências inéditas, sem se mostrar muito frio ou viabilizador dessas mediações. Ou, talvez, como ser interessante e atingir o público para além dessa mediação.

O LaserTag LaserTag: software desenvolvido pelo Graffiti Research Lab que permite que as pessoas façam graffiti digital utilizando canetas de laser. Fonte: http://www.graffitiresearchlab.com/blog/projects/laser-tag/ , por exemplo, foi um sucesso absoluto, indiscutível. Em minha opinião é um dos melhores trabalhos desse século, mas em grande parte seu mérito deve-se ao fato de humanizar o digital e ao mesmo tempo digitalizar o gestual. Sempre há uma experiência analógica simultânea.

V!RUS: Sim, sua riqueza é sem duvida permitir que as pessoas "leigas" experimentem os gestos do graffiti e o entendam de outras maneiras.

Fred Paulino: E mais, grande parte do mérito do LaserTag é, também, não ter sido usado comercialmente pelo Graffiti Research Lab Graffiti Research Lab: Grupo no qual Lucas Mafra e Fred Paulino são colaboradores. Graffiti Research Lab é responsável pela criação de interfaces como o Eye Writer, dentre outras, realizando uma releitura do graffiti através do uso de meios digitais. Fonte: http://graffitiresearchlab.com>/ , o próprio gesto político nesse caso já é muito relevante e de certa maneira completa o trabalho.

O open source Open Source: Iniciativa Open Source (ou código aberto, em português) se dedica à construção e reelaboração coletiva de softwares com o código de programação aberto, dentre outras premissas, em oposição ao software proprietário, com código fechado. Fonte: http://www.opensource.org/docs/osd é uma forma de atuação política. Mesmo que a política formal às vezes caminhe em direção contrária.

V!RUS: Você identifica outros trabalhos de vcs que também pensem o digital "por si", com seu próprio alfabeto, como você disse acima?

Fred Paulino: Acredito que não, talvez no máximo quando ironizamos as videoconferências com um trabalho recente, as Malas Chat Mala chat: Uma maleta que dispõe de recursos para comunicação livestream, como videoconferência. .

V!RUS: Gostaríamos de fazer uma ultima pergunta a vocês. Como vocês enxergam o trabalho de vocês daqui a alguns anos? Não necessariamente o do coletivo, mas a maneira ou os pressupostos ou mesmo o tipo de evento e de resultados que vocês constituem?

Lucas Mafra: Acho que teremos mais experiência com gambiarras cada vez mais mirabolantes. Gostaria de chegar à meta de 50 oficinas por enquanto, pra depois passar pra 100. Acredito que até agora foram 17. Já pegamos o jeito da coisa, a última no SESC Belenzinho O SESC Belenzinho uma das unidades do SESC (Serviço Social do Comércio) da cidade de São Paulo. Foi realizada uma oficina pelo Coletivo Gambiologia no dia 3 de junho, que tinha como objetivo a construção de luminárias de LED. teve ótimos resultados. Foram criadas luminárias com LED em latas variadas. Nenhuma a bateria, todas com carregadores de celular usados, que possuíamos aos montes.

Fred Paulino: Eu acho que a gente é parte de um momento em que as pessoas estão começando a se incomodar com o massacre que a indústria tecnológica praticamente nos obriga, com o excesso de consumo em todos os sentidos, com a falta de alternativas para lidar como os resíduos industriais, com os recursos sempre concentrados nas mãos dos mesmos atores globais. O artista quase sempre dialoga com questões do seu tempo, esse incômodo não é exclusivamente nosso. Acho que somos representativos desse momento, de certa forma catalisamos esse incômodo, de forma criativa, lúdica, prática, espontânea, procurando escapar de discursos fáceis e convenientes para o capitalismo, como o da sustentabilidade. A valorização da cultura brasileira como um deslocamento de eixo de influência nas artes, quem sabe... Há muitos criadores preocupados com isso, e a força do termo Gambiologia, que não há de ser exclusivamente nosso, talvez seja um aglutinador dessas experiências e tomara que no futuro as pessoas lembrem-se do nosso trabalho dessa forma.

Lucas Mafra: Concordo com o Paulino, as pessoas estão incomodadas, porém elas estão acordando.

V!RUS: Essa ideia de deslocamento do eixo de influencia nas artes é bem bonita e forte. Bom, gostaríamos de agradecer novamente pelo tempo de vocês foi uma conversa muito rica e prazerosa.

Fred Paulino: Valeu gente, obrigado pela oportunidade.

Lucas Mafra: Valeu, até mais!

Gambiólogos: of digital, of analogical and of cultural elements

Fred Paulino, Lucas Mafra

Fred Paulino is visual artist and designer, BA in Computer Sciences at UFMG (Federal University of Minas Gerais) and in Contemporary Arts at UEMG (Minas Gerais State University). Creates works in diverse media, from graphic experimentations, urban interventions and video to electronics and systems programming. Was creative director of Osso Studio and one of the founders of Coletivo Mosquito. Collaborator of the Graffiti Research Lab and coordinator of its Brazilian branch, the Graffiti Research Lab Brasil.

Lucas Mafra holds a BA in Product Design at FUMEC (Culture and Education Foundation of Minas Gerais), and an autodidact in electronics. He projects, draws and build electronic products and lamps from recycled materials and holds a large experience in the use of LEDs and in circuit bending. He collaborates with the Graffiti Research Lab Brasil.


How to quote this text: Paulino, F.; Mafra, L, 2012. Gambiólogos: of digital, of analogical and of cultural elements. Interview. Translated from Portuguese by Paulo Ortega, V!RUS, 07, [online] Available at: <http://www.nomads.usp.br/virus/virus07/?sec=2&item=1&lang=en>. [Accessed: 19 December 2018].


We started a dialogue with two founders of Gambiologia Colective. The collective is based on “gambiarra” tradition, which is the adaptation and improvisation in order to find simple and creative solutions using low resources. The Collective is formed by Fred Paulino, Lucas Mafra and Paulo Henrique Pessoa [Ganso], and they have presented works in many exhibitions. The group presents discussions about inclusion, indeterminism and the “gambiarra” aesthetics. Fred Paulino and Lucas Mafra were present in this interview.


Video: Gambiociclo in Interólogos Gambioactivos Event at Belo Horizonte-MG, Brazil. Source: Coletivo Gambiologia.

V!RUS: Fred and Lucas, thank you for accepting our invitation! The theme of this issue of the magazine is “Cultural initiatives and digital means” and we would like to talk about this theme in relation to the work of Coletivo Gambiologia. Could we start from a brief introduction of your work?

Fred Paulino: We’re a trio of artist-designers who started working together in 2008 for a commissioned work, which was going to be used in a piece of communication about the festival Arte.mov Arte.mov: they refer to the 3th. Mobile Media International Festival in 2008, held in ‘Palácio das Artes’ in Belo Horizonte-Brazil. The festival was a place for development and critical reflection about “the art of mobility”, searching for other creatives possibilities in the mobile and locative media disciplinary field. Source: http://www.artemov.net/sobre.php and http://www.gambiologia.net/blog/2009/05/20/artemov-2008/ in Belo Horizonte, Minas Gerais. At that time, I had a design studio and I invited Ganso (Paulo Henrique Pessoa) to develop Gambiologic Armour The Gambiologic Armour is a mobile wereable device, developed by Gambiologia Collective with low cost technologies. Source: http://www.gambiologia.net/blog/2009/05/20/a-armadura-gambiologica-the-gambiological-armour/ with us. He also invited Lucas Mafra to collaborate, and the work was very well received, being invited to join art gallery’s exhibition of the event.

It was a healthy encounter, we appreciated each other’s work although we didn’t know each other very well, but happened one of those coincidences of the "right thing at the right time". The works were very complementary and we got excited to do other projects collectively, which has happened incessantly ever since. We have made electronic objects, exhibits, sculptures, paintings, lanterns, inspired by the culture of improvisation of gambiarra, maintaining a strong link with a Brazilian esthetic of precariousness and proposing a dialog about that precariousness with contemporary art, digital or analog, interactive or not.

V!RUS: Interesting! What would the “elements of popular street culture” that you incorporate in this work?

Fred Paulino: They are spontaneous interventions in the day to day, which can be observed principally in metropoles, especially in third world countries, which have fewer resources and material scarcity… The gambiarra culture, improvising with that which one has at hand, a type of almost seminal creativity that does not demand a technical or academic education to resolve a certain type of practical problem. What has been called “social innovation”. We seek to incorporate those ideas and let ourselves be influenced by hawkers, street vendors, sound systems, scrap metal collectors, street artists. To capture a very spontaneous type of creativity that arises in that context and apply it in an artistic context, always using electronics. It is a type of “methodology of improvisation”.

V!RUS: That idea of improvisation relates closely to the notion of “non-determinism”, suggesting that each work remains open and its result will depend on circumstances.

What circumstances do you think are most central in this process?

Fred Paulino: I think the circumstances, in this case, will be more linked to the audience that consumes the work and to the space in which it is presented. Each work connects in a distinct way. Some are really only meant to be seen, and in that case the work implies just in itself a great portion of the message. Other works, like Gambiociclo Gambiociclo: it is bicycle which has low-tech devices and digital media, a mobile broadcast station used in Gambiologia’s practices. Source: http://www.gambiologia.net/blog/category/artwork/gambiociclo/ , for example, are more mediators of an experience than a completed object – and in that way they depend in great part on the context in which they are presented. The very circumstances of the creations of the works also have an influence, depending on the resources we have in that moment, and even on the timeframe of completion!

V!RUS: This idea of improvisation is also present in the process of creation of the works? That is, when conceiving of a work, even without the participation of an audience, you do not know precisely what the result will be?

Fred Paulino: Yes, we prefer that in fact. The majority of times we also try to make the most possible use of what we already have in the workshop, avoiding buying new components, reusing… I believe that this makes the works more spontaneous and, therefore, more human.

In general we do have a final objective regarding how the work will result, but the form itself is only defined at the moment of creation.

V!RUS: This edition of the magazine V!RUS is about the relationship between digital platforms and cultural initiatives. We would like to know what impact the digital element has on your work, with what objective is it used, in general?

Fred Paulino: The digital element makes possible a “transversality” in every sense, besides being inevitable these days. In some cases we use digital elements as creative resources, as a form of achieving a necessary “technique” in a project – for example, the use of microcontroller programming -, in others the digital factor is used in a more subtle way, only as an extension of the analog, for example, we need a computer to create adhesives. The digital is also necessary to push us one step beyond, to consider the gambiarra culture not just an esthetic reference (which would be nothing new), but as alternative ways of resolving problems, be it in the physical domain – the real world – or the virtual/digital world. It is almost like a difference between “gambiarrento” and “gambiológico”. The digital makes this entire dialog between low tech and high tech possible. The very hacking of codes is a type of gambiarra.

V!RUS: Is there a focus in the collective on allowing the audience to appropriate ways of using these digital means? Whether it is on the low or high level of technology, the gambiarra culture would presuppose an opening for improvisation on the part of the public that consumes the work, correct? Therefore, it would work like a stimulant for creation. Does this remain true for the digital element?

Lucas Mafra: We have a focus on distributing information in workshops, for example, in order to transmit the knowledge in a more solid way, more palpable. We want our audience to absorb more information and awaken to gambiological creativity, which opens the doors to more possibilities, therefore it does stimulate, we like to say that we “release” the creativity of the person during a workshop.

Fred Paulino: For me the ways of using digital media appear more spontaneously these days. Everyone is born using the Internet and can learn to program reading half a dozen online tutorials. It may seem paradoxical, but the great difficulty, today, in my opinion, is skill with the analog, the artisanal, the manual. I think that Gambiology is more focused on saving these skills, showing that they are not really so distant from what is understood to be technology. As Lucas said, we always joke that our offices offer “analog inclusion”, as digital inclusion is already provided by the government through simple access to the Internet.

V!RUS: This interest is related then to two fronts: the education of the audience, in some measure, and the education of the multiplier? Would that be one of your focuses? To what extent does the collective have interest in conforming networks based on its initiatives?

Fred Paulino: Certainly. I think the works that are recognized as digital art, are still very cold, dependent on technology X or Y, very connected to an idea of the digital as technological sampling. It is a subtle trap in the industry that takes over creative platforms. I miss the more human aspects, more sensory, in the majority of works, and a necessity for the audience to know a background in order for it to be “understood”, which is demanding too much. For me, art has to be more spontaneous. In that way, for me we end up helping educate the public, the works speak for themselves, people recognize themselves, enjoy without the need to read an art history book. (Which does not mean we do not interact with [art history]). The formation of multipliers and networks comes from that basis, the offices are always very well received, the audience leaves with a more demystified vision of technology (or technique). The formation of networks arises naturally from this contact between the audience and other artists, and we make a point to share all these experiences, be it by distributing pamphlets, making material available on the site, proposing collective expositions – like we did in 2010 – and now with the magazine FACTA, which we launched in August.

V!RUS: From a point of view of dialog with other groups, artists and collectives, is this idea of amplification of understanding through networks a reality? Would that be as much in the sense of the propagation of your work as, in the inverse sense, the feedback of the collective through exchanges and conjoint reflections. In that case, would the use of the Internet take an important role in the very construction of the ideology of the collective?

Lucas Mafra: The Internet is a basic need. From the point we’re at it is impracticable to live without it. It is the great keeper of everything.

Fred Paulino: With each contact with other groups, the understanding of our work is amplified. That’s fascinating. Because we are not theorists, academics, lecturers. Before anything else, we’re artists, we want to put our work out there in the world, and that would supposedly be sufficient. But it’s very interesting that this feedback through networks, be they virtual or in person, really amplifies the understanding of what we’re doing, and there is always an important link with other creators. For me all artists want, in one way or another, to influence and to be influenced, and in my personal opinion, for me it is indispensable, and we concern ourselves with also having good documentation of the works, because it is on the basis of that material that the audience gets to know the work without needing to be present.

V!RUS: The use of the Internet in interventions can at times be hindered by problems of punctuality, like the lack of a good connection, the timing of the communication to remote partners, and even the very willingness of the audience to interact remotely. Have you noted resistance of openness on the part of the public to being active (or not passive, as is the habit in events promoted by commercial initiatives, for example) in the interventions?

Or maybe you work with people for whom that resistance is smaller? In that case, do you have interest in reaching other audiences?

Lucas Mafra: The use of the Internet in Brazil in certain places is complicated, because we are deficient in terms of speed of connection (megabits per second), and that sometimes gets in the way. But in relation to our projects and work, we always attempt to interact with the audience through our offices, interventions, etc.

Fred Paulino: In reality remote projects don’t really interest us that much. I think that resistance is due, in part, to the fact that it is very uncomfortable to depend on a device, or signal, for the work to take place. Sometimes it’s technically complicated. I’m not saying that artists shouldn’t explore that, but as I said before, for me that there is still a lack of the sensory element, of emotion. I really think we’re moving in a different direction.

V!RUS: Even if that communication means coming closer to distant realities, to erase limits between diverse groups, or even to suggest that face-to-face contact could be stimulated from that mediated experience? Would the sensory element and the emotion be less present in a communication for the fact of being mediated by technology?

Fred Paulino: For me that is the discourse of the service providers and their advertisements. I even understand that face-to-face contact could be encouraged, and it is possible that a certain degree of “emotion” be present when having a video conference, otherwise examples like chat roulettes Chat Roulettes: website based on chat through text or video, which randomically pairs users in order to communicate with each other. wouldn’t cause such repercussions. But as a method of artistic expression I still find it lacking in that regard.

Lucas Mafra: I think the audience interacts with ease, as they identify with our “gambiarrenta” Brazilian esthetic, our informality makes interaction easier.

V!RUS: In an initiative of the “Territórios Híbridos” project (Hybrid Territories), we use the Internet to allow graffiti artists from São Carlos to put graffiti on walls in Belo Horizonte from a distance, and vice-versa, for graffiti artists from there to put graffiti on walls here, using projections. More than that, the idea was to allow the population without an affinity for graffiti to put graffiti on tablets and understand the strength of these gestures in terms of expression in public space.

What do you think of this type of use, which does not involve videoconferencing by its conventional definition, nor necessarily spoken word or textual language?

Fred Paulino: I think that there are the beginnings of tools that make the transposition of those barriers possible, but in practice people prefer a more face-to-face experience. Almost always, even, successful projects in that direction are intimately linked to an analogous experience, or attempt to reproduce one, to simulate one. The challenge that I am issuing would be how could the digital, by itself, with the exclusive particularities of its “alphabet”, propose unprecedented experiences, without seeming to be very cold or to enable those mediations. Or, maybe, how to be interesting and reach the audience beyond that mediation.

LaserTag LaserTag: software developed by Graffiti Research Lab, which allows people make digital graffiti using laser pointers. Source: http://www.graffitiresearchlab.com/blog/projects/laser-tag/ , for example, was an absolute, unquestionable success. In my opinion it is one of the best works of the century, but to a great extent its merit can be attributed to the fact that it humanized the digital while at the same time digitized the gestural. There is always an analogous, simultaneous experience.

V!RUS: Yes, its value is doubtlessly that it allows “laypeople” to experiment with the gestures in creating graffiti and to understand graffiti in other ways.

Fred Paulino: And what’s more, a great part of the merit of LaserTag is, also, that it was not used commerically by Graffiti Research Lab Graffiti Research Lab: Group that Lucas Mafra e Fred Paulino are collaborators. Graffiti Research Lab is responsible for creating interfaces as Eye Writer, among others, doing a reinterpretation of graffiti through the use of digital media. Source:http://graffitiresearchlab.com>/ , the very political gesture is already very relevant and in a certain way completes the work.

Open source Open Source: Open Source Initiative is dedicated to construction and colaborative redesign of softwares with open-source codes, among other premises, in opposition to proprietary softwares which are closed-source code. Source: http://www.opensource.org/docs/osd is a manner of political action. Even with formal politics it sometimes moves in the opposite direction.

V!RUS: Do you identify others of your works as also being digital “by nature”, with their own alphabets, like you said above?

Fred Paulino: I don’t believe so, maybe at most in our ironic treatment of videoconferences with a recent project, Malas Chat Malas chat: A suitcase that has resources for a livestream communication such as videoconferencing. .

V!RUS: We would like to ask you a final question. How do you envision your work in a few years’ time? Not necessarily the collective work, but the format or the the concepts or even the type of event and the results that they’ll be composed of?

Lucas Mafra: We’ll have more experience with showier and shower gambiarras. I would like to reach the goal of 50 workshops for now, and then 100. I believe there are so far there have been 17. We have already gotten the hang of the thing; the last one at SESC Belenzinhos The SESC Belenzinho is a unit of the SESC (Social Service of Commerce) in São Paulo. A workshop was developed by the Collective Gambiologia on June 3, which aimed to build LED luminaires. produced excellent results. Lamps were created with LED lights in various aluminum cans. None of them battery powered, all with used cellular phone batteries, which we had by the ton.

Fred Paulino: For me we’re part of a moment in which people are starting to get uncomfortable with the massacre that the technology industry practically forces on us, with the excess of consumption in every sense, the lack of alternatives for dealing with industrial byproducts, the resources always concentrated in the hands of the same global actors. The artist almost always dialogues with the questions of his time, that discomfort is not exclusively ours. I think we’re representatives of the moment, in a certain way we catalyze that discomfort, in a creative, playful, practical, spontaneous way, seeking to escape discourses that are easy and convenient for capitalism, like the sustainability discourse. The valorization of the Brazilian culture as a displacement from the axis of influences in the arts, who knows… There are many creators concerned with that, and the strength of the term Gambiology, which needn’t be exclusively ours, may agglutinate those experiences and I hope that, in the future, people remember our work that way.

Lucas Mafra: I agree with Paulino, people are uncomfortable, but they’re waking up.

V!RUS: That idea of displacement of the influence axis in the art is quite beautiful and powerful. Well, we’d like to thank you both for your time once again. It has been a very rich and pleasant conversation.

Fred Paulino: Great guys, thanks for the opportunity.

Lucas Mafra: Thanks, see you soon!