A fotografia como instrumento de observação urbana: uma questão convergente em pesquisa sobre as cidades

Carolina de Hollanda

Carolina de Hollanda é arquiteta e fotógrafa, pesquisadora do PROURB/UFRJ. Em seu mais recente trabalho, atuou junto à equipe do Laboratório de Habitação/FAU/UFRJ como arquiteta supervisora em projeto de regularização fundiária em parceria com a Superintendência do Patrimônio da União. Pesquisa as características urbanas e habitacionais de um assentamento popular, utilizando a fotografia como principal elemento de investigação.


Como citar esse texto: HOLLANDA, C. A fotografia como instrumento de observação urbana: uma questão convergente em pesquisa sobre as cidades. V!RUS, São Carlos, n. 7, julho 2012 Disponível em: <http://www.nomads.usp.br/virus/virus07/?sec=4&item=2&lang=pt>. Acesso em: 16 Out. 2021.


Resumo

O valor do alcance da imagem como suporte técnico investigativo tem sido amplamente questionado e, atualmente, ainda encontra resistências.

A fotografia, porém, como documento e testemunho, vem resistindo há mais de um século, e é produto e instrumento da urbanização e da expansão e crescimento das cidades, sendo portanto, essencialmente urbana, na medida em que surge no mesmo momento em que nascem as cidades modernas, sendo inúmeros os registros de fotógrafos que sobre elas se debruçaram e relevantes os trabalhos de arquitetos e urbanistas que utilizam o suporte imagético como instrumento de investigação da vida urbana.

Tendo como exemplo final de novo enfoque o assentamento popular Campo Alegre, localizado entre os municípios de Nova Iguaçú e Queimados, na região metropolitana do Rio de Janeiro, o artigo traça um panorama da importância da utilização da fotografia como instrumento metodológico de pesquisa e tem como objetivo relatar sobre a importância do pesquisador utilizar a fotografia como fonte de investigação e divulgação científica durante a observação e registro dos acontecimentos da vida urbana: suas histórias, seus significados e lembranças, na tentativa de decodificar seus símbolos e revelar as contradições contidas em sua realidade.

Palavras-chave: fotografia; testemunho visual; urbanismo; assentamentos populares.


Fotografia: documento e testemunho

A fotografia, enquanto documento capaz de se configurar como testemunho de ocorrências do passado e caminho indispensável para análise e melhor compreensão da realidade de um determinado período, ainda não obteve o reconhecimento adequado nas áreas do conhecimento humano.

A Fotografia, no decorrer da História, já esteve à serviço de ideologias políticas, religiosas, socioculturais, além daquelas puramente estéticas. Surgida na segunda década do século XIX, proporcionou registros visuais com vistas à memória social das sociedades, aos conflitos e eventos de guerra pelo fotojornalismo, à pesquisa científica cujas experimentações comprovaram-se pelas evidências imagéticas e à criação artística, proporcionada pelas experimentações expressas por distintas linguagens e estilos artísticos.

De acordo com o arquiteto e fotógrafo Boris Kossoy (2001), porém, a fotografia, apesar de ter alcançado valor como meio de conhecimento, ainda encontra oposições culturais pela maior parte das Instituições que reconhecem somente a escrita como expressão capaz de transmitir o saber científico de forma plena, embora a fotografia já fosse utilizada para finalidades documentais desde os anos de 1930. Segundo Carney Gavin (1985) citado por Kossoy (2001):

Paradoxalmente, os documentos fotográficos, apesar de sua legendária superioridade em relação aos registros verbais, ainda hoje frequentemente escapam da malha fina da erudição. Os bibliotecários diligentemente preservam minúsculos fragmentos das notas de um escritor, curadores de arte guardam como tesouro até o mais inacabado esboço de um artista; no entanto, muitos repositórios culturais contêm preciosas fotografias que jamais foram registradas nos inventários. (GAVIN, 1985, p.9 apud KOSSOY, 2001, p.29).

Sob a liderança de Roy Stryker1, fotógrafos de grande renome registraram, através de suas objetivas, os anos da grande depressão: Dorothea Lange, Walker Leans, Russell Lee, Arthur Rothstein, Gordon Parks são alguns dos nomes responsáveis pelo rico acervo constituído através da Farm Security Admnistration (FSA), órgão criado, em 1935, pelo então presidente Franklin Roosevelt.

A FSA realizou trabalho pioneiro e um dos maiores de documentação da História, ao reunir uma equipe para testemunhar a vida dos agricultores afetados pela crise de 1929, criando, assim, um dos maiores e mais importantes acervos fotográficos da América do Norte, no início do século XX (NUNES, 2011.).

A organização, criada com o objetivo de fornecer apoio aos pequenos agricultores e comunidades rurais no período da Grande Depressão, recorreu à Fotografia a fim de registrar os trabalhos que deveriam ser realizados pela FSA.

Consolidava-se assim a concepção do que viria a ser fotodocumentarismo e a FSA teve papel relevante e de grande influência nos trabalhos documentais que surgiram a partir desse momento em diante.

Se por um lado, a fotografia já havia sido legitimada como fonte documental, seu reconhecimento em pesquisas, pela teoria e pelos textos, chegou muito recentemente, a partir dos meados do século XX (ROUILLÉ, 2009, p.16), e na Academia, a Antropologia Visual foi uma das primeiras áreas a defender o uso da imagem em seu processo metodológico de pesquisa.

A Antropologia Visual vem se desenvolvendo desde a década de 1970 e tem importante trabalho teórico e reflexivo, que consiste em determinar e analisar as propriedades dos sistemas visuais e suas estratégias discursivas, assim como as condições da sua interpretação, relacionando esses sistemas particulares com as complexidades dos processos políticos e sociais dos quais são parte (PARES, 1997.).

Collier (1973), na década de 1970, destacava a importância da utilização do registro fotográfico no desenvolvimento da pesquisa antropológica, acreditando que somente a imagem estática tem a capacidade de revelar aspectos de uma determinada região e povoado em toda a sua autenticidade.

A fotografia, como documento e testemunho, vem resistindo há mais de um século, e de acordo com Rouillé (2009), é produto e instrumento da urbanização e da expansão e crescimento das cidades, sendo portanto, igualmente e essencialmente urbana, na medida em que surge ao mesmo momento em que nascem as cidades modernas, sendo inúmeros os registros de fotógrafos que sobre elas se debruçaram (ROUILLÉ, 2009, p.29).

Para citar alguns exemplos, entre os brasileiros, podemos encontrar Marc Ferrez (1843-1923), com a sua visão de paisagista, e Augusto Malta (1864 - 1957), com o seu olhar fotojornalístico: ambos documentaram as transformações ocorridas na cidade do Rio de Janeiro, a partir do final do século XIX.

Marc Ferrez foi o fotógrafo que maior reconhecimento teve em sua época (MOREIRA, 2008.) Registrou diversas regiões do Brasil à cargo da Comissão Geológica do Império e foi responsável por retratar cenas do cotidiano e, principalmente, imagens paisagísticas.

Malta - o fotógrafo documentarista oficial do governo de Pereira Passos (cargo criado especialmente para ele) –, junto com Ferrez, foi responsável por registrar as alterações urbanísticas ocorridas na época, assim como edificações que iriam ser demolidas, enchentes, desabamentos, além de eventos e celebrações organizadas pela Prefeitura.

A Fotografia passava a ser reconhecida como instrumento documental de grande importância histórica. Através dela, Pereira Passos pretendia demonstrar os avanços realizados em oposição ao “atraso” anterior. Sobre sua função como fotógrafo, Moreira (2008) fala:

Entusiasmado com o resultado obtido pelas fotografias, Pereira Passos ofereceu a Malta o cargo de fotógrafo documentalista da Prefeitura [...]. Em suma, algo que correspondesse ao esforço conjunto da Prefeitura e do governo federal para a transformação do Rio de Janeiro em uma metrópole nos moldes europeus. Mas, principalmente, que deixasse fotograficamente documentado tanto o atraso anterior, quanto a grandiosidade de cada uma das obras e não podemos nos esquecer que a fotografia era vista então como a mais real e fiel expressão de um acontecimento. Mas Malta deveria registrar principalmente os resultados obtidos. Em outras palavras, documentar a transformação de uma cidade ainda tipicamente colonial em uma verdadeira metrópole, e através dela — civilizar os hábitos e costumes da população.” (MOREIRA, 2008).

Na Arquitetura e no Urbanismo, autores renomados já discursaram sobre o valor da imagem como elemento essencial na busca pelo entendimento da paisagem e da transformação do espaço urbano e passaram a utilizar o discurso imagético como caminho principal para se compreender a própria cidade em construção e a relação do habitante com seu espaço.

Kevin Lynch, por exemplo, em A Imagem da Cidade (1997), publicado em 1960, defende a importância de se apreender a percepção da cidade por seus habitantes e a descoberta de seus significados através de seus simbolismos e da memória coletiva.

Em um momento de forte crítica à perda da dimensão humana nas cidades modernas, Lynch trouxe importantes contribuições para o campo urbanístico, pois dissertou sobre a observação e percepção do espaço urbano, explorando não somente a questão temporal na história das cidades assim como principalmente a percepção visual da cidade e quais os sentimentos que esta desperta no indivíduo, seguindo uma direção que apontava para a antropologia.

Na obra, o autor investigou sobre a percepção da imagem por intermédio do olhar e da sensação visual, ambos elementos que nos tornam capazes de apreender a natureza de uma cidade e codificar seus símbolos coletivos e individuais, conferindo significado àquilo que se vê. Dessa forma, com a clareza e definição dessa imagem é possível, então, adquirir novas informações e identificar qual a relação do ser observado com o mundo que o circunda.

1 Economista formado pela Columbia University que desde então baseava seus textos e aulas em imagens.

Seguindo tais preceitos, o arquiteto e urbanista passa a reconhecer outros processos metodólogicos no desenvolvimento de sua pesquisa urbanística e a admitir como ferramenta essencial ao seu estudo, o registro de imagens. Percebe que, em determinados momentos, somente a fotografia e seu contexto visual possibilitam recolher e extrair todas as informações que não foram verbalizadas em diálogos ou depoimentos, ou seja: tornam acessíveis a compreensão visual daquilo que não foi captado por intermédio de falas e entrevistas, e, finalmente, restauram a imagem narrada no momento em que se faz o resgate e o registro do olhar sobre a área em questão.

Mais tarde, já na década de 1980, em pesquisa no Centro de Estudos Urbanos e Regionais do Massachusettes Institute of Technologie, Lynch escreve o livro “A Boa Forma da Cidade”, outro livro de relevante contribuição, onde discorre principalmente sobre a forma da cidade, apreendida através dos mapas mentais e sobre a imagem que o indivíduo traça dela. Mais uma vez, um estudo que teve como objetivo investigar a qualidade visual da cidade (no caso, norte-americana) através da imagem ou registro mental que seus habitantes possuem dela.

Mais recentemente, podemos citar como referências entre os estudiosos que se dedicam ao resgate da função social e simbólica da cidade e à questão psicológica e antropológica no urbanismo por meio da sensibilidade e da dimensão humana, os arquitetos e fotógrafos Cristiano Mascaro e Boris Kossoy2.

Mascaro, há mais de duas décadas, realiza registro incessante da cidade de São Paulo e de sua arquitetura, e tem documentado o interior do estado assim como de patrimônios históricos e culturais do Brasil. Sobre a possibilidade de retratar a cidade, diz Mascaro em depoimento realizado para uma de suas exposições: “ [...] descobri a fotografia como um universo fascinante, uma forma extremamente expressiva, de fixar a vida como a gente vai observando e andando pelas ruas [...]” (MASCARO, 1993).

Interpretando esta frase, podemos concluir que a imagem não só é uma das formas de se apreender e penetrar na dinâmica do cotidiano da cidade, como também é um instrumento que possibilita ao arquiteto e urbanista refletir sobre este universo e analisá-lo segundo o olhar de quem busca por respostas sobre a vida urbana.

Kossoy lança um olhar apurado sobre a vida nas cidades – especialmente Brasil e NY - em seu acervo fotográfico. Acredita que a imagem fotográfica seja “um fragmento do mundo, que ao representar o espaço, nos remete ao tempo [...]” (KOSSOY, [s.d.]).

Nos anos 1970, fotografou as manifestações políticas e a vida da cidade de Nova York, dedicando atenção especial à arquitetura, enquanto também sugeriu uma fotografia ficcional, por exemplo, em um de seus livros “Viagem pelo Fantástico”, publicado em 1971, ao mesmo tempo em que realizou um trabalho documental, mas que teve sempre como objetivo final o questionamento sobre a veracidade da realidade que vemos e observamos.

Em uma década em que os fotógrafos se dedicavam à imagem documental e descritiva, Kossoy inovou ao publicar imagens de expressão visual do realismo fantástico. Sua série “Cartões antipostais”, segundo Vasquez (2010), teve por objetivo dismitificar a idealização por parte da sociedade, criada pelo fenômeno “milagre brasileiro”. Com a série, o fotógrafo revelou o lado obscuro do país, oculto no ideário visual que se pretendia divulgar na época do regime militar.

Sobre o autor, relata Fernandes Junior (2011):

[...] O interessante é justamente buscar entender em nossa livre associação que Kossoy não segue a tradição da fotografia documental produzida naquele momento no país, mas busca se enveredar pela tensão, pelo instante aparentemente encontrado ao acaso, mas que foi meticulosamente engendrado. A literatura é sua principal influência, daí essa sensação de inquietude que instiga nossa curiosidade sobre sua representação fotográfica que cria espaços para buscar aproximar aquele mundo representado da nossa experiência sócio-cultural.

Tanto Kossoy quanto Mascaro são exemplos significativos de arquitetos e urbanistas que têm seus trabalhos baseados na linguagem visual, e que fazem dela seu guia para melhor explicar e decodificar a cidade.

Para a obtenção de informações sobre as características do espaço urbano e a consequente possibilidade de interpretá-las a fundo, os arquitetos lançam mão de um procedimento metodológico central definido pelo uso da fotografia, entendendo que sua natureza permite alcançar, por meio da observação e da interação humana, a capacidade de visão conjunta do pesquisador em relação ao ambiente que circunda sua matéria.

A aplicação em uma pesquisa: Campo Alegre, um estudo de caso

Tendo como exemplo de aplicação de um novo enfoque em uma área de grande representatividade urbana dentro de dois municípios do Rio de Janeiro (Queimados e Nova Iguaçú), os quais apresentam alguns dos maiores números de déficit habitacional em nosso país, a escolha do assentamento Campo Alegre se justifica, principalmente, pelo seu valor histórico.

O assentamento foi implementado pelo programa de reforma agrária, na década de 1980, e é considerado, pelo próprio Instituto de Terras e Cartografia do Estado do Rio de Janeiro (ITERJ), uma das áreas mais representativas no que diz respeito às condições de suas moradias e à formação de seu mutirão, que teve representação simbólica muito forte no surgimento de vários outros movimentos pela terra ocorridos no início desta referida década. Campo Alegre constitui-se, conseqüentemente, em um referencial entre os assentamentos surgidos naquele período no Estado do Rio de Janeiro.

Figura 01: Divisão das regionais do assentamento Campo Alegre. Fonte: ITERJ

Figura 02: Assentamento Campo Alegre. Fonte: GOOGLE EARTH, 2008.

Originalmente, a área possuía características rurais, embora, atualmente, já seja identificada também como área urbana dentro do quadro do ITERJ, pois se encontra localizada na região metropolitana do Estado do Rio de Janeiro, e por isso, acaba por absorver as características urbanas do espaço que a envolve.

Portanto, o segundo motivo que levou à escolha da área se deve pelo fato de se observar um número menor em relação à vasta bibliografia destinada à pesquisa de políticas habitacionais nos grandes centros quando em comparação com o número de trabalhos dedicados ao papel da ruralidade na relação com a cidade e seu contexto urbano, a área acima citada foi escolhida como tema de pesquisa.

Por acreditar, portanto, na contribuição que se deseja oferecer a um espaço que, ainda não obteve a atenção merecida, o estudo se desenvolve em uma área que abrange a questão urbana aliada à características, por vezes, rurais.

Estudar a questão de como o morador, ocupante de um assentamento, inicialmente irregular, lida e transita no espaço afastado do centro, mas também por ele abrangido, é a questão que permeia o projeto.

Com interesse em analisar de que modo ocorre a interferência da área metropolitana nas construções, na organização e no desenvolvimento do espaço do assentamento, foi estabelecido para o projeto como objetivo norteador, a análise da relação que o morador constrói com seu habitat. Além disso, a pesquisa busca o entendimento de como o ambiente externo à Campo Alegre (assim como seu município e seu bairro) reflete e modifica os hábitos de seus habitantes, a construção das edificações e a forma de ocupação da área no período presente, sabendo que, atualmente, esta se encontra já bastante ampliada e urbanizada, diferentemente das décadas iniciais referentes ao período de sua implementação.

Para a obtenção de informações sobre as características desse processo e a consequente possibilidade de interpretá-las a fundo, o desenvolvimento do projeto prevê um procedimento metodológico central definido pelo uso da fotografia, entendendo que sua natureza permitirá alcançar, por meio da observação e da interação humana, a capacidade de visão conjunta do pesquisador em relação ao ambiente que circunda sua matéria, tornando a câmera fotográfica a ferramenta de pesquisa ideal e capaz de proporcionar ao pesquisador um maior e mais próximo envolvimento com seu objeto de estudo.

Assim, por intermédio do registro sistematizado de imagens documentais em conjunto com o material recolhido de entrevistas em campo, é possível a obtenção de informações que auxiliem na compreensão do modo de vida dos moradores desse assentamento, analisando seus deslocamentos para a região central metropolitana e as transformações que esse entorno desempenha na relação do assentado com sua moradia, além de permitir a identificação das origens dessa modificação a partir de uma questão social.

Figura 03: Caminho na regional Mato Grosso, Campo Alegre, 2008. Fonte: Arquivo pessoal (Foto:Carolina de Hollanda)

2 Mascaro e Boris Kossoy são pesquisadores e profissionais atuantes que se debruçam sobre o valor da fotografia enquanto testemunho e documento na História (Vide “Fotografia & História” e “Os Tempos da Fotografia: o efêmero e o perpétuo”).

Habitação Social: dimensões sociais, culturais e econômicas captadas por intermédio da leitura visual

Para se estudar uma das questões referentes à habitação de interesse social no Brasil, a pesquisa aborda questões relacionadas à formulação de políticas públicas habitacionais em um período em que é de extrema importância a construção de um novo pensamento e o aprofundamento a respeito da análise da construção dos programas urbanos e habitacionais no Brasil.

Fatores como o déficit, a inadequação habitacional e a falta de saneamento básico são questões que merecem atenção especial, especialmente em um período em que esse quadro é agravado pelo crescimento urbano vertiginoso e ocupação desordenada do solo, originando áreas cada vez mais precárias e um contexto de vulnerabilidade e risco.

De acordo com subsecretária-geral da ONU e diretora executiva do Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (Un-habitat), Anna Tibaijuka (2010):

[...] o crescimento contínuo das cidades exige novas soluções e políticas públicas que dêem conta de congregar moradia adequada com acesso a bens e serviços, além de promover geração de renda para um contingente populacional que ainda migra das zonas rurais para as cidades, em busca de melhores oportunidades e qualidade de vida.

Ainda segundo Tibaijuka (2010), a exclusão nos aspectos culturais, sociais e políticos é um dos principais fatores responsáveis pela exclusão econômica de grande parte da população mundial e somente a urbanização baseada no direito ao abastecimento de água, à rede coletora de esgoto, à moradia adequada, a ambientes sustentáveis e à educação, tornará possível um desenvolvimento qualitativo de uma cidade e a redução daqueles que não exercem o direito à cidade.

No sentido, portanto, de se alcançar as dimensões sociais, culturais e econômicas capazes de interferir na construção do espaço do assentamento desprovido dos serviços e equipamentos comunitários oferecidos à região urbana a qual pertence, a aplicação de uma metodologia de investigação capaz de contribuir para a formulação de políticas públicas voltadas para programas urbanísticos e habitacionais que aumentem a oferta de territórios urbanizados e de infraestrutura se torna de extrema importância.

No caso específico, a câmera fotográfica, como instrumento responsável para o registro das representações culturais, se torna capaz de codificar a linguagem não-verbal presente na realidade cotidiana de seus habitantes.

O registro sistematizado de imagens possui importante valor documental, pois representa o resgate da memória visual do homem e do seu entorno sociocultural (KOSSOY, 2001, p.55). Os espaços vivenciados são gravados em superposição de imagens no imaginário do cidadão e perpetuados em sua lembrança visual.

A fotografia, assim, ainda que pouco absorvida como instrumento eminentemente eficaz no desenvolvimento metodológico de uma pesquisa científica, torna possível a obtenção do entendimento do modo de vida urbano da cidade, suas transformações no decorrer do tempo, sua mobilidade assim como a análise da relação dos moradores com o espaço em questão, além de tornar viável identificá-los com seu habitat.

Ao fotografar o assunto e registrá-lo sob o ângulo da máquina fotográfica, o observador interage com o objeto e os participantes do cenário de forma bastante próxima, sem assumir uma postura distanciada sobre o grupo social e as circunstâncias estabelecidas como centro de interesse de sua pesquisa 3. Tal fato evidencia a câmera fotográfica como ferramenta de pesquisa essencial e capaz de proporcionar ao pesquisador um maior e mais próximo envolvimento com seu objeto de estudo.

O instante fotografado congela a imagem (estática) e pode evidenciar o sentimento nostálgico (exercício da memória) ou o apelo pela transformação imediata do espaço presente (projeção para o futuro). O “pesquisador-fotógrafo”, no momento em que aceita o universo urbano tal qual se apresenta, ou seja, em constante mutação, descobre-se visceralmente conectado à cidade e coloca em pauta a discussão de práticas socioculturais estruturadas a partir do universo imagético.

A documentação em campo possibilita um maior controle da análise visual, além de permitir o registro de determinadas situações que representem mudanças em seus hábitos culturais e a junção da fotografia como instrumento imagético com as duas disciplinas, arquitetura e o urbanismo, permite o desenvolvimento de uma discussão sobre o espaço por meio não somente do conhecimento teórico que permeia o Urbanismo e a Arquitetura mas também do contexto visual, o que tornará possível o aprofundamento de um mesmo assunto a partir de duas disciplinas que se complementam.

A metodologia do olhar: o entendimento local através da imagem

Em perfeito ajuste com o dinamismo da cidade contemporânea, o pesquisador utiliza a fotografia como fonte de investigação e divulgação científica e observa e registra os acontecimentos da vida urbana de Campo Alegre: suas histórias, seus significados e lembranças que são resgatadas também visualmente.

No caso específico de Campo Alegre, a análise da imagem fotográfica serve, portanto, para rastrear suas características econômicas, sociais e culturais, acreditando que tal instrumento de análise investigativa exerça papel de significativo valor para o estudo de tantos outros assentamentos na relação com a cidade e seu contexto urbano, prestando elevada contribuição no auxílio da superação de problemas apontados por meio do olhar documental.

Por intermédio do registro sistematizado de imagens em conjunto com o material recolhido de entrevistas em campo, é possível a obtenção de informações que auxiliem na compreensão do modo de vida dos moradores desse assentamento, analisando seus deslocamentos para a região central metropolitana e as transformações que esse entorno desempenha na relação do assentado com sua moradia, além de permitir a identificação das origens dessa modificação a partir de uma questão social.

Trata-se de compreender visualmente aquilo que, em um momento anterior, foi captado por intermédio das falas das entrevistas e restaurar a imagem narrada no momento em que se faz o resgate do olhar sobre a relação da área com seus moradores4 : uma tentativa de, através de recortes e suportes imagéticos, decodificar os símbolos e revelar as contradições contidas em sua realidade, em busca pela compreensão de uma determinada identidade cultural, individual e coletiva da própria cidade contemporânea e do ser que a habita.

Referência bibliográfica

COLLIER, J. Antropologia Visual: a fotografia como método de pesquisa. São Paulo: E.P.U., Editora Pedagógica e Universitária Ltda/Ed. USP, 1973.

FERNANDES JUNIOR, R. 40 anos de viagem pelo fantástico - fotografias de Boris Kossoy. In: Icônica (blog), 3 de outubro de 2011. Disponível em: <http://www.boriskossoy.com/imprensa/iconica_40anosfantastico.pdf>. Acesso em: 15 mar. 2012.

MASCARO, C. Cristiano Mascaro - Encontros. In: Biografia. Enciclopédia Itaú Cultural, 1993. Vídeo. Disponível em: <http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=artistas_biografia&cd_verbete=1471 >. Acesso em: 15 mar. 2012.

TIBAIJUKA, A. Ana Tibaijuka - Encarregada de liderar o programa da ONU trata de um dos temas mais sensíveis do mundo de hoje: habitação. In: Entrevista, Revista Desafios do Desenvolvimento, IPEA, nº 59, 2010. Disponível em: <http://desafios.ipea.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=1369:entrevistas-materias&Itemid=41 >. Acesso em: 03 mar. 2012.

LYNCH, Kevin. A imagem da Cidade. São Paulo: Martins Fontes, 1997. 227p.

KOSSOY, Boris. Fotografia & História. 2ª Edição. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001.

3 Aqui é importante observar que para tal proximidade com o tema, devemos considerar o fotógrafo que atua em campo, frequenta o lugar objeto de seu estudo e cria laços de convívio com os habitantes locais e que, portanto, não registra o assunto com olhar distanciado de um mero visitante, mas sim, ao contrário, com o olhar de quem absorveu a vida cotidiana daquilo que se deseja fotografar e com a preocupação de criar um vínculo efetivo com seu trabalho documental.

4 Campo Alegre surge na década de 1980, e, certamente, sofreu transformações e adaptações para a realidade do momento atual.

KOSSOY, Boris. Apresentação. In: Boris Kossoy (website). Disponível em: <http://www.boriskossoy.com >. Acesso em: 15 mar. 2012

MASCARO, Cristiano. O Uso da Imagem Fotográfica na Interpretação do Espaço Urbano e Arquitetônico. 1986. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. 1986.

________________. A Fotografia e a Arquitetura. 1994. Tese de Doutorado. Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, São Paulo, 1994.

MOREIRA, R. L. Augusto Malta, dono da memória fotográfica do Rio de Janeiro. Portal do Augusto Malta, 2008. Disponível em <http://portalaugustomalta.rio.rj.gov.br/blog-post/augusto-malta-dono-da-memoria-fotografica-do-rio >. Acesso em 15 mar. 2012.

NUNES, A. Farm Security Administration: grandes imagens de Dorothea Lange. In: Revista VEJA, 2011. Disponível em: <http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/tag/farm-security-administration > Acesso em: 12 fev. 2012.

PARES, L. N. Algumas Considerações em torno da Antropologia Visual. Disponível em: <http://www.antropologia.com.br/colu/colu3.html>. Acesso em: 09 nov. 2010.

ROUILLÉ, A. A fotografia: entre documento e arte contemporânea. São Paulo: Senac São Paulo, 2009.

VASQUEZ, P. A sabedoria do olhar: O Universo fantástico de Boris Kossoy, 2010. In: Artigos Exclusivos, Editora Cosac Naify (website). Disponível em: <http://www.boriskossoy.com/imprensa/cosacnaify_boris_fotografo.pdf>. Acesso em: 09 nov. 2010.

Photography as Instrument of Urban Observation: A convergent issue in research on cities

Carolina de Hollanda

Carolina de Hollanda is architect and photographer, researcher at PROURB/UFRJ. Integrated the Laboratório de Habitação/FAU/UFRJ in land regularization project in partnership with the Superintendência do Patrimônio da União in the last two years. She researches the characteristics of an urban popular settlement and housing, using photography as the main element of research.


How to quote this text: Hollanda, C., 2012. Photography as Instrument of Urban Observation: A convergent issue in research on cities. Translated from Portuguese by Paulo Ortega, V!RUS, n. 7, [online] Available at: <http://www.nomads.usp.br/virus/virus07/?sec=4&item=2&lang=en>. [Accessed: 16 October 2021].


Abstract

The value of the image’s range as an object of investigative technical support has been widely questioned and, currently, still encounters resistance.

Photography, however, as document and witness, has been resisting for more than a century, and it is product and instrument of urbanization and the expansion and growth of cities, being however, essentially urban, according as it appears at the same time that modern cities born, being several the records of photographers who have focused on them, and significant the works of architects and urbanists who use the imaging support as an instrument of urban life investigation.

Taking as an final example with a new focus the popular settlement Campo Alegre, located between the municipalities of Nova Iguaçú and Queimados, in the metropolitan region of the state of Rio de Janeiro, this paper provides an overview of the importance of the use of photography as a methodological instrument of research and has as objective to relate the importance of the researcher’s use of photography as a source of investigation and scientific publicizing during the observation and recording of happenings in urban life: it’s stories, it’s meanings and memories, in the attempt to decode it’s symbols and reveal the contradictions contained within it’s reality.

Keywords: photography; visual witness; urbanism; popular settlements.


Photography: Document and Witness

The value of the photographic image range as an object of technical investigative support has been widely questioned and, currently, still encounters resistance. Photography, although a document capable of being used as a witness of events from the past and as an indispensable tool for the analysis and better understanding of reality from a particular period, still has not received adequate acknowledgement in human knowledge areas.

Photography, over the course of history, has served political, religious, and sociocultural ideologies, as well as purely esthetical ones. Emerged in the second decade of the 19th century, it provided visual records with views of the social memory of societies, of the conflicts and events of war through photojournalism, of scientific research whose experimentations were proven through image-based evidence and of artistic creation, provided by experimentations expressed in distinct languages and artistic styles.

According to the architect and photographer Boris Kossoy (2001), however, photography, despite having achieved acknowledgement as a still meets cultural oppositions in the majority of institutions which only recognize the writing as expression capable of fully transmitting scientific knowledge, although photography had already been used for documentary purposes since the 1930s. According to Carney Gavin (1985) cited by Kossoy (2001):

Paradoxically, photographic documents, despite their legendary superiority in relation to verbal records, even today frequently pass through the tight mesh of erudition. Libraries diligently preserve miniscule fragments of the notes of a writer, art curators keep even an artist’s most unfinished sketch as though it were treasure; however, many cultural repositories contain precious photographs that were never registered in the inventories (GAVIN, 1985, p.9 cited in KOSSOY, 2001, p.29).

Under Roy Stryker’s1leadership, photographers of great repute reported, through their objective lens, the years of the Great Depression: Dorothea Lange, Walker Leans, Russell Lee, Arthur Rothstein, and Gordon Parks are some names responsible for the rich collection formed by the Farm Security Administration (FSA), an agency created in 1935 by president, at that time, Franklin Roosevelt.

The FSA carried out pioneering work and one of the largest documentations in history by bringing together a team to witness the farmers lives affected by the 1929 crisis, thus creating one of the largest and most important photographic collections in North America, at the beginning of twentieth century (Nunes, 2011.).

The organization, created to provide support to small farmers and rural communities during the Great Depression, he turned to photography to record the work to be completed by the FSA.

In this way the design of what would become photo documentarism was secured, and the FSA played a role of great influence and importance in the documentaries that emerged from that point onwards.

If, on the one hand, photography had alredy been legitimized as a documentation source, its recognition in research, through theory and texts, came very recently, beginning in the mid-twentieth century (Rouillé, 2009, p.16), and in academics, Visual Anthropology was one of the first areas to advocate the use of the image in its methodological process of research.

Visual Anthropology has been developing since the 1970s and contains important theoretical and reflective work, which consists on determination and analysis of the properties of visual systems and their discursive strategies, as well as the terms of its interpretation, relating these particular systems with the complexities of social and political processes of which they are a part (Pares, 1997.).

Collier (1973), in the 1970s, emphasized the importance of using the photographic record in the development of anthropological research, believing that only the still image has the ability to reveal aspects of a particular region and town in all its authenticity.

The photograph, as document and testimony, has been surviving for more than a century, and according to Rouille (2009), it is an instrument and product of urbanization and the expansion and growth of cities, and therefore equally and essentially urban, to the extent that it arises in the same time period as modern cities, as there are many records of photographers who have focused on them (Rouillé, 2009, p.29).

To cite some examples, among Brazilians, we find Marc Ferrez (1843-1923), with his vision of landscape, and Augusto Malta (1864 - 1957), with his photojournalistic eye: both documented changes that occurred in Rio de Janeiro, beginning in the late nineteenth century.

Marc Ferrez was the photographer with the greatest level of recognition in his time (Moreira, 2008). He recorded several regions of Brazil supported by the Geological Commission of the Empire and was responsible for portraying everyday scenes and mainly landscape images.

Malta - the Pereira Passos government's official documentary photographer (position created especially for him) - along with Ferrez, was responsible for registering the urban changes occurring at the time, as well as buildings that would be demolished, floods, landslides, events and celebrations organized by the Municipality.

The photo came to be recognized as an documentary instrument of great historical importance. Through it, Pereira Passos intended to demonstrate the advances made as opposed to the previous "delay". Regarding his role as photographer, Moreira (2008) says:

‘Emboldened by the result obtained by the photographs, Pereira Passos offered Malta the position of photographer archivist of City Hall [...]. In short, something that corresponded to the joint effort of the City and the federal government for the transformation of Rio de Janeiro into a metropolis in the European manner. But mostly, that left photographically documented both the previous delay and the greatness of each of the works and we cannot forget that photography was seen then as the most real and true expression of an event. But Malta would mainly record results. In other words, he documented the transformation of a typical colonial town still into a real metropolis, and through that transformation - civilize the habits and customs of the population.’ (MOREIRA, 2008.).

In Architecture and Urbanism, renowned authors have already spoken about the value of the image as an essential element in the quest for understanding the landscape and the transformation of urban space and began to use the “imagery discourse” as the main path to for understanding the very city in construction and the relationship of the inhabitant to his space.

Kevin Lynch, for example, in The Image of the City (1997), published in 1960, defends the importance of understanding the perception of the city by its inhabitants and the discovery of their meanings through their symbolisms and collective memory.

In a moment of strong criticism of the loss of human dimension in modern cities, Lynch made important contributions to the urban field, as he lectured on observation and perception of urban space, exploring not only the temporal question in the history of cities, but also and mainly the visual perception of the city and what feelings this arouses in the individual, following a path that indicates anthropology.

In the book, the author investigated the perception of image through the visual look and feel, both elements that enable us to grasp the nature of a city and codify its collective and individual symbols, giving meaning to what is seen. Thus, with the clarity and definition of this image is then possible to acquire new information and identify what relationship of the observed being has with the world around him.

1 Economist graduated from Columbia University who has since based its texts and classes in images.

Following these precepts, the architect and urban planner comes to recognize other methodological processes in the development of his urban research and to accept the recording of images as as an essential tool in his studies. He realizes that, at certain times, only the photograph and its visual context enable the collection and extraction of all the information that were not voiced in conversations or statements, i.e.: they make accessible visual understanding of what was not captured through statements and interviews, and finally, restore the narrated image when the rescue and record of looking over the area in question is done.

Later, in the 1980s, while reserching at the Center for Urban and Regional Studies of the Massachusetts Institute of Technology, Lynch writes the book "The Good City Form", another relevant contribution, which discusses mainly the form of the city, understood through mental maps and images that the individual creates over it. Again, a study that aimed to investigate the visual quality of the city (in this case, North American) through the image or mental record that its inhabitants have of it.

More recently, we can cite as references among scholars engaged in the recovery of social and symbolic function of the city and the psychological and anthropological question in urbanism through the sensibility and the human dimension, the architects and photographers Cristiano Mascaro and Boris Kossoy2.

Mascaro, for over two decades, performs continuous documentation of the city of São Paulo and its architecture, also, has documented the interior of the capital as well as the historical and cultural heritage of Brazil. On the possibility of portraying the city, Mascaro said in a statement made to one of his exhibitions: "[...] I discovered photography as a fascinating universe, an extremely expressive way, of stopping life as we go observing and walking the streets [...]” (Mascaro, 1993.).

With this sentence, we can interpret that the image are not only one of the ways to grasp and penetrate into the dynamics of the city’s everyday life, but also an instrument that allows the architect and urbanist to reflect about this universe and analyze it through the eyes of those who search for answers about urban life.

Kossoy casts a keen eye on the life in cities - especially Brazil and NY – on his photographic collection. He believes that the photographic image is "a fragment of the world, which in representing space, sends us back in time [...]" (Kossoy, [n.d.]).

In the 1970s, he photographed political demonstrations and the life of the city of New York, devoting special attention to architecture, while he also suggested fictional photography, for example, in one of his books "Voyage through the Fantastic," published in 1971, at the same time in which he was creating a documentary work, but that always had as a final objective to question the veracity of the reality we see and observe.

In a decade in which photographers were engaged in documentary and descriptive images, Kossoy innovated by publishing images of visual expression of fantastic realism. His series "Anti-Post Cards", according to Vasquez (2010), aims to demystify the idealization on the part of society, a phenomenon created by the "Brazilian miracle" phenomenon. With the series, the photographer revealed the dark side of the country, hidden in the visual ideology intended to be revealed at the military regime period.

About the author, Fernandes Junior (2011) says:

‘[...] The interesting thing is just trying to understand in our free association that Kossoy does not follow the tradition of documentary photography produced in the country at that time, but seeks to engage the tension, the moment apparently found by chance, but that was meticulously engineered. Literature is his main influence, and from there comes this feeling of restlessness that excites our curiosity about his photographic representation that creates opportunities to get closer that world represented in our socio-cultural experience.’

Both Kossoy and Mascaro are significant examples of architects and urban planners who have based their work on visual language, and that use it as a guide to better explain and decode the city.

To obtain information on the characteristics of urban space and the consequent ability to deeply interpret them, the architects resort to a central methodological procedure defined by the use of photography, understanding that their nature allows one to achieve, through human observation and interaction, the ability for a joint vision of the researcher in relation to the environment surrounding his material.

Application in research: Campo Alegre, a case study

Taking as an example of a new approach application in an largely representative urban area in two municipalities of Rio de Janeiro (Queimados and Nova Iguaçu), which contain some of the most severe housing shortages in our country, the choice of the Campo Alegre settlement is justified primarily by its historical value.

The settlement was implemented by the land reform program in the 1980s, and is considered by the Institute of Land and Cartography of the State of Rio de Janeiro (ITERJ), one of the most representative regarding the conditions of their homes and the formation of their task force, which had very strong symbolic representation in the emergence of several other movements for land that occurred earlier that decade. Campo Alegre is, therefore, a reference among the settlements that emerged in that period in the State of Rio de Janeiro.

Figure 01: Division of the regional settlement Campo Alegre. Source: ITERJ

Figure 02: Campo Alegre Settlement. Source: Google Earth, 2008.

Originally, the area possessed rural characteristics, although, nowadays, it is also identified as an urban area, within the framework of ITERJ, since it is located in the metropolitan area of our state, and therefore ends up absorbing the urban characteristics of the space surrounding it.

Therefore, the second reason that led the area to be chosen can be explained by the fact that one finds a smaller number of related research, compared to the vast bibliography of research aimed at housing policies in the major centers when compared with the number of papers devoted to the role of rurality in relation with the city and its urban context, the area mentioned above was chosen as the theme of research.

Believing, therefore, in the contribution wished to offer to a space that has not yet received the attention it deserves, the study is conducted in an area that covers the urban characteristics combined with the occasionally rural ones.

To study the question of how the resident, a settlement occupant, initially irregular, deals with and moves in this space so far from the center, but also included in it, is the question that permeates the project.

With interest in analyzing how the metropolitan area interfers on the construction, organization and development of space settlement, was established for the project as a primary analyzis objective the relationship that the resident builds with their habitat. Moreover, the research seeks to understand how the environment external to Campo Alegre (as well as their cities and their neighborhoods) reflects and modifies the habits of its inhabitants, the buildings construction and the area occupation form in this period, knowing that currently, this is already greatly expanded and urbanized, unlike the early decades regarding the period of its implementation.

To obtain information on the characteristics of this process and the consequent ability to interpret them in depth, the project development provides a central methodological procedure defined by the use of photography, understanding that their nature allows one to achieve, through observation and human interaction, the capacity for joint vision of the researcher in relation to the environment surrounding his material, making the photographic camera the ideal research tool, capable of providing the researcher a greater and closer involvement with his subject.

Thus, through the systematic recording of documentary images in conjunction with the collected material from interviews in loco, it is possible to obtain information that helps undertand the lifestyle of the settlement residents, analyzing their movements to the central metropolitan region and the transformations that this environment plays in the relationship between the subject and his housing, as well as allowing identify the origins of this change as a social issue.

Figura 03: The road to the Regional Mato Grosso, Campo Alegre, 2008. Source: Personal Archives (Picture: Carolina de Hollanda)

2Mascaro and Boris Kossoy are active researchers and professionals whose focus are on the value of photography as a historical witness and document (See “Fotografia & História” and “Os Tempos da Fotografia: o efêmero e o perpétuo”).

Social Housing: social, cultural and economic dimensions captured through visual reading

To study one of the subjects relating social housing in Brazil, the research addresses issues related to the formulation of public housing policies at a time in which it is extremely important to build a new and deeper understanding of the analysis of the construction of urban and housing programs in Brazil.

Factors such as the deficit, inadequate housing and poor sanitation are issues that deserve special attention, especially in a period in which this situation is worsened by sprawling urban growth and disorderly use of soil, resulting in areas increasingly precarious and a context of vulnerability and risk.

According to the UN general undersecretary and executive director of the United Nations Program for Human Settlements (Un-Habitat), Anna Tibaijuka (2010):

‘[...] The continued growth of cities calls for new solutions and public policies that help to gather adequate housing with access to goods and services, as well as promote income generation for a population contingent that still migrates from rural areas to cities, in search of better opportunities and quality of life.’

Also according Tibaijuka (2010), exclusion in cultural, social and political aspects is one of the main factors responsible for the economic exclusion of much of the world’s population and only urbanization based on the right to water supply, to the sewage disposal system, to adequate housing, to a sustainable environment and to education, will enable a qualitative development of a city and the reduction of those who do not exercise the right to the city.

In order, therefore, to achieve the social, cultural and economic dimensions capable of interfering with the construction of settlement space devoided of the community services and facilities offered to the urban area to which it belongs, the application of a research methodology capable of contributing to the formulation of public policies for urban development and housing programs that increase the supply of urbanized areas and infrastructure becomes paramount.

In this specific case, the photographic camera is the instrument responsible for the documentation of cultural representations and is able to encode non-verbal language present in the everyday reality of its inhabitants.

The systematic registration of images has important documentary value because it represents the recovery of the visual memory of man and his sociocultural surroundings (Kossoy, 2001, p.55). The experienced spaces are superimposed onto images of citizens imaginary and perpetuated in their visual memory.

The photograph, thus, although poorly absorbed as a highly effective tool in the development of a scientific research methodology, makes it possible to obtain an understanding of the urban lifestyle of the city, its changes over time, its mobility as well as the analysis of the relationship of the residents of the area in question, and make it possible to identify them with their habitat.

When photographing the subject and registering it under the angle of the camera, the viewer interacts quite closely with the object and the participants of the scenario, without taking a distanced stance on the social group and circumstances established as a center of his research interests 3. This points to the camera as an essential research tool able to provide the researcher with a greater and closer involvement with their subject.

The photographed moment freezes the (static) image and may show the nostalgic sentiment (memory exercise) or the call for immediate transformation of the present space (projection into the future). The "researcher-photographer", when accepting the urban universe as it presents itself, that is, constantly changing, discovers himself to be viscerally connected to the city and brings forth the discussion of socio-cultural practices structured from the image universe.

Documentation in the field allows greater visual analysis control, and allows the recording of certain situations that represent changes in their cultural habits and the junction of photography as an imaging instrument with both disciplines, architecture and urbanism, allows the development of a discussion on space through not only the theoretical knowledge that permeates architecture and urbanism but also the visual context, which will make possible the deepening of one sole subject from two disciplines that complement each other.

The methodology of the gaze: local understanding through the image

In a perfect adjustment with the dynamism of the contemporary city, the researcher uses photography as a source of research and scientific dissemination and observes and records the events of urban life in Campo Alegre: its stories, their meanings and memories that are also preserved visually.

In the specific case of Campo Alegre, the photographic image analysis thus serves to track economic, social and cultural characteristics, believing that such an investigative analysis tool plays a role of significant value for the study of many other settlements in relation to the city and its urban context, providing high contribution in helping overcome problems indicated by the documentary point of view.

Through the systematic registration of images along with the material collected from interviews in the field, it is possible to obtain information that assist the understanding of this settlement residents lifestyle, analyzing their movements to the central metropolitan region and the changes that environment causes in the relationship between the settler and his housing, and also allows the identification of the origins of this change as a social issue.

It is a matter of visually understand what, in an earlier time, got captured through the words of interviews and restore the narrated image of the moment redemption of the glance on the relationship of the area with its inhabitants4 : an attempt, through snippets and image support, to decode the symbols and reveal the contradictions contained within their reality, in the search to understand a particular cultural, collective and individual identity of the contemporary city and the being that inhabits it.

Bibliography

Collier, J., 1973. Antropologia Visual: a fotografia como método de pesquisa. São Paulo, E.P.U. - Editora Pedagógica e Universitária Ltda/Ed. USP.

Fernandes Junior, R., 2011. 40 anos de viagem pelo fantástico - fotografias de Boris Kossoy. Icônica [blog] 3 October, Available at: <http://www.boriskossoy.com/imprensa/iconica_40anosfantastico.pdf> [Accessed 15 March 2012].

Mascaro, C., 1993. Cristiano Mascaro - Encontros. Biografia, Enciclopédia Itaú Cultural[video online], Available at : <http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=artistas_biografia&cd_verbete=1471 > [Accessed 15 March 2012].

Tibaijuka, A., 2010. Ana Tibaijuka - Encarregada de liderar o programa da ONU trata de um dos temas mais sensíveis do mundo de hoje: habitação. Entrevista,Revista Desafios do Desenvolvimento, IPEA, 59, Available at: <http://desafios.ipea.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=1369:entrevistas-materias&Itemid=41 > [Accessed 3 March 2012].

Lynch, K., 1997. A imagem da Cidade. São Paulo, Martins Fontes, 227p.

KOSSOY, Boris. Fotografia & História. 2ª Edição. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001.

3 Here is important to notice that in such proximity to the subject, we must consider the photographer who works in the field, who stays at the place of his study and creates socializing bonds with the locals and, therefore, does not register it with a distant view of mere visitor, but, rather, with the eyes of those who absorbed the daily life of the subject whised to photograph and with the aim of creating an effective link with his documental work.

4 Campo Alegre emerges in the 1980s, and certainly has been transformed and adapted to the reality of the moment.

Kossoy, B. Apresentação. Boris Kossoy [website], Available at <http://www.boriskossoy.com > [Accessed 15 March 2012].

Mascaro, C., 1986. O Uso da Imagem Fotográfica na Interpretação do Espaço Urbano e Arquitetônico. Ma. University of Sao Paulo.

________________, 1994. A Fotografia e a Arquitetura. Ph. D. University of Sao Paulo.

Moreira, R. L., 2008. Augusto Malta, dono da memória fotográfica do Rio de Janeiro. Portal do Augusto Malta, Available at <http://portalaugustomalta.rio.rj.gov.br/blog-post/augusto-malta-dono-da-memoria-fotografica-do-rio > [Accessed 15 March 2012].

Nunes, A., 2011. Farm Security Administration: grandes imagens de Dorothea Lange, Revista VEJA, Available at <http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/tag/farm-security-administration > [Accessed 12 February 2012].

Pares, L. N. Algumas Considerações em torno da Antropologia Visual. Available at <http://www.antropologia.com.br/colu/colu3.html> [Accessed 9 November 2010].

Rouillé, A., 2009. A fotografia: entre documento e arte contemporânea. São Paulo, Senac São Paulo.

Vasquez, P., 2010. A sabedoria do olhar: O Universo fantástico de Boris Kossoy. Artigos Exclusivos, Editora Cosac Naify [online], Available at <http://www.boriskossoy.com/imprensa/cosacnaify_boris_fotografo.pdf>. [Accessed 9 November 2010].