Políticas de subjetivação e cartografias: liminaridades entre o real e o hiper real na cidade contemporânea

Carolina Ferreira da Fonseca e Pedro Dultra Britto

Carolina Ferreira da Fonseca é pesquisadora da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia e Mestre em Aquitetura e Urbanismo.

Pedro Dultra Britto é pesquisador e Professor Assistente do Departamento de Projeto da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia, onde investiga políticas de subjetivação relacionadas com relações entre a natureza e a cidade.


Como citar esse texto: FONSECA, C. F. da; BRITTO, P. D. Políticas de subjetivação e cartografias: liminaridades entre o real e o hiper real na cidade contemporânea. V!RUS, São Carlos, n. 8, dezembro 2012. Disponível em: <http://www.nomads.usp.br/virus/virus08/?sec=4&item=5&lang=pt>. Acesso em: 12 Ago. 2020.


Resumo

O dispositivo cartografia  faz funcionar relações de poder em diversas funções como localizar, orientar, direcionar, formalizar, organizar, identificar, figurar e contar, de modo que tais funções atualizam e efetivam as possibilidades dessas relações de poder agirem na produção da cidade. O saber cartográfico, nesta perspectiva, instaura forças produtivas, tanto pelo que possibilita conhecer da cidade, dos sujeitos, das práticas, dos territórios, do cotidiano e uma miríade de variáveis que os envolve, tanto pelo poder, daí decorrente, enquanto atualização imanente e recíproca do saber. Interessa entender que força produtiva opera nas figurações cartográficas/ urbanas? O que define seus regimes de luz e de linguagem, ou seja, o seu saber-fazer? Para problematizar o pressuposto da representação, apontamos um horizonte epistemológico encharcado de liminaridades, de passagens entre os seguintes estatutos: real, ficcional e hiper-real. A representação cartográfica é desenquadrada do suposto ideário de legitimidade científica, geométrica e matemática, numa operação afeita ao que Foucault propõe como genealogia do poder, a fim de entender: que artifícios compositivos são adotados na produção cartográfica das cidades contemporâneas? Como tais artifícios relacionam-se com o processo de transmutação em curso? De que modo tal transmutação deflagra rebatimentos sobre a historicidade da apreensão e experiência urbanas?

Palavras-chave: Cartografia; Representação; Real; Subjetivação.


Pressupostos teóricos: maquinaria e dispositivo

O pressuposto teórico desta abordagem admite a prática cartográfica como produtora de cidades, cujos engendramentos históricos, políticos, sociais, culturais, entre outros, configuram múltiplas articulações entre saberes, poderes e modos de subjetivação relativos hegemonicamente à instância das macropolíticas urbanas. Estas agenciam, desenham e, portanto, não representam cidades cuja existência se efetiva a priori, mas as produzem enquanto prática, imagem e discurso co-implicados nas políticas de subjetivação imanentes às nossas formas de cognição e experiência do, no e com o espaço urbano.

A representação cartográfica pressupõe uma visão positivista do real, centrada sobre sua estabilidade e existência em si mesma. E a cartografia pelo viés da produção-instauração recoloca a questão do processo cognitivo e das relações entre saberes- poderes- modos de subjetivação. Direcionar a discussão para o sentido da produção cartográfica em detrimento do sentido da representação coloca em pauta a análise da intrincada maquinaria operada pelos equipamentos coletivos de subjetivação contemporâneos.

Nesta maquinaria, saberes e poderes são agenciados pelos processos de subjetivação, que implicam o funcionamento de máquinas de expressão de natureza extrapessoal (sistemas econômicos, sociais, tecnológicos, icônicos, ecológicos, etológicos, de mídia) e de natureza infra-humana, infra-psíquica, infrapessoal (sistemas de percepção, de sensibilidade, de afeto, de desejo, de representação, de imagem, de valor, modos de memorização e produção de ideias, sistemas de inibição e de automatismos, sistemas corporais, orgânicos, biológicos, fisiológicos e assim por diante) (GUATTARI, F.; ROLNIK, S. 2005, p. 39)

A maquinaria proposta por Guattari ao operar o agenciamento de subjetividades contemporâneas - no entrecruzamento das máquinas de natureza extrapessoal e infrapessoal – produz entre outros engendramentos, cartografias e, por conseguinte, cidades. Todos os sistemas supracitados encontram-se implicados nesta produção, alguns com mais contundência, outros em ações tangenciais. As dimensões cognitivas e subjetivas inerentes à cartografia atribuem-lhe uma força-tensão, que varia incessantemente entre expressões hegemônicas e singulares.

O dispositivo cartografia  faz funcionar relações de poder em diversas funções como localizar, orientar, direcionar, formalizar, organizar, identificar, figurar e contar, de modo que tais funções atualizam e efetivam as possibilidades dessas relações de poder agirem na produção da cidade. Tal definição suscita a abordagem de Agamben (2009, p. 31) que chama de dispositivo “tudo o que tem, de uma maneira ou de outra, a capacidade de capturar, de orientar, de determinar, de interceptar, de modelar, de controlar e de assegurar os gestos, as condutas, as opiniões e os discursos dos seres vivos”.

O dispositivo cartografia enquanto operador das forças sociais dispersas na cidade, institui portanto, a dimensão de poder, uma relação da força com a força, remetida a ações como incitar, suscitar, combinar. Entretanto, orientamos as investidas desta reflexão pela seguinte afirmativa “o poder produz realidade, antes de reprimir” (DELEUZE, 2005, p.38), ou seja, não se trata estritamente de  relações de violência, exploração e sujeição, mais evidentes na abordagem de Agamben. Interessa entender que força produtiva opera nas figurações cartográficas/ urbanas? Como se efetiva tal produção? O que define seus regimes de luz e de linguagem, ou seja, o seu saber-fazer? 1

Os regimes de luz referem-se às formas de conteúdo, o que produz visibilidades,  e os regimes de linguagem  às formas de expressão, e o agenciamento entre eles deflagra os domínios do saber, ordem estratificada por um tipo de regularidade, que institui demarcações rigorosas entre o verdadeiro e o falso. (FOUCAULT, 1995). O saber cartográfico, nesta perspectiva, instaura forças produtivas, tanto pelo que possibilita conhecer da cidade, dos sujeitos, das práticas, dos territórios, do cotidiano e uma miríade de variáveis que os envolve, tanto pelo poder, daí decorrente, enquanto atualização imanente e recíproca do saber.

O atrelamento saber-poder, se confrontado com a própria definição da cartografia enquanto saber-fazer, aponta para uma conformação triádica definida por ora de poder-saber-fazer. A proposição de Foucault coloca outra tríade, delineada pelas co-implicações entre saber, poder e processos de subjetivação, numa relação de forças com forças enquanto emergência e transversalidade produtiva da vida. Ele propõe o saber - seja nos seus contornos disciplinares ou no sentido mais abrangente do conhecimento - como a principal força de produção social.

A cartografia opera na transversalidade das combinações apontadas: poder-saber-fazer-processos de subjetivação e tal como dispositivo espraia-se pelo corpo social, de forma a efetivar as funções já listadas. Se nos orientarmos pelo pensamento de Deleuze, em diálogo atento com Foucault, constatamos algumas indicações constitutivas destas combinações:

"Em primeiro lugar, é uma espécie de novelo ou meada, um conjunto multilinear. É composto por linhas de natureza diferente e essas linhas do dispositivo não abarcam nem delimitam sistemas homogêneos por sua própria conta (o objeto, o sujeito, a linguagem), mas seguem direções diferentes, formam processos sempre em desequilíbrio, e essas linhas tanto se aproximam como se afastam uma das outras. Cada uma está quebrada e submetida a variações de direção (bifurcada, enforquilhada), submetida a derivações. Os objetos visíveis, as enunciações formuláveis, as forças em exercício, os sujeitos numa determinada posição, são como que vetores ou tensores (...) Desemaranhar as linhas de um dispositivo é, em cada caso, traçar um mapa, cartografar, percorrer terras desconhecidas, é o que Foucault chama de “trabalho em terreno”." (DELEUZE, 1990, p. 155-161)

A cartografia constitui um dispositivo absolutamente central no atual e vertiginoso processo de transmutação dos equipamentos coletivos de subjetivação e a multiplicidade de engrenagens aí instalada. Um “trabalho em terreno” neste caso, seria tentar desemaranhar algumas linhas próprias deste dispositivo, ou seja, cartografar a própria prática cartográfica, explorar alguns vetores e tensores constitutivos de tal saber x poder.

Liminaridades: sobre estatutos do real

Um conjunto de forças urbanas absolutamente alterado configura-se na cidade contemporânea. Tanto a cidade conforma zonas de indiscernibilidade, radicalizadas no entrelaçamento entre ilegal x legal, fixo x móvel, direito x exceção, institucional x autônomo, real x virtual; tanto a cartografia expande os modos de figuração e efetivação das suas funções pressupostas, num realismo óptico subsidiário das inúmeras técnicas deflagradas pós revolução informática.

Este processo relaciona-se com a transmutação dos equipamentos coletivos de subjetivação e com a noção de apreensão e experiência como formas/ modos plasmados historicamente. Suscitamos algumas perguntas iniciais a fim de direcionar esta exploração: Que artifícios compositivos são adotados na produção cartográfica das cidades contemporâneas? Como tais artifícios relacionam-se com o processo de transmutação em curso? De que modo tal transmutação deflagra rebatimentos sobre a historicidade da apreensão e experiência urbanas?

Para problematizar o pressuposto da representação, apontamos um horizonte epistemológico encharcado de liminaridades, de passagens entre os seguintes estatutos: real, ficcional e hiper-real. A representação cartográfica é desenquadrada do suposto ideário de legitimidade científica, geométrica e matemática, numa operação afeita ao que Foucault propõe como genealogia do poder. Ou noutros termos, uma leitura-experiência cujo ímpeto é a desnaturalização destes saberes constituintes da cartografia, tomando a opacidade enquanto condição da própria linguagem. A autoridade e naturalidade atribuídas ao estatuto do real, prerrogativa primeira da representação, suprime da nossa apreensão as outras dimensões constitutivas da produção cartográfica, aqui entendidas como ficcional e  hiper-real.

Investigamos por ora como se processa o achatamento destas dimensões, por vezes em uma suposta equivalência entre elas, ou em ilegitimidade e irrealidade, a fim de perseguir as seguintes dúvidas: que sentidos de cidade e urbanidade orbitam em tais estatutos no âmbito da produção cartográfica? Ou em direção oposta: como tais estatutos atribuem sentidos às urbanidades e às cidades cartografadas?

Pretendemos desnortear algumas correspondências imediatas e naturalizadas entre termos, tais como real > verdadeiro; ficcional > falso > irreal. A tensão constante entre verdadeiro e falso, provável e improvável, verossímil e inverossímil, real e irreal perpassa todos os estatutos perscrutados. As inúmeras interações entre tais atributos atravessam as cartografias urbanas aqui exploradas, num emaranhado processo de subjetivação, que opera via de regra, pelos efeitos de real, enquanto hegemonia do regime de visibilidade cartográfica.

Ao primeiro conjunto de dúvidas, reunimos mais algumas: Que estratégias são acionadas para assentar de forma tão contundente o efeito de real enquanto única legitimidade admitida na produção cartográfica do Urbanismo? Quais são as implicações urbanas diante do achatamento das arestas do hiper-real e ficcional, todos estes mitificados apenas pelos efeitos de real que desencadeiam? O que se furta da apreensão e experiência urbanas quando se opera pela mitificação destes estatutos? Que política do espaço é engendrada a partir destes estatutos? Como se dá a relação entre temporalidade e política do espaço a partir dos enredamentos destes estatutos na cartografia aqui analisadas?

Looping: uma política com duplos operatórios

O endereço eletrônico de http://unloop.com.br é referenciado pela palavra inglesa loop, mas neste caso a tradução não é entre línguas, não se deve realizá-la. Para entender os enunciados e imagens deste espaço virtual, a palavra em inglês parece mais coerente e o que proponho aqui, a partir de agora, é uma coerência irônica, uma paródia.  Looping é um modo de exibição de imagens encadeadas, tal como uma série de fotografias ou de vídeos sem começo nem fim, um contínuo de sequencias imagéticas super explorado nos regimes de exposição da contemporaneidade.

No contexto da multiplicação de imagens, o looping aparece em inúmeros circuitos, desde a propaganda comercial na internet até as exposições de arte contemporânea – especialmente as de natureza áudio-visual e fotográfica. Na tela ou janela, as imagens passam em diversos tempos, alguns mais acelerados, outros lentos, e várias combinações destes; um recurso de composição do tempo da própria imagem a partir da sua sucessão e repetição em séries. Em looping, no portifólio da agência de Patrick Raynaud, aparece a Arena Fonte Nova de Salvador, “onde você vai viver grandes emoções”; a via Transcarioca – “mais do que uma nova via expressa, será um corredor de transporte de alta capacidade ligando a Barra e o Galeão”; a Requalificação do Saara no centro do Rio de Janeiro, “ordenamento, controle e qualidade”; a Operação Urbana Morro do Estado da prefeitura de Niterói:

1 A elaboração deste texto encadeia inúmeras perguntas no sentido de propor dúvidas, de estimular o pensamento, dos próprios autores e do leitor. Entretanto, são provocações, nem sempre respondidas de forma explícita nas análises subsequentes. Estas perguntas operam como um convite ao leitor, um modo de instiga-lo a refletir conosco sobre o tema.

“plano inovador de inclusão urbanística com investimento na ordem de 200 milhões de reais que só será possível graças ao PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) e ao projeto Minha Casa, minha vida;  o Centro Administrativo Carioca “que vem compor o time de sucesso, junto com a Unidade de Polícia Pacificadora e as unidades de pronto atendimento projetos que estão transformando a cidade maravilhosa para receber a copa do mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016”; o PAC Rocinha “com a urbanização do acesso principal, a melhoria das fachadas e a criação da passarela de pedestres projetada por Oscar Niemeyer marcam definitivamente a presença do Estado na comunidade”; e dezenas de outros projetos, tais como PAC Complexo do Alemão, PAC Cantagalo, Metrô de Salvador (linha 2), Maracanã 2014, Estação de Metrô Uruguaiana (RJ), entre outros;  todos protagonistas de uma transformação urbana radical decorrente dos eventos esportivos e dos projetos do governo federal mencionados.

Os vídeos emlooping são montados com programas de computação gráfica especializados em maquetes eletrônicas, simulações 3D de filmagens aéreas e um serviço de produção de imagem definido na ficha técnica do site como >animador cartográfico<. Trata-se de uma composição com as formas de conteúdo e de expressão calcados numa determinada ideia de cidade. Um equacionamento espaço-temporal absolutamente desnorteador dos referentes do passado, das preexistências efetivas e materializadas na cidade; e do futuro com a aparição do projeto em pleno processo de implementação, ainda que sequer tenha sido iniciado.

Uma coexistência constrangedora de passado e futuro, assoladora da sua própria dimensão temporal, diante da visada contínua e consensual de dois tempos encadeados num looping a-temporal. Os sujeitos implicados nesta produção de cidade são denominados ali de clientes e reúnem-se em logomarcas alinhadas, um conjunto de forças que articulam a dimensão pública e privada, numa coexistência constrangedora, semelhante à que citamos anteriormente. A prefeitura do Rio de Janeiro, de Niterói, o Governo do Estado do Rio de Janeiro no mesmo escopo de interesses e projetos das empresas de capital corporativo, transnacional e financeiro, como OAS, Odebrechet, Andrade Guitierrez, Arena Fonte Nova, entre inúmeras outras.

A >animação cartográfica< apropria-se dos territórios das cidades brasileiras (desde capitais até cidade médias) com polígonos preenchidos de cores vibrantes e referências hegemônicas do entorno. Os segmentos demarcadores das poligonais da área dos projetos entram em cena como flechas sonorizadas e, imediatamente a ação sobre a cidade materializa-se em vias de trânsito para automóveis, em percursos fluidos de outros modais, como o metrô e o VLT (Veículo leve sobre trilhos) – tão em pauta nas cidades da Copa, em pontos que sinalizam as edificações dos tais projetos já construídas. Planejamento e projeto urbanos implementam-se sobre o território em ínfimos segundos. Vão aparecendo na instantaneidade de um click o futuro plasmado implacavelmente sobre a tela do presente. E o passado apaga-se imediatamente pelos efeitos de sobreposição da imagem looping.

A >animação cartográfica< adota efeitos de vídeo-game, em que determinados movimentos são ritmados por trilhas sonoras remetidas a ações de “surpresas”, “sobressaltos”, “aventuras”, “heroísmos” e “vitórias”. Os heróis-clientes são citados em frases de caráter propagandista e fachadista; e, neste caso, as fotografias de satélite da plataforma google são animadas tal como uma imagem descolada do referente, o próprio território. Não há entraves para as ruas que se abrem e sobem rumo ao mar, ou perfuram o chão em túneis quilométricos; para os edifícios se empilharem tal como megaestruturas sobre uma topografia cujo desnível é de um edifício com altura equivalente à 34 pavimentos.

A cartografia anima consensualmente estratégias urbanísticas legitimadas por diagnósticos, apresentados também sob a ênfase de trilhas sonoras, neste caso, “dramáticas”, “denunciativas” e “catastróficas”. Os problemas diagnosticados são superados por “conceitos” de projetos também consensuais tais como a sustentabilidade, a acessibilidade, a mobilidade, a integração, o controle e ordenamento policiais e as atividades culturais como prática de cidadania e inclusão.

O portifólio looping deflagra alguns aspectos paradoxais da atual produção urbana, seus engendramentos especulativos e a envergadura e natureza da sua inserção. Uma única agência detém a comunicação destes processos e opera a exposição, a visibilidade e o uso dos enunciados/imagens de metrópoles brasileiras centrais na requalificação urbana de escala   nacional para os eventos esportivos de 2014 e 2016. Um conjunto de projetos modelados também por um grupo restrito de arquitetos/ escritórios/ construtoras que replicam em cidades díspares edificações e diretrizes de planos urbanísticos homogêneos, um verdadeiro looping de cidades e projetos. No escopo disciplinar do portifólio looping, apresenta-se a formação da maior corporação midiática do Brasil, a TV Globo, que concedeu ao proprietário do referido portifólio o título de animador sênior.

O animador cartográfico-sênior manipula artifícios compositivos de outras mídias, como os jogos de vídeo-game, as peças publicitárias, o jornalismo (suas ilustrações esquemáticas de regiões e fenômenos) e as simulações 3D que permeiam todas as anteriores. Este conjunto de artifícios instrumentaliza o processo de subjetivação urbana em curso e remete-se, de uma forma geral, aos regimes de visibilidade e exposição da indústria do entretenimento e do espetáculo contemporâneo. Sobrepõem-se aos princípios elementares da composição cartográfica tais como escala, projeção e iconografia, os artifícios da animação. Seus desdobramentos sobre as existências, pré-existências, permanências e ausências do território passam a evidenciar uma concepção ética, estética e política atrelada à ideia de cidade e de urbanidade hegemônicos no rol de disputas empreendidas pelo capitalismo cognitivo.  

Este caso, toca na questão cartográfica em diferentes pontos. Ela, associada aos demais recursos de figuração imagética do território e aos mecanismos de implementação dos projetos da empresa looping, estratificam a produção de subjetividade das seguintes existências: cidade-olímpica, cidade-espetáculo, cidade-mercadoria e cidade-mídia. Ambas, cidade e cartografia, como o veículo, o instrumento, o canal e a mensagem de determinado posicionamento ético-político-estético em pauta. Os regimes de ação e visibilidade da cartografia na contemporaneidade apontam densos e profundos imbricamentos com o sentido de mídia. Isto recoloca e recodifica os modos de apreensão do processo urbano em curso, donde a enunciação dos sujeitos e práticas anima a consolidação de um imaginário consensual sobre futuro já presente nas cidades.

A >animação cartográfica< é uma ferramenta central no jogo de forças engendrado pelas relações entre projeto, execução; passado, presente e futuro; presença e ausência; legal e ilegal, ou seja, sobre as possibilidades da ação política urbana.  A manchete da página inicial do site da empresa Unloop2 alardeia mais de 70 projetos com produção/roteiro/direção de Patrick Raynaud, de 2006 a 2011 pela sua antiga produtora (Fly Bumbax) e desde 2011 pela Unloop Filmes.” Uma empresa de inserção internacional, que converte a ordem clássica do saber urbanístico, diagnóstico > projeto > execução em um looping atemporal produzido instantaneamente e replicado indiscriminadamente.

Neste anúncio da hegemonia fica explícita outra pista acerca dos artifícios compositivos implicados nesta produção. Procedimentos remetidos à prática cinematográfica, tais como produção, roteirização e direção atrelados à animação cartográfica constituem uma inflexão nas figurações cartográficas e nos circuitos em que estas se inserem. Este transbordamento de modos compositivos apresenta intercorrências com as incessantes atualizações da conjuntura midiático-informacional, que tem na noção de realidade aumentada3, por exemplo, uma extremidade no engendramento dos jogos perceptivos (apreensão/ experiência) praticados na experiência urbana contemporânea.  

No rastro de Benjamin4, rondamos a questão das implicações entre técnica, reprodutibilidade e percepção, adotando para tanto, o seguinte pressuposto: “A forma de percepção das coletividades humanas se transforma ao mesmo tempo em que seu modo de existência” (1994, p.169). A relação entre modos de existência e percepção no escopo de uma análise materialista histórica, que se debruça sobre o imbricamento entre técnica, arte e política abre frentes de problematização pertinentes na pauta cartográfica. Interessa entender como a consolidação da cidade-mídia, operada pelos atravessamentos da >animação cartográfica<, institui existências na cidade? De que modo estas existências produzem e são produzidas por percepções engendradas historicamente?   

A passagem pela técnica cinematográfica colabora no questionamento do pressuposto da representação, acenando para a dimensão da criação de significados, a partir da justaposição compositiva de imagens e discursos. Trata-se da aproximação entre montagem cinematográfica e cartografia5, em que elementos espaço- temporais justapõem-se em injunções técnico-políticas, num processo de ‘colisão de sentidos’, em contraponto à noção de ‘encadeamento temporal’ (EISENSTEIN, 1969). O looping pode ser entendido como um recurso de fabricação de colisões, pela tensão processada entre repetição e acontecimento singular.

A injunção Rio de Janeiro, cidade-olímpica, UPP’s (Unidade de Polícia Pacificadora), mobilidade, favelas e novos estádios justapõem numa mesma cartografia territórios urbanos absolutamente paradoxais, donde a existência efetiva de um tem significado a anulação e ausência de outro6. Entretanto, em looping todos estes povoam um mesmo espaço-tempo, em que a >animação cartográfica<  a partir da edição, interrupção, corte, ritmo,  enfim, os procedimentos da técnica de montagem restitui a coexistência destes territórios, mitificada enquanto realidade implantada.

Assume para tanto a tônica consensual, ainda que esteja lidando com territorialidades conflitivas e com a própria colisão enquanto condição compositiva da montagem cinematográfica. Ou seja, opera no cerne de um contexto tenso e em plena disputa por território e existência, a reificação da figuração cartográfica e da própria cidade enquanto consenso, representação e realidade, afeita à ‘estetização da política’, enquanto ‘arte da propaganda’. (BENJAMIN, 1994)

Propomos, alinhados às formulações de Benjamin, Eisenstein e Couri que a montagem enquanto técnica de composição operada pelo conflito entre elementos díspares é intrínseca aos regimes de visibilidade instituídos no âmbito da cartografia. No caso do >animador cartográfico<, tal técnica foi adotada enquanto elemento de mitificação do real. Cabe, interrogar que outros sentidos emergem desta justaposição: montagem, cartografia, cidade e mídia?  

CREDIBILIDADES POLÍTICAS: injunções de hiper-realidade na cidade-mídia

Tal episódio pode ser analisado a partir de uma tangente com as proposições de Baudrillard (1981) acerca das simulações e dos simulacros7. A temporalidade instantânea e consensual destas enunciações opera como recorrência orbital de modelos, em que o looping projeto > cartografia > cidade intercepta o real em curto-circuito. Embaralham-se os seus sentidos próprios pelos duplos operatórios que aí se efetivam: cartografia como duplo de cidade, cidade como duplo de cartografia, projeto como duplo de cidade, cartografia como duplo de projeto e as múltiplas combinações possíveis entre estes termos. O duplo operatório age pelo efeito de real que suplanta a realidade imediata ao apagar o próprio referente:

Escalada do verdadeiro, ressureição do figurativo onde o objeto e a substância desapareceram. Produção desenfreada do real e do referencial, paralela e superior ao desenfreamento da produção material: assim surge a simulação na fase que nos interessa – uma estratégia de real, de neo-real e de hiper-real, que faz por todo o lado a dobragem de uma estratégia de dissuasão. (...) Alucinação do real, do vivido, do quotidiano, mas reconstituído, por vezes até como reserva animal ou vegetal, dada a ver com uma precisão transparente, mas, contudo sem substância, antecipadamente desrealizada, hiper-realizada. (BAUDRILLARD, 1981, p.  97-159)

A radicalidade do processo colocado pelo autor aponta uma pista relevante para a problematização das transmutações dos equipamentos coletivos de subjetivação contemporâneos. Os engendramentos cognitivos e simbólicos produzem e são produzidos exponencialmente pelas propriedades da tecnologia informática para impulsionar flutuações de sentidos urbanos, num processo de inversão, reconversão e dissuasão que abalam o estatuto do real, a sua dimensão de realidade imediata implicada na temporalidade do presente.

Alucinações urbanas, em que os limites ao planejamento e à sua implementação inerentes à materialidade e à contundência do território, dos sujeitos e das práticas convertem-se numa imagem de natureza figurativa. A hiper-realidade emerge enquanto modo de apreensão mitificado pela verossimilhança, pelo elevado poder de ‘fazer crer’ (DE CERTEAU, 1994) das técnicas de representação tridimensional, e dos duplos imagéticos da fotografia de satélite animada pelos recursos da cidade-mídia.

De Certeau constrói a partir de algumas passagens de Baudrillard uma discussão acerca das credibilidades políticas, formulando uma arqueologia do crer e sua relação com a visibilidade. Os avatares e o tráfico do crer configuram-se pelo movimento  das técnicas de fazer crer – remetidas em primeiro plano às ordens religiosas e sua doutrina, em segundo plano à política, seus partidos e ideologias, e às inúmeras pregnâncias entre ambas – cujo refúgio contemporâneo é a mass mídia, os espaços sacralizados para o lazer e o turismo, ou seja, a cidade espetáculo.

O grande silêncio das coisas muda-se no seu contrário através da mídia. Ontem constituído em segredo, agora o real tagarela. Só se vêm por todo o lado notícias, informações, estatísticas e sondagens. Jamais houve uma história que tivesse falado ou mostrado tanto. Jamais, com efeito, os ministros dos deuses os fizeram falar de uma maneira tão contínua, tão pormenorizada e tão injuntiva como o fazem hoje os produtores de revelações e regras em nome da atualidade. Os relatos "do-que-está-acontecendo" constituem a nossa ortodoxia. Os debates de números são as nossas guerras teológicas. Os combatentes não carregam mais as armas de ideias ofensivas e defensivas. Avançam camuflados em fatos, em dados e acontecimentos. Apresentam-se como os mensageiros de um “real”. Sua atitude assume a cor do terreno econômico e social. Quando avançam, o próprio terreno parece que também avança. Mas de fato, eles o fabricam, simulam-no, usam-no como máscara, atribuem a si o crédito dele, criam assim a cena da sua lei. (DE CERTEAU, 1994, p. 287)

Frente ao atual combate entre imagens, visibilidades, técnicas de fazer crer, informação, e mais especificamente, cartografias, nos termos aqui explorados, cidades são instauradas e plasmadas como fatos e dados. Sob a atmosfera propagandística e comercial dos vídeos da empresa unlooping, as enunciações diagnósticas sobre o que opera no Rio de Janeiro, Niterói, Salvador, Belém, Petrópolis, Volta Redonda, entre inúmeras outras cidades, detém tal espessura da ortodoxia teológica do real, e incidem sobre a produção urbana por efeito de blindagem e mitificação.

Cartografias “mensageiras do real”, animações midiáticas que traficam o crer nos processos de subjetivação contemporânea e ocupam uma posição privilegiada no rol das credibilidades políticas, ou seja, reiteram a formulação de hegemonias da cidade-olímpica-espetacular, cidade-mercadoria, na maioria dos casos ali expostos. Parafraseando o autor:

2 Disponível em: <http://unloop.com.br>.

3 Não nos centramos no presente artigo no funcionamento, mecanismos e definições técnicas de realidade aumentada. Tomo tal expressão a partir de um fragmento de entrevista com o professor Dr. Gilberto Corso, que a descreve como a existência virtual de um objeto, informação, imagem (enfim, dados de diferentes naturezas) geolocalizados no espaço que podem ser acessados  a partir de celulares, ipads, smarthphones  e iphones.

4 A abordagem da obra de  Walter Benjamin é um desdobramento das discussões propiciadas no âmbito da disciplina Urbanismo Contemporâneo, nos tópicos orientados pelo professor Washington Drummond.

5 Citamos como fonte relevante na aproximação entre montagem e cartografia  a tese de doutorado de Aline Couri Fabião intitulada Incons[ciências] do olhar: notas sobre o problema da representação das cidades na cultura urbanística atual (PROURB, UFRJ, 2011).

6 A título de exemplo, citamos a remoção da Vila do Recreio II, cortada pelo novo traçado do BRT; e das   comunidade Metrô Mangueira e do Morro da Providência próximas ao Maracanã.  

7 A tangência enquanto postura analítica frente ao pensamento de Baudrillard assinala o movimento literal da tangência, que toca pontualmente determinada matéria/ corpo para na sequencia, em decorrência deste contato, sofrer um desvio de direção, de intensidade e de força. Intencionamos manter assim distância crítica das conclusões fatalistas e catastróficas do autor, e “esbarrar de raspão” no conceito de hiper real, para delimitar um dos campos de interação dos sentidos deste texto.

Jamais houve uma cartografiaque tivesse falado ou mostrado tanto. Jamais, com efeito, os ministros dos deuses as fizeram falar de uma maneira tão contínua, tão pormenorizada e tão injuntiva como o fazem hoje os produtores de revelações e regras em nome da atualidade.

Tal multiplicação refere-se a uma radical transformação dos equipamentos coletivos de subjetivação, inseridos nas esferas de trabalho, cotidiana, lazer, pesquisa, transporte, entre inúmeras outras ações urbanas, que se encontram embebidos da figuração cartográfica. Associamos a radicalidade desta conjuntura técnico-informacional à cidade que emerge na animação cartográfica. Neste engendramento, a dimensão de mídia incorpora-se enquanto indissociabilidade entre discurso, imagem, enfim, os modos de expressão, de conteúdo e de figuração inseridos num processo de comunicação. E insistimos em algumas questões:  Que política de subjetivação se enreda nesta efervescência comunicativa? O sentido de participação efetiva-se em alguma esfera, como e em que temporalidade? Que implicações temporais transcorrem entre a cidade-mídia e o looping presente nas animações cartográficas, para além do episódio relatado?

Considerações finais e questões persistentes

Na contemporaneidade, a acumulação capitalista é tomada pela ordem do simbólico que acessa prioritariamente referentes culturais. A acumulação flexível opera em regimes disseminados por circuitos que imbricam tecnologia x cotidiano x biografias x produção de subjetividade e reconvertem energias sociais e vida ordinária ora em capital financeiro ora em capital simbólico. Ambos, de forma atrelada, incidem sobre as existências e inscrevem trajetórias possíveis para suas formas de estar na cidade e participar da vida urbana, em diversas instâncias.

As reflexões aqui expostas criam uma série de lacunas e dobras para se pensar o tema da representação cartográfica e seus transcursos históricos. Desta aproximação, cuja pretensão é minúscula e apenas operatória para problematizar a cartografia como produção de cidade, outros problemas/ hipóteses apresentam-se: a cartografia enquanto força produtiva – produtora e produto -  de campos sociais, engendra-se neste mesmo campo por diferentes modos de percepção do mundo/ cidade; e ambas, cartografia e modos de percepção deflagram-se como forma histórica.

Instaura-se  nesse espetro uma pauta política contemporânea, cujos engendramentos no que se refere aos regimes de linguagem, de visibilidade, de ação, que acabam por definir regimes de verdade, demandam uma atenção criteriosa, especialmente, por se entender que tais práticas, com denominações tão diversas – mas aparentemente alinhadas – produzem cidades, instauram sujeitos, poderes e uma evidente política de subjetivação urbana. Neste emaranhado, persiste a questão, que cidades são instauradas/ produzidas na contemporaneidade, mediadas e mediante tais práticas cartográficas?  

Referências

AGAMBEN, G. O que é o contemporâneo? E outros ensaios. Chapecó (SC): Editora Argos, 2009.

BAUDRILLARD, J. Simulacros e Simulações. Lisboa: Relógio d´água, 1981.

BENJAMIN, W. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994 (Obras escolhidas, v. 1).

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Policies of subjectivity and cartographies: borders between the real and hyperreal in the contemporary city

Carolina Ferreira da Fonseca, Pedro Dultra Britto

Carolina Ferreira da Fonseca is a researcher at the Faculty of Architecture of the Federal  University of Bahia and Master in Architecture and Urbanism.

Pedro Dultra Britto is a researcher and an Assistent Professor of the Architectural Design Departament of the Faculty of Architecture of the Federal University Federal of Bahia. He works on subjectification policies connected to the relations between the nature and the city.


How to quote this text: Mestaoui, N. 2012. A tree planted in cyberspace grows in real life. Translated from Portuguese by Bryan Brody, V!RUS, [online] n. 8. [online] Available at: <http://www.nomads.usp.br/virus/virus08/?sec=4&item=5&lang=en>. [Accessed: 12 August 2020].


Abstract:

The cartography device makes power relations operate in diverse functions, such as locating, orienting, directing, formalizing, organizing, identifying, drawing and counting, such that these functions create the possibilities for these power relations to act in the production of the city. Cartographic knowledge, from this perspective, establishes productive forces, both through what it allows us to know about the city, subjects, practices, territories, daily life and a myriad of variables that surround them, and through the resulting power, in the form of an imminent and reciprocal updating of knowledge. Is it of interest to understand what productive force operates in cartographic or urban figurations? What defines their light and language schemes, i.e., their know-how? To question the assumption of representation, we point to an epistemological horizon drenched in borders, in passages from the following statutes: real, hyperreal and fictional. Cartographic representation is freed from the supposed ideals of scientific legitimacy, geometry and mathematics, in an operation attuned to what Foucault proposes as genealogy of power, in order to understand: what compositional devices are adopted in the cartographic production of contemporary cities? How are such devices related to the ongoing process of transmutation? How does such transmutation trigger repercussions in the historicity of urban understanding and experience?

Keywords:  cartography, representation, real, subjectivity


Theoretical assumptions: machinery and apparatus

The theoretical assumption of this approach recognizes cartographic practice as producing cities, whose engenderments, historical, political, social, and cultural, among others, set up multiple links between knowledge, power and modes of subjectivation related, in a hegemonic manner, to urban macropolitics. These negotiate, draw and therefore do not represent actual cities whose existence are brought about a priori, but produce them as co-implicated practice, image and discourse in policies of subjectivation inherent to our forms of cognition and experience in, of and with the urban space.

Cartographic representation assumes a positivist view of reality, centered on its stability and existence itself. And cartography, by bias of production-establishment, reasserts the question of the cognitive process and of the relationships between knowledge-powers-modes of subjectivation. Directing the discussion to the meaning of cartographic production at the expense of the meaning of the representation elicits the analysis of the intricate machinery operated by collective equipment of contemporary subjectivation.

In this machinery, knowledge and power are brokered by subjectivation processes, which involve the operation of machinery of expression of an extrapersonal nature (economic, social, technological, iconic, ecological, ethological, and media systems) and of an infrahuman, infrapsychic and infrapersonal nature (systems of perception, sensitivity, affection, desire, representation, image, value, modes of production and memorization of ideas, systems of inhibition and of automatism, corporal, organic, biological, physiological systems and so forth) (Guattari and Rolnik, 2005, pp.39)

The machinery proposed by Guattari to operate the brokering of contemporary subjectivities – at the intersection of the extrapersonal and infrapersonal machines – produces, among others engenderments, cartographies and, consequentially, cities. All the above systems are involved in this production; some with more forcefulness, others in tangential activities. The subjective and cognitive dimensions inherent to cartography attribute to it a force-tension, which varies continuously between hegemonic and singular expressions.

The cartography device makes power relations operate in diverse functions, such as locating, orienting, directing, formalizing, organizing, identifying, drawing and counting, such that these functions create the possibilities for these power relations to act in the production of the city.  This definition gives rise to the approach of Agamben (2009, p. 31), what refers to as ‘device’ "anything that has, in one way or another, the ability to capture, orient, determine, intercept, model, control and to ensure the gestures, behaviors, opinions and discourses of living beings.”

The cartography device, as an operator of social forces dispersed in the city, thus institutes the power dimension – a relation of force with force, consigned to actions like inciting, eliciting, and combining. However, we interpret the indirect implications of this reflection by the following claim: "power produces reality before repress it" (Deleuze, 2005, pp.38), i.e. it is not strictly a case of relations of violence, exploitation and subjection, most evident in the approach of Agamben.  Is it of interest to understand what productive force operates in cartographic or urban figurations? How is such a production effected? What defines its light and language scheme, i.e., its know-how?#

“Light scheme” refers to forms of content, which produce visibilities, and “language scheme” refers to forms of expression, and the negotiation between them gives rise to the domains of knowledge – order stratified by a kind of regularity that imposes strict demarcations between true and false (Foucault, 1995). Cartographic knowledge, from this perspective, establishes productive forces, both through what it allows us to know about the city, subjects, practices, territories, daily life and a myriad of variables that surround them, and through the resulting power, in the form of an imminent and reciprocal updating of knowledge.

The knowledge-power connection, if confronted with the very definition of cartography as know-how, points to a triadic conformation defined, for now, as ability-knowledge-action. Foucault’s proposition describes another triad, outlined by the co-implications between knowledge, power and subjectivation processes, a relation of forces with other forces, as an emergence and productive transversality of life. He proposes knowing – be it in its disciplinary outlines or in the broader sense of knowledge - as the main force of social production.

Cartography operates in the transversality of the combinations mentioned: ability-knowledge-action processes of subjectivation and, like a device, spreads through the social body in order to carry out the functions described above. If we orient ourselves by the thought of Deleuze, in attentive dialogue with Foucault, we find some constitutive indications of these combinations:

In the first instance it is a tangle, a multilinear ensemble.  It is composed of lines, each having a different nature.  And the lines in the apparatus do not outline or surround systems which are each homogeneous in their own right, object, subject, language, and so on, but follow directions, trace balances which are always off balance, now drawing together and then distancing themselves from one another.  Each line is broken and subject to changes in direction, bifurcating and forked, and subject to drifting.  The visible objects, affirmations which can be formulated, forces exercised and subjects in position are like vectors and tensors.  (…) Untangling these lines within a social apparatus is, in each case, like drawing a map, doing cartography, surveying unknown landscapes, and this is what he calls ‘working on the ground’. (Deleuze, 1990, pp.155-161)

Cartography is an absolutely central device in the current and vertiginous process of transmutation of collective equipment of subjectivation and multiplicity of gears installed there.  "Ground work" in this case would be to try to disentangle some of this device’s lines, that is, to plot the very practice of cartography, to explore some constitutive vectors and tensors of such a knowledge x power.

Boundaries: on statues of the real

An absolutely altered set of urban forces can be observed in the contemporary city. The city forms zones of indiscernibility, radicalized in the entanglement of illegal versus legal, fixed versus mobile, right versus exception, institutional versus autonomous, real versus virtual.  Similarly, cartography expands modes of figuration and execution of its assumed duties, in an optical subsidiary realism of the innumerous techniques deflagradas post information revolution.

This process relates to the transmutation of collective subjectivation equipment and the notion of apprehension and experience as historically produced forms/modes. We have raised some initial questions to direct this exploration: What compositional devices are adopted in the cartographic production of contemporary cities? How are such devices related to the ongoing process of transmutation? How does such transmutation trigger repercussions in the historicity of urban understanding and experience?

To question the assumption of representation, we point to an epistemological horizon drenched in borders, in passages from the following statutes: real, hyperreal and fictional. Cartographic representation is freed from the supposed ideals of scientific legitimacy, geometry and mathematics, in an operation attuned to what Foucault proposes as genealogy of power.  Or in other words, it is a reading-experience whose impetus is the distortion of this knowledge, which is constituent to cartography, taking the opacity as a condition of the language itself. The naturalness and authority conferred the status of the real, the first prerogative of representation, suppresses from our apprehension the other constitutive dimensions of cartographic production, here understood as fictional and hyperreal.

We investigate for now how the flattening of these dimensions is processed, sometimes in a supposed equivalence between them, or in illegitimacy and unreality, in order to pursue the following questions: what meanings of city and urbanity orbit such statuses within the range of cartographic production? Or in the opposite direction: how do such statuses assign meanings to the urbanities and cities mapped?

We intend to disorient some immediate and naturalized correspondences between terms such as real> true; fictional> false> unreal. The constant tension between true and false, probable and improbable, unbelievable and believable, real and unreal permeates all statuses scrutinized. The innumerable interactions between such attributes cross urban cartographies explored here in a tangled process of subjectivation, which operates as a rule, through reality effects, as hegemony of the cartographic visibility scheme.

To the first set of questions, we add a few more: What strategies are employed to establish so bluntly the reality effect as the sole legitimacy permitted in cartographic production of urbanism? What are the urban implications regarding the flattening of the edges of the hyperreal and fictional, all of these mythified only by the reality effects they trigger? What escapes urban apprehension and experience when operating through the mythification of these statutes? What policy of space is engendered from these statutes? How is the relationship between temporality and policies of space formed from the entanglements of these statutes in the cartography reviewed here?

Looping: a policy with Double operatives

The electronic address http://unloop.com.br references the English word loop, but in this case the translation is not between languages, and such a translation should not be performed. To understand the statements and images of this virtual space, the English word seems more consistent and what I propose here, from now on, is an ironic coherency, a parody. Looping is a method of displaying images strung together, like a series of photographs or videos without beginning or end, a continuum of imagery sequences super-explored in contemporary exhibition schemes.

In the context of multiplication of images, looping appears in numerous circuits – from commercial advertising on the Internet to the contemporary art exhibitions - especially those of an audio-visual and photographic nature. On the screen or in the window, the images scroll at different rates, some faster, others more slowly, and various combinations of these; a feature of the composition of the rate of the image itself based on succession and repetition in a series. In looping, in the agency of Patrick Raynaud 's portfolio, there appears the Fonte Nova Arena of Salvador (Arena Fonte Nova de Salvador), "where you will experience great emotions"; the Transcarioca Expressway (Via Transcarioca) –"more than a new expressway, it will be a high-capacity transport corridor connecting Barra and Galeão", the Requalification of the Sahara in the center of Rio de Janeiro (Requalificação do Saara no Centro do Rio de Janeiro), "planning, control and quality"; the State Urban Hill Operation of the City of Niterói (Operação Urbana Morro do Estado da Prefeitura de Niterói),"innovative plan of urban inclusion with investment on the order of 200 million reais, which will only be possible thanks thanks to the PAC (Growth Acceleration Program – Programa de Aceleração do Crescimento) and to the My House, My Life project (Minha Casa, Minha Vida); the Carioca Administrative Center (Centro Administrativo Carioca) "which seeks to construct a successful team, along with the Pacifying Police Unit (Unidade de Polícia Pacificadora) and emergency units (unidades de pronto atendimento) – projects that are transforming this wonderful city to receive the 2014 World Cup and the 2016 Olympics"; PAC Rocinha "with the urbanization of the main access, the improvement of the facades and the creation of a pedestrian footbridge designed by Oscar Niemeyer definitely mark the State presence in the community," and dozens of other projects, such as the German Complex PAC (PAC Complexo do Alemão), PAC Cantagalo, Salvador Metro Line (Line 2), Maracanã 2014, Metro Station Uruguaiana (RJ), among others, all protagonists of an radical urban transformation resulting from the mentioned sporting events and projects of the federal government.

The looping videos are assembled with computer graphics programs specializing in electronic models, 3D simulations of aerial filming and an image production service defined in the datasheet of the site as >cartographic animator<. It is a composition of forms of content and expression trampled in a particular idea of ​​the city. It is an absolutely bewildering space-time equation regarding referents from the past, effective and materialized preexistences in the city, and the with regard to the future with the appearance of the project in full progress of implementation, even though it hadn’t even been started.

It is an awkward coexistence of past and future, devastating to its own temporal dimension, given the continuous and consensual target of two timeframes linked in an atemporal looping. The subjects involved in this production of the city are called clients, and come together through synchronized logos – a set of forces that articulate the public and private dimensions, in an awkward coexistence, similar to that cited above. The city of Rio de Janeiro, of Niterói, and the state government of Rio de Janeiro shares the same scope of interests and projects as corporate finance companies, financial and transnational, such as OAS, Odebrecht, Andrade Guitierrez and Fonte Nova Arena, among numerous others.

The >cartographic animation< appropriates the territories of Brazilian cities (from capitals to average-sized) with polygons filled with vibrant colors and surrounding hegemonic references. The bounding segments of polygons in the project area come into play as arrows-made-sound and the action on the city is immediately materialized in traffic lanes, fluid pathways of other modes of transport, such as subway and tram – so salient on the agendas in World Cup cities, at points that signal the already-constructed buildings of such projects. Planning and urban design are implemented over the territory in mere seconds. The future, implacably shaped on the screen of the present, is appearing with the speed of a mouse click. And the past effaces itself immediately before the overlapping effects of the looping image.

The >cartographic animation< adopts videogame effects, in which certain movements are turned into rhythms through soundtracks remitting actions of "surprises", "alarms", "adventures", "heroism" and "victories". Hero-customers are quoted in phrases of a propagandist and fachadista nature, and in this case, the Google satellite photographs are animated like a detached image of the referent, the territory itself. There are no barriers to the streets that open and rise to the sea, or pierce the ground in kilometric tunnels; for buildings to mount up like megastructures over a topography whose unevenness is that of a 34-story building.

Cartography consensually animates urban strategies legitimated by diagnoses, also presented under the emphasis of soundtracks, in this case, "dramatic", "denunciatory" and "catastrophic". The problems identified are overcome by equally consensual project "concepts", such as sustainability, accessibility, mobility, integration, police control and planning and cultural activities as a practice of citizenship and inclusion.

The looping portfolio indicates some paradoxical aspects of current urban production, its speculative engenderments and the extent and nature of its insertion. A single agency controls the communication of these processes and operates the exposure, visibility and use of statements/images of Brazilian metropolises central to the large-scale urban renewal for the sporting events of 2014 and 2016. It is group of projects modeled also by a group of architects/firms/construction companies that replicate, in disparate cities, homogeneous buildings, urban plans and guidelines – a real looping of cities and projects. In the disciplinary scope of portfolio looping, we see the formation of the largest media corporation in Brazil, TV Globo, which granted the owner of said portfolio the title of senior animator.

The cartographic senior animator manipulates compositional devices of other media, such as videogames, commercials, journalism (its schematic illustrations of regions and phenomena) and 3D simulations that permeate all of the above. This set of devices instrumentalizes the ongoing process of urban subjectivation and refers to, in general, the schemes of visibility and exposure in the entertainment industry and the contemporary spectacle. These overlap with elementary principles of cartographic composition such as scale, projection and iconography – the artifices of animation. Its consequences on existences, preexistences, permanences and absences of territory begin to demonstrate an ethical, aesthetic and political conception tied to the idea of ​​the hegemonic city and urbanity, in the role of disputes undertaken by cognitive capitalism.

This case touches on the cartographic question at different points. It, along with the other imagery tools in the field and with the implementation mechanisms of the looping company, stratify the production of subjectivity of the following entities: Olympics-city, spectacle-city, merchandise-city and media-city. Both city and cartography, act as the vehicle, the instrument, the channel and the message of a given ethical-political-aesthetic agenda. The schemes of action and visibility of cartography in the contemporary world indicate dense and deep imbrication with the meaning of media. This restates and recodes and modes of understanding of the ongoing urban process, where the enunciation of the subject and practices encourages the consolidation of a consensual image of a future already present in cities.

The >cartographic animation< is a central tool in the group of forces created by the relationship between design, implementation; past, present and future; presence and absence; legal and illegal, that is, regarding the possibilities of urban policy action. The headline of the home page of the website <http://unloop.com.br> boasts “over 70 projects with production/script/direction by Patrick Raynaud, 2006 to 2011, through his former producer (Fly Bumbax) and since 2011 through Unloop Films".  A company with international presence, which converts the classical order of urban, diagnostic > design > execution knowledge in an atemporal looping produced instantly and replicated indiscriminately.

In this announcement of hegemony, another clue becomes clear regarding the compositional devices involved in this production. Procedures related to the practice of cinematography, such as production, screenplay and direction linked to cartographic animation constitute a shift in cartographic design and the contexts in which it exists. This overflow of compositional methods presents complications with the incessant updates to the informational-media juncture, which has in the concept of augmented reality#, for example, an extremity in the engendering of perceptual games (understanding/experience) practiced in contemporary urban experience.

In the wake of Benjamin#, we thoroughly explore the question of the implications between technique, reproducibility and perception, adopting therefore the following assumption: "The form of perception of human collectivities transforms at the same time as his mode of existence" (1994, pp.169). The relationship between modes of existence and perception, in the scope of a historical materialist analysis, which focuses on the interweaving of technique, art and politics, creates problem advents relevant to the cartographic agenda. Is it useful to understand how the consolidation of city-media, operated by the crossings >cartographic animation<, establishes existences in the city? In what way do these existences produce and in what way are they produced by historically engendered perceptions?

The passage through cinematic technique# has a part in questioning the assumption of representation, nodding to the dimension of creating meaning from the compositional juxtaposition of images and discourses. This is the approach between film editing and cartography, in which space-time elements are juxtaposed in techno-political injunctions, in a process of 'collision of meanings’, as opposed to the notion of 'temporal chaining' (Eisenstein, 1969). Looping can be understood as a feature of manufacturing collisions, due to the tension processed between repetition and singular event.

The junction of Rio de Janeiro, the Olympic village, UPP's (Police Unite Pacifying), mobility, slums and new stadiums juxtapose in the same cartography absolutely paradoxical urban territories – hence the effective existence of one has meant the annulation and absence of the other#. However, in looping these all inhabit the same space-time, where >cartographic animation< through editing, interruption, cutting, rhythm, that is, assembly technique procedures restore the coexistence of these territories, mythified as implanted reality.

For that, it assumes consensual emphasis, although dealing with conflicting territorialities and with the collision itself as a compositional condition of film editing. In other words, it operates at the heart of a tense context and in full dispute for territory and existence, the reification of cartographic figuration and the city itself as consensus, representation and reality, preferring 'aestheticization of politics', as 'art of propaganda'. (Benjamin, 1994)  

We propose, aligned to the formulations of Benjamin, and Eisenstein Couri, that assembly as a compositional technique operated by the conflict between disparate elements is intrinsic to systems of visibility established under cartography. In the case of the >cartographic animator< this technique was adopted as an element of mystification of reality. It is appropriate to ask what other meanings emerge from this juxtaposition: assembly, cartography, city and media?

POLITICAL CREDIBILITIES: junctions of hyperreality in city-media

This episode can be analyzed from at a tangent with the propositions of Baudrillard (1981) regarding simulations and simulacra. The instant and consensual temporality of these utterances operates as an orbital as recurrence of models, in which the looping project > Cartography > city intercepts the real in a short circuit. One’s own senses are mixed up by the double operative affected there: cartography as double of the city, the city as a double of cartography, cartography as a double of the project and the multiple possible combinations between these terms. The dual operative acts by the reality effect which supplants the immediate reality upon erasing its own referent:

"Escalation of the true, of lived experience, resurrection of the figurative where the object and substance have disappeared. Panic-stricken production of the real and of the referential, parallel to and greater than the panic of material production: this is how simulation appears in the phase that concerns us – a strategy of the real, of the neoreal and the hyperreal that everywhere is the double of a strategy of deterrence. (...)Hallucination of the real, of lived experience, of the quotidian, but reconstituted, sometimes down to disquietingly strange details, reconstituted as an animal or vegetal reserve, brought to light with a transparent precision, but without substance, derealized in advance, hyperrealized." (Baudrillard, 1981, pp. 97-159)

The radicalness of the process articulated by the author indicates an important clue to the ‘problematization’ of the transmutations of the collective equipment of contemporary subjectivation. Cognitive and symbolic creations produce and are exponentially produced by the properties of computer technology in order to propel fluctuations of urban meaning, in an process of inversion, reconversion and dissuasion that shakes the statute of the real, its immediate reality dimension implicated in the temporality of the present.

Urban hallucinations, in which the limits to planning and implementation, inherent to the materiality and the forcefulness of the territory, of the subjects and practices are converted into an image of a figurative nature. Hyperreality emerges as a type of imagination mythologized by verisimilitude, by the high power of the 'making one believe' (Certeau, 1994) of three-dimensional representation techniques, and of the imagistic doubles of satellite photography encouraged by the resources of city-media.

De Certeau constructs, from some passages by Baudrillard, a discussion on political credibility, formulating an archeology of belief and its relation to visibility. The avatars and traffic of belief are configured by the movement of the techniques of making one believe – principally referring to religious orders and their doctrines, secondly to politics, its parties and ideologies, and numerous forms between them - whose contemporary refuge is the mass media, the sacralized spaces for leisure and tourism, that is, the city spectacle.

The media transform the great silence of things into its opposite.  Formerly constituting a secret, the real now talks constantly.  News reports, information, statistics and surveys are everywhere.  No story has ever spoken so much or shown so much.  Not even the ministers of the gods ever made them talk in such a continuous, detailed, and imperative way as the producers of revelations and rules do these days in the name of current reality.  Narrations about what’s-going-on constitute our orthodoxy.  Debates about figures are our theological wars.  The combatants no longer bear the arms of any offensive or defensive idea.  They move forward camouflaged as facts, data, and events.  They present themselves as messengers from a “reality”.  Their uniform takes on the color of the economic and social ground they move into.  When they advance, the terrain itself seems to advance.  But in fact they fabricate the terrain, simulate it, use it as a mask, accredit themselves by it, and thus create the scene of their law. (De Certeau, 1994, pp.287)

Facing the current fighting between images, visibilities, techniques to make one believe, information, and more specifically, cartography, in the terms explored here, cities are instated and molded like facts and data. Under the propagandist and commercial atmosphere of the videos by the unlooping company, the diagnostic statements about what is functioning in Rio de Janeiro, Niterói, Salvador, Belem, Petrópolis, and Volta Redonda, among many other cities, have such a thickness of the theological orthodoxy of the real, and coincide over urban production though  the shielding and mystification effect.

Cartographies, "messengers of the real", media animations that traffic belief in the processes of contemporary subjectivation and occupy a privileged position on the list of political credibilities, that is, reiterate the formulation of hegemonies of the Olympic-city-spectacular, city-merchandise, in most cases exposed therein. To paraphrase the author:

Never has there been a cartography that has said or shown so much. Never, in fact, have the ministers of the gods made them speak in a manner so continuous, so detailed and so imperative as the producers of revelations and rules do these days in the name of current reality.

This multiplication refers to a radical transformation of collective subjectivation equipment, embedded in the spheres of work, everyday life, leisure, research, transportation, among countless other urban actions, which are drenched in cartographic figuration. We associate the radical nature of this technical and informational conjuncture with the city that emerges in cartographic animation. In this result, the media dimension incorporates itself as inseparability of speech, image, or rather, modes of expression, of content and of figuration embedded in the communication process. And we repeat some questions: What subjectivation policy is entangled in this communicative effervescence? Is the meaning of participation carried out in a sphere – how and in what temporality? What temporal implications occur between the city-media and the looping present in cartographic animations beyond the discussed episode?

Final thoughts and persistent questions

In today’s world, capitalist accumulation is taken by the symbolic order that accesses primarily cultural references. Flexible accumulation operates in schemes disseminated through circuits that incorporate technology x daily life x biographies x production of subjectivity and reconvert social energies and ordinary life, sometimes into financial capital, other times into symbolic capital. Both, in a related manner, coincide over existences and register possible trajectories for their ways of being in the city and participating in urban life, in several instances.

The reflections described here create a number of gaps and folds to think about regarding the theme of cartographic representation and its history. From this approximation of the subject, whose scope is tiny and only operative for the discussion of cartography as a product of the city, other problems/hypotheses present themselves: cartography, as a productive force - producer and product - of social fields, is produced in this same field by different modes of perception of the world/city; and both, cartography and modes of perception, are indicated as historical form.

In this spectrum, a political agenda was instated, whose products, with regard to systems of language, visibility, and action, which ultimately define schemes of truth, require careful attention, especially as it in understood that such practices, with such diverse denominations - but apparently aligned - producing cities, establish subject, powers and a clear policy of urban subjectivation. In this tangle, the question remains: what cities are established/ produced in contemporary times, and mediated by such cartographic practices?

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