REPRESENTAR E OS ESCRITOS DE FLUSSER

Prof. Dr. José dos Santos Cabral Filho

José dos Santos Cabral Filho é Doutor em Arquitetura, pesquisador e Professor Adjunto na Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais. Coordena o Laboratório Lagear e atua na intersecção entre as áreas de arquitetura, arte e tecnologias digitais.


Como citar esse texto: CABRAL FILHO, J. S. Representar e os escritos de Flusser. V!RUS, São Carlos, n. 8, dezembro 2012. Disponível em: <http://www.nomads.usp.br/virus/virus08/?sec=8&item=1&lang=pt>. Acesso em: 12 Ago. 2020.


Convidamos o Prof. Dr. José dos Santos Cabral Filho para discorrer sobre a noção de Re:pre:sentar tendo como principal referência os escritos do filósofo Vilém Flusser. Publicamos aqui um vídeo com trechos de seu depoimento à V!RUS 08 e sua transcrição, com o objetivo de ampliar o entendimento do assunto e inspirar novas compreensões fundamentadas nessas reflexões.

JOSÉ CABRAL: Hoje a gente faz uma crítica grande do excesso de representação que temos na cultura da gente, mas é que a capacidade de representar foi fundamental na evolução humana mesmo, enquanto animal humano, essa capacidade de criar um modelo interno e ser capaz de agir no mundo de acordo com esse modelo. Isso foi um marco grande na criação do homo-sapiens, ou seja lá o que for. Mas, aí, eu fico vendo que, de repente, a gente entra em um momento que tem uma crítica grande da representação, em todas as áreas, tanto na representação gráfica, representação política, todas as formas de representação.

De repente, elas começam a sofrer ataques por essa incapacidade da representação existir totalmente. É um limite a que a gente chega, mas eu acho que é mais por um excesso da representação do que pelo sentido que o Flusser coloca, da representação que vem substituir o objeto representado. De repente, a representação vira mais um véu do que uma janela para aquilo que se está mostrando.

Eu fico pensando muito na questão da representação hoje, na questão do modelamento, que permite modelar, é claro, mas que permite a gente parametrizar e, assim, você tem modelos parametrizados, tem modelos que você visualiza dinamicamente, e modelos que incluem a dinâmica, o tempo, e isso altera. Para mim, muda radicalmente. Então, a gente pode falar de uma forma antiga de representar e de uma forma nova de representar, que é essa forma que temos hoje com, basicamente, a inclusão do tempo de vários caminhos diferentes. Isso viabiliza tanto a ideia de emergência quanto viabiliza a aceleração do ato de representar.

Essa aceleração traz uma novidade que é a possibilidade de emergência de coisas não previstas, quanto no teste, na simulação de processos. Você consegue, pela primeira vez, re-presentar processos. E o mais assustador é que nao é nem representar no sentido de tornar presente alguma coisa que existiu, mas de prever essa perspectiva mais prospectiva da representação. Ou seja, você passa a simular. Simular processos, não formas apenas, mas procedimentos e processos.

Aí, chega-se um ponto em que vejo que se está hoje, o de achar que a representação dá conta de tudo - a representação digital, computadorizada.

Claro que, como um bom mineiro desconfiado, vou logo perguntar: o que é que não é possivel representar? Qual é o limite da representação? O que, no objeto, não se entrega à representação? O que, no mundo, nao se entrega, não se dá á representação?

Vamos pensar: textura, peso, você consegue simular, representar, e se esbarra naquele ponto, você consegue incluir o tempo, mas não consegue incluir a inexorabilidade da vida real. O aspecto do mundo concreto, do mundo existencial, que é o inexorável, isso não se entrega à representação. E acho, também, que esse vai ser o limite da representação.

O (filósofo Vilém) Flusser tem esse esqueminha que eu acho bacana, que é um esquema teórico, mais poético do que cientifico. Ou seja, ele não coincide com a verdade, mas abre caminho para a verdade, onde ele constrói essa ideia de um caminho cada vez maior na abstração, na História da humanidade.

Ele fantasia um pouco, com cara de historicismo, o primeiro desenho do cavalo, no sul da França. O homem que vai, então, desenhar um cavalo e ele adquire uma distância do cavalo. Ele tem que dar um passo para estar a uma distância do cavalo e desenhá-lo. E então ele faz um primeiro rabisco na tentativa de ententer o cavalo.

Só que, quando faz o desenho do cavalo, o desenho passa a ser mais interessante e ele passa a olhar para o desenho e não mais para o cavalo. Assim, cai nesse culto à imagem, ou seja, a imagem ganha uma presença mais forte, ganha uma autosuficiencia, vamos dizer assim.

Ele fala que, depois, a gente dá outro passo e, de repente, a imagem, somente, não explica mais o mundo, como a gente também não consegue, ao olhar para a imagem. A imagem não satisfaz mais. A gente dá um passo atrás e inventa, então, a escrita.

Ele faz uma descrição lindinha, poética também, da escrita como derivada do desenho. Que o desenho quebra e se abre, que ele vai formá-la. Parece que é histórica essa coisa toda da Mesopotâmia, em que a escrita vem para explicar a imagem.

Só que aí, então, a escrita também adquire esse excesso. A gente sai do culto à imagem e passa para o culto do texto - que ele fala que é o texto científico, que nós da academia produzimos. É aquele texto que já nao descreve mais o mundo, é insuficiente, e aí a gente dá outro passo atrás na abstração e cria a imagem digital.

É uma sequencia de passos, de abstração, de distanciamento da realidade para tentar entendê-la. Com a imagem digital, que é fruto do texto. Isso fica claro quando a gente recebe uma imagem truncada na qual o que era foto vira um monte de caracteres alfanuméricos. Então, de repente, a gente cria essa imagem digital. Ele [W. Flusser] nem fala digital: ele, primeiro, vai falar da fotografia mesmo. É uma tentativa de explicar, de ilustrar o texto. E, aí chega-se à imagem digital de que ele fala assim: é a abstração total, caminhando em direção à dimensão zero. Aí ele diz que, na verdade, não é o fim do mundo, mas, pelo contrário, abre um mundo de posibilidades, porque você está na ausência total de valores e, teoricamente, de dimensões. Seria um espaço de abertura para o surgimento de um novo homem.

Essa coisa do Flusser eu acho bacana para pensar esse passo. É um esqueminha bonitinho, de uma série de passos atrás, em direção ao desconhecido, por que você está de costas, olhando para a realidade, para o cavalo. Você dá um passo atrás para conseguir olhar o cavalo melhor, desenha, o desenho vira um véu e encobre o cavalo. Você dá um passo atrás em direção ao desconhecido de novo, você está olhando para o desenho. Aí, você cria o texto e, de novo, passo atrás, a gente vai em direção ao desconhecido, assim, a esse ponto último que a gente está: essa tecnologia baseada em zeros e uns, adimensionais, não dimensionais.

A gente não sabe aonde é que se chega.

O que eu sinto é que, nos anos [19]90, quando se discutia muito a questão da realidade virtual, havia um pouco essa fantasia de que a gente ia conseguir representar tudo: todas as sensações, todos os cheiros, todas a semoções... e ainda há essa ideia.

Eu acho que tem, aí, outro problema grave, que é o de entender o mundo como um repositório de dados que eu consigo mapear e, se eu consigo mapear, eu consigo representar. Então o mundo é algo dado que eu consigo abordar e se, portanto, eu consigo abordar, se eu consigo mapear, eu consigo jogar esse mapeamento em uma máquina qualquer, em uma máquina que começa lá com a construção da perspectiva na Renascença e chega ao computador. Uma máquina que mapea esse mundo e que, portanto, eu poderia agir no mundo da forma mais abrangente possível, com uma potência total, porque eu tenho essa representação fidedigna do mundo.

Grande ilusão. Antes fosse assim, né? Grande ilusão, porque o mundo chega a um ponto em que ele não se entrega, mesmo. Todos os filósofos vão colocar isso. Tem um ponto em que a gente não consegue conhecer o mundo. E, para mim, esse ponto onde fica mais explícito mesmo, é essa incapacidade de abarcar aquilo que é inexorável... O que o Prigogine diz da irreversibilidade do tempo, ou alguma coisa assim. Esse ponto é que é o desafio. Como é que a gente faz? Nessa representação total do mundo, esse aí a gente não conseguiria incluir.

Tem uns cientistas linha dura que acreditam que, sim, é questão de tempo, que é questão de aumento da memória do processamento dos computadores, mas, obviamente, que não.

O [ciberneticista Ranulf] Glanville tem uma colocação que eu também acho interessante. Ele fala de uma questão que, de alguma forma, está conectada a essa idéia do representar. É a ideia de que eu aprendo a teoria, eu sei a teoria e, através do seu aprendizado, eu posso aplicar a teoria no mundo e, aí, eu vou agir melhor. É um pouco o que a gente vê por trás da ideia de re-presentar. No mundo é essa coisa, né? A teoria com essa admiração de algo externo.

Ele [R. Glanville] diz isso mas a nossa nossa experiência enquanto ser humano diz o contrário. Porque o começo da vida da gente, do bebê, é exatamente o contrário disso tudo. O bebê não aprende uma teoria em ordem, de forma a agir. Ele age para poder aprender através da ação. Então é uma inversão, e a gente cresce e acha que é o contrário: fica tentando compreender, tentando representar, para poder atuar. Sendo que a gente se fez através de uma atuação, que te leva a construir modelos, mas é a atuação que te permite construir, crescer e aprender.

Eu acho bom lembrar dessa base porque parece impossível quando se tenta questionar um pouquinho essa ideia da teoria e da aplicabilidade da teoria, na prática. Como diz Glanville: essa superioridade da teoria, de que ela vai, portanto, ser aplicada, de que ela tem uma proeminência. Mas a nossa base do aprendizado é o inverso.

REPRESENTING AND FLUSSER WRITINGS

Prof. Dr. José dos Santos Cabral Filho

José dos Santos Cabral Filho is a Doctor in Architecture, researcher and Associate Professor at the School of Architecture of the Federal University of Minas Gerais. He is the leader of the Lagear Lab and works in the intersection between the architecture, art and digital technologies areas.


How to quote this text: Cabral Filho, J. S. 2012. Representing and Flusser writings, V!RUS, [online] n. 8. Translated from Portuguese by Luis Ribeiro. [online] Available at: <http://www.nomads.usp.br/virus/virus08/?sec=8&item=1&lang=en>. [Accessed: 12 August 2020].


We invited Prof. Dr. José dos Santos Cabral Filho to discourse on the notion of Re:pre:senting, under the main reference of the philosopher Vilém Flusser's writings. We publish here a video with excerpts of his testimony to V!RUS 08 and its transcription as well, aiming at enhancing the comprehension of this subject and inspiring new understandings based on these reflections.

click here to read the video english transcription

JOSÉ CABRAL: Nowadays there’s a lot of criticism about disproportionate representation in our culture, but the ability to represent has been crucial in human evolution, as human animals, this ability to create an internal model and act in the world according to this model. This was a huge milestone in the evolution of homo sapiens, whatever that is. But, then, I see that all of a sudden we have entered an era in which representation is widely criticized in all fields, regarding both graphical representation and political representation… all forms of representation.

All of a sudden, representations are attacked because of this incapacity of representation fully existing. We have reached this limit, but I think that it is due to excessive representation rather than what Flusser theorized, that is, the represented object being replaced with representation. All of a sudden, representation becomes a veil rather than a window to what it is representing.

I’ve thought a lot about the problem of representation today, with respect to modeling, about that which allows modeling, of course, but also allows parameterization, and models that include dynamics, time, and changes… in my opinion, models that change radically. Then, we can speak of an old way of representing and a new way of representing, which is the way we find nowadays, including the time of several different paths. This enables both the idea of emergence and the acceleration of the act of representing.

This acceleration produces a novelty, which is a possible emergence of unforeseen things, as in tests, process simulations. We can, for the first time, represent processes. And the scary thing is that it’s not representation in the sense of making something that existed present, but rather of anticipating a more prospective perspective of representation. In other words, we begin to simulate, simulate processes, not just shapes, but procedures and processes.

Then we reach the point where we’re now today, that of thinking that representation accomplishes everything – digital, computerized representation.

It’s obvious that, as a good native of Minas Gerais, suspicious of everything, I’ll promptly ask: What is there that’s impossible to represent? What’s the limit to representation? What is there in the object that doesn’t lend itself to representation? What is there in the world that doesn’t deliver… doesn’t lend itself to representation?

Let’s think: texture, weight, these you can simulate, represent… Then you touch the chord: we can include time, but fail to include the inexorability of real life. The appearance of the concrete world, the existential world, which is inexorable, doesn’t lend itself to representation. And I think, too, that this is the limit of representation.

The [philosopher Vilém] Flusser has a little system that I find nifty, a theoretical scheme, more poetic than scientific. That is, it doesn’t coincide with the truth, but opens the way to the truth, in which he builds on the idea of ​​a path towards abstraction in the history of mankind.

He fantasizes a bit, resembling historicism, about the first drawing of a horse in southern France. The prehistoric man draws a horse and he distances himself from the horse. He has to take a step away from the horse to draw it. Then, he makes a scrawl of the horse in an attempt to understand it.

But when he draws the horse, the drawing becomes more interesting and he turns to the drawing and not to the horse anymore. In so doing he falls hostage to image worshipping, i.e., the image gains a stronger presence, gains self-sufficiency, so to speak.

Then, he says that we take another step and, suddenly, the image alone doesn’t describe the world and neither can we by looking at it. Images don’t suffice anymore. Then, we take another step back and invent writing.

He comes up with a cute, also poetic, description of writing as deriving from drawing: drawing breaking down and giving way to writing. It seems that the thing about Mesopotamia is historically accepted, i.e., that writing was invented to elucidate images.

Except that writing will also acquire this very oversufficiency. We leave the cult of the image and enter the cult of the text, which he says is the scientific text, the kind we produce at academia. It’s the text that no longer describes the world; it’s inadequate. Then we take another step back towards abstraction and create the digital image.

It is a sequence of steps towards abstraction, detachment from reality in another attempt at understanding it… with the digital image, which derives from the text. This becomes clear when we receive a truncated image in which what was originally a photo is viewed as a lot of alphanumeric characters. Then, suddenly, we create this digital image. He [W. Flusser] doesn’t say digital: he first talks about photography as an attempt to explain, illustrate the text. And there comes the digital image, which he describes as a total abstraction moving towards dimension zero. Then he says, in fact, that it’s not the end of the world, but, on the contrary, it opens up a world of possibilities, because we’re in the absence of values ​​and, theoretically, dimensions. That could be seen as an opening to the emergence of a new man.

This thing about Flusser… I think it’s nice to consider that step. It’s a cute little scheme, a series of backward steps into the unknown. Because our back is turned to representation, we’re staring at reality, at the horse. We step back to better see the horse… We draw and drawing becomes a veil that conceals the horse. We take another step back into the unknown; we’re looking at the drawing. Then, we create the text and, again, step back into the unknown. So that’s where we are now: this dimensionless, non-dimensional technology based on ones and zeros.

We don’t know where we’ll get to.

[I wanted to] bring up this point, as we move towards increasing abstraction, for I think that we’ve reached an absurd level nowadays with these digital technologies; absurd because we don’t understand it, it escapes the logic of intuitive understanding. At an absurd point, really, of abstraction and thinking: Will this constant abstracting and representing… I mean, will this attempt get us anywhere?

What I feel is that in the 1990s, when virtual reality was being widely discussed, there was this fantasy that we’d manage to represent everything: all the feelings, all the smells, all the emotions… This idea still exists today.

I think there is, then, another serious problem, which is to see the world as a repository of data that can be mapped. And, if they can be mapped, we can represent them. So the world is seen as something given that can be approached. Thus, if it can be approached, we can deal with it; if we can map it, we can enter this map into any machine, a machine whose origin dates back to the construction of perspective in the Renaissance and eventually becomes a computer. A machine that maps this world and that, consequently, allows us to act in the world as broadly as possible, with total power, because we hold so faithful a representation of the world.

Huge delusion! We wish it was like that, huh? Since the world has reached a point where it just won’t yield... All philosophers affirm that. There’s a point beyond which we cannot know the world. And to me that point is when it’s impossible to grasp that which is inexorable... what Prigogine calls the irreversibility of time, or something like that. This point is the real challenge. What do we do now? This representation of the entire world, this we wouldn’t be able to include.

There are some hard-line scientists that believe that it’s just a matter of time, it’s a question of increasing the memory capacity of computers, but it’s obvious that it’s not the case.

[The cyberneticist Ranulf] Glanville claims something that I also find interesting. He talks about an issue that, somehow, is connected to the idea of representation. It’s the idea that if we learn the theory, we know the theory, and by learning the theory we can apply it to the world, and, therefore, we are able to act more efficiently. It’s a little like that which is behind the idea of representation. It’s the same thing about the world, right? It's a theory with such admiration for something external.

He [Glanville] says that, but our experience as human beings tells us the opposite, because, in the beginning of our lives, of a baby’s life, that’s exactly the opposite. A child doesn’t learn a theory in order to act. It acts so it can learn from action. Hence, it’s an inversion, and we grow up and think it’s the opposite: we keep trying to understand, trying to represent in order to be able to act regardless of the fact that we grow wiser from acting, which leads us to build models. It’s acting that enables us to build, grow, and learn.

I think it’s important to remember this basis because it appears impossible whenever we try to question a little this concept of theory and its applicability to practice. As Glanville puts it: the superiority of theory… the idea that it will, for this reason, be applied, that it stands out… But our basis for learning is quite the opposite.