Limites cognitivos das ciências sociais e do senso comum

António Pedro de Andrade Dores

António Pedro de Andrade Dores é sociólogo, Doutor em Sociologia. Departamento de Sociologia do ISCTE, do Instituto Universitário de Lisboa, Portugal. Estuda a instabilidade pessoal e social própria da vida em contraponto à noção de conflito social como ruptura ocasional e esporádica da estruturação social.


Como citar esse texto: DORES, A. P. A. Limites cognitivos das ciências sociais e do senso comum. V!RUS, São Carlos, n. 17, 2018. [online] Disponível em: <http://www.nomads.usp.br/virus/virus17/?sec=4&item=4&lang=pt>. Acesso em: 21 Jun. 2024.

ARTIGO SUBMETIDO EM 28 DE AGOSTO DE 2018


Resumo

As ciências sociais, como o senso comum, não têm sido suficientemente enfáticas na condenação do mal que representa o sistema penitenciário. Às ciências sociais repugna o biologismo, o carácter biológico da humanidade, e a ideologia, o modo como as elites iludem as populações submissas e que as teorias sociais integram. António Damásio, a partir da biologia da mente, desafia as ciências sociais a considerarem a natureza humana: o nosso fundo emocional que sustenta a consciência, como distintos níveis de realidade existencial assente nos corpos e na vida de que somos um resultado. A ruptura científica proposta por Damásio admite uma nova luz sobre o desempenho moral das prisões modernas: como o fundo emocional das penas (retaliador) sustenta a (boa ou má) consciência (jurídica e social) que institucionaliza as penitenciárias? A partir das ciências sociais, este artigo apresenta uma crítica dos fundamentos teóricos que estão na base da dificuldade epistémica e institucional de admitir e potenciar a colaboração entre as ciências sociais e as ciências naturais, participando na crítica que Damásio faz à teoria biológica.

Palavras-Chave: Homeostasia, Prisões, Moral, Teoria social, Hierarquia, Natureza, Fronteiras



1Introdução

A vida não é mais do que um movimento dos membros […] pois o que é o coração, senão uma mola; e os nervos, senão outras tantas cordas; e as juntas, senão outras tantas rodas, imprimindo movimento ao corpo inteiro (HOBBES, Leviatã, 1650 apud FEDERICI, 2017, p. 238).

As ciências sociais, como o senso comum, não têm sido suficientemente enfáticas na condenação do mal que representam o sistema penitenciário ou o efeito de estufa da atmosfera. Colocam-se a si mesmos num patamar intermédio de realidade, inibindo-se de pensar abaixo dele (a natureza biológica das sociedades e das pessoas) e acima dele (doutrinas jurídicas e morais produzidas por elites). Inibindo, nesse processo, o desenvolvimento de pensamento científico e a capacidade de intervenção.

Às ciências sociais repugna o biologismo, a ideologia, alegando a especificidade do seu objecto de estudo e os limites deontológicos do seu método. Os resultados práticos de tal consenso são desafiados por António Damásio, que a partir da biologia da mente desafia toda a ciência, incluindo as ciências sociais.

Damásio parte de um entendimento holístico do ser humano, denunciando Parsons e Harari pelo uso cibernético que fazem da teoria de sistemas, alheando-se da presença evidente das pessoas vivas mergulhadas num meio ambiente, em evolução conjunta. A complexidade, reclama o primeiro autor, não pode ficar refém de preconceitos sobre a falsa estanquicidade dos limites do sistema nervoso central. Neste artigo usamos o caso das prisões para recusar, igualmente, a sua estanquicidade e alheamento relativamente ao meio social de que são parte. Serão as teorias sociais capazes de participar auto-criticamente, em colaboração e cooperação com as ciências naturais, para dar maiores oportunidades ao desenvolvimento de melhores teorias sobre as fronteiras dos sistemas?

2Escolas, hierarquias e repressão

August Comte (1864) propôs considerar a existência de uma relação estrutural entre a evolução social e a capacidade e competência cognitivas das pessoas em sociedade. A sua filosofia positiva foi uma forma inovadora de organizar o ensino, numa era em que, segundo o criador da expressão sociologia, estavam reunidas condições sociais jamais alcançadas antes, capazes de sustentarem o pensamento racional e utilitário. O ensino da filosofia positiva deveria servir para divulgar o novo conhecimento, como forma de aproveitar a oportunidade oferecida pela evolução social para superar a metafísica. Para evitar as guerras partidárias e as lutas políticas, desgastantes, violentas e inúteis, para resolver os problemas práticos.

Ainda hoje, a ideia de a escolaridade ser um antídoto à violência e aos desvarios da política tem crédito generalizado. Após a implosão da União Soviética, cujo regime era inspirado na luta política de Karl Marx pelo fim da luta de classes, pela criação de um homem novo educado para o comunismo, a escola passou a ser concebida à margem da ideologia e da política.

As escolas e os professores sofrem das culpas (e dos méritos) de prevenirem a generalidade dos problemas sociais, desde o controlo da sexualidade, o consumo de drogas, até à criminalidade e ao aquecimento global. Estando encarregues de contrariar as desigualdades sociais, neutralizando os efeitos práticos das diferentes origens sociais dos alunos, espera-se dos professores a capacidade de, sozinhos, minimizarem os defeitos da vida em sociedade (WILKINSON; PICKETT, 2009).

Em cada vez mais países, a longa escolaridade universal, incluindo o ensino das ciências, é um facto. Continua a parecer claro devermos tratar como seres humanos de primeira as pessoas mais qualificadas e do género certo (ainda há poucos anos, havia um consenso sobre a maior dificuldade das mulheres pensarem bem e agirem em conformidade; provada a falsidade desse consenso, as mulheres continuam discriminadas em relação aos homens). Logo, o sistema educativo, além de constituir uma esperança de melhoria do funcionamento social, é uma forma de justificar a hierarquização social por via do mérito escolar, condicionado também ao género. Género entendido em sentido lato: género sexual e género de classe social também, incluindo género étnico.

As escolas desenvolvem e certificam os níveis das competências cognitivas de, virtualmente, toda a gente. As hierarquias de mérito cognitivo, idealmente, deveriam ser homólogas às hierarquias de responsabilidade, de influência, de prestígio e de rendimento. A sociologia identificou distorções organizativas das finalidades institucionais das escolas (BOURDIEU; PASSERON, 1970): os professores reproduzem nas escolas a sua própria cultura, como é natural. Desconhecem e ou discriminam outras culturas, consideradas como ignorantes ou disparates sem sentido, como forma de auto-afirmação da sua própria competência cognitiva, sempre em teste e em crise (BOURDIEU, 1979; ITURRA, 1990a, 1990b).

A hierarquização funciona também entre estados, cujas nações são representadas de forma estereotipada, como se fossem pessoas. Os nacionais de um país podem ser tratados, melhor ou pior, como se todos os concidadãos fossem iguais entre si (inteligentes, qualificados, ricos, violentos, ou o seu contrário, conforme o carácter atribuído ao seu povo). Como é o caso dos nacionais dos países nórdicos e dos países africanos, ou simplesmente pessoas de tipo nórdico ou africano, em Portugal. Uns preconceituosamente tomados como potencialmente superiores e outros como potencialmente inferiores, na hierarquização entre países atribuída por influência de ideias como as de Max Weber (2005), sobre a superioridade moral dos protestantes, ou as colonialistas, sobre a supremacia branca. As políticas racistas actualmente em ascensão na Europa e nos EUA fundam-se precisamente na alegada imoralidade de misturar, de forma liberal, as hierarquias nacionais e internacionais. Toda a política europeia, desde há décadas, explora, a nível político e também judicial, esta vertente das culturas nacionais, constituindo o que se chama racismo institucional (JAKOBS; MELIÁ, 2003; PALIDDA; GARCIA, 2010).

A moral racista, portanto, alega que as disfunções sociais e políticas serão agravadas pela mistura de culturas com origem na assimilação forçada, nuns casos, e no multiculturalismo, noutros casos. A solução, para os racistas, são os muros (penitenciários, de centros de acolhimento de imigrantes, proibição de auxílio a estrangeiros, expulsão de estrangeiros) que tornem estanques as culturas diferentes. Essa política permite aos grupos de votantes mais vulneráveis, ao aderirem ao racismo político, sentirem-se e representarem-se como (internacionalmente, imaginariamente) superiores à parte da população que não pode votar (por não serem nacionais), em especial os trabalhadores de estatuto migratório recente, ainda sem direito a nacionalidade, ou, de forma mais lata, todos os que possam ser apresentados como hierarquicamente inferiores à luz das hierarquias nacionais.

O racismo político explícito está a tomar o terreno estrumado pelo racismo tácito e organizacional. Eric Holder, Procurador-Geral norte-americano que serviu no tempo do presidente Obama, interrogado num Late Show da cadeia de televisão CBS, nos últimos dias de Julho de 2018, reconheceu ser verdade que a separação de crianças filhas de imigrantes das suas famílias era prática no tempo em que teve responsabilidades políticas. Obama foi o presidente dos EUA que mais imigrantes deportou. Holder salientou, porém, que, no seu tempo, não havia uma política oficial, emanada da Casa Branca, para fazer dessas separações torturadoras de crianças uma forma de dissuasão da imigração.

Nos mandatos anteriores, o racismo institucional nos EUA (incluindo Guantanamo ou Abu Ghraib (BUTTERFIELD, 2004)) prevalecia (contra ou não a vontade do Presidente). Com Trump, o racismo institucional ganhou foros de cidadania, como no tempo de George W. Bush os torturadores passaram a ser uma profissão reconhecida oficialmente. Também na Europa, antes ser acusada de violar os direitos humanos dos imigrantes, as polícias já praticavam oficiosamente políticas racistas e colaboravam com a CIA, no caso das prisões secretas.

O que terão as ciências sociais a ver com a manutenção de políticas racistas e contra os direitos humanos, nos países ocidentais, em particular nas prisões (WACQUANT, 2000), e com o suporte que constituem para a emergência de regimes totalitários? Serão, de alguma forma, as ciências sociais cúmplices do alheamento dos cidadãos da vigilância sobre as políticas repressivas, organizadas profissionalmente (GARLAND, 2001) ou politicamente assumidas, como acontece actualmente com a vaga de direita em várias partes do ocidente?

3Da hierarquização nas ciências

Damásio (2017) critica Parsons por, ao fazer sociologia inspirado na biologia, pensar uma sociedade de sistemas sem pessoas de corpo inteiro. Mouzelis (1995) nota como as bases epistémicas do sociólogo clássico norte-americano são mantidas intactas pelos seus críticos mais qualificados, influenciando as ciências sociais em geral. O processo consiste em reduzir as pessoas e os factos a estatísticas, a ideais tipo, a indivíduos parametrizáveis por inquéritos ou entrevistas, mas não biológicos. Hariri (2018), referindo-se às teorias de sistemas usadas nas ciências da computação, constata a emergência de uma religião dos dados, igualmente evidente nas ciências sociais divididas, especializadas em disciplinas e subdisciplinas sem diálogo ou conhecimento entre si (LAHIRE, 2003). Mouzelis verifica a prática recorrente de, sobre a informação produzida sob a forma de dados, sobre as operações de redução que isso implica, os sociólogos procedem a reificações, isto é, interpretações dos dados como quem preenche as suas lacunas com imaginação, com ideologias retoricamente satisfatórias. Kuhn (2016) refere-se ao mesmo como uma prisão intelectual: critica o pensamento (pré-)ocupado e crítico afirmativo, ideológica e profissionalmente vinculados a mentores e escolas de pensamento rivais, transformando as ciências sociais num campo de disciplinas e sub disciplinas estanques entre si e relativamente o exterior, em particular a respeito das ciências naturais e da biologia. Lahire (2012) analisa a noção de campo de Pierre Bourdieu para notar como ela trata das disputas de poder, como se os envolvidos tivessem surgido do nada: como se nunca tivessem sido crianças e nunca serão velhos; como se, no presente, não lhes fosse indispensável cuidar do corpo e da identidade pessoal e social com que se apresentam aos íntimos e mais próximos, com quem não estão em posição de disputar o poder. Therborn (2006) nota os resultados práticos dessas orientações no trabalho entretanto realizado, concentrado nas questões de poder, e secundarizando exageradamente, por exemplo, problemas de saúde e de género.

A situação, neste início de século, torna a intervenção de António Damásio, um neuro-cirurgião filósofo e divulgador de ciência, particularmente relevante. Também ele acredita na educação como forma de reformar o mundo. Mas na condição do pensamento divulgado ser mais correcto, mais científico, mais humanista. Nomeadamente, no campo da biologia, há que rectificar a ignorância ideologicamente desenvolvida de desqualificação da vida considerada inferior (as células dos corpos dos animais superiores, as bactérias que vivem simbioticamente nas nossas vísceras, os sistemas nervosos reticulares e não centralizados, que são evolutivamente primeiros em relação ao sistema nervoso central, as emoções que conduzem os corpos e as mentes animais e humanas, etc.). No campo das ciências sociais, o autor recomenda que não se persista em abandonar a consideração da vida humana, na base do nosso trabalho (DAMÁSIO, 2017), lembrando-nos também do caminho não percorrido no diálogo entre culturas científica e humanista, desde a chamada de atenção de Lord Snow (1956). Diálogo bloqueado, ainda hoje, pelas acusações de cumplicidade da biologia com o nazismo (SACARRÃO, 1982).

A naturalização das hierarquizações, na biologia como nas ciências sociais, ideologicamente orientadas para evitar questionar o mérito dos órgãos superiores, biológicos e sociais, estará a ter efeitos culturais e organizativos que podem estar a favorecer o vingar do racismo político, como melhor se verá adiante a respeito do alheamento-isolamento social das prisões. Estarão as escolas e as universidades em condições de combater o racismo nas culturas ocidentais? Estarão os investigadores biólogos e sociais conscientes dos efeitos práticos, cognitivos, institucionais, culturais, da falta de discussão do melhor entendimento do que sejam, naturalmente e ideologicamente, os níveis de realidade (DORES, 2005)?

4Recuperar as ciências para a luta contra as discriminações

A grande batalha de Damásio (1994) é contra a ideia comum, fixada classicamente por Descartes, de haver um pensamento independente dos corpos. Ideia que admite ficções transumanistas (HARARI, 2018), baseadas, nomeadamente, na redução de todos os fenómenos naturais a algoritmos, como os usados na Inteligência Artificial, pressupondo precisamente que há conhecimento independente dos corpos, como os religiosos também ensinam, a respeito das almas ou espíritos.

O transumanismo, como a religião hierarquizante, ajuda a amesquinhar as pessoas perante a Tecnologia ou o Algoritmo, quais Deus-ex-machina. A humanidade está, a seus olhos, ameaçada de substituição por meios artificiais, por robots, métodos de reprodução artificial, nano tecnologias intimamente invasivas, etc., ao serviço do capitalismo.

Usando a concepção consumista de prazer, que é manter o corpo tão parado quanto possível para servir de base material para toda a espécie de serviços e de entrega de mercadorias capazes de animar a economia, o transumanismo imagina a transferência da inteligência humana para as máquinas de tal modo que as pessoas deixariam de pensar, por comodismo. As emoções que estariam na base das guerras, e das torturas, deixariam de nos incomodar, cumprindo-se assim o sonho de Comte de acabar com a política – sonho esse partilhado actualmente por grande parte das pessoas que dedicam à política sentimentos de alheamento ou mesmo repugnância. Nesse sentido, as máquinas constituem uma enorme vantagem por serem inteligentes sem serem emocionais, e sem terem direitos políticos.

Médicos, pilotos de avião, consultores de gestão, estrategas militares, cientistas, todos poderão vir a ser dispensáveis, caso as máquinas inteligentes aprendam a aprender. O desemprego seria generalizado e, caso o clima se tornasse insuportável, a espécie humana poderia extinguir-se que as máquinas seriam a nossa herança para a inteligência cósmica.

Contrapondo-se ao transumanismo, o último passo da reflexão de Damásio (2017) no campo da biologia mostra que a) ao contrário do que aconteceu na primeira metade do século XX, a teoria da evolução pode ser, actualmente, um aliado relevante na luta contra os totalitarismos que voltam a ameaçar o mundo; b) a especialização disciplinar nas ciências, e a sua hierarquização, são obstáculos ao trabalho científico e ao combate aos preconceitos de senso comum que a própria ciência reproduz.

O autor luso-americano insiste que a consciência não existe sem corpo, embora seja vulgarmente representada fora do corpo. A homeostasia, apresentada no seu trabalho anterior como um écran virtual de um computador gerido pelo cérebro, função capaz de unir a vontade particular das células individuais e relativamente autónomas que se agrupam ordeiramente para co-constituir um animal superior, é apresentada de outra forma neste último trabalho.

A homeostasia, além de ser uma imanência da vida, de complexidade proporcional à complexidade dos corpos a que esteja associada, é apresentada agora também como uma essência: a essência da vida, tal como a gravidade foi para Newton a essência do universo e da matéria. A homeostasia é a tendência negantrópica que torna a vida diferente da química inorgânica. A homeostasia é a capacidade de manutenção e de projecção no tempo da existência dos organismos vivos: é o sopro de vida que invade todo o corpo, ao mesmo tempo que se constitui evolutivamente em consciência.

A homeostasia envolve a vida numa dialéctica essência-imanência que percorre virtualmente cada um dos seres vivos. Admitindo, a hipótese de a sociabilidade ser parte integrante do modo como a vida inteligente se estabelece (DAMÁSIO, 2017; DORES, 2005), observa-se um esticar evolutivo entre os níveis básicos de vida (os seres unicelulares) e a conquista de níveis mais elevados para a experiência da vida. Os sentimentos de medo e a ânsia mística de aceder a níveis de realidade cada mais elevados (DIEL, 2004; DORES, 2011) podem, deste modo, passar a ser tratados como objectos de estudo das ciências, e não só das humanidades.

A homeostasia percorre a vida das bactérias, a que muita gente ainda chama micróbios doentios. Percorre a vida dos seres humanos, promovendo a ligação entre as miríades de células que constituem os nossos corpos, as ainda mais miríades de bactérias que vivem em simbiose desejável com as nossas vísceras, os tecidos, os órgãos, os sistemas fisiológicos e anatómicos, tornando-os solidários uns com os outros sob a batuta do instinto de sobrevivência, incluindo o instinto de reprodução capaz de projectar no futuro a experiência de organismos desgastados. A homeostasia também deve ser considerada, insiste Damásio, nos estudos sociais, em vez de insistir no isolamento entre os fenómenos sociais e a vida biológica.

O pensamento racional, diz Damásio, não pode dispensar as emoções de que é a expressão evolutiva mais sofisticada. Os seres superiores são o modo como as nossas vísceras (organizadas por um sistema nervoso recticular) desenvolveram capacidades de auto protecção face ao meio ambiente e, ao mesmo tempo, de transporte e procura de alimentos, usando os sistemas cerebral-muscular-esquelético para o efeito. O progresso da homeostasia, no caso da espécie humana, à semelhança de muitas outras espécies animais, desenvolveu um cérebro capaz de aumentar as probabilidades de persistência no tempo e projecção no futuro da vida… visceral. A especificidade da nossa espécie fez evoluir um pensamento baseado em linguagens, por sua vez capazes de usar próteses, como os livros, os computadores e a Internet. A autonomização desse pensamento relativamente à vida, às emoções, de onde emergiram, é uma ideia religiosa muita divulgada, inclusive no meio científico. Por isso, Comte também imaginou ser possível abolir a razão política e as emoções, como os anti-clericais foram capazes de convencer meio mundo de que a religião seria extinta espontaneamente pela modernização, ou, como no pós-guerra, se imaginou que a abolição da escravatura se estenderia naturalmente pela abolição das prisões (DAVIS, 2005), bem como agora os transumanistas projectam no futuro as discussões que querem evitar no presente, como as discriminações de género e o racismo.

5Natureza humana

A espécie humana caracteriza-se pela sua mente recursiva (CORBALLIS, 2011), pela possibilidade -necessidade de representação do tempo: um passado constituinte de identidades incorporadas que se projecta em e é alimentado por um futuro de expectativas mais ou menos elevadas. Corballis compara esta característica singular humana com uma casa de espelhos numa feira. Cria uma infinidade de imagens mutuamente reflectidas que servem de (des)orientação às pessoas. As culturas são, então, modos particulares socialmente partilhados de lidar com as dificuldades e potencialidades desta característica humana, que faz de nós seres extraordinariamente conscientes e adaptáveis.

O estudo das culturas, por sua vez, revela complexidades maiores, do tipo espectral, como as identificadas por Charles Cooley e retomadas por George H. Mead (1930), conhecidas, nas ciências sociais, sob a designação de self. Construção social das identidades de cada pessoa, em função das respectivas sociabilidades e tipos de interacção, susceptíveis de serem ordenadas hierarquicamente (BOURDIEU, 1979), sobre os sacrifícios de muita gente (PECK, 2001; SCOTT, 2013).

Fig. 1: Organização social e self. Fonte: O autor, 2018.

A hierarquização social, como notou Max Weber, é positiva e negativa. Há pessoas que vivem banhadas em meios sociais positivos, superiores, mais defendidos das vicissitudes da existência. Tal como há pessoas particularmente vulneráveis à natureza e, também, às outras pessoas.

Damásio contesta o facto de, na biologia, o estudo do cérebro monopolizar o estudo da consciência e da inteligência. Reclama por se chamar segundo cérebro ao sistema nervoso que regula as vísceras, alegando que esse sistema é o primeiro, em termos evolutivos. O segundo, centrado no cérebro, só pode ser formado a partir do primeiro. Só faz sentido por servi-lo. Mais importante do que a hierarquização dos dois sistemas nervosos é o facto de ambos estarem integrados de forma coesa num mesmo corpo. Corpo de onde emerge o pensamento, não a partir do cérebro mas da experiência e das sociabilidades do corpo todo, tanto naquele momento como anteriormente.

O neuro-cirurgião filósofo trata da teoria social em poucas linhas:

Talcott Parsons […] invocou o conceito de homeostasia em relação aos sistemas sociais, mas nas suas mãos, o conceito não estava ligado nem à vida nem aos sentimentos. Parsons acaba por ser um bom exemplo quanto à negligencia dos sentimentos na concepção das culturas. […] nem aos sentimentos, nem a indivíduos propriamente ditos (DAMÁSIO, 2017, p. 43 e 231).

As ciências sociais têm sobretudo desenvolvido os estudos sobre o poder (o equivalente a um cérebro social organizado em redes de sociabilidades cujas ligações biológicas se poderão um dia melhor descrever, se as propostas de Damásio vingarem (DORES, 2005)) negligenciado a contribuição dos cuidados prestados para a produção de identidades e expectativas, sobretudo os prestados pelas partes menos valorizadas das sociedades (LAHIRE, 2012; THERBORN, 2006). De modo semelhante, pode dizer-se que, na história da biologia, ficaram prejudicadas as sociabilidades e as culturas que organizam melhores e piores organismos, melhores e piores estados de bem-estar, já que tais estados são produzidos a nível visceral, tomado como autónomo e irrelevante ao funcionamento alegadamente algorítmico do cérebro. À desqualificação dos aspectos homeostáticos e sociais da vida, na biologia, corresponde, nas ciências sociais, a desqualificação dos saberes normativos e doutrinários, tomados como fixos, naturais, eternos, indiscutíveis, e, ao mesmo tempo, estigmatizados como ideológicos, falsos, meras representações sem base material.

A biologia não trata ou reconhece a importância das emoções imanentes nem das sociabilidades incorporadas. As ciências sociais alheiam-se do estudo da densidade biológica das pessoas, o repugnante biologismo, e das ideologias, ao mesmo tempo idolatradas e fixadas segundo a fórmula weberiana da neutralidade axiológica. Biologia e ciências sociais prostram-se a admirar aquilo que as ideologias de senso comum consideram superior, a saber, o cérebro e o poder, como quem deita os olhos ao Céu à procura das suas raízes. Mas, claro, as raízes reflectem-se no ar mas vivem debaixo do solo.

Será que estamos, na biologia e nas ciências sociais, como a física pré-Einstein? Newton descobriu um algoritmo mecânico, a gravidade. Inviável para explicar, seja o Big Bang (a substância da matéria), seja a elevação da matéria em vida. Einstein avançou para os buracos negros e as ondas gravitacionais, que estão longe de responder aos problemas essenciais, mas que são um caminho para a elevação do conhecimento.

Na biologia, como nas ciências sociais, o tratamento do cérebro, num caso, e das lutas pelo poder, no outro, como práticas isoladas e autónomas do resto dos corpos (em particular, do sistema nervoso das vísceras) e das sociedades (por exemplo, as prisões, onde se cuidam e identificam os presos como criminosos) resultam e são resultado de orientações morais:

[…] os processos intelectuais puros prestam-se a um relato algorítmico e não parecem estar dependentes do substrato. […] Ao remover o atual substrato químico para o sofrimento e para o seu oposto, o prazer e o florescimento, estaríamos a remover a base natural dos sistemas morais de que atualmente dispomos (DAMÁSIO, 2017, p. 277).

O autor refere-se directamente àqueles que imaginam/desejam um futuro em que “uma casta de super-humanos […] trate os humanos comuns da mesma forma que os europeus do século XIX tratavam os africanos” (HARARI, 2018, p. 391). Indirectamente refere-se à estranheza que hoje causa, mesmo entre biólogos, o facto de a consciência e o pensamento serem um resultado da actividade existencial de um corpo, na sua íntegra, e não apenas da acção do cérebro. Ainda indirectamente refere-se aos que imaginam a vida da razão sem emoção (HIRSCHMAN, 1997), o que não é possível, na prática.

“A história das culturas humanas é, em grande medida, a narrativa da nossa resistência contra os algoritmos naturais através de invenções que não foram previstas por esses algoritmos” (DAMÁSIO, 2017, p. 279). As culturas são, ao mesmo tempo, resultados e contribuições para a homeostasia, para a luta da vida pela sobrevivência e pela sua projecção no futuro. O que nos faz perguntar porque é que as prisões são culturalmente isoladas das sociedades que as promovem e financiam, sem as quais elas não poderiam existir? E a razão de ser da existência de formas culturais capazes de confundir bem-estar e mal-estar, prazer e dor, poder e violência, distribuindo uns para cima e outros para baixo.

6O desempenho moral das prisões

Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar, o meu coração fecha os olhos e, sinceramente, chora (Francisco Buarque de Holanda em Fado Tropical).

Uma diferença importante entre a cultura ocidental no início do século XX e a que vingou no pós-guerra foi a integração dos interesses do mundo operário e dos trabalhadores no centro da decisão política, através de regimes de concertação social associados à democracia partidária, e da admissão do voto universal, abrangendo, posteriormente, além dos trabalhadores, jovens e mulheres. O ideal de integração social, porém, esbarrou com a prova da realidade. Os níveis de desigualdade económica não deram sinais de abrandar (PIKETTY, 2013). Persistiu, apesar das melhores intenções, uma barreira social entre os de cima e dos de baixo (Figura 1). Os vagabundos e as classes perigosas, como os trabalhadores, foram-se substituídos, no imaginário moralista entre o pós-guerra e actualidade, pelos pobres, drogados, imigrantes, terroristas, todos imaginados terem razões para cometerem crimes com o objectivo de acompanhar a cultura consumista resultante do sucesso económico da segunda metade do século XX (MERTON, 1970).

As prisões, até aos 1970, enquanto a esperança na integração social orientava a acção social do Estado (GARLAND, 2001), eram pensadas como resquícios do passado de luta de classes com tendência para a abolição. Como notou Wacquant (2016), nesse período de tempo nem a opinião pública nem os intelectuais discutiam o assunto, pois o número de prisioneiros decrescia regularmente, a doutrina dos direitos humanos vingava e a confiança no progresso incluía, para lá da tecnologia e da economia, a moral integradora, incluindo a integração do antigo mundo colonial no concerto das nações e direito ao acesso às sociedades de consumo. A viragem política, hoje conhecida sob a designação de neoliberal, que substituiu as visões tecnológicas pós-industriais e as visões culturais pós-modernas, revelou-se ávida de fazer prisioneiros (GILMORE, 2007). Porém, o crescimento da actividade penal, nos seus diferentes aspectos sociais, policial, judiciais e penitenciários, não foi sinalizado nas ciências sociais antes da viragem do século, com Loïc Wacquant (2000).

A segredo social e intelectual em torno da evolução das prisões, e das pessoas excluídas das sociedades do pós-guerra (YOUNG, 1999), como se vivessem em sociedades à parte (CUNHA, 2002), foi e é uma das formas de omissão de registo de sinais de prevenção contra os totalitarismos de que sofrem as sociedades do século XXI. Falhada a integração social prometida, as sociedades ocidentais, ciências sociais e senso comum sintonizados, usaram o segredo penitenciário como sinal de irrelevância política e moral daquilo que pudesse passar nas prisões (incluindo centros penais para crianças e centros de detenção para pessoas indocumentadas). A ponto dos estados europeus simplesmente ignorarem, na prática, as Regras Penitenciárias Europeias em vigor (CRÉTENOT, 2014).

O modo irracional como também os democratas descartam, na vida quotidiana como na política, as estreitas relações entre as práticas de soberania, reais e virtuais, e as práticas penitenciárias, é sinal de dissonância cognitiva. Quando George W. Bush inaugurou a era da guerra global contra inimigos incertos, para dar sentido ao complexo militar-industrial dos EUA, quando se assumiu como polícia do mundo, abandonou os preceitos morais de respeitabilidade dos direitos humanos, inaugurou Guantanamo e exportou a tortura para Abu Ghraib, já se anunciava a era Trump: a era da pós-verdade, da irracionalidade, das coligações globais entre as extremas-direita de todo o mundo; a era da defesa política dos campos de concentração, alegadamente para combater o terrorismo e a imigração ilegal. Repensemos, a este luz, o que se tem dito e o que se sabe sobre a moral carcerária.

Em 1996, acompanhei um grupo de cidadãos que reclamavam, junto ao primeiro-ministro português, contra o estado das prisões no país. Um dos membros da comitiva perguntou ao assessor jurídico que nos recebeu a razão pela qual um homem com estreitas relações com o regime fascista, deposto em 1974, continuava, depois da idade compulsiva de aposentação, à frente da direcção das prisões, requisitado pelo Estado. A resposta do assessor foi ainda mais surpreendente do que a pergunta: “Onde quer que os metamos”?

À luz de um democrata, como o nosso interlocutor, um dos lugares apropriados ao labor directivo de pessoas fascistas pode ser o sistema prisional. Poucos meses antes, Marques Ferreira, então director-geral das prisões, tinha ido à televisão dizer que as prisões estavam tomadas por máfias (sic). Alguns dias depois, veio dizer que não se intimidaria com as ameaças de morte e, passado pouco tempo, deixou de ser director-geral. O Estado nunca sentiu necessidade de esclarecer o caso, nem os jornais procuraram uma resposta para tal recuo perante um inimigo invisível.

O famoso segredo penitenciário, que se refere à extraordinária característica de, nas prisões, ninguém falar sobre o que lá se passa, encobre, com um véu transparente, alianças contra natura, nomeadamente entre traficantes de drogas ilícitas e autoridades. Alianças que não passam desapercebidas a ninguém, embora não se tirem daí consequências práticas. Tal como acontece com as penas de prisão. O falhanço clamoroso das políticas proibicionistas (WOODIWISS, 1988) acaba por se constituir em finalidade absurda e secreta da política (AAVV, 2016), com a aquiescência popular e resignação das ciências sociais.

Há, pois, uma homologia entre a dificuldade da razão científica ter em conta aquilo que se passa por baixo das lutas pelo poder, o chamado trabalho sujo (DORES, 2017), e a dificuldade da opinião pública em reagir de forma racional aos segredos sociais, isto é, àquilo que toda a gente sabe e conhece e, ao mesmo tempo, todos negam estar a acontecer (COHEN, 2013).

Logo no princípio do século, dois dos fundadores da democracia portuguesa, Mário Soares e Freitas do Amaral (2003), associaram as políticas de George W. Bush às de Hitler. Foram acusados de radicalismo na comunicação social e politicamente ignorados, apesar da sua grande influência. Essa é a força do segredo social em torno da violência de Estado (DORES, 2014). Hoje, a ameaça fascizante continua a evoluir de formas cada vez mais evidentes, tanto nos EUA como em vários países europeus, como contágio que penetra as sociedades, por via política. A participação política das pessoas comuns continua baixa. No campo intelectual, surgem best sellers recentes de autores descrentes na democracia (BRENNAN, 2017; HARARI, 2018), que, após o fim da Guerra Fria, se imaginou eternamente assegurada com a abolição das ideologias e da história.

A moderna incorporação da repugnância à violência nas pessoas civilizadas (ELIAS, 1990) transforma a sua/nossa imaginação. A cultura moderna bloqueia a representação da parte violenta da realidade (HIRSCHMAN, 1997), de um modo que se tornou espontâneo, com o sucesso das ideologias modernas. As ciências sociais não escapam ao fenómeno (MALEŠEVIĆ, 2010; WIEVIORKA, 2005). Aquilo que é manifestamente negativo, tal como o racismo e a tortura institucionais no sistema criminal penal, ou a violação dos direitos humanos dos migrantes é irrelevado pela opinião pública e pela magistratura, como se tratasse de um problema técnico a ser ultrapassado a qualquer momento.

Essa imagem indutora de um conceito de autoridade ao mesmo tempo ameaçadora e protectora, torturadora e ordenadora, como o Deus bíblico, corresponde a uma hierarquização das qualificações. Em biologia, o primeiro cérebro (que regula as vísceras de forma recticular) é tido como inexistente ou secundário, quando é o primeiro na ordem da evolução. Na sociedade, há também pessoas que vão para a cidade e se esquecem dos seus ascendentes aldeãos. Em moral, tudo quanto seja mais elevado – biológica ou socialmente – deve ser protegido, sob pena de ameaçar todo o complexo edifício resultante do processo evolutivo. Os altos dignatários dos estados, por exemplo, reúnem-se para tomar decisões importantes e, todos sabemos, que as questões sobre os direitos humanos, quando são usadas, são-no por razões diferentes da obtenção de protecção da vida das vítimas. Nos processos crime, igualmente, a vítima é afastada dos processos e resta o debate entre a acusação e a defesa do arguido. Como diria Damásio, as emoções e a integralidade da humanidade são sistematicamente banidas pelos processos de modernização.

A moral, a distinção entre o bem e o mal, é oficialmente suspensa nas prisões. Os presos são, automaticamente, tratados como se fossem criminosos inatos e incorrigíveis, de modo que a sua legalmente desejável reintegração social se torna ainda mais difícil que antes de serem encarcerados. Os presos preventivos, apesar do princípio da presunção de inocência, são encarcerados nas mesmas prisões dos condenados, em condições muitas vezes piores. Os guardas são tratados como carrascos, mais ou menos piedosos, em nome do estado. Como me explicou um dia um tribunal, a violação de correspondência é crime, excepto se for realizada por uma entidade prisional. Ou, como me explicou um deputado, o uso da calúnia como arma política é admissível quando se trata de razões de segurança.

A manipulação ideológica das sociedades usa, de facto, a inversão da lógica hierárquica quando quer inverter a moral pública. Qualquer alto dirigente do Estado se transforma em representante do povo perante representantes de outros estados, num processo de identificação soberana entre súbditos e elites (AGAMBEN, 1998). Para consumo interno, os dirigentes optam por estar mais próximos de certas classes sociais do que de outras. Essa identificação, entre o povo e as elites, deixa de fora sempre os marginais, aqueles que, por vontade própria ou por impotência, não estão em condições de influenciar o poder, mas são instrumentalmente usados para expiar a imoralidade, como se os jogos de poder estivessem dela isentos. Deveremos dizer, com mais acuidade analítica e de modo controverso, que os presos são usados para desviar as atenções populares da imoralidade dos jogos de poder, em particular a irresponsabilidade impune de uma parte dos dirigentes.

Além do povo que suporta as elites, representados no triângulo com vértice para cima na Figura 1, há todo um magma de gente (que pode ser indicado pelo volume de não votantes em eleições) cuja organização negativa depende de diversas formas de controlo social (MARCUSE, 1991). O proibicionismo das drogas tem um papel central nessa organização, na medida em que permite construir, junto dos que não desenvolvem expectativas de vida positivas, a opção entre integrar um sistema de subordinação rotineira assalariada ou um sistema de economia paralela publicitado pelos traficantes e pelas polícias como excitante e bem remunerado (CHAVES, 1999).

Fig. 2: Representação da sociedade insegura. Fonte: O autor, 2018.

As prisões são um instrumento mais de controlo da população desorientada. São lugares propícios à subversão de valores morais dominantes em razão da desorientação provocada pelos obstáculos organizados à socialização básica (ZIMBARDO, 2007). Onde a moral dominante é invertida: o povo, nas prisões, está representado pelos guardas e a elite, pelos presos (o vértice do triângulo de baixo da Figura 1). Os reclusos têm o direito de ser servidos e os guardas, embora tendo os presos à sua mercê, devem servi-los. Esta inversão da lógica social comum (em vigor no triângulo de cima da Figura 1) isola, socialmente, as práticas penais de tal modo que se tornam difíceis de compreender. Como se diz, só tendo vivido numa prisão se pode perceber (sentir) aquilo que por lá se passa. Sendo muito difícil de acreditar para quem nunca lá viveu (LEVI, 2013:61).

No mundo inferior da Figura 1, imaginado como correspondendo à omnipresença da ameaça de uso arbitrário da violência, a moral inverte-se. Os crimes passam a ser legítimos, se forem cometidos por pessoas autorizadas, alegando a defesa da sociedade, a parte superior da vida, imaginariamente isenta de violência. Essas pessoas autorizadas são-no em nome do estado defensor do povo.

Os presos são a representação das mordomias das elites: aqueles que não querem trabalhar, que beneficiam de direitos (de arguidos) e do serviço de hotelaria prestado pelas penitenciárias (com custos várias vezes superiores ao salário mínimo), que decidem, em vez de se sujeitar à ordem das coisas, inventar vidas diferentes para satisfazer desejos de superioridade em relação às suas origens.

É claro e evidente, se se pensar racionalmente, que a lógica invertida é irrealista. Mas o pensamento das pessoas em sociedade é frequentemente irrealista e irracional. Para muita gente, os pobres terem televisão, ou automóveis, ou frigoríficos, ou sapatos de marca, ou telemóveis, causa sentimento profundo de ultraje. Ultraje que alimenta a ideia de que os pobres afinal são ricos e se aproveitam da solidariedade do Estado. Ultraje que alimenta também o valor do argumento político para impor aos pobres assistidos pelo Estado uma panóplia de testes de recursos e de comportamentos como se eles estivessem presos, embora fora das penitenciárias: as chamadas armadilhas da pobreza.

Os presos, nesta interpretação, representam quem desperdiça as perspectivas de viver numa sociedade de assalariados conformados, tentando abusar dos privilégios oferecidos para consumismo, estragando a vida às outras pessoas, cuja liberdade acaba quando choca com a liberdade dos outros. Os presos representam a elite invertida: servem de bodes expiatórios para redimir a insegurança da segurança de empregos que servem apenas de ganha pão. Quando é necessário, as prisões servem também para sacrificar membros das elites dissidentes ou caídos em desgraça.

7Notas finais

O estudo do desempenho moral das prisões modernas deve ter em conta o modo como os processos de hierarquização social, que desqualificam os presos, também desqualificam as ciências sociais, para fora das ciências naturais. A ruptura científica proposta por Damásio, de deixar de tratar do pensamento como autónomo relativamente aos corpos que o proporcionam, útil para a biologia e para as ciências sociais, abrindo-as para baixo e para cima dos campos de especialização habituais, permite às ciências sociais inquirir sobre a natureza humana sem perder de vista o livre arbítrio. Abre mais espaço para a compreensão científica sobre o desempenho moral das prisões modernas.

O alheamento daquilo que se passa acima e abaixo dos estratos das suas respectivas competências, no caso do senso comum, submisso relativamente às elites e desdenhoso relativamente aos prisioneiros, aos migrantes, aos nómadas, torna vulnerável a democracia e mais difícil a progressão do conhecimento. Cabe às ciências sociais evitar ficarem presas em tais armadilhas epistémicas.

A homeostasia produz espontaneamente, a nível social, um sentimento de insegurança que deve ser satisfeito recorrentemente, através da reflexão sobre o passado, a identidade de cada um, e a criação de expectativas, em particular sobre o extrato hierárquico social justo para cada um. A secundarização de soluções recticulares, geralmente submetidas por soluções hierárquicas, torna o isolamento social uma fonte suplementar de insegurança. Muita gente teme tornar-se dejectos humanos, por exemplo, se estiver doente de forma a não poder trabalhar. Aquilo que poderiam ser oportunidades de simbiose de diversidade humana, como acontece com as bactérias das nossas vísceras – a microbiota – tornam-se doenças sociais, como “despesas superiores às nossas possibilidades”, para o estado social e para o sistema financeiro.

As elites não escapam à insegurança. Decorre da incerteza da respectiva capacidade de manter privilégios. Estes, e a hierarquização que os autoriza, são admitidos socialmente em troca de responsabilidades sociais de direcção. Levadas a sério, tais responsabilidades podem levar ao sacrifício da vida das elites, em luta contra outras elites ou às mãos do povo (GIRARD, 1985). A experiência mostrou às elites a vantagem de separar as suas funções dirigentes da função de bodes expiatórios. Sempre que os riscos para a existência das sociedades se revelavam prementes, o que acontece a qualquer momento, como satisfazer os desejos de vingança-segurança das populações?

A arte da dominação evoluiu, primeiro pelas armas e depois por via económica, sempre abundantemente acompanhada por ideologias propícias para a construção de um espelho social que separa, virtualmente, a verdadeira sociedade (distinta, economicamente privilegiada, analisada pela história e pelas ciências sociais) da outra sociedade, a sociedade servil, estrangeira e/ou moralmente patológica (como as classes perigosas). Tal divisão admite ainda a preparação da outra sociedade para fins de satisfação dos desejos de retaliação, nomeadamente através do sistema de selecção social associado ao sistema criminal-penal.

Em termos nacionais, as ciências sociais, seguindo os senso comum, cercam a sociedade de sociedades estrangeiras e, internamente, de pessoas ou sociedades isoladas a requerer repressão/integração organizada pelos estados (KUHN, 2016). A resposta à insegurança ontológica, natural e ciclicamente em crise, pode ser dirigida pelas polícias e tribunais, com a ajuda dos trabalhadores sociais, para o sacrifício das classes perigosas.

Os nacionalismos, na Rússia, na China, nos EUA, na Turquia, na Hungria, e onde emergem, caracterizam-se por propor subordinar à força, sem diálogo, as partes que cumprem as funções inferiores das respectivas sociedades (descritas graficamente na Figura 1), representadas como estrangeiras (ou ao serviço do estrangeiro) para facilidade de manobra policial e ideológica. O que fazem, na verdade, é aumentar e dar prioridade a funções sociais repressivas instaladas pelos estados (como os campos de concentração de migrantes), sem crítica útil das ciências sociais. As ciências sociais auto-limitam-se a pensar a integração social, como se não houvesse repressão, elites fustigadas pela síndrome do bode expiatório e transferência desse risco para a parte inferiorizada das sociedades. Como se a sociedade e as evidências da sua existência fossem meramente expressivas e não biológicas.

Sem procederem à desconstrução epistémica dos segredos sociais, nas prisões e nas ciências sociais, das violências de estado a coberto de justificações de legitimidade, da satisfação dos sentimentos de retaliação de que sofrem as sociedades (sentimentos de insegurança) manipulada pela função penal do Estado, entre segredos e violências, as ciências sociais, tal como o senso comum, tornam-se submissos e incapazes de antecipar e de contribuir para a prevenção dos autoritarismos.

As gerações mais bem educadas de sempre, as de hoje, estão a revelar-se tão susceptíveis a apoiar a irracionalidade autoritária que toma paulatinamente conta dos estados como ocorreu, tragicamente, na primeira parte do século XX. As teorias sistémicas que concebem dogmaticamente fronteiras como muros estanques, nomeadamente entre a natureza e a sociedade, e, por isso, se recusam a tomar parte e a colaborar na construção de melhores conhecimentos sobre o que é o mundo, podem ser desresponsabilizadas?

Nota 1: Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Nota 2: Este texto beneficiou dos comentários de José Eduardo Gonçalves, a quem o autor agradece e desresponsabiliza, evidentemente, por todos os erros que o leitor encontrar.

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Cognitive limits of the social sciences and common sense

António Pedro de Andrade Dores

António Pedro de Andrade Dores is a sociologist, Doctor of Sociology. Researcher at Department of Sociology, ISCTE, University Institute of Lisbon, Portugal. He studies the personal and social instability of life as a counterpoint to the notion of social conflict as an occasional and sporadic rupture of social structuring.


How to quote this text: Dores, A. P. A., 2018. Cognitive limits of the social sciences and common sense. V!RUS, Sao Carlos, 17. [e-journal] [online] Available at: <http://www.nomads.usp.br/virus/virus17/?sec=4&item=4&lang=en>. [Accessed: 21 June 2024].

ARTICLE SUBMITTED ON AUGUST 28, 2018


Abstract:

The social sciences, like the common sense, have not been sufficiently emphatic in condemning the evil represented by the penitentiary system. The social sciences are averse to biologism, to the biological character of humanity; and to ideology, the way elites deceive submissive populations. Social theories end up integrating elites mission. António Damasio, with the biology of the mind as a starting point, challenges the social sciences to consider human nature: the emotional foundation which sustains consciousness, as different levels of existential reality based on the bodies and life that we are a result of. The scientific opening proposed by Damásio permits us to see the moral significance of modern prisons in a new light: how does the emotional background of sentences (retaliatory) supports the (good or bad) conscience (judicial and social) that institutionalizes the penitentiaries?

From a social sciences perspective, this article presents a critique of the theoretical foundations that underlie the epistemic and institutional difficulty of admitting and fostering collaboration between the social sciences and the natural sciences, participating in Damasio's critique of biological theory.

Keywords: Homeostasis, Prisons, Moral, Social theory, Hierarchy, Nature, Boarders



1Introduction

For seeing life is but a motion of limbs, [….] For what is the heart, but a spring; and the nerves, but so many strings; and the joints, but so many wheels, giving motion to the whole body” (Hobbies, Leviatã, 1650 cited in Federici, 2017, p.238, our translation).

The social sciences, like the common sense, have not been sufficiently emphatic in condemning evil represented by the penitentiary system or the atmospheric greenhouse effect. They place themselves at an intermediate level of reality, arresting themselves from thinking below it (the biological nature of societies and people) and above it (the legal and moral doctrines produced by elites). Inhibiting, in this process, the development of scientific thought and the capacity for intervention.

The social sciences are averse to biologism and to ideology, claiming the specificity of their object of study and the deontological limits of their method. The practical results of such a consensus are challenged by Antonio Damasio, who, with the biology of the mind as a starting point, defies all science, including the social sciences.

Damasio starts from a holistic understanding of the human being, denouncing Parsons and Harari for their cybernetic use of systems theory, avoiding the obvious presence of living people immersed in an environment, in combined evolution. Complexity, claims the first author, cannot be held hostage by prejudices about the false impermeability of the limits of the central nervous system. In this article we use the case of the prisons to, equally, disprove their impermeability and independence from the social environment of which they are part. Will social theory be able to participate self-critically, in collaboration and cooperation with the natural sciences, to create more opportunity for the development of better theories about the limits of systems?

2Schools, hierarchies and repression

August Comte (1864) proposed to consider the existence of a structural relationship between social evolution and the cognitive capacity and competence of people in society. His positive philosophy was an innovative way of organizing education, in an era in which, according to the creator of the term sociology, social conditions capable of sustaining rational and utilitarian thinking had never been achieved before. The teaching of positive philosophy should serve to spread the new knowledge, as a way to take advantage of the opportunity offered by social evolution to overcome metaphysics. To avoid partisan wars and political struggles, exhausting, violent and useless, to solve practical problems.

Even today, the idea of schooling as an antidote to violence and political madness has widespread acceptance. After the implosion of the Soviet Union, whose regime was inspired by Karl Marx's political battle for the end of the class struggle, through the creation of a new man educated for communism, school was perceived as existing outside of ideology and politics.

Schools and teachers suffer the responsibilities (and merits) of preventing social problems in general, from the control of sexuality and drug use, to crime and global warming. Charged with curbing social inequalities, neutralizing the practical effects of the different social origins of the students, teachers are expected to be able to minimize the dysfunctions of life in society (Wilkinson and Pickett, 2009).

In more and more countries, lengthy compulsory education, including the teaching of science, is a fact. It continues to seem clear that we should treat people who are the most qualified and of the right gender as human beings of first class (up to just a few years back, there was consensus as to how difficult it was for women to think well and act accordingly; that idea having since been discredited, women continue to be discriminated against in relation to men). Therefore, the educational system, besides constituting the hope of improving social functioning, is a way of justifying social hierarchization through educational merit, conditioned also to group, as in social class, including ethnicity and gender.

Schools develop and certify the cognitive skill levels of virtually everyone. The hierarchies of cognitive merit, ideally, should be homologous to the hierarchies of responsibility, influence, prestige and income. Sociology has identified organizational distortions of the institutional aims of schools (Bourdieu and Passeron, 1970): teachers, naturally, reproduce their own culture in the schools. They do not know and/or discriminate against other cultures, considered as ignorant or nonsensical, as a form of affirmation of their own cognitive competence, always on trial and in crisis (Bourdieu, 1979; Iturra, 1990a, 1990b).

Hierarchy also works between states, whose nations are stereotyped, as if they were people. Nationals of a given country can be treated, better or worse, as if all that nation’s citizens were equal (smart, skilled, rich, violent, or otherwise, according to the attributed national character). As is the case of the nationals of Nordic countries and African countries, or simply Nordic- or African-like people in Portugal. Some pretentiously seen as potentially superior and others as potentially inferior, in the hierarchy between countries attributed by the influence of ideas such as those of Max Weber (2005), on the moral superiority of Protestants, or those of colonialism, about white supremacy. The racist policies currently on the rise in Europe and the United States are precisely based on the alleged immorality of, in a liberal manner, mixing national and international hierarchies. For decades, the whole of European politics has exploited, both politically and judicially, this aspect of national cultures, constituting what is called institutional racism (Jakobs and Meliá, 2003; Palidda and Garcia, 2010).

Racist morality, therefore, argues that social and political dysfunctions will be exacerbated by the mixing of cultures, from forced assimilation in some cases and multiculturalism in others. The solution, for the racists, is the walls (penitentiaries, immigrant holding centers, ban on aid to foreigners, expulsion of foreigners) that make different cultures impermeable. This policy allows the most vulnerable groups of voters, by adhering to political racism, to feel and represent themselves as (internationally, imaginarily) superior to that part of the population that cannot vote (because they are not nationals), especially recent immigrant workers, still without the right to nationality, or, more broadly, all those that may be presented as inferior in the light of national hierarchies.

Explicit political racism is taking the ground manured by tacit and organizational racism. Eric Holder, the US Attorney General who served in the days of President Obama, questioned on the Late Show of the CBS television network in the last days of July 2018, acknowledged that it was true that the separation of immigrant children from their families was practiced when he had government responsibilities. Obama was the president of the United States that more immigrants deported. Holder pointed out that in his day, however, there was no official policy issued by the White House making such torturing separations of children a deterrent to immigration.

In previous mandates, institutional racism in the United States (including Guantanamo or Abu Ghraib (Butterfield, 2004) prevailed (against or not the will of the President.). With Trump, institutional racism won express support among the citizenship, as in the time of George W. Bush the torturers became an officially recognized profession. Also in Europe, before being accused of violating the human rights of immigrants, the police were already practicing racist policies officially and cooperated with the CIA, in the case of secret prisons.

What may the social sciences have to do with maintaining policies that are racist and violate human rights, in Western countries, particularly in prisons (Wacquant, 2000), and with the support those same constitute for the emergence of totalitarian regimes? Are the social sciences accomplices of the citizens' alienation from vigilance over repressive policies, professionally organized (Garland, 2001) or politically assumed, as is the case today with the rightist wave in various parts of the West?

3On the hierarchization in the sciences

Damasio (2017) criticizes Parsons for thinking of a society of systems without people with whole bodies when making sociology inspired by biology. Mouzelis (1995) notes how the epistemic bases of the North American classical sociologist are kept intact by his most qualified critics, influencing the social sciences in general. The process consists of reducing people and facts to statistics, to ideal types, to individuals parameterizable by surveys or interviews, but not biological. Hariri (2018), referring to the systems theories used in computer science, notes the emergence of a data religion, equally evident in the divided social sciences, specialized in disciplines and sub-disciplines without dialogue between, or knowledge of each other (Lahire). Concerning data production and the reductive operations that this entails, Mouzelis observes the recurrent practice of reifications. Sociologists do fill the data gaps with imagination, interpreting data in a rhetorically and ideologically satisfactory way. Kuhn (2016) refers to the same as an intellectual prison: he criticizes (pre)occupied and critically affirmative thinking, ideologically and professionally aligned with rival mentors and schools of thought, transforming the social sciences into a field of disciplines and sub-disciplines impermeable to each other and to the outside, in particular with respect to the natural sciences and biology. Lahire (2012) analyzes Pierre Bourdieu's field notion to note how it deals with power disputes, as if those involved had come out of nowhere: as if they had never been children and will never be old; as if, in the moment, it were not indispensable for them to care for their bodies and the personal and social identities with which they present themselves to their most intimate and close relations, with whom they are not in a position to dispute power. Therborn (2006) notes the practical results of these guidelines in the work that has been carried out, focusing on power issues, and exaggeratedly downplaying, for example, health and gender problems.

The situation, as this century begins, makes Antonio Damasio’s intervention, a neuro-surgeon philosopher and disseminator of science, particularly relevant. He, too, believes in education as the way of reforming the world. This on the condition that the ideas being imparted be more correct, more scientific, more humanistic. Namely, in the field of biology, it is necessary to rectify the ideologically developed ignorance that results in the disqualification of those dimensions of life considered inferior (the cells of the bodies of the higher animals, the bacteria living symbiotically in our viscera, the reticular non centralized nervous systems which evolutionarily precede the central nervous system, the emotions that drive the bodies and the animal and human minds, etc.). In the field of social sciences, the author recommends that the consideration of human life, at the core of our work, not continue be abandoned (Damasio, 2017), reminding us also of the road not taken in the dialogue between scientific and humanist cultures, since Lord Snow (1956) called it to our attention. A conversation which, even today, is arrested by accusations of the complicity of biology with Nazism (Sacarrão, 1982).

The naturalization of hierarchies, in biology as in the social sciences, ideologically oriented to avoid questioning the merit of higher biological and social organs, could be having cultural and organizational effects that may be favoring the success of political racism, as we will better see ahead concerning the social alienation/isolation of the prisons. Are schools and universities equipped to combat racism in Western cultures? Are biological and social researchers aware of the practical, cognitive, institutional and cultural effects of the lack of discussion of a better understanding of what may be naturally and ideologically, the levels of reality (Dores, 2005)?

4Reclaiming the sciences to the fight against discrimination

Damasio’s (1994) great battle is against the common idea, classically fixed by Descartes, of thought existing independently of the bodies. An idea that permits transhumanist fictions (Harari, 2018), namely based on the reduction of all natural phenomena to algorithms, such as those used in Artificial Intelligence, precisely presupposing that there is knowledge independent of bodies, as religions also teach about souls or spirits.

Transhumanism, as the hierarchizing religion, helps to diminish people before Technology or the Algorithm, as Deus-ex-machina. Humanity is, in its own eyes, under threat of replacement by artificial means, robots, methods of artificial reproduction, intimately invasive nanotechnologies, etc., at the service of capitalism.

Using the consumerist conception of pleasure, which is to keep the body as still as possible to serve as a material basis for all sorts of services and delivery of goods capable of animating the economy, transhumanism imagines the transfer of human intelligence to machines in such a way that people would stop thinking, out of dissipation. The emotions that are at bottom of the wars, and of torture, would cease to bother us, thus fulfilling Comte's dream of ending with politics – a dream that is currently shared by many people who feel of alienated or even repelled by politics. In this perspective, machines constitute a huge advantage because they are intelligent without being emotional, and without having political rights.

Doctors, aviation pilots, management consultants, military strategists, scientists, may all become dispensable if smart machines learn to learn. Unemployment would be widespread and, if the climate became inhospitable, the human species could go extinct that machines would be our inheritance for cosmic intelligence.

juxtaposed to transhumanism, the last step of Damasio's (2017) reflection in the field of biology shows that a) to the contrary of what happened in the first half of the twentieth century, evolutionary theory can now be a relevant ally in the struggle against the totalitarian tendencies that threaten the world; b) disciplinary specialization in the sciences, and their hierarchization, are obstacles to scientific work and to the combat of common-sense prejudices that science itself reproduces.

The Portuguese-American author insists that consciousness does not exist without body, although it is commonly represented outside the body. Homeostasis, presented in his earlier work as the virtual screen of a computer operated by the brain, a function capable of uniting the particular will of individual and relatively autonomous cells that orderly group themselves together to co-constitute a superior animal, is presented in a different way in this last job.

Homeostasis, besides being an immanence of life, of complexity proportional to the complexity of the bodies to which it is associated, is now presented also as an essence: the essence of life, just as gravity was the essence of the universe and matter to Newton. Homeostasis is the negantropic tendency that makes life different from inorganic chemistry. Homeostasis is the capacity for maintenance and projection in time of the existence of living organisms: it is the breath of life that invades the whole body, at the same time that it constitutes itself evolutionarily into consciousness.

Homeostasis involves life in an essence-immanence dialectic that traverses each living being. Admitting, the hypothesis that sociability is an integral part of how intelligent life is established (Damasio, 2017; Dores, 2005), there is an evolutionary enlargement between the basic levels of life (unicellular beings) and the attainment of experience of life at higher levels of complexity. Feelings of fear and the mystical eagerness to access higher levels of reality (Diel, 2004; Dores, 2011) can thus be treated as objects of study of the sciences, rather than only the humanities.

Homeostasis runs through the life of bacteria, to which many people still call disease microbes. It traverses the life of human beings, promoting the connection between the myriad cells that make up our bodies, and the even greater myriad of bacteria that live in a desirable symbiosis with our viscera, tissues, organs, physiological and anatomical systems, creating solidarity between them all under the banner of the survival instinct, including the instinct of reproduction capable of projecting into the future the experience of spent organisms. Homeostasis must also be considered, Damasio insists, in social studies, rather than insisting on the isolation between social phenomena and biological life.

Rational thinking, says Damasio, cannot dispense with the emotions of which it is the most sophisticated evolutionary expression. Higher beings are the how our viscera (organized by a reticular nervous system) have developed capabilities of self-protection vis-à-vis the environment and, at the same time, of transportation and procurement of food, using the cerebral-muscular-skeletal systems to that end. The progress of homeostasis, in the case of the human species, similarly to many other animal species, developed a brain capable of increasing the probability of persistence in time and projection into the future of (visceral) life. The specificity of our species caused thought based on languages to evolve, including the ability to use prostheses such as books, computers and the Internet. The autonomization of this thought relative to life, to the emotions, from where they emerged, is a religious idea much publicized, even in scientific circles. For this reason, Comte imagined that it was also possible to abolish political reasoning and emotions, in the same way that the anti-clericals were able to convince half the world that religion would be spontaneously extinguished by modernization, or, as it was imagined after the Second World War, that abolition of slavery would naturally lead to the abolition of prisons (Davis, 2005), and like now the transhumanists project to the future the discussions they want to avoid now, such as gender discrimination and racism.

5Human nature

The human species is characterized by its recursive mind (Corballis, 2011), by the possibility-necessity to represent time: a constituent past of embodied identities that are projected in, and nurtured by, a future of greater or lesses expectations. Corballis compares this unique human characteristic with a house of mirrors at a fair. It creates an infinity of mutually reflected images which serve as (dis)orientation for the individuals. Cultures are, therefore, particular, socially shared, means of dealing with the difficulties and potentialities of this human characteristic, which makes of us extraordinarily aware and adaptable beings.

The study of cultures, in turn, reveals larger, spectral-like complexities, such as those identified by Charles Cooley and later taken up by George H. Mead (Mead, 1930), known in the social sciences under the designation of self: The social construction of the identities of each person, in function of the respective sociabilities and types of interaction, susceptible to being hierarchically ordered (Bourdieu, 1979), on the sacrifices of many people (Peck, 2001; Scott, 2013).

Fig. 1: Social organization and self. Source: The author, 2018.

Social hierarchization, as Max Weber has noted, is positive and negative. There are people who live immersed in positive social environments, superior, better defended from the vicissitudes of existence. Just as there are people who are particularly vulnerable to nature and also to other people.

Damasio challenges the fact that, in biology, the study of the brain monopolizes the study of consciousness and intelligence. He protests the calling the nervous system that regulates the viscera the second brain, claiming that this system is the first in evolutionary terms. The second, centered in the brain, can only be formed starting from the first. It only makes sense because it serves it. More important than the hierarchization of the two nervous systems is that both are cohesively integrated in the same body. Body from which thought emerges, not from the brain but from the experience and sociabilities of the whole body, both in the moment and before.

The neuro-surgeon philosopher deals with social theory in a few lines:

Talcott Parsons [...] did invoke the notion of homeostasis in relation to social systems, but in his hands the concept was no connected to life or feeling. Parsons is actually a good exmple of the neglect of feeling in the concept of cultures. [...] unrelated to feelings or individuals (Damasio, 2017, p. 43 and 231, our translation).

The social sciences have mainly developed the study of power (the equivalent of a social brain organized in networks of sociabilities whose biological links may one day be better described if Damasian's proposals succeed (Dores, 2005)) neglecting the contribution of support given to the production of identities and expectations, especially that provided by the less valued parts of societies (Lahire, 2012; Therborn, 2006). Similarly, it can be said that prejudiced in the history of biology were the sociabilities and cultures that organize better and worse organisms, better and worse states of well-being, since such states are produced at the visceral level, which is taken as autonomous and irrelevant to the allegedly algorithmic functioning of the brain. To the disqualification of the homeostatic and social aspects of life in biology, corresponds the disqualification of normative and doctrinal knowledge, taken as immutable, natural, eternal, indisputable, and at the same time stigmatized as ideological, false, mere representations without material basis, in the social sciences.

Biology does not address or recognize the importance of immanent emotions or embodied sociabilities. The social sciences distance themselves from the study of the biological density of people, the repulsive biologism, and the ideologies, both idolized and fixed according to the Weberian formula of axiological neutrality. Biology and the social sciences prostrate themselves in admiration of what the common sense ideologies consider superior, namely, the brain and power, as one who looks to the Heavens for his roots. But, of course, the roots are reflected in the air but live under the soil.

Might we, in biology and in the social sciences, be like physics pre-Einstein? Newton discovered a mechanical algorithm, gravity. Unsuitable to explain, be it the Big Bang (the substance of matter), or the rise of matter to life. Einstein advanced into black holes and gravitational waves, which are far from responding to the essential problems, but which are a path for the elevation of knowledge.

In biology, as in the social sciences, the treatment of the brain, in one case, and of power struggles, in the other, as isolated and autonomous practices from the rest of the bodies (in particular of the nervous system from the viscera) and from societies (for example, prisons where prisoners are treated and identified as criminals) result in and are the result of moral guidance:

[...] pure intellectual processes lend themselves well to an algorithmic account and do not appear to be dependent on the substrate. [...] Once we would remove the current chemical substrate for suffering and its opposite, pleasure and flourishing, we would remove the natural grounding for the moral systems we currently have (Damasio, 2017, p.277, our translation).

The author addresses directly those who imagine/desire a future in which "a caste of superhumans ... treats ordinary humans in the same way that nineteenth-century Europeans treated Africans" (Harari, 2018, p.391, our translation). Indirectly, he refers to the strangeness caused today, even among biologists, by the fact that consciousness and thought are a result of the existential activity of a body, in its entirety, and not only of the action of the brain. Again indirectly, he refers to those who imagine the life of reason without emotion (Hirschman, 1997), which, in practice, is not possible.

"The history of human cultures is, to a large extent, the narrative of our resistance to natural algorithms through inventions that were not anticipated by those algorithms" (Damasio, 2017, p.279, our translation). Cultures are, at the same time, results and contributions to homeostasis, to the struggle of life for survival and projection in the future. Which makes us wonder why prisons are culturally isolated from the societies that promote and finance them, and without which societies could not exist? And the reason for the existence of cultural forms capable of confusing well-being and ill-being, pleasure and pain, power and violence, distributing some up and others down.

6The moral performance of prisons

Even as my hands are busy torturing, strangling, butchering, my heart shuts its eyes and, sincerely, weeps (Francisco Buarque de Holanda in Fado Tropical).

One important difference between Western culture at the beginning of the twentieth century and that which came to dominate after the war was the integration of the interests of the working class and of the workers at the center of political decision-making, through social coordination programs associated with party democracy, and the introduction of the universal vote, later also covering, in addition to workers, young people and women. The ideal of social integration, however, ran up against reality. The levels of economic inequality showed no signs of improvement (Piketty, 2013). Despite the best intentions, a social barrier between those at the top and those at the bottom persisted (Figure 1). Between the postwar and the present, the hobos and the dangerous classes, such as the workers, were gradually replaced, in the moralistic imagination, by the poor, drug addicts, immigrants and terrorists, all imagined to have reasons to commit crimes in order to accompany the economic success of the consumerist culture in the second half of the twentieth century (Merton, 1970).

Prisons up to the 1970s, while hope for social integration guided the state's social action (Garland, 2001), were thought of as remnants from the past of class struggle with a tendency toward abolishment. As Wacquant (2016) noted, at that time neither public opinion nor the intellectuals discussed the issue, for the number of prisoners declined steadily, the doctrine of human rights took hold, and, beyond technology and economics, the confidence in progress included an integrative morality, including the integration of the old colonial world into the community of nations and the right of access to consumer societies. The political shift, today known as neoliberalism, which replaced the post-industrial technological visions and the postmodern cultural visions, proved eager to make prisoners (Gilmore, 2007). However, the growth of penal activity, in its different social, policing, judicial and penitentiary aspects, was not flagged in the social sciences before the turn of the century, with Loïc Wacquant (2000).

The social and intellectual secret surrounding the evolution of prisons, and of the people excluded from postwar societies (Young, 1999), as if living in separate societies (Cunha, 2002), was and is one of the ways of social failure of the 21st century to take in account the signs of arising totalitarianism and prevent suffering that it entails. The promised social integration having failed, western societies, social sciences and common sense in tune with each other, used penitentiary secrecy as a sign of the political and moral irrelevance of what might happen in the prisons (including juvenile centers and detention centers for undocumented persons). To the point of the European states, in practice, simply ignoring the current European Prison Rules (Crétenot, 2014).

The irrational way in which, in daily life as in politics, the democrats too discard the close relationship between the practices of sovereignty, real and virtual, and penitentiary practices, is a sign of cognitive dissonance. When George W. Bush inaugurated the era of the global war against uncertain enemies to afford purpose to the US military-industrial complex, when I he proclaimed himself as world police, he also abandoned the moral precepts of respecting human rights. He inaugurated Guantanamo and exported torture to Abu Ghraib, heralding the Trump era: the era of post-truth, irrationality, global coalitions between right-wing extremists from around the world; the era of the political defense of concentration camps, allegedly to combat terrorism and illegal immigration. Let us rethink, in this light, what has been said and what is known about morality of prison.

In 1996, I accompanied a group of citizens who complained to the Portuguese prime minister about the state of prisons in the country. One of the members of the delegation asked the legal adviser who received us why a man with close relations to the fascist regime deposed in 1974, continued, after compulsory retirement age, at the head of the prison system, at the request of the state. The aide's response was even more surprising than the question, "Where do you want us to put them?"

To the mind of a Democrat, like our interlocutor, one of the appropriate places for the directorial work of fascists may be the prison system. A few months earlier, Marques Ferreira, then general director of the prisons, had gone to the television to say that the prisons were under the control of mafias (sic). Some days later, he declared that he would not be intimidated by death threats and, shortly after, ceased to be general director. The state never felt a need to clarify the matter, nor did the newspapers seek an answer for such a retreat before an invisible enemy.

The famous penitentiary secret, which refers to the extraordinary characteristic of, in the prisons, no one talking about what goes on in there, covers, with a transparent veil, unnatural alliances, particularly between illicit drug traffickers and authorities. Alliances that do no one can fail to notice, although it is not for that that they have any practical consequences; just as it happens with prison sentences. The clamorous failure of prohibitionist policies (Woodiwiss, 1988) ends up constituting an absurd and secret purpose of politics (AAVV, 2016), with popular acquiescence and resignation on the part of the social sciences.

There is, therefore, a homology between the difficulty of scientific reason to take into account what goes on behind the struggles for power, the so-called dirty work (Dores, 2017), and the difficulty of public opinion in reacting rationally to social secrets, that is, what everyone knows and is familiar with and, at the same time, everyone denies is happening (Cohen, 2013).

Early in the century, two of the founders of the Portuguese democracy, Mário Soares and Freitas do Amaral (2003), associated George W. Bush's policies with those of Hitler. They were accused of radicalism in the media and politically ignored, despite their great influence. That is the force of social secrecy surrounding state violence (Dores, 2014). Today, the fascist threat continues and evolves in ever more evident ways, in the USA and in several European countries, as a contagion that penetrates societies, by way of politics. The political participation of the common citizen remains low. In the intellectual field, recent best sellers by democracy nonbelieving authors appear (Brennan, 2017; Harari, 2018); democracy which, after the end of the Cold War, was imagined eternally assured with the abolition of ideologies and history.

The modern incorporation of the repulsion to violence in civilized people (Elias, 1990) transforms their/our imagination. Modern culture blocks the representation of the violent part of reality (Hirschman, 1997) in a way that has become spontaneous, with the success of modern ideologies. The social sciences do not escape the phenomenon (Malešević, 2010; Wieviorka, 2005). What is manifestly negative, such as institutional racism and torture in the criminal justice system, or the violation of the human rights of migrants, is ignored by public opinion and by the judiciary, as if it were a technical problem to be overcome at any time.

That image inducing of a concept of authority at the same time threatening and protective, torturing and ordering, like the biblical God, corresponds to a hierarchization of qualifications. In biology, the first brain (which regulates the viscera in a reticular way) is considered as nonexistent or secondary, when it is the first in the order of evolution. In society there are also people who go to the city and forget about rural ancestry. In morality, whatever is higher – biologically or socially – must be protected, under threat of threatening the whole complex edifice resulting from the evolutionary process. Senior state dignitaries, for example, come together to make important decisions, and we all know that when human rights questions are raised, it is for reasons other than obtaining protection for the lives of the victims. In criminal proceedings, too, the victim is removed from the proceedings to leave the debate between the prosecution and the defense of the accused. As Damásio would say, the emotions and the integrality of humanity are systematically banished by the processes of modernization.

Morality, the distinction between good and evil, is officially suspended in prisons. Inmates are automatically treated as if they were innate and incorrigible criminals, so that their legally desirable social reintegration becomes even more difficult than before they were imprisoned. Pretrial detainees, despite the principle of presumption of innocence, are imprisoned in the same prisons as the convicted, under conditions that are often worse. The guards are treated as executioners, more or less merciful, in the name of the state. As one court explained to me once, opening someone else’s correspondence is a crime, unless it is done by a prison staff. Or, as a member of Parliament explained to me, the use of slander as a political weapon is permissible when security reasons are the motivation.

The ideological manipulation of societies uses, in fact, the inversion of the hierarchical logic when it wants to invert public morality. Any high leader of the state transforms into a representative of the people before representatives of other states, in a process of sovereign identification between subjects and elites (Agamben, 1998). For internal consumption, leaders choose to be closer to certain social classes than to others. This identification between the people and the elites, always leaves out the marginals, those who, of their own will or due to impotence, are not in a position to influence power, but are instrumentally used to atone for immorality, as if the games of power were exempt from it. We should say, with more analytical accuracy and controversially, that prisoners are used to divert popular attention from the immorality of games of power, in particular the inconsequent irresponsibility of a part of the leaders.

In addition to the people who support the elites, represented in the upper triangle in Figure 1, there is a whole sea of people (which can be indicated by the volume of non-voters in elections) whose negative organization depends on various forms of social control (Marcuse, 1991). Drug prohibitionism plays a central role in that organization, in the measure that it allows the construction, among those who do not develop positive life aspirations, to choose between integrating a system of paid routine subordination, or a system of parallel economy advertised by traffickers and police officers as exciting and well-paid (Chaves, 1999).

Fig. 2: Representation of the insecure society. Source: Tthe author, 2018.

Prisons are another instrument of control of the disoriented population. They are places favorable to the subversion of dominant moral values due to the disorientation caused by deliberate obstacles to basic socialization (Zimbardo, 2007). Where the dominant morality is inverted: the people, in prisons, are represented by the guards and the elite, by the prisoners (the vertex of the lower triangle of Figure 1). Prisoners have the right to be served, and guards, while having prisoners at their mercy, should serve them. This inversion of the common social logic (in effect in the upper triangle of Figure 1) socially isolates penal practices in such a way that they become difficult to understand. As it is said, only having lived in a prison can one understand (feel) what happens there. Being very hard to believe for anyone who has never lived there (Levi, 2013).

In the lower world of Figure 1, imagined as corresponding to the omnipresence of the threat of the arbitrary use of violence, morality is inverted. Crimes become legitimate, if they are committed by authorized persons, claiming the defense of society, the upper part of life, imagined without violence. Those authorized persons are so in the name of the state, defender of the people.

Prisoners are the representation of the advantages of the elites: those who do not want to work, who enjoy the rights (of defendants) and of the hotel services provided by penitentiaries (with costs several times higher than the minimum wage), who decide, instead of subjecting themselves to the order of things, to invent different lives to satisfy desires of superiority in relation to their origins.

It is clear and obvious, if one thinks rationally, that the inverted logic is unrealistic. But the thinking of people in society is often unrealistic and irrational. For many people, the poor having television, or automobiles, or refrigerators, or brandname shoes, or mobile phones, causes deep feelings of outrage. An outrage that feeds the idea that the poor are rich after all and take advantage of the solidarity of the state. Outrage that also feeds the value of the political argument to impose on the state-assisted poor a panoply of tests of resources and behaviors as if they were imprisoned, albeit outside of penitentiaries: the so-called poverty traps.

The prisoners, in this interpretation, represent those who waste the prospects of living in a society of conformed wage earners, trying to abuse the privileges offered for consumerism, spoiling the lives of others, whose freedom ends when it comes up against the freedom of others. The prisoners represent the inverted elite: they serve as scapegoats to redress the insecurity of job security that serves only to feed basic needs. When necessary, prisons also serve to sacrifice members of dissident or fallen elites.

7Final notes

The study of the moral performance of modern prisons should take into account how social hierarchization processes, which disqualify prisoners, also disqualify the social sciences from the natural sciences. The scientific rupture proposed by Damasio, of ceasing to treat thought as autonomous with respect to the bodies that make it possible, useful for biology and for the social sciences, opening them upward and downward of the usual fields of specialization, allows the social sciences to inquire about human nature without losing sight of free will. Opens up more room for scientific understanding of the moral performance of modern prisons.

The alienation from what goes on above and below the strata of their respective competences, in the case of the common sense, submissive to the elites and contemptuous of prisoners, migrants, nomads, makes democracy vulnerable and the development of knowledge more difficult. It is up to the social sciences to avoid getting stuck in such epistemic traps.

Homeostasis spontaneously produces, at a social level, a feeling of insecurity that must be satisfied repeatedly, by reflecting on the past, the identity of each one, and the creation of expectations, in particular on the just hierarchical social level for each one. The secondarization of reticular processing, usually submitted by hierarchical processes, makes social isolation an additional source of insecurity. Many people fear becoming human waste, for example, if they are sick so that they cannot work. What could be opportunities for symbiosis of human diversity, as happens with the bacteria in our viscera – the microbiota – become social diseases, such as "spending beyond our means", to the welfare state and to the financial system.

Elites do not escape insecurity. For them it stems from the uncertainty of their ability to old on to privileges. These, and the hierarchization that makes them possible, are admitted socially in exchange for social management responsibilities. Taken seriously, such responsibilities can lead to the sacrifice of elites' lives, in the fight against other elites or at the hands of the people (Girard, 1985). Experience has taught the elites the advantage of separating their leadership roles from the scapegoat function. Whenever the threats to the existence of societies prove to be pressing, which can happen at any moment, how to satisfy the wishes of revenge-security of the populations?

The art of domination evolved, first by arms and then by economic means, always abundantly accompanied by ideologies conducive to the construction of a social mirror that separates, virtually, the true society (distinct, economically privileged, analyzed by history and social sciences) from the other society, the servile, foreign and/or morally pathological society (like the dangerous classes). This division also admits the preparation of the other society for the purpose of satisfying desires for retaliation, namely, through the social selection system associated with the criminal-penal system.

In national terms, the social sciences, following the common sense, surround society with foreign societies and, internally, with isolated individuals or societies requiring repression/integration organized by the states (Kuhn, 2016). The response to the ontological insecurity, natural and cyclically in crisis, can be directed by the police and courts, with the help of social workers, resulting in the sacrifice of the dangerous classes.

Nationalism in Russia, China, the USA, Turkey, Hungary, and where it emerges, is characterized by the proposal to subordinate by force, without dialogue, those parts which perform the inferior functions of their respective societies (described graphically in Figure 1.), represented as foreigners (or in the service of foreigners) to facilitate police and ideological maneuvering. What they do is actually increase and prioritize repressive social functions set up by states (such as migrant concentration camps) without any useful criticism of the social sciences. The social sciences limit themselves to considering social integration, as if there were no repression, elites tormented by the scapegoat syndrome, and the transference of that risk to the lower part of societies. As if society and the evidence of its existence were merely expressive and not biological.

Without proceeding to the epistemic deconstruction of social secrets, in the prisons and the social sciences, of state violence under the guise of legitimacy, of the satisfaction of the feelings of retaliation suffered by societies (feelings of insecurity) manipulated by the penal function of the State, between secrets and violence, the social sciences, like the common sense, become submissive and incapable of anticipating and contributing to the prevention of authoritarianism.

The most educated generations ever, today's, are proving so susceptible to supporting the authoritarian irrationality that gradually takes over the states as so tragically happened in the first part of the twentieth century. Are the systemic theories that dogmatically conceive borders as impermeable walls, namely between nature and society, and therefore refuse to take part and to collaborate in building better knowledge about what the world is, free of responsibility?

Note 1: This text benefited from the comments of José Eduardo Gonçalves, whom the author thanks and frees, of course, from any responsibility for any errors the reader may encounter.

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