Coautoria urbana: conflitos entre corpo e cidade-imagem

Gabrielle Rocha

Gabrielle Rocha é arquiteta. Pesquisadora do Laboratório de Intervenções Temporárias e Urbanismo Tático, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Estuda fotografia e intervenções urbanas temporárias e/ou permanentes em menor escala.


Como citar esse texto: ROCHA, G. Coautoria urbana: conflitos entre corpo e cidade-imagem. V!RUS, São Carlos, n. 17, 2018. [online] Disponível em: <http://www.nomads.usp.br/virus/virus17/?sec=4&item=7&lang=pt>. Acesso em: 21 Mai. 2024.

ARTIGO SUBMETIDO EM 28 DE AGOSTO DE 2018


Resumo

O presente artigo tem como objeto de estudo a coautoria da cidade, ou seja, a compreensão sobre como certos seres/grupos criam novas cidades através da reversão do uso previamente pensado para elas. Este uso, proposto pelo capital, cria as “cidades-imagem”, que são mercantilizadas e controlam a espontaneidade do corpo do cidadão, o qual se vê constantemente impedido de apropriar-se delas. Ao ter este uso revertido, um conflito é criado entre a cidade e o corpo, gerando assim, a ideia de coautoria urbana. Dessa forma, ser coautor é responder à desigualdade através de sua colaboração na construção de cidade, participando ativamente com seu corpo como instrumento de resistência. Neste artigo, é trabalhado este conflito a partir dos conceitos de espetáculo e imagem em contraposição às corpografias urbanas (JACQUES, 2009), o que leva à coautoria através das maneiras de fazer (CERTEAU, 2014) e da comunalização (HARVEY, 2014).

Palavras-Chave: Coautoria, Espetáculo, Corpo, Cidade-imagem, Coautores



1Introdução

As cidades têm sido construídas, historicamente, carregando certa tendência à homogeneização e à elitização dos espaços, em detrimento da diversidade dos seres, que são parte fundamental da mesma, levando à exclusão de determinadas camadas sociais. Esta cidade espacialmente excludente, unida à falta de políticas que toquem suas partes mais necessitadas, gera respostas quase involuntárias de seus habitantes, como a apropriação espontânea do espaço público (Figura 1), ou voluntárias, como intervenções artísticas (Figura 2). Estas respostas podem ser lidas como outras camadas de cidade, de forma que, através da reação e da formação de novas cidades, estes habitantes se tornam coautores da mesma, colaborando em suas construções, tanto físicas quanto sociais.

Fig. 1: Piscina em uma rua da Favela Rio das Pedras. Fonte: Autora, 2017.

Fig. 2: Criança brinca em intervenção temporária no Campo de Santana. Fonte: Autora, 2017.

Ser coautor da cidade é ser parte e compartilhar a criação dos espaços e das situações, de forma material ou imaterial, pacífica ou belicosamente. Os coautores são aqui compreendidos como atores que constituem grupos como governo, empresas, urbanistas, cidadãos formais, cidadãos marginalizados, ativistas urbanos, etc.. Estes grupos coautores trabalham juntos para a formação de um todo urbano, onde cada um, através de sua participação, que pode ter escalas diversas, cria encaixes entre diferentes grupos, cria sobreposições. Tais ações geram conflitos urbanos, especialmente entre os que detêm algum poder político e/ou econômico e os menos favorecidos. Neste artigo, será trabalhado um destes conflitos, ou seja, o que acontece entre “corpo” e “cidade-imagem”. Para tal, são comentados alguns conceitos relacionados ao corpo, em seguida, são trabalhados conceitos que constroem essa cidade - a imagem relacionada ao capital, o espetáculo - e, finalmente, trabalha-se o conflito. Por fim, chega-se ao conceito de coautoria, que se desdobra nas “maneiras de fazer” (CERTEAU, 2014) e na ideia de “comuns” (HARVEY, 2014), que não são alheios ao processo de capitalização da cidade.

2O corpo

cor.po (FERREIRA, 2009, p. 556):
Anat. A substância física, ou a estrutura, de cada homem ou animal.
8. A pessoa, o indivíduo.
28. Filos. Parte dos seres vivos que é o suporte da alma ou do espírito.

Corpo é matéria, é o ponto que tange a alma e o mundo, o interior e o exterior do ser, o desejo e a ação. O corpo na cidade é matéria viva que a transforma e que se vê transformada pela mesma, molda o espaço e é moldada (Figura 3). O corpo mostra e cria distâncias, desloca-se, aproxima-se, distancia-se. O corpo é um meio de expressão, de resistência e de arte, através de sua presença (Figura 4). Assim, “pensar o corpo, hoje, é pensar suas performances, numa visão que o contemple como um dos elementos constitutivos do amplo universo semiótico, em que se produzem as subjetividades” (VILLAÇA, 2009, p. 35).

Fig. 3: O corpo se apropria de equipamentos no Boulevard Olímpico, torna o espaço vivo e torna-se mais vivo através da diversão criada para si. Fonte: Autora, 2017.

Fig. 4: Massa formada por corpos diversos com o intuito de expressão política e resistência, durante a apuração das eleições municipais, na Cinelândia. Fonte: Autora, 2016.

Matesco (2009) discute a suposição de uma virtualização destas subjetividades quando se tem a noção de corpo, e que sua tangibilidade só será real ao incorporar uma obra (no caso, de arte). E se esta obra é a cidade, sua exploração e sua incorporação não tornariam também nossa subjetividade tangível? O lugar que escolhemos para circular (este ou aquele caminho), nosso comportamento, nossas ações (sentar-se neste ou naquele banco, na grama, no meio-fio, em um balizador de concreto, ou não sentar-se), a direção do nosso olhar, tudo torna visível, mesmo que indiretamente, as subjetividades de cada corpo, mostrando o que somos, e mostrando que a percepção de cidade é afetada pelo pensamento e pela experiência que cada corpo carrega.

Ou seja, ao se estudar estas subjetividades, pode-se estudar o corpo, o que leva à compreensão de “[...] memórias corporais resultantes da experiência do espaço [...]” e à apreensão de “[...] memórias espaciais registradas no próprio corpo através das experiências urbanas” (JACQUES, 2009, p. 131). Este corpo está inserido em um meio, o meio urbano, possuindo uma corpografia única, associada a uma coreografia. Segundo Jacques, corpografia urbana é a “cartografia realizada pelo e no corpo, ou seja, [...] parte da hipótese de que a experiência urbana fica inscrita [...] no próprio corpo daquele que a experimenta, e dessa forma também o define, mesmo que involuntariamente [...]” (2009, p. 130); coreografia é o “[...] projeto de movimentação corporal, ou seja, projeto para o corpo realizar [...]” (2009, p. 131). Uma coreografia é feita cada vez que nosso corpo explora a cidade, e essa experiência cria uma nova corpografia nele, ao mesmo tempo em que pode ser modificadora do desenho urbano. Nestas novas corpografias, segundo Jacques (2009), a forma de inscrição das experiências é determinada pela intensidade e pela temporalidade.

Assim, as coreografias, apropriações e modificações criadoras de novas cidades podem iniciar-se simplesmente com a presença do corpo, com o estar ali, não tendo, necessariamente, algum material físico extra que o apoie e o prolongue. Entende-se que esta escala está ali e que, por si só, modifica o lugar ou se apropria dele de forma diferente daquela pensada oficialmente ou não. Jacques defende que, quando percorridos, os espaços são experimentados pelos praticantes da cidade e estes “[...] lhe dão ‘corpo’ pela simples ação de percorrê-los” (2009, p. 132). Mas também é possível a apropriação do corpo portado de instrumentos, tanto materiais quanto imateriais. Estes instrumentos, segundo Certeau (2014), acrescentam ou tiram algo do corpo, e fazem com que eles estejam submetidos a normas.

Entretanto, como coloca Villaça, atualmente há um “[...] excesso de controle sobre a produção de nossa corporeidade, seja através de intervenções médicas, seja através de intervenções de toda sorte, em busca da perfeição publicitária [...]” (2009, p. 7), e esse controle está presente também nas formas de se ocupar a cidade, quaisquer que sejam, justamente porque, ao agir de forma inesperada, o corpo tem grande poder, o que causaria uma desconjunção da cidade imposta, como será colocado adiante.

Assim, o corpo, ao apropriar-se de um espaço, gera a vida, troca e interação, mesmo que seja somente através do olhar, e seu movimento gera uma fluidez sólida. Ou seja, compreende-se que o espaço estável, sem apropriação ou vida, é rígido e estático, e é uma imagem.

3A cidade-imagem (Sacralização dos espaços)

3.1 A imagem e o Capital

i.ma.gem (FERREIRA, 2009, p. 1072):
[Do lat. imagine.]
7. Representação exata ou analógica de um ser, de uma coisa; cópia.
9. Representação mental de um objeto, de uma impressão etc.

sa.cra.li.zar (FERREIRA, 2009, p. 1788):
[De sacro (1) + -al- + -izar.]
V. t. d. 1. Atribuir caráter sagrado a.

A imagem é lida, apreciada, talvez interpretada, fazendo com que a interação entre ela e o espectador seja fisicamente passiva. Certeau (2014) escreve sobre a passividade presente na leitura de forma geral, colocando-a como ponto máximo, seja quando é sobre a imagem ou sobre o texto. Assim, entende-se que esta passividade é cômoda e palatável, o que facilita seu uso como instrumento pelo capital.

Dessa forma, o capital pode vender, através da imagem, uma ilusão, uma aparência, algo a ser mostrado. Segundo Debord, “o consumidor real torna-se consumidor de ilusões. A mercadoria é essa ilusão efetivamente real, e o espetáculo é sua manifestação geral” (2017, p. 57). Esta venda através da imagem surge em projetos arquitetônicos e urbanísticos onde “a imagem urbana se torna sintética, isto é, pretensamente capaz de exprimir de modo convincente a ideia de uma cidade única e indivisa” (LIMA, 2017, p. 10). Como expôs Raquel Rolnik, para o capital se colocar, os produtos arquitetônicos e urbanísticos devem ser produtos reconhecíveis. Ou seja, vê-se, em qualquer cidade que tenha sofrido sua própria “venda”, as mesmas torres envidraçadas (informação verbal)1, museus, etc., de forma que estes produtos reconhecíveis são imagens a serem consumidas (Figura 5).

Fig. 5: O Museu do Amanhã e a Praça Mauá são exemplos de imagens extensivamente vendidas antes dos Jogos Olímpicos de 2016, sacralizadas pelo governo municipal. Fonte: Autora, 2015.

A cidade limitada e imposta pelo capital existe de formas diferentes e é vista e/ou apropriada de formas diferentes. Tudo depende de como sua imagem se coloca e é vendida, de quem tem o poder de adquiri-la, e de como fazê-lo.

3.2 Cidade-imagem

A cidade-imagem é o espetáculo que é apresentado a uma plateia e não vivido por ela. É a representação de uma falsa realidade, onde “como vedete, o agente do espetáculo levado à cena é o oposto do indivíduo, é o inimigo do indivíduo nele mesmo tão evidentemente como nos outros” (DEBORD, 2017, p. 43). Ao partir do princípio de que a cidade é vivida e constituída pelos corpos que a habitam, o cenário construído pelo capital, que a transforma em mercadoria, é aniquilador das relações entre as próprias pessoas, e delas consigo mesmas. Mesmo a qualidade de vida se torna mercadoria, de forma que não haja vida, somente a estaticidade proveniente da reprodução de projetos mortos. Assim, a cidade-imagem acaba sendo criada pelo urbanismo que, segundo Debord, “[...] é a tomada de posse do ambiente natural e humano pelo capitalismo que, ao desenvolver sua lógica de dominação absoluta, pode e deve agora refazer a totalidade do espaço como seu próprio cenário” (2017, p. 136, grifo do autor). Villaça defende que “[...] no Renascimento, é o devoto que contempla a imagem feita pela mão do homem. Daí surgir a noção de obra de arte e de autoria” (2009, p. 35). A cidade-imagem é obra com sua autoria concentrada em poucos, onde não há consideração sobre para quem foi feita e, sim, contemplação vazia.

3.2 O espetáculo

A cidade-imagem, na condição de cenário, é parte de uma encenação, tornando-se algo espetacular. Assim, o espetáculo é simbiôntico a essa cidade, pois é ele que a cria e, ao mesmo tempo, ela o alimenta. Ele é a relação entre pessoas tendo sua mediação por imagens, mas que, a partir do momento em que acumula capital, torna-se imagem (DEBORD, 2017).

A cidade-imagem, em condição de espetáculo, alimenta o morto, o parado, tornando também morta a consciência, o que faz com que ações no urbano, mesmo que excludentes, sejam digeridas facilmente. Portanto, resta somente a contemplação a essa cidade superficial, não vivida e alienada, onde o espetáculo faz com que a ideia entre verdadeiro e falso fique embaçada ao olhar devido à “[...] presença real da falsidade garantida pela organização da aparência” (DEBORD, 2017, p. 164, grifo do autor). Quando não se entende a realidade, tende-se a criar outras realidades paralelas, que poderiam ser chamadas falsidades paralelas, que são alimentadas pelo espetáculo e pelo capital. Estas falsidades paralelas também são alimentadas por interlocutores fictícios que as apresentam de acordo com a mercadoria a ser vendida, e que são os únicos conhecidos, segundo Debord, pela “[...] consciência espectadora, prisioneira de um universo achatado, limitado pela tela do espetáculo, para trás da qual sua própria vida foi deportada [...]“ (2017, p. 164, grifo do autor).

Debord (2017) defende que, a partir do momento em que a economia teve pleno domínio sobre os seres, o espetáculo os domina. Assim, sabe-se que a mercadoria é promotora do espetáculo e domina de tal forma a vida que é quase impossível desvincular-se dela (DEBORD, 2017), e esse domínio estende-se a todas as esferas. Ou seja, a cidade-imagem, em sua condição de mercadoria, também detém este domínio sobre a vida social e sobre a organização dela. A possibilidade de encontros e trocas entre pessoas é delimitada geralmente por classes, e não democraticamente, precisando acontecer da forma estipulada pelo poder e entre pessoas que detêm esse poder, fazendo com que exista um combate à abolição destas classes e da sociedade do espetáculo. Além disso, a cidade-imagem também tem seus lazeres vendidos e é, ela mesma, um destes lazeres, o que promove seu próprio consumo, tornando-a banal, através, por exemplo, do turismo. Além disso, há também a gentrificação2 urbana, onde ocorre uma mudança no visual e na impressão/percepção de lugares, provavelmente antes marginalizados, e que agora se tornam elegantes, refinados, aptos para serem consumidos por quem pode consumir. Os que antes os consumiam não podem mais fazê-lo, ou não são bem-vindos à fazê-lo.

A constante geração de novos produtos pelo capitalismo torna os anteriores velhos e inúteis, fazendo com que sua obsolescência crie um esquecimento coletivo sobre épocas passadas. Sendo a cidade-imagem um destes produtos renováveis capitalistas, o esquecimento do passado é uma de suas características, onde deve-se limpar e criar o novo, sem pensar nas existências e nos acontecimentos prévios, especialmente no que se relaciona às pessoas. Ou seja, esta cidade permanece na nova superfície criada, que pode ser substituída por outra. Ela é substituída e não sobreposta, pois a sobreposição pressupõe algum toque entre superfícies, ao contrário do que é proposto aqui, o que transmite a ideia de constância e perpetuidade.

4O conflito

A imagem deve ser bela, segundo padrões pré-estabelecidos, agradável e limpa, do contrário não "vende". Por isso, ela é congelada e tornada sagrada, onde qualquer obstrução é proibida. Assim, há um molde no comportamento do corpo que suprime sua espontaneidade, de forma que “os lazeres comercializados, industrializados, organizados institucionalmente, destroem essa ‘naturalidade’ da qual as pessoas se ocupam a fim de traficá-la e trafegar por ela” (LEFEBVRE, 2004, p. 116).

O espaço acaba sendo utilizado da forma para a qual foi projetado, com certo condicionamento e controle impostos, sendo o ser “[...] a vedete do espetáculo. A condição de vedete é a espacialização de vivido aparente” (DEBORD, 2017, p. 64). Este “controle” pode tornar um local mais seguro para certas classes, mas, ao mesmo tempo, pode ser excludente para outras, além de tornar o espaço e as próprias pessoas estáticas, de forma que “a cidade historicamente formada não vive mais, não é mais apreendida praticamente. Não é mais do que um objeto de consumo cultural para os turistas [...], ávidos de espetáculos [...]” (LEFEBVRE, 2004, p. 106).

Certeau escreve que “O corpo se repara. Educa-se. Até mesmo se fabrica” (2014, p. 213). Assim, a estaticidade se conecta à citada sacralização dos espaços, tendo em uma reação ou apropriação inesperada, uma profanação espacial, “um pecado” que merece ser punido ou prevenido, para que a imagem continue “bela e estática”, limitando, educando e reparando o corpo que ali existe. Bancos anti-morador de rua (LETTIERE, 2017) e pequenos jatos de água em marquises (BRITO, 2017) são exemplos reais de punição e prevenção ao pecado da ocupação do espaço público. Certeau usa Foucault3 para relacionar a vigilância e os exercícios de poder, colocando a necessidade de se entender como a sociedade não deve ser limitada por essa vigilância, explicando que “[...] procedimentos populares [...] jogam com os mecanismos da disciplina e não se conformam com ela a não ser para alterá-los [...]” (2014, p. 41), e completa defendendo que é necessário compreender o lado dos consumidores, através de suas “maneiras de fazer”, que são “[...] processos mudos que organizam a ordenação sociopolítica” (2014, p. 41).

Assim, a cidade-imagem sacralizada e espetacular é burocrática, impositora de barreiras em sua forma de apropriação, sendo uma delas a compra e a venda do espaço, que faz com que somente determinadas parcelas da sociedade possam transpassar a burocracia. Harvey coloca que a riqueza distribuída de forma polarizada inscreve-se na forma das cidades construídas que “[...] cada vez mais se transformam em cidades de fragmentos fortificados, de comunidades muradas e de espaços públicos mantidos sob vigilância constante” (2014, p. 48).

Esta burocracia é um instrumento que escreve as leis sobre o espaço e, consequentemente, sobre os corpos que ali habitam/ocupam, entendendo-se que “Não há direito que não se escreva sobre corpos. [...] Do nascimento ao luto, o direito se ‘apodera’ dos corpos para fazê-los seu texto” (CERTEAU, 2014, p. 210). Certeau aborda a existência deste e de outros instrumentos que escrevem as leis, como o cassetete e as algemas, que "[...] compõem uma série de objetos destinados a gravar força da lei sobre o seu súdito [...]” (2014, p. 211). Porém, é preciso se considerar a necessidade de equilíbrio entre o que é imposto e o que se quer realmente fazer no espaço, entendendo-se que é necessário algo que seja mediador da relação entre a lei a ser inscrita e os corpos (CERTEAU, 2014). Assim, deve-se perceber a existência de instrumentos que trabalhem o corpo (CERTEAU, 2014) e estes devem ser considerados de maneira a se respeitar os anseios no momento da ocupação dos espaços.

A cidade-imagem também é um espaço capitalista unificado ou, como colocado, aparentemente unificado onde, a partir do momento em que, por exemplo, um determinado grupo não atinge o nível de poder consumir essa cidade da maneira imposta, como os moradores de rua, este se torna um grupo à parte, reforçando a divisão existente espacial e socialmente. Além da unificação capitalista gerar divisões, ela é, segundo Debord, “[...] um processo extensivo e intensivo de banalização” (2017, p. 135, grifo do autor). Esta banalização leva à estaticidade, à sacralização do espaço e a certa monotonia, que só é quebrada a partir do momento do conflito criado pelo corpo que quer utilizá-lo, o que gera novas formas de se criar a cidade (Figura 6).

Fig. 6: Os mergulhos na Baía de Guanabara tornaram-se habituais após as obras para os Jogos Olímpicos. Entretanto, esta reversão do uso foi noticiada na época da reinauguração do local como “desordem”4, o que comprova a sacralização do espaço, entendendo-se que essa forma de apropriação não interfere negativamente nem desrespeita nenhum outro usuário do espaço, além de não degradar nenhum equipamento novo instalado. Porém, a simples presença daquelas pessoas, juntamente com um ato que subverte o uso controlado, é responsável pela criação de um imaginário onde elas se tornam perigosas, e onde essa informalidade no uso do espaço torna-se algo marginal e perigoso. Fonte: Autora, 2015.

5A coautoria

Segundo La Varra5, o espaço público é “[...] um conjunto de comportamentos que cristalizam um lugar que não tem necessariamente uma natureza jurídica pública, mas que tem a capacidade de oferecer, a seus potenciais habitantes, a estrutura para um ato coletivo de partilhar, ainda que temporário” (2008, p. 180). Assim, entende-se que os diferentes comportamentos e formas de atuar compartilhados são formadores do espaço. Compartilhar é, ou deveria ser, o grande elo da construção urbana.

Por isso, mostra-se fundamental, para o entendimento das relações entre coautores e cidade, a compreensão de que “[...] a produção de espaço e dos monopólios espaciais tornam-se parte integrante da dinâmica de acumulação [do capital] [...]” (HARVEY, 2014, p. 92). Desde Haussmann, o excedente de capital é direcionado e absorvido pelas grandes obras urbanísticas, especialmente pelas que favorecem uma minoria da população. Ou seja, há uma urbanização do capital que faz com que o processo de se criar cidades seja dominado por uma determinada classe, geralmente imbricada a poderes de grandes empresas e/ou políticos, podendo ser também a forma de um governo deixar uma marca naquele local em que atua. Esta marca pode produzir a expulsão de pessoas ou culturas que não se adequem a ela (HARVEY, 2014).

Devido às singularidades de cada camada e seus respectivos coautores, somada à imposição do capital e dos detentores do poder, os conflitos no meio urbano são cada vez mais intensos e excludentes, levando à não percepção da existência desta coautoria e das diferenças e subjetividades de cada cidadão. Assim, a coautoria se dá no momento em que o corpo desestabiliza a imposição colocada pela cidade-imagem, ou seja, “[...] a cidade deixa de ser um cenário espetacular no momento em que ela é vivida” (JACQUES, 2009, p. 132).

5.1 Maneiras de fazer

Para entender a coautoria, deve-se entender sobre as “maneiras de fazer” que Certeau desenvolve, sendo estas as práticas “[...] pelas quais usuários se reapropriam do espaço organizado pelas técnicas da produção sociocultural” (2014, p. 41). Ou seja, estas “maneiras de fazer” surgem de formas diferentes, vindas de diferentes usuários/coautores, onde cada um, possuindo uma diferente referência e visão daquele espaço, vai servir-se de sua interpretação para assim atuar. Portanto, as “maneiras de fazer” “[...] intervêm num campo que os regula num primeiro nível [...], mas introduzem aí uma maneira de tirar partido dele, que obedece a outras regras e constitui como que um segundo nível imbricado no primeiro” (CERTEAU, 2014, p. 87).

Cada coautor tem histórias de vida, visões e experiências urbanas distintas que, instauradas no corpo, fazem com que as leituras sobre o espaço sejam diferentes. Certeau (2014) coloca que essas diferenças fazem com que o texto, ou mesmo a imagem, se torne algo habitável. Ou seja, somos locatários durante a leitura, fazendo com que coloquemos um pouco de nós nela, dando diferentes significados ao que está sendo lido e entendendo que também “[...] o direito à cidade é um significante vazio. Tudo depende de quem lhe vai conferir significado” (HARVEY, 2014, p. 20).

Ao mesmo tempo, existe uma formalidade nas práticas que faz com que elas possam estar presas dentro de uma lógica, segundo Certeau (2014), e lugares distintos levam a diferentes modalidades de ação, geralmente imbricados a estas formalidades. Assim, mesmo com as diferenças de cada lugar, essas práticas rígidas podem oferecer certo “perigo” às ações populares empíricas, além de grande resistência ao imprevisto. Entretanto, o imprevisto é responsável pela criação de uma cidade mais dinâmica, fluida e interessante, em que cada coautor, interagindo com cada lugar, modificando suas ações e transitando pelo imprevisto, cria uma cidade bricolada, onde acontece “[...] uma maneira de pensar investida numa maneira de agir, uma arte de combinar indissociável de uma arte de utilizar” (CERTEAU, 2014, p.41). Assim, segundo Certeau, as “maneiras de fazer” são insinuadas no sistema imposto e são superimpostas, onde, ”[...] por essa combinação, (essa pessoa) cria para si um jogo para maneiras de utilizar a ordem imposta do lugar [...], ele aí instaura pluralidade e criatividade” (2014, p. 87, grifo do autor).

Certeau (2014) coloca que tanto os provérbios quanto os discursos são marcados por usos. Esta “cidade bricolada” pode ser lida também como um discurso, sendo marcado pelo uso e por seu passado, que é contado de formas diferentes por seus respectivos coautores, conforme suas necessidades (Figura 7). Surge, então, o conflito entre discursos e entre as individualidades de cada ser, que vai criar diferentes nichos afetivos, políticos e culturais dentro da cidade.

Fig. 7: Imprevisto - o banco da praça, que tem como principal uso o “sentar-se”, sendo utilizado para descanso e banho de sol, atendendo à necessidade daquele momento. Fonte: Autora, 2018.

5.2 Os comuns e sua capitalização

Os comuns urbanos de Harvey são aqui associados às formas de coautoria urbana. Segundo ele,

[...] o comum não deve ser entendido como um tipo específico de coisa, de ativo ou mesmo de processo social, mas como uma relação social instável e maleável entre determinado grupo social autodefinido e os aspectos já existentes ou ainda por criar do meio social e/ou físico, considerada crucial para sua vida e subsistência (2014, p. 145).

Sendo o comum uma relação entre grupo e espaço, pré-existente ou criado, a ação do coautor de cidade é o comum. Ao agir, o coautor produz a chamada comunalização da cidade, que é a “prática que cria ou estabelece uma relação social com o comum cujos usos sejam tanto exclusivos de um grupo social quanto parcial ou totalmente aberto a todos” (HARVEY, 2014, p. 145).

Para esta ação tornar-se real, é necessária uma motivação, mesmo que involuntária, algo que faça com que esse coautor atue transformando o espaço ou dele se apropriando, em escalas diversas. Por exemplo, um dia uma pessoa pode ter se sentado rapidamente em um banco na praça próxima ao seu local de trabalho e percebido que aquele ângulo e aquele espaço lhe foram agradáveis. Esta mesma pessoa pode querer sentar-se no mesmo banco outro dia por mais tempo, no momento de descanso do almoço, além de levar outras pessoas para aquele local, criando uma rede de vínculos. Como outro exemplo, uma pessoa que ansiava por ocupar uma praça subutilizada próxima à sua casa e torná-la viva, procura seus vizinhos e combina com eles um piquenique periodicamente no local, o que se desdobra em um programa6 de ocupações de praças subutilizadas por parte de membros de suas respectivas comunidades. Estas atitudes (Figura 8) coautoras formam a comunalização que, para acontecer em escala local, “[...] basta uma mistura de iniciativas individuais e privadas que organizem e apreendam efeitos de externalidade ao mesmo tempo em que colocam alguns aspectos do entorno fora do âmbito do mercado” (HARVEY, 2014, p. 154).

Fig. 8: O Festival “O Passeio É Público”, no Passeio Público, é um exemplo de atitude coautora, onde grupos ativistas, em parceria com pequenos empreendedores locais e artistas, buscam a reativação de lugar pouco utilizado. Fonte: Autora, 2018.

Exatamente pelo sucesso destas pequenas ações, o capital, que sempre tende a monopolizar o poder, busca e consegue agir em volta dos comuns, mercantilizando-os e tentando extrair renda do local e das pessoas daquele local. Estas pessoas muitas vezes sucumbem ao mercado porque, a partir dele, tornam-se “visíveis” e com direitos pois, aos olhos do capital, se algo/alguém não é rentável, não possui seus direitos considerados na sociedade capitalista.

Dessa forma, para a urbanização capitalista, uma cidade que vai bem é a cidade em que as situações correm da melhor forma possível na esfera do capital. Ou seja, o valor do espaço urbano é concentrado em somente uma esfera, excluindo seus pilares fundamentais que são as próprias pessoas e o ambiente na qual ele se insere. Sem as pessoas e sem o meio, não é possível construir uma cidade.

As pessoas/coautores, geralmente pertencentes às classes menos favorecidas, lutam ao criar as cidades, muitas vezes buscando atender aos pertencentes ao seu grupo, ou às outras cidades que se aproximam, de alguma forma, das suas. Assim, as pessoas “[...] cujo trabalho está envolvido em produzir e reproduzir a cidade têm um direito coletivo não apenas àquilo que produzem, mas também de decidir que tipo de urbanismo deve ser produzido, onde e como” (HARVEY, 2014, p. 245). Portanto, os coautores fazem as suas próprias cidades às suas próprias maneiras e, exatamente por isso, deviam ser contemplados, estudados e consultados no momento de implementação de projetos urbanos, entendendo que “[...] a questão do tipo de cidade que queremos não pode ser separada do tipo de pessoas que queremos ser [...]” (HARVEY, 2014, p. 28).

6Considerações finais

A nossa ação no espaço urbano revela muito do que somos, das nossas experiências já vividas, e das nossas percepções de cidade. Se, por exemplo, um cidadão viveu uma experiência negativa em determinada rua, uma diferente corpografia é criada nele relacionada à essa experiência. Assim, sua forma de se portar naquele espaço é alterada, fazendo com que ele não caminhe mais por aquele local ou modifique sua forma de circular e de ocupar, evitando que a experiência negativa ocorra novamente. Ou seja, a criação que fazemos de cidades dentro da cidade é completamente mutável e incerta, variando de pessoa para pessoa. Esta incerteza parece ser o grande monstro que assombra as classes detentoras de poder. A certeza pode ser sinônimo de lucro, enquanto a incerteza guia o pensamento capitalista para a ideia de desperdício e/ou prejuízo, sendo isso algo abominável. A incerteza estremece a estaticidade da imagem que representa a mercadoria urbana.

Como seres incertos e com diferentes quereres, é preciso compreender que o direito à cidade, mesmo que envolva desejos particulares, é um direito “[...] mais coletivo do que individual, uma vez que reinventar a cidade depende inevitavelmente do exercício de um poder coletivo sobre o processo de urbanização” (HARVEY, 2014, p. 28). Seria a incerteza a arma dos coautores urbanos que, em potência, consegue chamar a atenção e trazer o diálogo e a simbiose na construção de uma cidade mais gentil e democrática?

Não se sabe a resposta a esta questão, mas sabe-se que é fundamental que sejam consideradas as ações das pessoas em meio à cidade para a criação de projetos mais abrangentes, de políticas públicas que consigam contemplar e apoiar uma parcela da população que é mais controlada e excluída no espaço urbano. Assim, quando surgir o entendimento que as pessoas que constroem e “[...] mantêm a vida urbana têm uma exigência fundamental sobre o que eles produziram, e que uma delas é o direito [...] de criar uma cidade mais em conformidade com seus verdadeiros desejos, chegaremos a uma política do urbano que venha a fazer sentido” (HARVEY, 2014, p. 21).

Em meio aos diferentes nichos existentes, o urbanista, como “planejador oficial das cidades”, deve/deveria captar e trabalhar todas as questões afloradas, entendendo que “[...] planejar a cidade é ao mesmo tempo pensar a própria pluralidade do real e dar efetividade a este pensamento do plural: é saber e poder articular” (CERTEAU, 2014, p. 160). Assim, o urbanista também deve perceber os coautores, que podem ser grandes praticantes ordinários das cidades, e que eles as atualizam quando as praticam e as experienciam cotidianamente (JACQUES, 2009).

Ao mesmo tempo, se a cidade é parte de nossos corpos, deve ser saudável e deve fazer sentido para todos. Precisa ser parte de todos, e não adoecida ou sem uso. A colaboração de cada um na construção de cidade deve ser compreendida, notada, e receber a devida importância. O meio urbano é formado através do “trabalhar junto”, da participação, o que faz com que o respeito por cada fragmento deste todo seja fundamental. É preciso compreender que somos todos a cidade.

Referências

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1 O tema foi debatido no evento Entrevista Aberta / Entre / Alan Brum + Raquel Rolnik, realizado em dezembro de 2017, na SARACURA, no Rio de Janeiro, organizado pelo coletivo de arquitetos ENTRE. Página do evento: <https://www.facebook.com/events/305919966570336/>. Acesso em: 24 Ago. 2018.

2 Segundo Gevehr e Berti (2017), autores como Peter Williams, na obra The role of institutions in the inner London housing market: the case of Islington (1976), Jason Hackworth na obra Postrecession gentrification in New York City (2002) e Alvaro Pereira, na obra A gentrificação e a hipótese do diferencial de renda: limites explicativos e diálogos possíveis (2014), dentre outros, trabalharam e ressignificaram o conceito de “gentrificação” originalmente atribuído à socióloga Ruth Glass através de sua obra “London: aspects of change” (1964). Assim, os autores explicam sobre três ondas temporais de gentrificação, com características que foram se modificando, tendo a terceira (pós anos 1990) como principais características: “[...] a intervenção local e federal está mais aberta e assertiva para facilitar a gentrificação; os movimentos anti-gentrificação estão mais marginalizados e, por fim, a gentrificação está se difundindo para bairros mais remotos” (HACKWORTH, 2002 apud GEVEHR; BERTI, 2017, p. 92). Assim, na cidade-imagem, é possível associar essas características da terceira onda ao já citado turismo, a comercialização do urbano. Dessa forma, Gevehr e Berti (2017) expõem a ideia de gentrificação turística, onde “em alguns casos o surgimento de espaços gentrificados atraem o turismo, em outros observa-se primeiro a inserção da atividade turística que, por conseguinte, atrairá residentes com maior poder aquisitivo, incentivando assim os processos de gentrificação” (GEVEHR; BERTI, 2017, p. 97). Para mais informações, o artigo GENTRIFICAÇÃO: uma discussão conceitual (2017), de Gevehr e Berti, encontra-se disponível em: <http://periodico.revistappc.com/index.php/RPPC/article/download/182/123>. Acesso em: 25 Out. 2018.

3 O autor comenta sobre a ideia de controle trabalhada por Foucault, no livro Vigiar e Punir, de 1975.

4 A notícia “Desordem no novo cartão-postal” foi publicada em 28 de setembro de 2015, e está disponível no site do Jornal O Globo. É possível buscá-la através do link: <http://oglobodigital.oglobo.globo.com/epaper/viewer.aspx>. Também está disponível uma imagem de trecho da capa do jornal físico em: <https://www.reddit.com/r/brasil/comments/3mq4vq/o_globo_desordem_no_novo_cart%C3%A3o_postal/>. Acessos em: 24 Out. 2018.

5 Do original em espanhol: “[...] un conjunto de comportamientos que cristalizan en un lugar que no tiene necesariamente una naturaleza jurídica pública, aunque tenga la capacidad de ofrecer, a sus habitantes potenciales, el marco para un acto de compartir colectivo, si bien temporal”. (LA VARRA, 2008, p.180).

6 Assim surgiu em São Paulo, em 2008, o Movimento Boa Praça. Para mais informações, o site do movimento: <http://movimentoboapraca.com.br/>. Acesso em: 24 Ago. 2018.

Urban co-authorship: conflicts between body and image-city

Gabrielle Rocha

Gabrielle Rochais architect. Researcher at the Laboratory of Temporary Interventions and Tactical Urbanism, Federal University of Rio de Janeiro. She studies photography and temporary and / or permanent urban interventions on a smaller scale.


How to quote this text: Rocha, G., 2018. Urban co-authorship: conflicts between body and image-city. V!RUS, Sao Carlos, 17. [e-journal] [online] Available at: <http://www.nomads.usp.br/virus/virus17/?sec=4&item=7&lang=en>. [Accessed: 21 May 2024].

ARTICLE SUBMITTED ON AUGUST 28, 2018


Abstract:

The object of study in the present paper is the co-authorship of city, that is, the comprehension about how certain beings/groups create new cities through the reversal of the use previously imagined for them. This use is proposed by capital, and creates “image-cities”, which are commodified and control the spontaneity of the citizens' body. This body finds themselves constantly prevented from appropriating such "image-cities". As the uses of the city are reverted, a conflict is created between the city and the body, which generates the idea of urban co-authorship. In this sense, being a co-author means to respond to inequality through one's collaboration in the construction of the city, by actively participating with one's own body as an instrument of resistance. In this paper, such conflict is being approached from the concepts of spectacle and image, in opposition to the concept of urban bodygraphies (Jacques, 2009), which brings us to the co-authorship based on ways of doing (Certeau, 2014) and communization (Harvey, 2014).

Keywords:Co-authorship, Spectacle, Body, Image-city, Co-authors


1 Introduction

Historically, cities have been built carrying some tendency to homogenization and elitism of spaces, in detriment of a diversity of the beings that are a fundamental part of them. This process leads to the exclusion of some social groups. In addition to the lack of public policies aimed to the city's most vulnerable parts, this spatially excludent city generates almost involuntary answers from its residents, such as the spontaneous appropriation of public space (Figure 1), or voluntary manifestations such as artistic interventions (Figure 2). Their responses can be understood as new layers of a city, so that through their reaction and the formation of new cities, residents become co-authors of the urban, collaborating in its physical and social construction.

Fig. 1: Pool on a street in Favela Rio das Pedras. Source: Author, 2017.

Fig. 2: Child plays during a temporary intervention at Campo de Santana park, Rio de Janeiro. Source: Author, 2017.

To be a co-author of the city means to be a part of it, sharing the creation of its places and situations, both materially and immaterially speaking, peacefully or belligerently. Co-authors are here understood as actors that constitute groups such as the government, companies, town planners, formal or marginalized citizens, urban activists, etc. These groups of co-authors work together to form an urban whole, where each one, through his or her participation, can fit several scales, create links among different groups, create overlaps and generate urban conflicts, especially between those who have some political and/or economic power and the less favored. In this paper, one of these conflicts will be studied: what happens between “body” and “image-city”. Some concepts related to the body will be thus commented preceding the review of concepts that build that city, as they concern the image related to capital, the spectacle– and, finally, the conflict will be worked on. Lastly, we come to the concept of co-authorship, which will unfold in “ways of doing” (Certeau, 2014) and the idea of “commons” (Harvey, 2014), which are not apart of the process of capitalization of the city.

2 The body

body (Ferreira, 2009, p.556):
2. Anat. Physical substance, or the structure, of each person or animal.
The person, the individual.
Filos. Part of living beings are the support of the soul or the spirit.

Body is a matter. It is the point that touches the soul and the world, the interior and the exterior of the being, its desire and action. The body in the city is a live matter both transforming this latter and being transformed by it: the body molds the space and is molded by it (Figure 3). The body shows and creates distance, moves around, gets closer and farther. The body is a way of expression, resistance and art through its presence (Figure 4). This way, “to think the body, today, is to think of its performances, in a vision that contemplates as constituent elements of a broad semiotic universe, in which subjectivities are produced” (Villaça, 2009, p.35, our translation).

Fig. 3: The body occupies equipments on the Olympic Boulevard, makes alive the space, and becomes itself more lively because of the fun it enjoys. Source: Author, 2017.

Fig. 4: A mass formed by several bodies in order to express political resistance during the municipal vote counting at Cinelândia district. Source: Author, 2016.

Matesco (2009) discusses the assumption of a virtualization of these subjectivities when a notion of body is given. He says their tangibility will only be real when incorporating an [art] work. If such work is the city, wouldn't its exploration and incorporation make tangible our subjectivity as well? The place we choosed to stroll in (by choosing this or that way), our behavior, our actions (by sitting on this or that bench, on the grass, the curb, a concrete beacon or not sitting down at all), what we look at: all of this makes visible -yet indirectly- the subjectivities of each body, both showing who we are, but also that the perception of a city is affected by each body's thought and experience.

When studying these subjectivities one can study the body, which leads to understand “[...] body memories resulting from the experience of space [...]” and to the apprehension of “[...] spatial memories registered on the body itself through urban experiences” (Jacques, 2009, p.131, our translation). This body is inserted in an environment, the urban environment, having a unique bodygraphy associated with choreography. According to Jacques, urban bodygraphy is the “cartography fulfilled by and on the body, that is, [...] part of the hypothesis that the urban experience gets inscribed [...] on the very body of the one who experiences it, and this way also defines it, even involuntarily [...]” (2009, p.130, our translation). Choreography is the “[...] project of body movement, that is, the project to be fulfilled by the body [...]” (2009, p.131, our translation). A choreography happens every time our body explores the city; this experience creates a new bodygraphy in the body, as well as it can lead to changes of the urban design. According to Jacques (2009), in these new bodygraphies, the way of inscribing experiences is determined by intensity and temporality.

Therefore, choreographies, appropriations, and changes capable of creating new cities can simply start from the presence of the body, from a "being there" status, with no mandatory extra physical material to support or extend it. It gives the place a scale which modifies this space, by occupying it differently than it was officially planned. Jacques argues that, once traversed, spaces are experienced by city practitioners which “[...] give them a ‘body’ by the simple action of going through them” (2009, p.132, our translation). But such occupation is also possible by a body carrying instruments, either material or immaterial ones. According to Certeau (2014), these instruments add or remove something to or from the body, making them to be submitted to norms.

However, according to Villaça (2009, p.7), there is currently an “[...] excess of control over the production of our corporeity, either through medical interventions or any sort of interventions, in search of advertising perfection [...]”. This control is also present in any ways of occupying the city, precisely because while acting unexpectedly, the body has a great power, which would cause a disjunction of the imposed city, as we will explain further.

Thus, when occupying a space, a body generates life, exchange and interaction. Even if only through a glance, its movement generates a solid fluidity. It means that a stable space, without occupation or life, is rigid and static, it is an image.

3 The image-city (Spaces’ sacralization)

3.1 The image and Capital

Image (Ferreira, 2009, p.1072):
Exact representation or analog to a being, to something; copy.
Mental representation of an object, of an impression etc.

Sacralize (Ferreira, 2009, p.1788):
V.t.d.1. Attribute sacredness to.

An image can be read, appreciated, perhaps interpreted, which makes the interaction between it and the spectator to be physically passive. Certeau (2014) writes about the passivity generally existing in reading, placing it as the utter point, either about the image or the text. Thus, passivity is comfortable and palatable, making easier its use as a Capital instrument.

In this way, the Capital can sell illusion and appearance through images, as something to be shown. According to Debord, “the real consumer becomes a consumer of illusions. The merchandise is this illusion truly real, and the spectacle is its general manifestation” (2017, p.57, our translation). This sale through images arises in architectural and urban projects where “an urban image becomes synthetic, that is, allegedly capable of convincingly express the idea of a unique and undivided city” (Lima, 2017, p.10, our translation). As Raquel Rolnik pointed out, for attracting capital, architectural and urban products must be recognizable. That means, any city that has been subjected to its own “sale” displays the same glazed towers (verbal information)1, museums etc., which are recognizable products as images to be consumed (Figure 5).

Fig. 5: The Museum of Tomorrow and the Mauá Square are examples of images extensively commercialized before the Olympic Games 2016, having been sacralized by the city’s government. Source: Author, 2016.

The city limited and imposed by the Capital exists in different forms and is seen and/or appropriated in different ways, depending on how its image is displayed and sold, who can afford it, and who knows how to do it.

3.2 Image-city

Image-city is the spectacle that is introduced to an audience but not lived by it. It is the representation of a false reality, where “as a starlet, the agent of the spectacle taken to the scene is the opposite of the individual, it is the enemy of the individual in themselves so evidently as in others” (Debord, 2017, p.43). Assuming the city is lived in and constituted by the bodies that inhabit it, the scenario built by capital, which turns into merchandize, annihilates relations among people and between people and themselves. Even the quality of life becomes merchandize, in a way that there is no life, only staticity coming from the duplication of dead projects. In this sense, image-city ends up being created by urbanism, which, according to Debord, “[...] is the takeover of natural and human environments by capitalism, which, in developing its logic of absolute domination, can and should now redo the totality of the space as its own scenario” (2017, p.136, marked by the author, our translation). Villaça defends that “[...] in Renaissance it is the devoted that contemplates the image made by the hand of man. Hence the notion of work of art and of authorship” (2009, p.35, our translation). Image-city is work with its authorship concentrated in a few people, where there is no consideration who it was made for but only empty contemplation.

3.3 The spectacle

Image-city, as scenario, is part of a staging, becoming something spectacular. In this way, the spectacle is symbiotic to this city, because it is the spectacle that creates the city and, at the same time, the city feeds the spectacle. The spectacle is the relationship among people having its mediation through images, but that, from the moment it accumulates capital, it becomes image (Debord, 2017).

Image-city, as spectacle, nourishes the dead, the still, rendering the conscience also dead, which causes urban actions, even the excluding ones, easily digested. Therefore, there only remains the contemplation of this shallow, uninhabited and alienated city, where the spectacle makes the idea between true and false a blur to the eye due to the “[...] real presence of the false guaranteed by the organization of appearance” (Debord, 2017, p.164, marked by the author, our translation). When reality is not understood, there is a tendency to create other parallel realities, which could be called parallel falsehoods, which are fed by spectacle and by capital. These parallel falsehoods are also fed by fictional interlocutors that are introduced according to the merchandize to be sold, and that are the only ones known, according to Debord, by “[...] the spectator conscience, prisoner of a flattened universe, limited by the screen of the spectacle, back to where its own life was deported from [...]” (2017, p.164, marked by author, our translation).

Debord (2017) argues that, once the economy has had full control over beings, the spectacle dominates them. Therefore, it is known that merchandize promotes the spectacle and dominates life in such a way that it is almost impossible to disassociate from it (Debord, 2017), and this dominion extends to all spheres. That is, image-city, as merchandize, also holds dominion over social life and over organization. The possibility for meetings and exchanges amongst people is delimited (generally in classes) and undemocratic, necessarily happening as stipulated by power and amongst the people that hold this power, causing a fight against the abolition of these classes and of the society of spectacle. In addition, image-city also has its leisure sold, which promotes its own consumption, making it trivial, through, for example, tourism. Beyond this, there is also the urban gentrification2, where a change occurs in the visual and in the impression/perception of that place, probably before marginalized, and that now becomes elegant, refined, and apt to be consumed by those who can consume it. Those who have previously consumed it can no longer do so or are not welcome to do so.

The constant manufacturing of new products by capitalism makes former ones old and useless, so that their obsolescence creates a collective forgetfulness about the past. Being the image-city one of these renewable capitalist products, the forgetting of the past is one of its characteristics, where one must clean and create the new, without thinking of the existence of past events, especially in relation to people. That is, this city remains on newly-made surface that can be substituted by another. It is substituted and not over imposed, because the overlapping presupposes some touching between surfaces, contrary to what is proposed here, what conveys the idea of constancy and perpetuity.

4 The conflict

The image must be beautiful, in accordance to pre-established standards, pleasant and clean, otherwise it does not sell. This is why it is frozen and taken as sacred, where obstruction is prohibited. With this, there is a form of behavior of the body that suppresses its spontaneity, in a way that “commercialized, industrialized, institutionally organized leisure destroys this ‘naturalness’ from which people occupy themselves in order to traffic and traffic through it” (Lefebvre, 2004, p.116, our translation).

The space ends up being used for the purpose for which it was designed, with some conditioning and control imposed, being “[...] the starlet of spectacle. The condition of starlet is spatialization of apparent vividness” (Debord, 2017, p.64, our translation). This “control” can make a place safer to certain people, but at the same time, can be excluding for others, in addition to taking the space and the very static people, in a way that “the city historically formed does not live anymore, it is not apprehended practically. It is no more than an object for cultural consumption for tourists [...], avid for spectacles [...]” (Lefebvre, 2004, p.106, our translation).

Certeau writes that “The body repairs itself. It educates itself. It even produces itself” (2014, p.213, our translation). Thus, the staticity that connects itself to the cited spaces’ sacralization, having in an unforeseen reaction some appropriation, a spatial desecration, “a sin” that deserves to be punished or prevented, so that the image continues “beautiful and static”, limiting, educating and repairing the body that exists there. Bench anti-homeless people (Lettiere, 2017) and small water jets on the marquees (Brito, 2017) are real examples of punishment and prevention of the sin of occupying public spaces. Certeau uses Foucault3 to relate to the vigilance that exercises power, expressing the necessity of understanding how a society ought not to be limited by this vigilance, explaining that “[...] public procedures [...] play with mechanisms of discipline and do not conform with it unless to alter it [...]” (2014, p.41, our translation), and completes defending that it is necessary to understand the side of consumers, through their “ways of doing”, that are “[...] silent processes that organize the sociopolitical order” (2014, p.41, our translation).

Therefore, the sacralized and spectacular image-city is bureaucratic, imposing barriers in its form of appropriation, one of these barriers being the space’s buy and sell, making it possible for only some fractions of society to be able to pierce through bureaucracy. Harvey argues that wealth distributed in polarized form is inserted in constructed cities that “[...] more and more turn into cities of fragmented forts, of walled communities and of public spaces kept under constant surveillance” (2014, p.48, our translation).

Bureaucracy is an instrument that writes the law about the space and, consequently, about the bodies that inhabit/occupy it, understanding that “There is no right not to write about bodies. [...] From birth to mourning, the law ‘seizes’ the bodies to make them its message” (Certeau, 2014, p.210, our translation). Certeau addresses this existence and that of other instruments that write laws, such as truncheon, handcuffs, that “[…] compose a series of objects destined to engrave the force of the law on its subjects [...]” (2014, p.211, our translation). However, considering the necessity of equilibrium between what is imposed and what one really wants to do in space, understanding that something that mediates the relationship between the law to be inscribed and the bodies is necessary (Certeau, 2014). In this way, it ought to be noted the existence of instruments that work the body (Certeau, 2014), and that these ought to be considered in a manner as to respect the yearnings at the moment of occupation of the spaces.

Image-city is also a unified capitalist space or, as previously mentioned, apparently unified where, if a determined group does not reach the imposed level of consumption, such as homeless people, they become a group apart, reinforcing spatial and social divisions. In addition to the capitalist unity causing divisions, it is, according to Debord, “[...] an extensive and intensive process of trivialization” (2017, p.135, marked by author, our translation). This trivialization leads to staticity, to space’s sacralization and to a certain monotony, which is only broken from the moment of conflict created by the body that wants to utilize it, which causes new forms of creating a city (Figure 6).

Fig. 6: Diving into Guanabara Bay has become habitual after construction for the Olympic Games. However, this reversal of use was on the news at the time of re-inauguration described as “disorder”4, which proves space’s sacralization, understanding that this way the appropriation does not interfere negatively neither does it disrespects any other user of the space, besides not degrading any of the newly installed equipment. Notwithstanding, the mere presence of one of those people, alongside an act that subverts controlled use, is responsible for the creation of an imaginary where they become dangerous and where this informality of the use of the space becomes something marginal and dangerous. Source: Author, 2015.

5 The co-authorship

According to La Varra (2008, p.180, our translation5), public space is “[...] a compound of behaviors that crystallizes a place that does not necessarily have a public legal nature, but that it has the capacity to offer it, to its potential inhabitants, the structure for a collective act of sharing, even if temporary”. With this, it is understood that the different behaviors and forms of shared actions are manufacturers of space. To share is, or it ought to be, the grand bond of urban construction.

Therefore, it is fundamental, for the understanding of relationships between co-authors and city, to comprehend that “[...] the production of space and the spatial monopolies become an integral part of the dynamics of accumulation [of capital] [...]” (Harvey, 2014, p.92, our translation). Since Haussmann, capital surplus is directed toward and absorbed by the great urbanistic works, especially by those that favor a minority of the population. That is, there is a capital urbanization that makes the process of creating cities to be dominated by a determined class, generally imbricated to powers of big companies and or/politicians, and it may also be a way for a government to leave its mark in the place where it acts. This mark can generate the displacement of people or cultures that do not adapt to it (Harvey, 2014).

Due to the singularities of each level and their respective co-authors, added to the imposition of capital and of people in power, the conflicts in the urban environment are more and more intense and excludents, leading to the non-perception of the existence of this co-authorship and of the differences and subjectivities of each citizen. Thus, the co-authorship takes place at the moment in which the body destabilizes the imposition placed by the image-city, that is, “[...] the city allows itself to be a spectacular scenery at the moment in which it is lived in” (Jacques, 2009, p.132, our translation)

5.1 Ways to do

In order to understand co-authorship, the “ways to do” that Certeau develops ought to be looked into, being these “ways to do” the practices “[...] by which users reappropriate organized space through social-cultural production techniques” (2014, p.41, our translation). That is, these “ways to do” appear in different forms, come from different co-authors, where each one, having a different reference and vision of that space, will use their own interpretation to act accordingly. Thus, “ways to do” “[...] intervene in a field that regulates them on a first level [...], but introduces there a way of taking advantage of it, that obeys other rules and constitutes as though a second level is overlapped on the first” (Certeau, 2014, p.87, our translation).

Each co-author has life stories, visions and distinct urban experiences that, established in the body, make different readings about space. Certeau (2014) examines that these differences make the text, or even the image, to become somewhere habitable. That is, we are renters during this reading, driving us to put a little bit of us in it, giving different meanings to what is being read and understanding that too “[...] the right to the city is an empty significant. All depends on who will bestow meaning” (Harvey, 2014, p.20, our translation).

At the same time, there is a formality in practices that causes them to be trapped within certain logic, according to Certeau (2014), and distinct places lead to different modalities of action, generally imbricated to these formalities. Therefore, even with the differences in each place, these rigid practices can offer a certain “danger” to empirical public actions, beyond the great resistance to the unpredicted. Nevertheless, the unpredicted is responsible for the creation of a more dynamic city, fluid and interesting, in that each co-author interacting with each place, modifying their actions and transitioning through the unpredicted, creates a fragmented city, where “[...] a way of thinking invested in a way of acting, an art of uniting indissoluble with the art of using” (Certeau, 2014, p.41, our translation). With this, according to Certeau, the “ways to do” are insinuated in the imposed system and over imposed, where, “[...] for this combination, (this person) creates for themselves a game ways to utilize the imposed order in place [...], they here establish plurality and creativity” (2014, p.87, marked by author, our translation).

Certeau (2014) expresses that proverbs as well as discourses are marked by uses. The “fragmented city” can also be read as a discourse, being marked by use and by its past, which is told in different forms by its respective co-authors, according to their needs (Figure 7). And then, conflict arises between discourses and between individualities of each being, which will create different niches of affection, politics and culture within the city.

Fig. 7: Unpredicted – bench on the square, which has as its main use the “sitting down”, being used for rest and sunbathes, attending to the need at that moment. Source: Author, 2018.

5.2 The commons and their capitalization

The urban commons by Harvey are here associated with the forms of urban co-authorship. According to him,

[...] the common ought not to be understood as a specific type of thing, active or even social process, but as an unstable and malleable social relationship between a given self-defined social group and aspects already existing or yet to be created from the social and/or physical milieu , considered crucial for his life and subsistence (Harvey, 2014, p.145, our translation).

Being the common a relationship between group and space, pre-existent or created, the action of the co-author of city is the common. By acting, the co-author produces the so-called communalization of the city, which is the “practice that creates or establishes a social relation with the common whose uses are so exclusive of a social group as partially or totally open to all” (Harvey, 2014, p.145, our translation).

For this action to become real, motivation is made necessary, even if involuntary, something that makes this co-author to act transforming the space or appropriating themselves with it, on several scales. For example, one day a person could have sat for a quick second on a square bench close to their workplace and noticed that angle and that space were pleasant for him. This same person may want to sit down on that same bench another day for a longer period of time, at the moment of resting from lunch, in addition to taking other people to that place, creating a network. As another example, a person who yearns to occupy an underutilized square close to their home and makes it alive, looks for neighbors and agrees on a picnic with them from time to time in the place, which unfolds into a program6 for occupying underutilized squares on the part of the members of their respective communities. These co-authored attitudes (Figure 8) form the communalization, which to happen in local scale, “[...] a mixture of individual and private initiatives is enough to organize and learn externality effects while putting some aspects in the surroundings outside market scope” (Harvey, 2014, p.154, our translation).

Fig. 8: The Festival “The Walkway Is Public”, at Public Walkway, is an example of co-author attitude, where activist groups, in partnership with small local entrepreneurs and artists, search for the reactivation of the little utilized place. Source: Author, 2018.

Exactly for the success of these small actions, capital, that always tends to monopolize power, searches and can act around the commons, commercializing and trying to extract income from the place and from the people in that place. These people many times succumb to the market because, from it, they become “visible” and with rights because, under the eyes of capital, if something or someone is not profitable, it does have rights considered in the capitalist society.

In this sense, for capitalist urbanization, a city that is doing well is a city in which situations run the best way possible in the capital sphere. That is, the value of urban space is concentrated in only one sphere, excluding the main pillars that are the very people and the environment in which they are in. Without people and the environment, it is impossible to build a city.

The people or co-authors, generally belonging to less favored classes, as a consequence, fight to create the cities, many times seeking to attend to those belonging to the group, or to other cities that are close, somehow, to theirs. Thus, the people “[...] whose work is involved in producing and reproducing the city have a collective right not only to what they produce, but also to deciding what type of urbanism ought to be produced, where and how” (Harvey, 2014, p.245, our translation). Therefore, the co-authors make their own cities their own ways and, for this exact reason, ought to be contemplated, studied and consulted at the moment of implementation of urban projects, aware that “[...] the question about the type of city that we want cannot be separated from the type of people that we want to be [...]” (Harvey, 2014, p.28, our translation).

6 Final Considerations

Our action in the urban space says a lot about who we are, of our experiences and of our perception of city. If, for example, a citizen has had a negative experience on certain street, a different bodygraphy is created in them related to this experience. Therefore, their way of behaving in that space is altered, making them not walk through it or that they change the way they occupy it, to avoid the negative experience from happening again. That is, the creation that we make of cities inside the city is completely mutant and uncertain, varying from person to person. This uncertainty seems to be the big monster that haunts the classes that hold power. Certainty can be synonymous of profit, while uncertainty guides capitalist thought to the idea of waste and or loss, being this abominable. Uncertainty trembles the staticity of the image that represents urban merchandize.

As uncertain beings with different wants, it is needed to comprehend that the right to city, even if it involves particular desires, is a right “[...] more collective than individual, once reinvented the city inevitably depends on an army of collective power to go about the urbanization process” (Harvey, 2014, p.28, our translation). Is the uncertainty the weapon of the urban co-authors who, in power, can draw attention and bring the dialogue and symbiosis in the construction of a more genteel and democratic city?

The answer to this question is unknown, but it is known that it is fundamental that the actions of the people are considered amid the city for the creation of broader projects, of public politics that can contemplate and support a portion of the population that is more controlled and excluded from the urban space. This way, the understanding arises that when people build and “[...] maintain the urban life there is a fundamental demand about what they produced, and that one of them is the right [...] of creating a city more in conformity with their very desires, we will get to a politics of the urban that comes to make sense” (Harvey, 2014, p.21, our translation).

In the midst of different existing niches, the urbanist, as “the official planner of the cities”, ought to identify and resolve all matters brought to surface, aware that “[...] to plan a city is, at the same time, to think its own plurality of the real and make if effective to this thought of the plural: it is to know and to be able to articulate” (Certeau, 2014, p.160, our translation). With this, the urbanist also ought to notice the co-authors - who are ordinary practitioners of the city - and that they update them when they practice it and experience it every day (Jacques, 2009).

At the same time, if the city is part of our bodies, it must be healthy and it must make sense to all. It needs to be a part of all, and not sick or without use. The collaboration of each one in the construction of city must be understood, must be noticed and it must receive its due importance. The urban environment is formed through the “working together”, through participation, which makes the respect for each fragment of the whole be fundamental. It is precious to comprehend that we all are the city.

References

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1 The theme was debated in the event Open Interview Between Alan Brum + Raquel Rolnik, in December 2017, in SARACURA, Rio de Janeiro, organized by the collective of Architects BETWEEN. Event’s page: <https://www.facebook.com/events/305919966570336/>.

2 According to Gevehr and Berti (2017), authors such as Peter Williams, in the work The Role of Institutions in the inner London housing market: the case of Islington (1976), Jason Hackworth in the work Post Recession Gentrification in New York City (2002) and Alvaro Pereira, in the work The Gentrification and hypothesis of income differential: explained limits and possible dialogues (2014), among others, worked and gave a new meaning to the concept of “gentrification” originally attributed to sociologist Ruth Glass through her work “London: aspects of change” (1964). In this way, the authors explain about three temporal waves of gentrification, with characteristics hat changed over the years, having the third (post 90s) as main characteristics: ”[...] the local and federal intervention is more open and assertive to facilitate the gentrification; the movements anti-gentrification are more marginalized and, lastly, the gentrification is being spread to the most remote neighborhoods” (Hackworth, 2002 cited in Gevehr and Berti, 2017, p.92). Therefore, in image-city, it is possible to associate in these characteristics the third wave of the already cited tourism, the commercialization of the urban. Thus, Gevehr and Berti (2017) expose the idea of touristic gentrification, where “in some cases the appearance of gentrified spaces that attract tourism, in others it can be seen, firstly, the insertion of touristic activity that, therefore, will attract residents with higher purchasing power, incentivating, as such, the processes of gentrification” (Gevehr and Beri, 2017, p.97, our translation). For more information, the paper GENTRIFICATION: a conceptual discussion (2017), by Gevehr and Berti, it is available at: <http://periodico.revistappc.com/index.php/RPPC/article/download/182/123>.

3 The author comments about the idea of control proposed by Foucault in Power and Law, 1975.

4 The news “Disorder is the new post-card” was published in 28 September 2015 and is available at Jornal O Globo website. It is possible to search through this link <http://oglobodigital.oglobo.globo.com/epaper/viewer.aspx>. It is also available in an image of an excerpt physical newspaper at: <https://www.reddit.com/r/brasil/comments/3mq4vq/o_globo_desordem_no_novo_cart%C3%A3o_postal/>.

5 From the original in Spanish: “[...] un conjunto de comportamientos que cristalizan en un lugar que no tiene necesariamente una naturaleza jurídica pública, aunque tenga la capacidad de ofrecer, a sus habitantes potenciales, el marco para un acto de compartir colectivo, si bien temporal” (La Varra, 2008. p.180).

6 This is how it happened in São Paulo, in 2008, the Movement Boa Praça (Good Square). For more information, the site of movement: <http://movimentoboapraca.com.br/>.