A construção da memória vol.1

Marcelo Tramontano, Sandra Soster, Anja Pratschke, Jessica Tardivo, Maria Júlia Martins, Juliano Pita

Marcelo Tramontano é Arquiteto, Doutor e Livre-docente em Arquitetura e Urbanismo, com Pós-doutorado em Arquitetura e Meios Digitais. É Professor Associado e pesquisador do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (IAU-USP), onde coordena o Nomads.usp, Núcleo de Estudos de Habitares Interativos. É Editor-chefe da revista V!RUS.

Sandra Schmitt Soster é Publicitária, Arquiteta e Urbanista, Mestre em Arquitetura e Urbanismo, e pesquisadora do Nomads.usp. Membro da equipe do InfoPatrimônio, estuda o uso de meios digitais na gestão e preservação do patrimônio cultural.

Anja Pratschke é Arquiteta e Doutora em Ciências da Computação, professora e pesquisadora do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, e Co-coordenadora do Nomads.usp. Desenvolve e orienta pesquisas nas áreas de processos de design e comunicação em arquitetura.

Jessica Aline Tardivo é Arte Educadora, Pedagoga e Arquiteta, Mestre em Educação e pesquisadora do Nomads.usp. Estuda a aplicação da metodologia de Educação Patrimonial, associadas às novas tecnologias, com o propósito de facilitar a identificação da herança cultural de uma cidade.

Maria Julia Martins é Pedagoga, Mestra em Educação, Conhecimento, Linguagem e Arte, e pesquisadora do Nomads.usp. Investiga o campo das artes corporais contemporâneas e suas relações com o espaço público urbano.

Juliano Veraldo da Costa Pita é Mestre em Arquitetura e Urbanismo. Professor do Instituto Federal de São Paulo. Pesquisador do Nomads.usp. Estuda a área de projeto de Arquitetura, sua relação com a esfera pública e as implicações das novas tecnologias, sobretudo o uso de BIM.


Como citar esse texto: TRAMONTANO, M.; SOSTER, S. S.; PRATSCHKE, A.; TARDIVO, J. A.; MARTINS, M. J. S.; PITA, J. V. C. A construção da memória vol.1. (Editorial). V!RUS, São Carlos, n. 15, 2017. [online] Disponível em: <http://www.nomads.usp.br/virus/virus15/?sec=1&item=1&lang=pt>. Acesso em: 29 Set. 2020.

Em um futuro próximo ou distante, do que vamos nos lembrar? De que maneiras vêm sendo construídas essas lembranças, e por quem? Estas perguntas, formuladas no texto de chamada desta edição, vêm balizando nossa compreensão do amplo tema da construção da memória, e conduzem-nos no percurso proposto pelos artigos que a décima quinta edição da V!RUS oferece à leitura.

Diferentemente do que, à primeira vista, se esperaria de uma revista da área de Arquitetura e Urbanismo, os processos de construção da memória aqui apresentados situam-se no cruzamento de diversas áreas do conhecimento, tratados com enfoques extremamente variados. Filosofia, artes, psicologia, jornalismo, cinema, letras, história, engenharia, hipermídia, geografia, computação e pedagogia: a arquitetura e os estudos urbanos são apenas mais um dentre eles.

Parece-nos, hoje, fundamental que nos inquietemos de como se constróem tais processos, diante da manipulação cada vez menos velada de notícias à população, que artificializa sentimentos cívicos e visões de mundo, e opera, intencionalmente, o próprio desmantelamento das memórias individuais. São cenários de dominação e de espoliação de lembranças que constituem "um dos mais cruéis exercícios da opressão na sociedade moderna", nas duras e sábias palavras de Ecléa Bosi, na entrevista que publicamos nesta edição.

Quais signos e informações de uma dada realidade estão presentes em uma obra - audiovisual, arquitetônica, urbana, literária, musical - e que aspectos das memórias individual e social se perdem quando ela é destruída? Por quais processos informacionais somos, com frequencia, convencidos a não nos perguntarmos as razões que comandaram tal destruição? Que novas obras tomam o lugar das anteriores, e de que novos valores são elas suporte e veículo?

Respostas a estas e outras questões, abordando conceituações e novas compreensões são propostas pela filósofa alemã Yvonne Förster [A carne: conceituando tempo e memória no mundo digital], o artista e filósofo espanhol Jaime Del Val [Hipermemória e micromemórias no algoriceno], a psicóloga Ecléa Bosi e o jornalista Mozahir Bruck [Memória: enraizar-se é um direito fundamental do ser humano], e os arquitetos argentinos Rodrigo Martin e Marcelo Robles [Topoheterocronías: modelos analógicos para la visualización del tiempo].

Aproximações a partir do patrimônio cultural imaterial são delineadas pelas pesquisadoras em cinema Ana Ângela Gomes e Keline Freire [Memória em rizoma: cinema brasileiro e uma certa ideia de Nordeste], pela arquiteta e performer Julia Delmondes [Lembranças arquitetônicas corporificadas], pela historiadora social e pesquisadora em ciências da informação Giulia Crippa [Memória e patrimônio e o turismo globalizado], e pelas arquitetas Cristiane Duarte e Ilana Sancovschi [O lugar judaico na obra de Moacyr Scliar: memória e narratividade].

O patrimônio edificado como suporte de memória é tratado de maneira específica em dois trabalhos, cujas preocupações são bastante distintas mas curiosamente complementares. Um museu em uma cidade-símbolo de uma nação é abordado pelo arquiteto Eduardo Soares [A narrativa do Museu da Cidade: Brasília inscrita na pedra], enquanto um olhar sobre o papel das ruínas é lançado pelos arquitetos Laís Lima, Karin Meneguetti e Hélio Hirao, ele também geógrafo urbano [A valorização das ruínas como espaços livres].

Em duas dimensões distintas são igualmente abordadas a cidade e questões urbanas. Uma, histórica, trata dos reflexos de políticas urbanas na definição de uma cidade, pela arquiteta Flávia do Nascimento [Memória e políticas urbanas do Rio de Janeiro]. A outra, sociocultural, lida com os entremeios entre a cidade real e a imagem que dela se vende, pelas também arquitetas Moema Parode e Alicia de Castells [Memória e conflitos urbanos: Florianópolis para quem?].

Ainda que a questão das tecnologias da informação e comunicação e os meios digitais permeie boa parte das reflexões apresentadas, três autores a examinam mais detidamente. São eles o engenheiro e pesquisador em ciências da comunicação e informação Khaldoun Zreik e o pesquisador em hipermídia Nasreddine Bouhaï [Design da informação do patrimônio cultural na era pós-digital], e o psicólogo e mestre em tecnologias da inteligência Werley de Oliveira [Autonomia e dependência na relação homem-máquinas].

Por fim, buscando pensar espaços de resistência e ressignificações, as ações do coletivo português Entremeios são apresentadas pela artista plástica e mediadora cultural Patrícia Godinho [O contributo da educação patrimonial na construção da memória], e o uso de meios digitais em ações com a comunidade é discutido em uma pesquisa-intervenção pelas arquitetas e pesquisadoras do Nomads.usp Jessica Tardivo e Anja Pratschke [Educação e memória: métodos e experiências digitais].

A qualidade e o bom número de trabalhos recebidos em resposta à nossa chamada animou-nos a repartí-los em duas edições da revista, produzindo agora este volume 1, e um segundo volume, na décima sexta edição da revista, em junho de 2018.

Esperamos, assim, ainda que muito modestamente, contribuir para a compreensão de que a memória de um povo se constrói todo dia, em modo contínuo, de maneira plural e conflituosa. Segundo dinâmicas rizomáticas, como quer sugerir o projeto gráfico desta edição da V!RUS. E que temos o direito, senão o dever, de ser protagonistas nos processos que decidem as lembranças que, no presente e no futuro, forjarão nossas vidas.

Nomads.usp/IAU-USP, dezembro de 2017


 

The construction of memory vol.1

Marcelo Tramontano, Sandra Soster, Anja Pratschke, Jessica Tardivo, Maria Júlia Martins, Juliano Pita

Marcelo Tramontano is Doctor and Livre-Docente in Architecture and Urbanism, with a Post-Doctor degree in Architecture and Digital Media. He is Associate Professor and researcher at the Institute of Architecture and Urbanism of the University of Sao Paulo (IAU-USP), where he coordinates the Center for Interactive Living Studies, Nomads.usp. He is the Editor-in-chief of V!RUS journal.

Sandra Schmitt Soster is advertiser, architect and Master in Architecture and Urbanism. She is researcher at Nomads.usp and a member of InfoPatrimônio team. She studies the use of digital media in the management and preservation of cultural heritage.

Anja Pratschke is architect and Doctor in Computer Science, professor and researcher at the Institute of Architecture and Urbanism of the University of Sao Paulo, Brazi. She is Co-coordinator of Nomads.usp, and develops and supervises research projects in design process and communication in architecture subjects.

Jessica Aline Tardivo is art teacher, pedagogue and architect, Master in Education and researcher at Nomads.usp. She studies the methodological procedures of Patrimonial Education, associated to digital technologies, aiming at supporting the identification of urban cultural inheritance.

Maria Julia Martins is pedagogue, Master in Education, Knowledge, Language and Art, and researcher at Nomads.usp. She investigates the field of contemporary body arts and its relationship with urban public spaces.

Juliano Veraldo da Costa Pita is Master in Architecture and Urbanism. He is Professor at the Federal Institute of São Paulo, and a researcher at Nomads.usp. He studies architectural design, its relation with the public sphere and the implications of the new technologies, especially the use of BIM.


How to quote this text: Tramontano, M., Soster, S. S., Pratschke, A., Tardivo, J. A., Martins, M. J. S. and Pita, J. V. C., 2017. The construction of memory vol.1. (Editorial). V!RUS, 15. [e-journal] [online] Available at: <http://www.nomads.usp.br/virus/virus15/?sec=1&item=1&lang=en>. [Accessed: 29 September 2020].

In the near or distant future, what are we going to remember? In what ways have these remembrances been built, and by whom?  Such questions had been formulated in the call for papers for this edition. They beacon our understanding of the broad theme of the construction of memory and lead us in the path proposed by the articles that the fifteenth issue of V!RUS provides for reading.

Contrary to what, at first glance, one would expect from a journal in the Architecture and Urbanism field, the processes of memory construction presented here lie at the intersections of several areas, treated with extremely varied approaches. Philosophy, arts, psychology, journalism, cinema, letters, history, engineering, hypermedia, geography, computer science and pedagogy: architecture and urban studies are just one more of them.

It seems fundamental to us to be concerned with how these processes are constructed, in the face of the less and less veiled manipulation of news to the population, which artificializes civic feelings and worldviews, and intentionally operates the dismantling of individual memories. These are scenarios of domination and spoliation of memories that constitute "one of the cruelest exercises of oppression in modern society", according to the hard and wise words of Ecléa Bosi in the interview we publish this issue.

What signs and information of a given reality are present in a work - audiovisual, architectural, urban, literary, musical - and what aspects of individual and social memories are lost when it is destroyed? By what informational processes are we often persuaded not to ask ourselves the reasons for such destruction? What new works take the place of the previous ones, and for what new values are they support and vehicle?

Answers to these and other questions, approaching conceptualizations and new understandings are proposed by the German philosopher Yvonne Förster [The flesh: conceptualizing time and memory in the digital world], the Spanish artist and philosopher Jaime Del Val [Hypermemory and micromemories in the algoricene], the psychologist Ecléa Bosi and the journalist Mozahir Bruck [Memory: rooting is a fundamental human right], and the Argentinian architects Rodrigo Martin and Marcelo Robles [Topoheterocronies: analogical models for time visualization].

Approximations from intangible cultural heritage are outlined by the cinema researchers Ana Ângela Gomes and Keline Freire [Memory in rhizome: Brazilian cinema and a certain idea of Northeast], the architect and performer Julia Delmondes [Embodied architectural remembrances], the social historian and researcher in information sciences Giulia Crippa [Memory and heritage in the intercultural perspective of globalized tourism], and by the architects Cristiane Duarte and Ilana Sancovschi [The Jewish place in Moacyr Scliar’s work: memory and narrativity].

The built heritage as a support of memory is treated in a specific way in two works, whose preoccupations are quite distinct but curiously complementary. A museum in a city-symbol of a nation is approached by the architect Eduardo Soares [The narrative of the City Museum: Brasília inscribed on stone], while a look at the role of the ruins is launched by architects Laís Lima, Karin Meneguetti and Hélio Hirao, who is an urban geographer as well [The appreciation of ruins as open spaces].

Also in two distinct dimensions are addressed the city and urban issues. A historical one, dealing with the reflexes of urban policies in the definition of a city, by the architect Flávia do Nascimento [Memory and urban policies in Rio de Janeiro]. The other one, socio-cultural, handles with the twists between the real city and its image commercially widespread, by the architects Moema Parode and Alicia de Castells [Memory and urban conflicts: Florianópolis for whom?].

Although the issue of information and communication technologies and digital media permeates many of the reflections presented, three authors examine it more closely. They are the engineer and researcher in the sciences of communication and information Khaldoun Zreik and the researcher in hypermedia Nasreddine Bouhaï [Cultural heritage information design in the post-digital era], and the psychologist and master in intelligence technologies Werley de Oliveira [Autonomy and dependence in the man-machine relationship].

Finally, in order to think of spaces of resistance and resignification, the actions of the Portuguese collective Entremeios are presented by the artist and cultural mediator Patrícia Godinho [The contribution of cultural heritage education in the construction of memory]. So is the use of digital media in actions with the community, discussed in a research-intervention by the architects and researchers of the Nomads.usp Jessica Tardivo and Anja Pratschke [Education and memory: digital methods and experiences].

The quality and the good number of works received in response to our call encouraged us to divide them into two issues of the journal, now producing this volume 1, and then a second volume in the sixteenth issue, in June 2018.

We hope, therefore, very modestly, to contribute to the understanding that the memory of a society is built on a continuous basis, through plural and conflictual ways. According to rhizomatic dynamics, as it seeks to suggest the graphic design of this edition of V! RUS. And that we have the right, if not the duty, to be protagonists in the processes that decide the memories that, in the present and the future, will forge our lives.

Nomads.usp/IAU-USP, december of 2017