Narrativas à margem: deslocar epistemes para uma metodologia do comum

Daniele Caron, Rodrigo Isoppo, Katia Oliveira e Gianluca Perseu

Daniele Caron é arquiteta e urbanista e Doutora em Urbanismo. É docente da Faculdade de Arquitetura e do Programa de Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Coordena o grupo de pesquisa Margem - Laboratório de Narrativas Urbanas, onde estuda a narrativa e o comum na paisagem contemporânea. daniele.caron@ufrgs.br

Rodrigo Isoppo é Bacharel em Ciências Sociais, Mestre em Psicologia Social e Institucional e pesquisador do Programa de Pós-graduação em Psicologia Social e Institucional da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. É assessor de Políticas Públicas do Conselho Regional de Psicologia do Rio Grande do Sul e pesquisador do grupo de pesquisa Margem - Laboratório de Narrativas Urbanas, onde trabalha sobre estudos da subjetividade, movimentos sociais e estudos ensaísticos. minhopa@gmail.com

Katia Oliveira é arquiteta e urbanista, Mestre em Memória Social e Patrimônio Cultural, e pesquisadora no grupo de pesquisa Margem - Laboratório de Narrativas Urbanas, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. arqkatia@gmail.com

Gianluca Perseu é arquiteto e urbanista e pesquisador do Programa de Pós-graduação em Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde integra o grupo de pesquisa Margem - Laboratório de Narrativas Urbanas. gperseu@hotmail.com


Como citar esse texto: CARON, D.; ISOPPO, R. S.; OLIVEIRA, K.; PERSEU, G. M. Narrativas à margem: deslocar epistemes para uma metodologia do comum. V!RUS, São Carlos, n. 20, 2020. [online]. Disponível em: <http://www.nomads.usp.br/virus/virus20/?sec=4&item=7&lang=pt>. Acesso em: 27 Jan. 2023.

ARTIGO SUBMETIDO EM 10 DE MARÇO DE 2020


Resumo

A conjuntura de instabilidade política, econômica e social que assola o ocidente na contemporaneidade nos convoca a discutir os pressupostos epistemológicos que agenciam a problemática urbana em sua colonialidade, apontando para a necessária ruptura de um regime de autorização discursiva que invisibiliza as narrativas situadas à margem da produção urbana hegemônica. Rever tais pressupostos implica desnaturalizar o modus operandi do planejamento urbano ocidental, fazendo emergir modos de subjetivação que escapam à normatividade imposta pelo sistema patriarcal e neoliberal, e abrir caminho às práticas urbanas que recuperam o comum (DARDOT, LAVAL, 2017) como racionalidade alternativa ao capitalismo e como composição complexa das diferenças. A partir do reconhecimento da narrativa como epistemologia da experiência, a metodologia busca cartografar as narrativas historicamente apagadas e excluídas da cidade, a fim de atualizar e ampliar os limites dos métodos de pesquisa nos estudos urbanos, tendo em vista a complexidade da cidade contemporânea. A espiral da mimese de Ricoeur (1994) nos possibilita agenciar as derivas e intervenções urbanas como experiência narrada para entrever as singularidades que compõem a heterogeneidade do comum, e fazer emergir argumentos outros sobre a cidade vivida, capazes de deslocar a colonialidade do saber que ainda impera na disciplina urbanística.

Palavras-chave : Planejamento urbano, Colonialidade, Comum, Narrativa, Cartografia



1 Introdução: inquietações

A improrrogável necessidade de descolonizar os saberes na nossa contemporaneidade vem acompanhada da inquietude que as ferramentas epistemológicas e metodológicas, historicamente constituídas no ambiente acadêmico, outrora tidas como inquebrantáveis, não evitaram, até mesmo nos conduzindo para a barbárie sem precedentes do capitalismo moderno. Desse modo, a nossa racionalidade, habilidade de síntese e transformação, nos reduziram à inoperância e ao fato constrangedor de não encontrarmos alternativas para reverter seus quadros e sintomas. “É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo” – afirmativa endossada por inúmeros intelectuais. (JAMESON, 1997; ZIZEK, 2015)1.

O ponto cego dessa afirmação nada consoladora está na perspectiva de quem imagina, de quais dispositivos agenciam, exercitam ou engessam nossa imaginação e nossa faculdade de imaginar novas possibilidades. Já se somam muitos séculos em que a imaginação foi colonizada por uma concepção de mundo, abarcando as dimensões do tempo e do espaço. Constatamos o fato de que um modelo de pensamento2 obteve êxito e infectou o mundo com sua monocultura do tempo linear3 (SOUZA SANTOS, 2006), às custas do extermínio de incontáveis outras possibilidades de afirmar o mundo. Fica evidente que há, na história despercebida do pensamento humano, uma infinita biodiversidade que coloca em dúvida a onipotência do pensamento branco ocidental.

Pensar cidades na contemporaneidade requer o reconhecimento dessas questões, não apenas como cenários ou contextos, mas como pressupostos epistemológicos que devem reorientar nossas ações na pesquisa sobre o urbano e a complexidade por eles convocada. Quando se trata de adotar outras perspectivas possíveis para a realidade urbana, é fundamental colocar em questão tudo que foi naturalizado como cidade e enquanto paisagem, para repararmos naquilo que não vingou, em quem foi deixado à margem ou foi eliminado para alavancar o planejamento urbano como ferramenta de exclusão e extermínio de determinados grupos sociais. É de responsabilidade dos operadores do conhecimento, incluindo aqui os planejadores, experimentar novas composições que disputem com as velhas e hegemônicas práticas de governar a verdade dos seres.

Este texto se constrói a partir do enunciado “questão de método”, que provoca os pesquisadores da cidade a repensar a ideia de método como caminho pré-definido a partir de um determinado conjunto de princípios. Entendemos que, para abordar a problemática urbana, é fundamental que se revejam os princípios instaurados por epistemologias de constituição colonialista, a fim de rever os modos de pesquisar e atualizá-los numa perspectiva crítica. Refletimos aqui sobre o quanto uma abertura às narrativas não hegemônicas pode deslocar essa colonialidade e o modo de pesquisar, nos convocando a pensar método em sua condição processual, aberta e inacabada.

As cidades nasceram de uma nova relação homem/natureza, decorrente da fixação e dominação humana sobre um território para nele plantar. Elas se constituíram como fruto da imaginação, do trabalho articulado de muitas pessoas (ROLNIK, 2012) e seus saberes diversificados, compartilhados na experiência da vida em comum. Contudo, desde a implantação do pensamento hegemônico, calcado na racionalização e na universalização, sedimentado na Europa do século XIX, que a produção do espaço da urbe vem sendo conduzida por uma elite de homens brancos, construtores de uma burocracia estatal política e técnica embasada no saber científico.

Em decorrência da Carta de Atenas (CIAM, 1933), manifesto que promoveu o planejamento urbano funcional/racional, separando e hierarquizando as funções da vida cotidiana moderna, propondo uma renovação de antigos centros urbanos consolidados e apontando o automóvel como a grande saída para a mobilidade, foram produzidas cidades fragmentadas, dispersas, injustas, desiguais; social e ambientalmente insustentáveis. Tais cidades são, também, reflexo de uma estrutura econômica em que a produção material é compreendida como a única chave para a prosperidade. Os corpos humanos são racializados, sexualizados, comercializados, controlados, encarcerados e transformados em peças de engrenagem de uma máquina produtora e consumidora de bens, onde a terra e os saberes, antes compartilhados, se tornaram bens patrimoniais individuais e não recursos a que todos têm direito de fruição.

Rolnik (2019) contribui com tal discussão ao alertar sobre a transformação das paisagens para a vida em paisagens para a renda. A autora discorre sobre o processo global de financeirização e sua expressão nas paisagens espetacularizadas de arquiteturas singulares que, através do planejamento urbano neoliberal, chancela inúmeros processos de remoção forçada, precarizando a vida de enormes contingentes populacionais ao redor do mundo. Remontando às utopias de intervenção nas cidades originadas no epicentro europeu ocidental como a origem mesma da disciplina urbanística, Rolnik (2019, p. 27) sublinha "o papel dessas mesmas operações de des-re-territorialização em sua imposição colonialista nos países da periferia do capitalismo".

O movimento incessante de reconfiguração dessas paisagens para uma suposta requalificação urbana, movidas pelo capital financeiro e repletas de signos abstratos da propriedade privada e da funcionalidade, nos convoca a repensar as matrizes político-culturais da produção urbana e reivindicar a descolonização do pensamento sobre as cidades no que se refere, principalmente, ao que sempre esteve fora e à margem das máquinas de produção capitalista (ROLNIK, 2019). A necessária crítica ao planejamento urbano e o seu papel na manutenção do status quo do sistema capitalista neoliberal exige um reposicionamento conceitual e metodológico dos estudos urbanos, no sentido de questionar a dicotomização público-privado que alicerça a desigualdade social e aprofunda a precarização dos territórios, fortemente marcada por elementos étnico-raciais.

Parece-nos pertinente, aqui, aproximar as discussões sobre o comum de Dardot e Laval (2017) como aposta em uma racionalidade alternativa ao sistema político e econômico vigente e como composição complexa das diferenças. De acordo com os autores (2017, p. 16), "o ‘comum’ tornou-se um princípio efetivo de combates e movimentos que há duas décadas resistem à dinâmica do capital e conduzem a formas originais de ação e discurso”, designando "um regime de práticas, lutas, instituições e pesquisas que abrem as portas para um futuro não capitalista" (DARDOT, LAVAL, 2017, p. 18).

A partir dessa nova racionalidade, que agencia questões de ordem social, cultural, política, ambiental e econômica, e que pode fornecer potência às discursividades tradicionalmente negadas e/ou apaziguadas pelo regime do capital, defendemos a narrativa como uma epistemologia capaz de acessar as múltiplas experiências na e da cidade. Operar a pesquisa do urbano a partir da narrativa é dar “[...] passagem a um caráter radicalmente singular e impessoal: um pesquisador e um mundo aptos a serem criados e a serem destruídos – mais do que serem declarados ou descobertos” (MIZOGUCHI, 2015, p. 207).

Paul Ricoeur (1994, p. 85), inclusive, relaciona experiência e narrativa ao discutir que “[...] existe entre a atividade de narrar uma história e o caráter temporal da experiência humana uma correlação que não é puramente acidental, mas apresenta uma forma de necessidade transcultural.” A narrativa se constitui, então, como episteme capaz de alicerçar um caminho metodológico que assume a experiência humana como questão fundacional, abrindo a compreensão da realidade por meio da capacidade inventiva e sempre única do sujeito que narra.

Este texto tem a intenção de discutir os pressupostos epistemológicos que agenciam a problemática urbana em sua constituição colonialista e a necessária ruptura de um regime de autorização discursiva que invisibiliza as narrativas situadas à margem da produção urbana hegemônica. O agenciamento proposto diz respeito à investigação de metodologias que operam tais singularidades, assumindo-as como dispositivos de fala e escuta que, ao emergirem dos processos de apagamento dos territórios, podem reivindicar o comum como um plano heterogêneo que tensiona o modus operandi do urbanismo contemporâneo.

2 Deslocamentos epistemológicos: fissuras na colonialidade do urbano

Toda pesquisa é movida por interesses. Interesses que não podem deixar de passar por um desejo de conhecimento daquele que pesquisa. Um explorador necessita de um impulso de partida para mapear um plano, bem como um ponto a ser alcançado para orientar seu percurso. Quando se trata de uma pesquisa acadêmica, Michel Foucault (1998) reconhece que é possível distinguir duas formas de obstinação que move o filósofo: aquela que busca um acúmulo complementar de conhecimento a partir do que já sabe, e aquela “que permite [o filósofo] separar-se de si mesmo” (1998, p. 13), como alguém à deriva em um deserto.

Na primeira, o pesquisador emerge, de forma mais previsível, em um labirinto pré-fabricado4 pelas tecnologias de poder/saber. Guiado pelo que julga ser um caminho mais confortável, busca apenas superar os obstáculos externos e, forte, heroico, quantitativamente satisfeito e premiado de legitimidade, encontrar a saída. O desafio sobre o qual nos debruçamos enquanto laboratório de pesquisa se assemelha ao segundo caso: vagar por um deserto, ao invés de um labirinto pré-fabricado. Um deserto que promova “tanto quanto possível, o descaminho daquele que conhece” (FOUCAULT, 1998, p. 13). Em um deserto, não há ponto de partida, opções de rota, obstáculos externos. Há, sim, um sujeito que deve se deslocar internamente, descobrir que sua sobrevivência depende da obstinação em se despir do que sempre soube, se tornando outro na medida em que o deserto demandar.

O grupo de pesquisa Margem_Laboratório de Narrativas Urbanas, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Regional (PROPUR) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, vem cartografando a cidade de Porto Alegre em parceria com movimentos sociais que têm como pauta o direito à cidade. O objetivo dessa prática investigativa é acessar às narrativas cotidianas que constituem a paisagem urbana, daqueles que configuram modos de existência apagados, negados e/ou negligenciados pelas políticas de planejamento urbano. Tendo em vista a preocupante agenda neoliberal que opera a cidade como mercadoria e um Estado que deveria proteger seu patrimônio, seus habitantes e seus serviços públicos, sendo geridos por especuladores movidos pela desmedida acumulação de poder econômico, nossas cidades padecem e agonizam.

As grandes cidades latino-americanas contemporâneas são, ao mesmo tempo, causa e resultado do processo civilizatório imperialista europeu (SOUZA SANTOS, 2006), que, desde o início, se dedicou a expandir sua cultura e converteu os diferentes povos à sua cosmovisão, à sua metafísica, a fim de favorecer seu domínio e exploração. Para sustentar esse projeto, os Estados europeus sofisticaram suas tecnologias de poder a fim de garantir a soberania sobre a vida e a morte dessas populações. Foi sobre isso que Michel Foucault (2005) se debruçou em seu curso ministrado no Collège de France, intitulado “Em defesa da sociedade”. Para ele, a estratégia soberana do capitalismo moderno se encontra no que ele chama de “continuum biológico da espécie humana” (FOUCAULT, 2005, p. 305), no qual o poder, a grosso modo, opera com vistas a estabelecer o domínio biológico de uma raça em relação a outra, deflagrando, no interior da população, uma guerra ou um extermínio de diversos grupos sociais que perdura infinitamente enquanto a soberania estiver mantida.

Foucault (2005) chegou nessa proposição filosófica em seus estudos sobre a biopolítica, acusando sua origem nos Estados totalitários europeus da segunda metade do século XX. Entretanto, foi Achile Mbembe (2018), filósofo negro camaronês que, no início desse século, advertiu sobre tal tecnologia de poder ter sido inspirada originalmente pelo projeto colonialista das Américas, muito antes do Nazismo e do Stalinismo, como Foucault (2005) propunha, e que só foi flagrada quando, pela primeira vez, vítimas europeias de cor branca foram exterminadas (MBEMBE, 2018). Eis a importância do impacto histórico e conceitual que só a descolonização dos saberes pode reescrever e que inevitavelmente depende de um emulador epistemológico que venha de outro lugar, de outra origem, de outro ponto de vista: daqueles cuja verdade é encarnada no próprio corpo5.

Ibáñez (2016), ao propor a ressignificação da cidade colonial e extrativista, desafia os urbanistas (planejadores) latino-americanos a se encorajarem a problematizar aquilo que vêm aceitando e normalizando como espaço e modos de vida nas cidades, os quais acreditaram ser sinônimos de “urbanizar” e “civilizar”, não havendo outra maneira de nos encontrarmos e reencontrarmos para assim desvendar novas articulações e novos horizontes para o continente. Esse deslocamento, por si só, já provoca danos irreversíveis às realidades contingentes, outrora férteis e relegadas à condição de primitivas, arcaicas e inutilizáveis6. A questão que merece atenção é: através de que forças, motivações e interesses a cidade se tornou alicerce de um sistema colonial efetivo, enaltecido pela cobiça de uma cultura que condena toda diferença a seu serviço? Deveríamos então destruí-la e recomeçá-la do zero? Além de contraproducente, repetiria a retórica do próprio oponente. Ao pressupor a cidade como um fenômeno histórico que produz subjetividades ao mesmo tempo que destrói outras, conviria vesti-las à lente do conceito de território.

Não há cidade que não se forme por si mesma. Cardoso Filho (2016) nos ajuda a entender a relação intrínseca entre esses elementos a partir do modo que construímos historicamente as noções de externalidade e internalidade, tempo e espaço. Defende ele que a matéria que compõe o que é externo a nós não é inerte ou apenas cenário das relações que nos transformam. Que inclusive nós, seres humanos, somos dobras extensivas dessa matéria capaz de se organizar e se movimentar, “não existindo nem externalidade e nem internalidade absolutas fora dos processos localizados e históricos que as produziram” (CARDOSO FILHO, 2016, p. 249). Ou seja, mesmo que os conglomerados urbanos tenham sido edificados à luz de um pensamento colonial, possuem a faculdade de provocar outros fluxos de relações, outras experiências, outros usos, outros mecanismos de realidade.

Exploramos aqui a simultaneidade entre objeto (dado sensível) e sujeito (aquele que ultrapassa a si mesmo no ato de experimentar) e entre tempo e espaço na concepção de experiência proposta por Deleuze e Guattari (2010). A cidade é instaurada a partir da experiência, ainda que à mercê da colonialidade do poder. E a emergência das narrativas que escapam à hegemonia do discurso colonialista, pode trazer outras verdades sobre o sujeito e sua experiência espaço-temporal na cidade. Cruz (2017) nos chama atenção para a hegemonia da narrativa colonialista fundada no mito da modernidade, como alicerce da supressão da multiplicidade no espaço e da redução da temporalidade em um tempo único.

É a partir dessa recusa ao habitual modo de pensar e fazer que desejamos operar nossos pressupostos metodológicos. Propomos, assim, uma metodologia capaz de advogar pelos corpos e vozes que, para se manterem acesas, mesmo minguantes e cotidianamente ameaçadas, tiveram que dar outros contornos e sentidos ao mundo para nele estarem incluídas. Corpos, vozes e territorialidades que contêm em si outros modos de existir e persistir, de dar sentido ao tempo e ao espaço, aos seres e às coisas, que apelam pela legitimidade de seus valores e inspiram àqueles que se percebem sem saída nesse sistema.

Com a incipiente visibilidade do conhecimento decolonial, fruto da luta, coragem e afirmação de identidades ditas minoritárias, se abre caminho para imaginar e criar novas táticas e estratégias que evidenciam, imobilizam e desprogramam o mecanismo necropolítico da colonialidade estruturante das sociedades modernas que, de tão sutilmente sofisticadas e, supostamente, imperecíveis, capturam e pervertem qualquer enxameamento potente capaz de tornar a cidade um espaço-tempo polifônico disposto a se contagiar com o imprevisível dos encontros. A fragilidade do sistema está justamente naquilo que acredita controlar e, quanto mais se sublevam e se empoderam as margens, quanto mais empenho em reconhecê-las e trazê-las para os campos participativo e deliberativo da cidade, mais afogados em seu próprio vazio ficam aqueles corpos frágeis que, sem nenhum mérito, já nasceram vencedores.

Contudo, essa constante deflagração irreversível da fragilidade do sistema, somada à sua sobrevivência inseparável da imposição e da brutalidade, é o que tende a provocar uma resposta desesperadamente fascista e militarizada para conter as inevitáveis resistências das margens. Aqui vale a proposição de Pelbart (2019), inspirada em David Lapoujade, que se encontra na contracapa de sua mais recente obra, “Ensaios do Assombro”: “não permanecer na fraqueza de cultivar apenas a força, porém ter a força de estar à altura de sua própria fraqueza”.

Entendemos como margens os grupos menos reconhecidos nas hierarquias sociais ou considerados mais vulneráveis. Os que constituem, na realidade, a maioria da população que vive na "cidade mercadoria”: corpos de diferentes gêneros, sexualidades, raças, culturas, idades. Que, paradoxalmente, são uma maioria numérica empobrecida, à margem dos planos e projetos que produzem as cidades brasileiras e que são enquadrados pelos paradigmas do planejamento e desenvolvimento oficiais como receptores ou usuários de programas, sempre em posição de subalternidade.

São corpos desterritorializados, desconstituídos de direitos, invisibilizados e marginalizados pelo Estado que, muito embora sejam tratados pelo modelo de planejamento neoliberal como “massa de sobrantes”, resistem, se organizam, lutam, são insurgentes e com suas vozes e corpos nos apontam que é urgente repensar e mudar métodos, instrumentos e critérios estruturantes da disciplina urbanística. É preciso dar visibilidade a outras narrativas, cartografar a cidade em posição de denúncia das desigualdades, pensar de forma interseccional, valorizar a diversidade de saberes e vivências dos corpos na cidade e entender a natureza como parte indissociável da nossa existência.

O Margem_Lab investe na construção do saber a partir do contágio e da experiência. Isso significa se colocar em um processo pedagógico sem hierarquias, compartilhando nossas habilidades e recursos intelectuais com sujeitos, comunidades, organizações e movimentos sociais que se encontram com seus direitos à existência, à cidade e à terra ameaçados ou negligenciados pelo Estado. Buscamos, na expressão de suas narrativas, aprender visões outras do existir na cidade que tensionam nossa própria experiência como sujeitos privilegiados. É disso que trata o deslocamento de si, o descaminho que Foucault (1998) defende na atividade filosófica. Quem tem mais respaldo para compreender o que é se deslocar no espaço público senão pessoas em situação de rua7 ou catadores de resíduos sólidos? Quem tem mais condições de aprofundar e implantar relações autogestionárias e compartilhadas, senão os moradores-autogestores de uma ocupação? Quem deve ser consultado sobre a tragédia ambiental senão os povos originários que desde tempos remotos protegem a natureza? Quem tem mais propriedade para debater e propor políticas públicas senão os que necessitam dela?

3 Narrativas à margem e o cartografar em ato

Os pressupostos epistemológicos traçados a partir do pensamento decolonial como revisão necessária à construção histórica do conhecimento e da disciplina teórico-prática do urbanismo; da busca pelo comum como conjunto de heterogeneidades, chave para uma democracia radical e alternativa ao sistema capitalista; finalmente, da narrativa como episteme fundamentada na experiência, nos convoca a pensar a metodologia do Margem_Lab a partir da cartografia como acompanhamento de processos de subjetivação na cidade. A pesquisa cartográfica é aqui entendida na perspectiva de Kastrup e Passos (2013), como modo de acessar o plano do comum e ao mesmo tempo construí-lo. Baseados nas proposições de Deleuze e Guattari, os autores defendem o comum como um plano heterogêneo que “opera a comunicação entre singularidades, sendo pré-individual e coletivo” (KASTRUP, PASSOS, p. 264).

O projeto de pesquisa denominado “Narrativas à margem: a dimensão pública e comum da paisagem na cidade de Porto Alegre/RS” objetiva investigar os argumentos que agenciam a dimensão pública e comum da paisagem urbana e periurbana de Porto Alegre a partir de narrativas constituídas à margem da produção urbana hegemônica da cidade. Porto Alegre, capital do Estado do Rio Grande do Sul, sediou iniciativas relevantes na disputa pela democratização do direito à cidade e na construção do pensamento de um outro mundo possível através da implantação do Orçamento Participativo – OP, iniciado em 1989 – e da realização de quatro edições do Fórum Social Mundial – FSM (2001; 2002; 2003; 2005). Embora essas iniciativas pioneiras demonstrem sua importância aos olhos do mundo, pouco alteraram o cenário de segregação sócio-espacial e desigualdade crescentes.

Pensar em uma metodologia que ultrapasse a idealização desse período e que reconheça seus equívocos é perceber que não basta apenas o governo consultar a população a partir de reuniões abertas à sociedade, sobre as suas demandas prioritárias e incluí-las na Lei Orçamentária Anual, e que os diagnósticos urbanos sejam participativos como preconiza o Estatuto da Cidade (Lei Federal 10.257/2001). Implica, também, que se considere que a urbanização e seu modelo desenvolvimentista carregam uma subjetividade colonializada, que nunca romperá com a segmentação de gênero, raça e classe enquanto as tomadas de decisão e as referências técnicas, culturais, éticas e estéticas venham de uma elite formada majoritariamente de homens brancos construtores de uma burocracia estatal política e técnica embasada no saber científico eurocêntrico.

Nessa pesquisa, procuramos cartografar paisagens urbanas e periurbanas onde o público e o comum se encontram em conflito no território, nos aproximando a sujeitos, comunidades, organizações locais e movimentos sociais que se encontram no epicentro dos conflitos gerados pelo sistema neoliberal, que atualmente conduz o planejamento urbano em Porto Alegre. Portanto, delimitamos aqui uma postura ético-política que assume a cartografia como pesquisa-intervenção dessa realidade, borrando as fronteiras entre o sujeito pesquisador e os sujeitos participantes da pesquisa.

Essa aproximação entre pesquisador e sujeitos participantes só se faz efetiva se abolida a concepção de que o pesquisador predispõe de vantagem cognitiva e sapiente frente ao sujeito pesquisado, supostamente incapaz de compreender o que lhe oprime e o que está em jogo. Jaques Rancière (2017), em sua obra “O mestre ignorante”, chama a atenção sobre a ordem explicadora do mundo8, cuja vigência mantém o status quo do mestre como detentor absoluto do saber, e do aprendiz como sujeito incapaz de apreender o mundo pela própria experiência.

Os pesquisadores que compõem o grupo em ação, nessa pesquisa, são aqui entendidos como cartógrafos, “mestres ignorantes” que produzem narrativas com os sujeitos participantes em busca de um processo de emancipação do conhecimento. Entendendo, tal qual nos explica Rancière (2017, p. 36), que “o pensamento não é um atributo da substância pensante, mas um atributo da humanidade”, nos colocamos a serviço da emancipação como tomada de consciência dos sujeitos de sua natureza intelectual.

Os procedimentos metodológicos que estruturam a pesquisa aludem à indissociabilidade entre atividades teóricas e práticas. A intermediação constante entre o cartografar das narrativas à margem e os seminários teóricos internos ao grupo9 nos possibilitam intercambiar os conceitos oriundos da bibliografia estudada com os saberes situados na cotidianidade dos sujeitos e comunidades com os quais interagimos na produção de narrativas. A bibliografia abordada nos seminários emerge na medida em que a experiência e o contágio com a diferença provoca estranhamentos, deslocamentos internos e, por conseguinte, novas problematizações. Concomitantemente, a literatura decolonial nos aproxima dos sujeitos e comunidades à margem da produção urbana hegemônica, e favorece a postura ética e vigilante do próprio ethos do pesquisador em campo.

A abordagem e o delineamento do campo se dá através de práticas urbanas dos pesquisadores-cartógrafos, agrupadas em dois eixos: [1] derivas urbanas e periurbanas como práticas de reconhecimento sensível da cidade; [2] desenvolvimento de atividades reflexivas e artísticas com comunidades ou grupos cuja aproximação com os cartógrafos ocorre por meio das redes de luta pelo direito à cidade e ao território em Porto Alegre (sempre com temas relacionados à dimensão pública e comum da paisagem). Em ambos conjuntos de práticas cartográficas, nos apropriamos das ferramentas do diário de campo, da fotografia e do audiovisual, buscando fazer uso das mesmas em conjunto com os sujeitos participantes da pesquisa.

Entendemos que, da mesma forma que as paisagens decorrem dos agenciamentos políticos e culturais de um certo contexto, suas imagens são passíveis de ressignificação em diferentes ferramentas de linguagem a partir da necessidade benjaminiana de “escovar a história a contrapelo”10. Nesse sentido, durante as derivas e intervenções urbanas, buscamos coletivizar as ferramentas e modos de registro da experiência, a fim de que as falas e os gestos dos sujeitos e comunidades envolvidas focalizem o que de fato deve ser visibilizado nos seus processos de luta pelo direito à cidade. A edição dos registros também se constitui como um exercício coletivo entre pesquisadores e participantes, operando o contágio entre o saber técnico/científico e o saber situado na experiência cotidiana. Entendemos que o modo de ver e dizer a cidade destes sujeitos é o que pode deslocar nosso olhar enquanto pesquisadores na direção de uma narratividade urbana agenciada pela multiplicidade e pela diferença11.

A cartografia das narrativas à margem produzida ao longo da pesquisa compõe um acervo narrativo, cuja ideia central é, por um lado, operar montagens (BENJAMIN, 2006; DIDI-HUBERMAN, 2007) por aproximações indiciais (BARTHES, 2011) e cronotópicas (BAKHTIN, 1989); por outro, provocar a apropriação do material produzido pelos sujeitos participantes, a fim de que possam dispor deles para suas próprias mídias e atividades. Esse acervo dá lugar a uma etapa analítica das discursividades produzidas nas e sobre as margens da cidade: em uma espécie de arqueologia do contemporâneo, os cartógrafos mergulham no corpus narrativo em atividade interpretativa, a fim de explorar os índices explicados por Barthes, Greimas, Bremond, Eco, Gritt, Morin, Metz, Todorov e Genettte (2011) como sanções paradigmáticas ou atravessamentos implícitos que dão sentido ao relato. Esse conhecimento indicial é intermediado com as relações espaço-temporais do cronotopo proposto por Bakhtin (1989) como suportes compositivos do espaço onde é possível vislumbrar os vestígios do tempo.

Denominamos acervo narrativo um tipo de arquivo incompleto e inacabado no qual figuram as narrativas produzidas nas práticas cartográficas. Operá-lo através do procedimento da montagem (BENJAMIN, 2006; DIDI HUBERMAN, 2007), utilizando os registros das experiências urbanas, é o que nos permite abrir a configuração narrativa de Ricoeur (1994) para entender como o emaranhado de discursividades das margens da cidade rasura a cidade como discurso único e universalizado. Nossa perspectiva metodológica é que os atravessamentos indiciais e cronotópicos ofereçam argumentos sobre a paisagem urbana que desloquem o sentido de público na direção de um comum. Nos parece pertinente que esse acervo, aberto a novos conceitos e experiências, em suporte material e virtual, seja discutido e construído com sujeitos e comunidades envolvidas. Suas vozes e olhares nos encadeamentos dessa narrativa múltipla e fragmentária contribuem para o processo emancipatório do conhecimento para o qual conspiram os pesquisadores-cartógrafos.

A cartografia das narrativas à margem, sua montagem e releitura argumentativa sobre o que constitui o público e o comum na paisagem urbana da cidade são consonantes à espiral da mímese de Ricoeur (1994): as práticas cartográficas da deriva e intervenção urbanas conformam a prefiguração, na qual as discursividades emergem do viver para se tornarem experiência narrada; a atividade de montagem proposta com o acervo narrativo opera a configuração, na qual a inteligibilidade e intertextualidade entre as narrativas conformam a tessitura da intriga onde esperamos entrever as singularidades que compõe o plano heterogêneo do comum; e, finalmente, a refiguração como leitura da trama de argumentos que podem agenciar uma realidade que escapa à normatividade hegemônica geradora das paisagens da espetacularização.

A pesquisa alcança de fato seus objetivos na medida em que as narrativas coproduzidas entre cartógrafos e sujeitos participantes ampliam os argumentos que deslocam o sentido de público para além da dicotomização público-privada, e afirmam o comum como racionalidade combativa ao sistema capitalista que rege as nossas cidades. Essa coprodução se dá, portanto, na partilha da experiência sensível da cidade entre os envolvidos durante as derivas e intervenções urbanas, no compartilhamento das ferramentas e modos de registro dessas experiências e, finalmente, na construção processual e conjunta do acervo narrativo operado por montagens12. Os argumentos que resultam dessas montagens buscam organizar uma contra-narrativa que coloque potência nas vozes historicamente subalternizadas e crie as fissuras no urbanismo colonialista, desigual e segregador por natureza.

4Considerações finais

Pesquisar o urbano a partir de uma lógica narrativa e decolonial permite que o emaranhado de histórias cotidianas, narradas a partir de condições de vulnerabilidade e precariedade, configure a cidade a partir de outros pressupostos. Isso se verifica, por exemplo, no momento em que se amplia o direito à fala desses sujeitos, e são criadas plataformas de escuta nas quais outros sujeitos em condições parecidas são capazes de se reconhecer. A luta pelo direito à cidade passa também por ativar modos de pesquisar que ampliem os lugares de fala e de escuta com procedimentos que rapidamente possam ser apreendidos sem necessidade de mediação. A atualização dos métodos de pesquisa, em uma perspectiva crítica, significa assumir, enquanto pesquisadores, uma postura ético-política que acolhe a complexidade contemporânea do urbano em modos de pensar e fazer, orientados à autonomia e à emancipação do conhecimento.

Entendemos que um corpo político performa a cidade na medida em que tem condições de formar parte do espaço-tempo da mesma, produzindo um acontecimento capaz de criar fissuras na ordem explicadora das coisas. O entrever dos argumentos que estruturam contra-narrativas capazes de fazer frente ao discurso dominante do capital deve colaborar nesse performar; trazer a discussão da interseccionalidade, seus efeitos na constituição da cidade desigual e desestabilizar as paisagens para a renda a fim de abrir espaço às paisagens para a vida (ROLNIK, 2019).

É preciso reconhecer, no âmbito acadêmico dos estudos urbanos, a importância da construção do conhecimento através da experiência, da narrativa, da performatividade, da expressão artística, das corporeidades múltiplas e dos testemunhos. Da mesma forma, reconhecer a importância do contágio entre o saber técnico/científico e o saber situado na experiência cotidiana. Somente aí conseguiremos, de fato, fissurar o colonialismo do urbano, dessacralizar o pensamento pré-concebido do outro lado do oceano e deixar de dar as costas às margens e a toda a sua história de resistência, luta e construção das cidades. Para além das produções escritas, imagéticas e audiovisuais, o que aspira nosso exercício também é viabilizar, compartilhar e construir com sujeitos, comunidades, organizações e movimentos sociais informações e ferramentas para a emancipação (RANCIÈRE, 2017).

Buscamos legitimar a potência da narrativa enquanto epistemologia capaz de compreender processos contemporâneos de subjetivação que influenciam e são influenciados pelo território em disputa. A cartografia das margens deve agenciar o corpo político (do sujeito participante e do pesquisador) para o exercício autônomo da cidadania e dos direitos humanos, para a incidência na realidade urbana de outros modos de ser e para uma mobilização que contraponha o monopólio e a monocultura das intervenções nas esferas políticas de planejamento, administração e gestão da cidade. Importa abrir caminho às práticas urbanas que recuperam o comum (DARDOT, LAVAL, 2017) como racionalidade alternativa ao capitalismo e como composição complexa das diferenças. Não apenas por ser legítimo, mas também por convocar alternativas redentoras e de resistência à barbárie civilizatória ocidental.

Referências

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1 A ideia de que parece não haver saída para esse sistema, ou, como dizem Jameson (1997) e Zizek (2015) de que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo, revela como a globalização distorce o senso de historicidade da sociedade. Não é à toa que as distopias e ficções, que falam mais do nosso presente do que o futuro em si, apontam para o apocalipse como dado irreparável do futuro. Jameson acredita que isso é um senso de história reprimido.

2 Sem ignorar a complexidade desse modelo e suas contingências históricas, o que queremos demarcar é sua pretensão de fazer-se exclusivo nos estatutos de verdade.

3 Conceito de Boaventura de Souza Santos que acusa a narrativa eurocêntrica responsável por compreender a história como tendo direção e sentido únicos, comprimindo em uma mesma trama a totalidade do espaço, do tempo, das culturas, dos povos e dos territórios. Retirado da obra: CRUZ, V. Geografia e pensamento descolonial: notas sobre um diálogo necessário para a renovação do pensamento crítico. In: CRUZ, V.; OLIVEIRA, D. (Orgs.). Geografia e giro descolonial. Experiências, ideias e horizontes de renovação do pensamento crítico. Rio de Janeiro: Letra Capital, 2017.

4 Alusão ao conto de Jorge Luis Borges “Os dois reis e os dois labirintos”, da obra BORGES, Jorge Luis. O Aleph. São Paulo: Companhia das letras, 2008.

5 Valter do Carmo Cruz também adiantou-se: “Esse processo de constituição da colonialidade do poder, do saber, do ser e da natureza tem na conquista ibérica do continente americano seu momento inaugural. A partir do domínio ibérico, dois processos articuladamente conformam a nossa história posterior: a modernidade e a organização colonial do mundo. Com o início do colonialismo na América, origina-se não apenas a organização colonial do mundo, mas, simultaneamente, a constituição colonial dos saberes, das linguagens, da memória e do imaginário (LANDER, 2005). Desse modo, inaugura-se, por um lado, o projeto civilizatório da modernidade, que busca afirmar e celebrar a experiência histórica particular da Europa como sendo algo universal e superior, através de elementos como o racionalismo, o humanismo, a ciência, a ideia de progresso, o Estado, etc. Mas, por outro lado, nesse processo, negaram-se e subalternizaram-se outras matrizes de racionalidades, outras formas de razão, outros projetos civilizatórios, outras cosmovisões, com outros saberes, linguagens, memórias e imaginários” (CRUZ, 2017, p. 19).LANDER, E. (Org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais latino-americanas. Buenos Aires: CLACSO, 2005.

6 “Nessa perspectiva, aqueles que não conseguirem incorporar-se a esta marcha inexorável da história estão destinados a desaparecer. As outras formas de ser, as outras formas de organização das sociedades, as outras formas de conhecimento são transformadas não só em diferentes, mas em carentes, arcaicas, primitivas, tradicionais, pré-modernas e, como afirma Lander, são situadas num momento anterior do desenvolvimento histórico da humanidade, o que, no imaginário do progresso, enfatiza sua inferioridade” (CRUZ, 2017, p. 21).

7 A opção pela denominação de pessoas em situação de rua aos moradores de rua foi uma escolha conceitual. De acordo com Patrice Schuch e Ivaldo Gehlen, “A ruptura entre a terminologia ‘morador de rua’ e ‘pessoas em situação de rua’ e/ou ‘população em situação de rua’ foi, portanto, significativa de toda uma mobilização política que visou, de um lado, atentar para a situacionalidade da experiência nas ruas e, de outro, combater processos de estigmatização dessa população, definindo-os a partir de uma concepção do habitar a rua como uma forma de vida possível, e não através de uma falta ou uma carência – de casa ou local de moradia fixa (Magni, 1994, 2006; Schuch, 2007; Schuch et al., 2008). SCHUCH, P.; GEHLEN, I. A “situação de rua” para além de determinismos: explorações conceituais. In.: DORNELES, A. E.; OBST, J.; SILVA, M. B. A Rua em Movimento: debates acerca da população adulta em situação de rua na cidade de Porto Alegre. 1 ed. Didática Editora do Brasil, Belo Horizonte, 2012. Disponível em: http://lproweb.procempa.com.br/pmpa/prefpoa/fasc/usu_doc/a_rua_em_movimento.pdf. Acesso em: 03 mar. 2020.

8 "A explicação não é necessária para socorrer uma incapacidade de compreender. É, ao contrário, essa incapacidade, a ficção estruturante da concepção explicadora do mundo. É o explicador que tem necessidade do incapaz, e não o contrário, é ele que constitui o incapaz como tal. Explicar uma coisa a alguém é, antes de mais nada, demonstrar-lhe que não pode compreendê-la por si só. Antes de ser o ato do pedagogo, a explicação é o mito da pedagogia, a parábola de um mundo dividido em espíritos sábios e espíritos ignorantes, espíritos maduros e imaturos, capazes e incapazes, inteligentes e bobos. O procedimento próprio do explicador consiste nesse gesto inaugural: por um lado ele decreta o começo absoluto – somente agora tem início o ato de aprender; por outro lado ele cobre todas as coisas com o véu da ignorância que ele próprio se encarrega de retirar."(Rancière, 2017, p. 23 e 24).

9 Os seminários acontecem duas vezes ao ano com uma dinâmica de leitura e discussão em grupos pequenos, e posteriormente uma escrita coletiva entre todos os grupos (composta de imagens e fragmentos textuais) operando os cruzamentos conceituais relacionados ao tema da pesquisa em curso. Elencamos obras de autores contemporâneos que propõem rupturas epistemológicas e metodológicas com a tradição do pensamento sobre o sujeito, a história e a cidade.

10 A Tese VII, das Teses Sobre o Conceito de História (BENJAMIN, 1981), trata de apontar críticas ao historicismo, nas quais são abordados os problemas culturais. “O momento destruidor: demolição da história universal, eliminação do elemento épico, nenhuma identificação com o vencedor. A história deve ser escovada a contrapelo” (BENJAMIN, 1981, p. 1240).

11 Um exemplo de intervenção urbana realizada a partir da apropriação coletiva das ferramentas fotográficas e audiovisuais foi intitulada “Mo[nu]mento e cidade”, produzida durante o XXI Congresso Brasileiro de Arquitetos em 2019, em Porto Alegre. A intervenção de arquitetura efêmera e cinema expandido, idealizada pelos arquitetos Lívia Koeche e Pedro Leggerini foi realizada em conjunto com lideranças do Coletivo Baronesa Resiste, Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM) e pesquisadores do Margem_Laboratório de Narrativas Urbanas. Consistiu em um grande cubo branco edificado com andaimes de obra e tela semitransparente que envolveu a estátua equestre erguida em homenagem a Manuel Luís Osório, patrono da Cavalaria do Exército Brasileiro e herói da Guerra do Paraguai. O monumento de bronze está assentado no topo de uma grande base de granito cercada por um espelho d'água na porção central da antiga Praça da Alfândega, no centro de Porto Alegre. Nesse cubo branco que envolveu o busto do herói de guerra, foram projetadas cenas e áudios de remoções forçadas ocorridas na cidade nos últimos meses. A produção de muitos dos registros utilizados na projeção, a escolha e a edição das imagens, vozes e palavras que compôs a narrativa múltipla exposta em praça pública, foi fruto de um trabalho coletivo entre pesquisadores e movimentos sociais envolvidos. O rompimento do regime de autorização discursiva operado pela visibilização das vozes silenciadas faz referência a uma história a contrapelo, onde o “monumento aos vencidos” se instaura a partir de voz e movimento sobre o “monumento ao vencedor”.

12 Outro exemplo de deslocamento metodológico operado pelo Margem_Lab é o podcast “Cartas das Periferias”, desenvolvido em conjunto com outros grupos de pesquisa e extensão da UFRGS e militantes da luta pela moradia. O projeto se constitui como ferramenta para visibilizar as narrativas do cotidiano dos territórios periféricos, atravessados pelo impacto da crise generalizada do vírus Covid-19, que, devido aos sintomas da desigualdade urbana aqui explicitados, são ignorados pela gestão pública. Essa ação pretende ser um espaço de mobilização coletiva entre as comunidades, oferecendo recursos para uma política de emancipação, solidariedade e escuta de suas realidades e reivindicações.

Narratives on the margins: shifting epistemes for a methodology of the common

Daniele Caron, Rodrigo Isoppo, Katia Oliveira, Gianluca Perseu

Daniele Caron is an architect and urbanist and a Ph.D. in Urban Planning. She is a professor at the Faculty of Architecture and the Graduate Program in Urban and Regional Planning at the Federal University of Rio Grande do Sul, Brasil. She coordinates the research group Margem - Laboratory of Urban Narratives, where conducts research on the narrative and the common in the contemporary landscape. daniele.caron@ufrgs.br

Rodrigo Isoppo has a Bachelor's Degree in Social Sciences, a Master's Degree in Social and Institutional Psychology and is a researcher in the Graduate Program in Social and Institutional Psychology at the Federal University of Rio Grande do Sul, Brazil. He is a public policy advisor to the Regional Council of Psychology of the state of Rio Grande do Sul and works in the research group Margem - Laboratory of Urban Narratives, where he produces studies on subjectivity and social movements. minhopa@gmail.com

Katia Oliveira is an architect and urbanist, Master in Social Memory and Cultural Heritage, and a researcher in the research group Margem - Laboratory of Urban Narratives, at the Federal University of Rio Grande do Sul, Brazil. arqkatia@gmail.com

Gianluca Perseu is an architect and urbanist and a researcher at the Postgraduate Program in Urban and Regional Planning at the Federal University of Rio Grande do Sul. He is a member of the research group Margem - Laboratory of Urban Narratives. gperseu@hotmail.com"


How to quote this text: Caron, D., Isoppo, R. S., Oliveira, K., Perseu, G. M., 2020. Narratives on the margins: shifting epistemes for a methodology of the common. Translated from Portuguese by Janete Bridon Reis. V!rus, Sao Carlos, 20. [e-journal] [online] [online] Available at: <http://www.nomads.usp.br/virus/virus20/?sec=4&item=7&lang=en>. [Accessed: 27 January 2023].

ARTICLE SUBMITTED ON MARCH 10, 2020


Abstract

The conjecture of political, economic, and social instability that plagues the West in contemporaneity summons us to discuss epistemological premises as agencies of the urban issues in its coloniality, pointing towards the necessary rupture of a discursive authorization regime which renders narratives on the margins of hegemonic urban production invisible. To revise such premises implies denaturalizing the modus operandi of western urban planning, causing modes of subjectivation that escape the normativity imposed by the patriarchal and neoliberal system to emerge, and enabling urban practices which restore the common (Dardot, Laval, 2017) as alternative rationality to capitalism and as a complex composition of differences. From the acknowledgment of narrative as an epistemology of experience, the methodology seeks to cartograph the historically erased and excluded narratives of the city, in order to update and broaden the limits of research methods in urban studies, in view of the complexity of the contemporary city. Ricoeur’s (1994) mimetic spiral allows us to operate urban drifts and interventions as narrated experience to glance at the singularities that compose the heterogeneity of the common and to bring out other arguments about the living city, capable of shifting the coloniality of knowledge that still prevails in urban planning.

Keywords: Urban planning, Coloniality, The common, Narrative, Cartography



1Introduction: concerns

The non-extendable necessity to decolonize knowledge in our contemporaneity is accompanied by the inquietude which the historically academic epistemological and methodological tools, once supposed to be unbreakable, could not avoid, even conducting us to the unprecedented barbarism of modern capitalism. Thereby our rationality, synthetic ability, and transformation have conducted us to inoperability and to the embarrassing fact of being unable to find alternatives to reverse their aspects and symptoms. “It is easier to imagine an end to the world than an end to capitalism" – affirmation endorsed by countless intellectuals. (Jameson, 1997; Zizek, 2015)1.

The blind spot of this not at all consoling affirmation is in the perspective of those who imagine, of which devices agentiate, exercise or stifle our imagination and our faculty to imagine new possibilities. Many centuries have passed in which imagination has been colonized by a single world-conception, encompassing the dimensions of time and space. We verify the fact that a model of thought2 has succeeded in infecting the world with its monoculture of linear time3 (Souza Santos, 2006) at the expense of the extermination of countless other possibilities of affirmation of the world. It is evident that there is, in the unnoticed history of human thought, an infinite biodiversity that puts in doubt the omnipotence of white western thought.

Thinking of cities in the present requires awareness of such matters, taken less as scenarios or contexts than as epistemological premises which should reorient our actions in urban research as well as the complexity called upon by those premises. In the subject of adopting different perspectives of urban reality it is fundamental to question what has been naturalized as city and as landscape in order to attend to that which has not remained, to those who have been pushed to the margins or eliminated in order to leverage urban planning as an instrument for exclusion and extermination of certain social groups. It falls under the responsibility of knowledge operators, including planners, to experiment new compositions so as to contest old and hegemonic practices of governing the truth of beings.

This text answers to the proposition “question of method”, which provokes urban researchers to rethink the idea of method as a predefined path based on a set of principles. We understand that, in order to address urban issues, it is fundamental to review colonialist epistemological principles, so as to review the ways of researching and updating them in a critical perspective. We reflect hereby about how far opening up to non-hegemonic narratives can dislocate such coloniality and the ways of thinking, inviting us to think of method in its processual, open, and unfinished condition.

Cities were born from a new relation between man and nature, derived from human settlement and dominance over a territory for planting crops. They were built as a fruit of the imagination, from the articulated work of many people (Rolnik, 2012) and their multiple knowledge, shared by experiencing a common life. However, since the implantation of hegemonic thought, based on rationalization and universalization and sedimented in 19th century Europe, the production of urban space has been conducted by a white man elite that has built a political and technical state bureaucracy, grounded in scientific knowledge.

As a result of the Athens Charter (CIAM, 1933), a manifesto that promoted functional/rational urban planning by separating and ranking the functions of modern daily life and proposing a renovation of old consolidated urban centers as well as appointing the automobile as the prime solution for mobility, fragmented, dispersed, unfair, inequal, socially and environmentally unsustainable cities were produced. Such cities also reflect an economic structure in which material production is comprehended as the sole key to prosperity. Human bodies are racialized, sexualized, commercialized, controlled, incarcerated, and transformed into gears of a machine that both consumes and produces goods, where land and knowledge, once shared, have become individually owned goods as opposed to resources for the collective rights of fruition.

Rolnik (2019) contributes to the discussion by alerting about the shift from life-oriented landscapes to income-oriented landscapes. The author argues about the global process of financialization and its expression in the spectacular landscapes of singular architectures which, through neoliberal urban planning, authorizes countless processes of forced removals, impoverishing the lives of enormous populational contingents throughout the world. Pinpointing the utopias of urban intervention originated in the western European epicenter as the origin of the discipline of urbanism, Rolnik (2019, p. 27) highlights “the role of such operations of de-re-territorialization in its colonialist imposition to the countries at the periphery of capitalism”.

The ceaseless movement of reconfiguration in these landscapes of supposed urban requalification, moved by financial capital and filled with the abstract signs of private property and functionality, calls us to rethink political and cultural foundations and to claim the decolonization of thought in cities regarding mainly that which has been on the margins of the mechanisms of capitalist production (Rolnik, 2019).

The necessary criticism of urban planning and its role in the maintenance of the status quo of neoliberal capitalist system demands a conceptual and methodological repositioning in urban studies, in the effort to question the public-private dichotomization that grounds social inequity and deepens territory precariousness, strongly marked by ethno-racial elements.

It seems pertinent hereby to approach the discussions on common studies by Dardot and Laval (2017) as an endeavor towards an alternative rationality to the present political and economic system and as a complex composition of differences. According to the authors (Dardot, Laval, 2017, p.16), “the common has become an effective principle for struggles and movements that for two decades resist the dynamics of capital and lead to original forms of action and discourse”, naming “a regime of practices, struggles, institutions and researches that open the doors to a non-capitalist future” (Dardot, Laval, 2017, p. 18).

From this new rationality, which operates matters of social, cultural, political, environmental and economic order, and that may provide power to discourses traditionally denied or appeased by the capitalistic regime, we defend narrative as an epistemology for accessing multiple experiences in and of the city. To operate urban research from a narrative approach is to “give way to a radically singular and impersonal disposition: a researcher and a world able to be created and destroyed – more so than being affirmed or discovered” (Mizoguchi, 2015, p. 207).

Paul Ricoeur (1994, p. 85) even relates experience and narrative by arguing that “there is between the activity of telling a story and the temporal character of human experience a correlation which is not purely accidental but presents a form of transcultural necessity”. Narrative is constituted, then, as an episteme for paving a methodological path which assumes human experience as a foundational question, opening up the comprehension of reality by means of the always unique inventive capacity of the one who narrates.

This text intends to discuss the agency of epistemological premises on urban issues in its colonialist constitution as well as the necessary rupture of a discursive authorization regime which renders narratives on the margins of hegemonic urban production invisible. The proposed agency concerns the investigation of methodologies that operate such singularities, assuming them as speech and listening devices that, emerging from processes of territory erasure, are able to claim the common as a heterogeneous plan which tenses the modus operandi of contemporary urbanism.

2 Epistemological shifts: fissures in the coloniality of the urban

All research is moved by interests. Interests which do not fail to go through a desire for knowledge of the one who investigates. An explorer needs a starting impulse to map a plan, as well as a purpose to orient their route. When it comes to academic research, Michel Foucault (1998) acknowledges that it is possible to distinguish between two forms of obstinacy to move a philosopher: one that seeks a complementary accumulation of knowledge from that which is already known and one which “allows [the philosopher] to separate from themselves” (Foucault, 1998, p. 13) as if they were drifting in a desert.

In the first option, the researcher emerges, in a more predictable way, amid a labyrinth, prefabricated4 by the technologies of power/knowledge. Guided by a road they deem to be more comfortable, they seek only to overcome external obstacles and, strong, heroic, quantitatively satisfied, and awarded with legitimacy, to find a way out. The challenge that we pursue, as a research laboratory, resembles the second case: to wander through a desert, instead of a prefabricated labyrinth. A desert that promotes “as much as possible, the deviation of one who knows” (Foucault, 1998, p. 13). In a desert there is no starting point, route options, external obstacles. There is indeed a subject who must move themselves from the inside, find out that their survival depends on the obstinacy to strip off what was known, becoming another as demanded by the desert.

The research group Margem Laboratório de Narrativas Urbanas (Margin Laboratory of Urban Narratives), attached to the Graduate Program in Urban and Regional Planning (PROPUR) at the Federal University of Rio Grande do Sul (UFRGS) has been mapping the city of Porto Alegre, the southernmost state capital in Brazil, located in the state of Rio Grande do Sul, in partnership with social movements whose agendas focus on the right to the city. The objective of this investigative practice is to access the daily narratives that constitute the urban landscape, of those who led erased, denied, or neglected modes of existence by urban planning policies. In view of the worrying neoliberal agenda operating the city as a commodity and of a state that should protect its heritage, its inhabitants and its public services being managed by speculators, driven by the excessive accumulation of economic power, our cities suffer and agonize.

The great contemporary Latin American cities are both cause and consequence of the European imperialist civilizing process (Souza Santos, 2006), which, from its beginnings, has been dedicated to expanding its culture and converting different peoples to its worldview, to its metaphysics, in order to favor its dominance and exploration. To support this project, European states have refined their power technologies in order to guarantee sovereignty over the lives and deaths of these populations. Such is the subject explored by Michel Foucault (2005) in his course at the Collège de France, entitled “Society Must Be Defended”. For him, the sovereign strategy of modern capitalism is found in what he calls the “biological continuum of the human species” (Foucault, 2005, p. 305), in which power, roughly speaking, operates in order to establish the biological dominion of a race in relation to another, triggering, within the population, a war or an extermination of different social groups that lasts infinitely as long as sovereignty is maintained.

Foucault (2005) arrived at such a philosophical proposition through his studies on biopolitics, affirming it to have been originated in the European totalitarian states of the second half of the 20th century. However, it was Achile Mbembe (2018), a black Cameroonian philosopher who, at the beginning of the 21st century, pointed out such a power technology as originally inspired by the colonialist project of the Americas, long before Nazism and Stalinism, as proposed by Foucault (2005), and its first acknowledgement when white European victims were exterminated (Mbembe, 2018). Such is the importance of the historical and conceptual impact only rewritten by the decolonialization of knowledge, which depends inevitably on an epistemological proposer from a different place, from a different origin, from a different point of view: of those whose truth is incarnate in their own bodies5.

Ibáñez (2016), when proposing the resignification of the extrativist and colonial city, defies Latin American urbanists (planners) to be encouraged and problematize that which they have been accepting and normalizing as space and modes of life in cities, that have come to be understood as synonyms of “urbanizing” and “civilizing”. There is no other way to discover and rediscover ourselves so that we can unveil new articulations and new horizons for the continent.

This displacement alone is enough to irreversibly damage contingent realities, once fertile and regarded as primitive, archaic, and unusable6. The question that deserves attention is: through which forces, motivations and interests has the city become the foundation of an effectively colonialist system, exalted by the greed of a culture that condemns every difference at its service? Should we then destroy it and make a new beginning? Besides being counterproductive, that would be repeating the opponent’s rhetoric. By assuming the city to be a historical phenomenon that both produces and destroys subjectivities, it would convey them to be coated with the concept of territory.

Every city forms itself. Cardoso Filho (2016) helps us understand the intrinsic relations among such elements from the way the ideas of externality and internality, time, and space were historically built. He defends that the matter composing that which is external to us is not inert or a simple scenario of relations that transform us. That we, as human beings, are extensive folds of such matter, capable of organizing and moving, “there being neither absolute externality nor internality outside of the situated and historical processes in which they were produced” (Cardoso Filho, 2016). That is, even though urban conglomerates have been built in the light of colonial thought, they possess the faculty to induce other flows of relations, other experiences, other uses, other reality mechanisms.

We hereby explore the simultaneity between object (sensitive data) and subject (one who surpasses themselves in the act of experiencing) and between time and space, under the conception of experience as proposed by Deleuze and Guattari (2010). The city is established from experience, although at the mercy of colonialist power. And the emergency of narratives that escape the hegemony of colonialist discourse may bring other truths about the subject and their spatio-temporal experience in the city. Cruz (2017) calls our attention to the hegemony of colonialist narrative based on the myth of modernity, which has been founded on both the suppression of spacial multiplicity and the reduction of temporality into singular time.

It is by refusing the usual way of thinking and by doing that we wish to operate our methodological assumptions. Thus, we propose a methodology capable of advocating for bodies and voices that, in order to remain lit, even dwindling and threatened daily, have had to reframe and resignify the world in order to be included in it. Bodies, voices, and territorialities which contain in themselves other modes of existing and persisting, of making sense of time and space, of beings and things which appeal through the legitimacy of their values and inspire those who perceive themselves as having no way out of such a system.

With the incipient visibility of decolonial knowledge being a result of the struggle, courage and affirmation of the so-called minority identities, the path is unlocked to imagine and create new tactics and strategies that show, immobilize and deprogram the necropolitical mechanism of modern societies’ structuring coloniality, subtly sophisticated and presumably imperishable, capturing and perverting any potent settlements capable of turning the city into a polyphonic time-space, contagious with the unpredictability of encounters. The frailty of the system lies precisely in what is believed to be controlled, and the more the margins rise and become empowered, the greater the effort to recognize them and bring them into the participatory and deliberative fields of the city, the more drowned in their own emptiness are those frail bodies of meritless-born winners.

Nevertheless, this constant and irreversible deflagration of the system’s frailty, added to its survival, inherently inseparable from imposition and brutality, is what tends to provoke a desperately fascist and militarized answer to contain the inevitable resistances from the margins. Pelbart’s (2019) proposition, inspired by David Lapoujade, is hereby valid, found on the back cover of his most recent work: “Ensaios do Assombro”: “to not remain in the weakness of only cultivating strength, but having the strength to live up to one’s own weakness”.

We understand as margins the less recognized groups in social hierarchies or those considered more vulnerable. Those who, in reality, constitute the majority of the population living in the “commodity city”: bodies of different genders, sexualities, races, cultures, ages. Those who, paradoxically, are an impoverished numerical majority, on the margins of the plans and projects that produce Brazilian cities and which are framed by the official planning and development paradigms as recipients or users of policies, always in a position of subordination.

Those are deterritorialized bodies, deprived of rights, made invisible and marginalized by the State, which, although treated by the neoliberal planning model as a “mass of leftovers”, resist, organize, fight, are insurgent and with their voices and bodies point to the urgency of rethinking and changing methods, instruments, and the structuring criteria of the urban discipline. It is necessary to make other narratives visible, to map the city to denounce inequalities, to think intersectionally, to value the diversity of knowledge and the experiences of bodies in the city and to understand nature as an inseparable part of our existence.

Margem Lab invests in the construction of knowledge based on contact and experience. This means putting ourselves in a pedagogical non-hierarchical process, sharing our skills and intellectual resources with subjects, communities, organizations, and social movements who are having their rights to existence, to the city, and to the land threatened or neglected by the State. We seek, in the expression of their narratives, to learn different views of being in the city, which puts tension on our own experience as privileged subjects. This is what the displacement of self is about, the deviation that Foucault (1998) defends in philosophical activity. Who has more support to understand what it is to move through public spaces than people in street condition7 or waste collectors? Who is better able to deepen and implement self-management and sharing relationships, if not the self-managing residents of an occupation? Who should be consulted about the environmental tragedy if not the native peoples who have protected nature since ancient times? Who has more property to debate and propose public policies than those who need it?

3Narratives on the margins and mapping as an act

The epistemological assumptions drawn from decolonial thinking as a necessary revision to the historical construction of knowledge and the theoretical-practical discipline of urbanism; the search for the common as a set of heterogeneities, key to a radical democracy, and alternative to the capitalist system; finally, from the narrative as an episteme based on experience, we are invited to think about the Margem Lab methodology based on cartography as an accompaniment to subjectivation processes in the city. Cartographic research is hereby understood from the perspective of Kastrup and Passos (2013), as a way of accessing the common plan, whilst at the same time constructing it. Based on the propositions of Deleuze and Guattari, the authors defend the common as a heterogeneous plan that “operates the communication among singularities, being pre-individual and collective” (Kastrup, Passos, 2013, p. 264).

The research project called “Narratives on the margins: the public and common dimension of the landscape in the city of Porto Alegre/RS” aims to investigate the arguments that influence the public and common dimension of the urban and peri-urban landscape of Porto Alegre from narratives constituted on the margins of the city’s hegemonic urban production. Porto Alegre, capital of the southernmost Brazilian State of Rio Grande do Sul, has hosted relevant initiatives in the dispute towards the democratization of the right to the city and the construction of the thought of another possible world through the implementation of the Participatory Budget – Orçamento Participativo, or OP, started in 1989 – and the realization of four editions of the World Social Forum – Fórum Social Mundial, or FSM (2001, 2002, 2003 and 2005). Although these pioneering initiatives demonstrate their importance in the eyes of the world, they have hardly changed the scenario of increasing socio-spatial segregation and inequality.

To think of a methodology that goes beyond the idealization of this period and that recognizes its misconceptions is to perceive that it is not enough for the government to simply consult the population in meetings, open to society, about their prioritized demands and include them in the Annual Budget Law, and that the urban diagnostics be participatory as recommended by the City Statute (Federal Law 10.257 / 2001). It also implies to consider that urbanization and its developmental model carry a colonialized subjectivity, which will never break the segmentation of gender, race, and class as long as decision-making and technical, cultural, ethical and aesthetic techniques keep coming from an elite formed mostly of white men who are builders of a political and technical state bureaucracy based on Eurocentric scientific knowledge.

In the present research, we seek to map urban and peri-urban landscapes where the public and the common are in conflict in the territory, by approaching subjects, communities, local organizations and social movements that are at the epicenter of the conflicts produced by the neoliberal system, which currently leads the urban planning in Porto Alegre. Therefore, we hereby outline an ethical-political stance that assumes cartography as a research-intervention of such reality, blurring the lines between the researching subject and the subjects participating in the research.

This approximation between researcher and participating subjects is only effective if the conception that the researcher predisposes a cognitive and sapient advantage over the researched subject, supposedly unable to understand what oppresses them and what is at stake, is abolished. Jacques Rancière (2017), in his work “The Ignorant Schoolmaster”, draws attention to the explanatory order of the world8, whose validity maintains the status quo of the master as the absolute detainer of knowledge, and the apprentice as a subject unable to apprehend the world through their own experience.

The researchers who make up the active group in this research are hereby understood as cartographers, “ignorant masters” who produce narratives along with the participating subjects, in search of a process of knowledge emancipation. Understanding, as explained by Rancière (2017, p. 36), that “thought is not an attribute of the thinking substance, but an attribute of humanity”, we place ourselves at the service of emancipation as the subjects’ recognition of their intellectual nature.

The methodological procedures that structure the research allude to the inseparability between theoretical and practical activities. The constant intermediation between the mapping of narratives on the margins and the group’s internal theoretical seminars9 allow us to interchange the concepts from the studied bibliography with the knowledge located in the daily lives of the subjects and communities who we interact with in the production of narratives. The bibliography addressed in the seminars emerges as the experience and the contact with difference causes strangeness, internal displacements and, consequently, new problematizations. Concomitantly, decolonial literature brings us closer to subjects and communities on the margins of hegemonic urban production and favors the ethical and vigilant stance of the field researcher’s own ethos.

The approach and the outline of the empirical field takes place in the researchers-cartographers’ urban practices, which are grouped in two axes: [1] urban and peri-urban drifts as practices of sensitive recognition of the city; [2] development of reflective and artistic activities with communities or groups whose approximation to the cartographers occurs through networks of struggle for the right to the city and the territory in Porto Alegre (themes always related to the public and common dimension of the landscape). In both sets of cartographic practices, we utilize field diaries, photography and audiovisuals as tools, seeking to make use of them together with the subjects participating in the research.

We understand that, just as landscapes result from political and cultural agencies of a certain context, their images are liable to be re-signified in diverse language instruments based on the benjaminian need to “brush history against the grain”10. In this sense, during the drifts and urban interventions, we seek to make the tools and ways of recording the experience collective, so that the speeches and gestures of the involved subjects and communities focus on what should in fact be made visible in their struggles for the right to the city. The editing of such records is also a collective exercise between researchers and participants, operating the interchange between technical/scientific knowledge and the knowledge located in everyday experience. We understand that these subjects’ way of viewing and affirming the city is what can shift our gaze as researchers in the direction of an urban narrativity agentiated by multiplicity and difference11.

The cartography of narratives on the margins produced throughout the research composes a narrative archive, whose central idea is, on the one hand, to operate assemblies (Benjamin 2006; Didi-Huberman 2007) by indicial (Barthes, 2011) and chronotopic approaches (Bakhtin 1989); on the other hand, to provoke the appropriation of the material produced by the participating subjects, so that they can have them available for their own media and activities. This archive enables an analytical stage of the discursivities produced on and about the margins of the city: in a sort of archeology of the contemporary, the cartographers immerse themselves in the narrative corpus by means of an interpretive activity, in order to explore the indicators explained by Barthes et al. (2011) as paradigmatic enactments or implicit crossings that give meaning to the report. This indicial knowledge is mediated by the spatio-temporal relations of the chronotope proposed by Bakhtin (1989) as compositional supports of the space where it is possible to glimpse the traces of time.

We name narrative archive a type of incomplete and unfinished collection in which the narratives produced in cartographic practices are registered. Operating it through the assembly procedure (Benjamin, 2006; Didi-Huberman, 2007) and utilizing the records of urban experiences is what allows us to open up Ricoeur’s (1994) narrative configuration in order to understand how the intertwining of discursivities on the city margins ​​erases the city as a unique and universal discourse. Our methodological perspective is that the indicial and chronotopic crossings offer arguments about the urban landscape that shift the sense of public towards the common. It seems relevant to us that this collection, open to new concepts and experiences, in material and virtual support, has been discussed and built with the subjects and communities involved. Their voices and views in this multiple and fragmentary narrative series contribute to the emancipatory process of knowledge plotted by the cartographers-researchers.

The cartography of narratives on the margins, its assembly and argumentative rereading on what constitutes the public and what is common in the urban landscape of the city are consonant with Ricoeur’s (1994) mimetic spiral: the cartographic practices of urban drift and intervention compound the prefiguration, in which discursivities emerge from the act of living to become narrated experiences; the assembly activity proposed with the narrative archive operates the configuration, in which the intelligibility and intertextuality among narratives shape the fabric of intrigue in which we hope to glimpse the singularities that make up the heterogeneous plan of the common; and, finally, there is refiguration as a reading of the plot of arguments that can make agency of a reality that escapes the hegemonic normativity which generates the landscapes of spectacle.

The research actually achieves its objectives to the extent that the narratives, co-produced between cartographers and participating subjects, expand the arguments towards a sense of public that goes beyond the public-private dichotomy, and affirm the common as a combative rationality to the capitalist system governing our cities. This co-production occurs, therefore, in the sharing of the sensitive experiences of the city among those involved in the urban drifts and interventions, in the sharing of tools and ways of recording these experiences and, finally, in the procedural and joint construction of the narrative collection operated by assemblies12. The arguments that result from these assemblies seek to organize a counter-narrative, empowering historically subordinated voices and creating fissures in the colonialist, unequal, and segregating by nature urbanism.

4Final considerations

Researching the urban from a narrative and decoloniality logic allows the tangle of everyday stories, narrated from conditions of vulnerability and precariousness, to configure the city based on other assumptions. This occurs, for example, at the moment when the subjects’ right to speak is expanded, and listening platforms are created in which other subjects, in similar conditions, are able to recognize themselves. The struggle for the right to the city also involves activating ways of research that expand the places of speech and listening with procedures that can quickly be apprehended without the need for mediation. Updating research methods in a critical perspective means assuming, as researchers, an ethical-political stance that embraces the contemporary complexity of the urban in ways of thinking and acting oriented to the autonomy and emancipation of knowledge.

We understand that a political body performs the city to the extent that it is able to form part of its time-space, producing an event capable of causing cracks in the explanatory order of things. The set of arguments that structure counter-narratives, capable of facing the dominant discourse of capital, must collaborate in this performance; it must bring up the discussion of intersectionality, its effects on the constitution of the unequal city and destabilize income-oriented landscapes in order to make room for life-oriented landscapes (Rolnik, 2019).

It is necessary to recognize, in the academic scope of urban studies, the importance of constructing knowledge through experience, narrative, performativity, artistic expression, multiple corporealities and testimonies. Likewise, to recognize the importance of contact between technical/scientific knowledge and knowledge located in everyday experience. Only then will we be able, in fact, to fissure urban colonialism, to desecrate thought preconceived from overseas and to stop turning our backs on the margins and their entire history of resistance, struggle, and city building. In addition to written, imagery and audiovisual productions, what we aspire for is also to enable, share and build information and tools for the emancipation of subjects, communities, organizations, and social movements (Rancière, 2017).

We seek to legitimize the power of narrative as an epistemology for understanding contemporary processes of subjectivation that influence and are influenced by the territory in dispute. The cartography of the margins must make agency of the political bodies (those of the participating subject and the researcher) for the autonomous exercise of citizenship and human rights, for the incidence of other ways of being in urban reality and for a mobilization that opposes monopoly and monoculture interventions in the political spheres of city planning, administration and management. It is important to pave the way for urban practices that restore the common (Dardot, Laval, 2017) as an alternative rationality to capitalism and as a complex composition of differences. Not only because it is legitimate, but also because it calls for redemptive and resistant alternatives to Western civilizing barbarism.

References

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1 The idea that there seems to be no way out of this system, or as said by Jameson (1997) and Zizek (2015) that it is easier to imagine an end to the world than an end to capitalism reveals how globalization distorts the sense of historicity in society. It is not idly that dystopias and fictions, which speak more about our present than our future, point to the apocalypse as an irreparable event in the future. Jameson believes that to be a repressed sense of history.

2 Without ignoring the complexity of such model and its historical contingencies, what we intend to outline is its pretension to make itself exclusive in statements of truth.

3 Concept by Boaventura de Souza Santos who points Eurocentric narrative as responsible for the conception of unidirectional history, compressing to the same plot the totality of space, time, cultures, peoples, and territories. Taken from: Cruz, V. (2017) ‘Geografia e pensamento descolonial: notas sobre um diálogo necessário para a renovação do pensamento crítico’, in Cruz, V., Oliveira, D. (eds.), Geografia e giro descolonial. Experiências, ideias e horizontes de renovação do pensamento crítico, Letra Capital, Rio de Janeiro, pp. 15-36.

4 In allusion to Jorge Luis Borges’ short story Os dois reis e os dois labirintos, in Borges, J. L., 2008. Aleph, Companhia das Letras, São Paulo.

5 Valter do Carmo Cruz also said: “This process of constituting the coloniality of power, of knowledge, of being and nature has its inaugural moment in the Iberian conquest of the American continent. From the Iberian domain, two processes articulate our later history: modernity and the colonial organization of the world. With the beginning of colonialism in America, not only did the colonial organization of the world originate, but, at the same time, the colonial constitution of knowledge, languages, memory, and the imaginary” (Lander, 2005). In this way, the civilizing project of modernity is inaugurated, which seeks to affirm and celebrate Europe’s particular historical experience as something universal and superior, through elements such as rationalism, humanism, science, the idea of progress, the State, etc. But, on the other hand, in this process, other matrices of rationalities, other forms of reason, other civilizing projects, other worldviews, with other knowledge, languages, memories and imaginaries were denied and subordinated” (Cruz, 2017, p. 19).Lander, E., 2005. A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais latino-americanas, CLACSO, Buenos Aires.

6 “In this perspective, those who fail to join this inexorable march of history are destined to disappear. Other forms of being, other forms of societal organization, other forms of knowledge are made not only different, but needy, archaic, primitive, traditional, pre-modern and, as Lander states, are situated at an earlier time of the historical development of humanity, which, in the imaginary of progress, emphasizes its inferiority” (Cruz, 2017, p. 21).

7 The choice of referring to street dwellers as people in street condition was a conceptual one. According to Patrice Schuch and Ivaldo Gehlen, “The rupture between the terminology ‘street dwellers’ and ‘people in street condition’ and/or ‘population in street condition’ was, therefore, meaningful of a whole political movement whose goal was, on the one hand, to draw attention to the situationality of street experience and, on the other, to fight stigmatization processes of such population, defining them from a conception of street dwelling as a possible way of living as opposed to a lack or a need — of a home or place of fixed habitation (Magni, 1994; Magni, 2006; Schuch, 2007; Schuch et al., 2008). Schuch, P., Gehlen, I., 2012. ‘A “situação de rua” para além de determinismos: explorações conceituais’, in Dornelles, AE., Obst, J., Silva, M. B. (eds.), A Rua em Movimento: debates acerca da população adulta em situação de rua na cidade de Porto Alegre, Didática Editora do Brasil, Belo Horizonte, pp. 11-26. Available at: http://lproweb.procempa.com.br/pmpa/prefpoa/fasc/usu_doc/a_rua_em_movimento.pdf.

8 “Explanation is not necessary to remedy an incapacity to understand. On the contrary, that very incapacity provides the structuring fiction of the explicative conception of the world. It is the explicator who needs the incapable and not the other way around; it is he who constitutes the incapable as such. To explain something to someone is first of all to show him he cannot understand it by himself. Before being the act of the pedagogue, explication is the myth of pedagogy, the parable of a world divided into knowing minds and ignorant ones, ripe minds, and immature ones, the capable and the incapable, the intelligent and the stupid. The explicator’s special trick consists of this double inaugural gesture. On the one hand, he decrees the absolute beginning: it is only now that the act of learning will begin. On the other, having thrown a veil of ignorance over everything that is to be learned, he appoints himself to the task of lifting it” (Rancièrem 1991, p. 6-7).

9 The seminars take place twice a year with a reading and debating dynamic in small groups, and later a collective writing among all groups (composed of images and text fragments) operating the conceptual crossings related to the theme of the ongoing research. We work with contemporary authors who propose epistemological and methodological breaks in the tradition of thought on subject, history, and the city.

10 Thesis VII, of the Theses on the Concept of History (Benjamin, 1981), deals with criticisms of historicism, in which cultural problems are addressed. “The destructive moment: demolition of universal history, elimination of the epic element, no identification with the winner. History must be brushed against the grain” (Benjamin, 1981).

11 An example of urban intervention carried out from the collective appropriation of photographic and audiovisual tools was entitled “Mo[nu]mento e cidade”, produced during the 21st Brazilian Congress of Architects in 2019, in the southern Brazilian city of Porto Alegre. The ephemeral architecture and expanded cinema intervention, designed by architects Lívia Koeche and Pedro Leggerini, was carried out in collaboration with leaders of the Baronesa Resiste Collective, the National Movement for the Struggle for Housing (Movimento Nacional de Luta pela Moradia - MNLM) and Margem_Laboratório de Narrativas Urbanas researchers. It consisted of a large white cube built with construction work scaffolding and semitransparent canvas that involved the equestrian statue erected in honor of Manuel Luís Osório, Brazilian Army Cavalry patron and hero of the Paraguayan War. The bronze monument sits on top of a large granite base surrounded by a water mirror in the central portion of the old Praça da Alfândega, at Porto Alegre’s Historic District. In this white cube that surrounded the bust of the war hero, scenes and audio from forced evictions that took place in the city in the later few months were projected. The production of many of the records used in the projection, the choice and editing of images, voices, and words that composed the multiple narrative exposed on the public square was the result of a collective work among the participating researchers and social movements. The break in discursive authorization regime that operated by making the silenced voices visible references a story against the grain, where the “monument to the losers” is established, through voice and movement, over the “monument to the winner”.

12 Another example of methodological shift operated by Margem_Lab is the podcast “Cartas das Periferias”, developed in conjunction with other research and extension groups at UFRGS and militants in the struggle for housing. The project is a tool to make the daily narratives of peripheral territories visible, crossed by the impact of the generalized crisis of the Covid-19 virus, which, due to the symptoms of urban inequality explained here, are ignored by public management. This action is intended to be a space for collective mobilization among communities, offering resources for a policy of emancipation, solidarity and listening to their realities and demands.

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