Corpo, crítica e criatividade no estudo da cidade

Roseline Oliveira

Roseline Oliveira é arquiteta e urbanista e Doutora em Arquitetura e Urbanismo, com Pós-doutorado na Universidade de Évora, Portugal. É Professora Associada da Universidade Federal de Alagoas, onde coordena o Programa de Pós-graduação em Dinâmica do Espaço Habitado. É membro do grupo de pesquisa Estudos da Paisagem, estudando a paisagem nordestina com foco nas questões patrimoniais e na socialização desse conhecimento. roselineoliveira@gmail.com


Como citar esse texto: OLIVEIRA, R. Corpo, crítica e criatividade no estudo da cidade. V!RUS, São Carlos, n. 20, 2020. [online]. Disponível em: <http://www.nomads.usp.br/virus/virus20/?sec=4&item=8&lang=pt>. Acesso em: 27 Jan. 2023.

ARTIGO SUBMETIDO EM 10 DE MARÇO DE 2020


Resumo

Pensar a cidade é encará-la como dinâmica e complexa, e a universidade se coloca como determinante no percurso de formação de base do arquiteto, assumindo como compromisso e desafio a sua constante atualização. Tendo em vista os avanços intelectuais no último século em diversos campos do saber, este artigo versa sobre formas contemporâneas de pensar, as quais apontam para a cumplicidade disciplinar e para a noção de incerteza, no intuito de refletir sobre suas repercussões no âmbito do ensino. Para tanto, discursos de historiadores, sociólogos, poetas e matemáticos são mencionados para enquadrar questões de método, que, matizadas por conceitos artísticos e filosóficos, adotam a autonomia como alicerce da produção do conhecimento, o corpo como instrumento potencializador da percepção urbana e a subjetividade como meio criativo de interpretação. Portanto, indo na direção contrária ao da tradição acadêmica em seu cotidiano de ensino, o qual tende para um rígido ordenamento disciplinar de discussão, assumem a pesquisa, o ensino e a aprendizagem enquanto processo e a cidade enquanto possibilidades, assim como é a própria diversidade do olhar sobre ela.

Palavras-chave: Cidade, Método, Interdisciplinaridade, Corpo e incerteza



1 Intersecções interdisciplinares na formação (da) crítica

Em todas as determinações, o dia seguinte he mestre do dia antecedente. A experiência he mestre universal, debaixo della, todos aprendem à sua custa; as batalhas ensinam o soldado, as ruínas, o architecto, os naufrágios, o Piloto. (BLUTEAU, 1721).

A produção da cidade deriva de formas de ver o mundo. Esse olhar é dinâmico, e a cultura e o tempo denunciam suas variações e mudanças. Para o arquiteto urbanista, a compreensão do contexto da apropriação do espaço constitui um inevitável desafio a ser enfrentado e, muitas vezes, ele parece despreparado para as inquietações que a urbe insiste em provocar.

No âmbito da Universidade, o futuro arquiteto é envolvido por uma carga significativa de informações que tentam traduzir as dinâmicas urbanas, explicá-las em diferentes perspectivas e promover o exercício de encará-las. Para tanto, é centro de investimento intelectual e financeiro em atividades de pesquisa, extensão, publicização e discussão em inúmeros modelos de fóruns de variadas abrangências. No cerne dessa produção de conhecimento, situam-se os temas da cumplicidade disciplinar (BRANDÃO, 2006) e da aleatoriedade (TALEB, 2016), tratados com o intuito de potencializar a compreensão das complexas realidades das cidades e das diversas posturas diante delas. Então, questiona-se sobre as repercussões dessa atualização universitária no seu próprio cotidiano de ensino e aprendizagem.

A escola constitui um núcleo que funciona ordenando percepções e, por extensão, moldando-as. Suas grades curriculares, no caso, as relativas aos cursos de Arquitetura e Urbanismo, abrangem conteúdos históricos, artísticos, filosóficos, ambientais, matemáticos, dentre outros. Contudo, até que ponto o futuro arquiteto desperta para a sutileza do cruzamento desses vários campos do saber? Por exemplo, ele atenta para o sentido da composição geométrica de conventos franciscanos? Percebe a ideia de sustentabilidade na ação de Le Corbusier quando projetou cidades pensando em mosteiros medievais? Identifica a carga clássica do Cardo e Decumano dos primeiros riscos de Lúcio Costa para o plano piloto de Brasília? E quanto à aproximação de Lina Bo Bardi entre o popular e o erudito? Diante da favela, vê Foucault (2007) para além de construções com entulho? Desconfia que pode aprender com esse espaço habitado que dispensou o traço do arquiteto?1

A literatura revela vários avanços intelectuais ocorridos durante o último século, dentre os quais, muitos repercutem direta ou indiretamente sobre o desenvolvimento dos dois temas acima mencionados. Talvez, os mais desconcertantes tenham sido aqueles relativos ao campo da História, que conviveu com a dúvida acerca de sua utilidade, enfrentada pela construção clássica e ocidental da própria área de conhecimento, marcado por três aspectos de redefinição: a noção positivista acerca da autonomia do documento2; a valorização do historiador enquanto criador de hipóteses3 e a junção da narrativa com outras áreas de conhecimento4, especialmente, com a Antropologia, a qual fundamentou a ideia da Nova História5.

A ideia de que o documento é uma linguagem que carrega em si intenções e desejos, e que sua leitura depende da interpretação do leitor, dará abertura para a apropriação de outras fontes e artifícios de análises com fortes repercussões nos estudos da cidade em suas diversas dimensões6. Nesse sentido, História e Estética, enquanto conceito que dá relevo, particularmente, aos processos de identificação humana e social com o espaço, por exemplo, vão anunciar sua cumplicidade7, e a Arte Contemporânea, com suas expressões socialmente impactantes, será tomada como universo para fundamentar a tomada de consciência relativa à compreensão e intervenção urbanística, quando, nos anos de 1960, um ingrediente é introduzido na forma de pensar esteticamente a cidade e de intervir criticamente sobre ela: a empiria. Obviamente, diferente da experiência de comprovação dos renascentistas e de erudição da Grand Tour iluminista, a experiência do corpo do espaço urbano, no contexto da História Nova, foi originalmente sustentada na prática situacionista de Guy Debord ([1958] 2003) e engaja a vivência como veículo de compreensão. As derivas, a observação do não previsto, e o estudo da cidade em seu próprio ambiente físico passam, então, a ser consideradas como processos metodológicos que visam (re)conhecer o lugar, considerando-se ele mesmo como referência documental8.

A revolução intelectual impulsionada pela Física e pela Filosofia em torno da noção de relatividade também rendeu inquestionável suporte para deslaçar robustas amarras disciplinares, como foi demonstrado pela expressiva aceitação por parte da produção arquitetônica. Teorias como a do Caos e do Quantum, e termos como In Between (“Entre”) e Displacement (“Deslocamento”) serão mais tarde elaborados com base no discurso derridiano da Deconstrução e justificarão a feição de edifícios a partir do final dos anos de 1980, desestabilizando ideias estratificadas sobre o mundo edificado, como a da materialidade da arquitetura que, até então, tinha no sistema trilítico a sua estrutura essencial, permanente, ultrapassando a fisionomia delineada pelos gostos de época, como demonstra o exemplo paradigmático da expressão arquitetônica do Museu Guggenheim de Bilbao (Figura 1).

Fig.1: Museu Guggenheim de Bilbao, Espanha, 1997, projeto de Frank Gehry. Fonte: Roseline Oliveira, 2017.

Tendo em vista a dificuldade de flexibilização das formas de pensar9, nas entrelinhas de suas superfícies inclinadas, tortas e amorfas, essa expressão arquitetônica indicou a necessidade de nos reposicionarmos diante das dualidades (bom/ruim, bonito/feio, forma/função, dentro/fora, teoria/prática) e nos deslocarmos de nossas cômodas posições para tentar compreender o outro ou, de uma maneira menos ambiciosa, dar-nos a oportunidade de ter outras experiências enquanto artifício de reflexão.

O que se pode perceber com as mudanças de ponderação baseadas nas aproximações entre disciplinas e o impacto da noção de relatividade, aqui muito brevemente acentuadas, é a tendência em evocar o posicionamento crítico diante do conhecimento e de seu próprio método de produção. Para tanto, a empiria e a subjetividade são entendidas como uma forma de proceder, estimulando possibilidades de manipulação de informações documentais e perceptivas, e dando margem para a invenção de outras formas de entender determinados aspectos, no caso, os relativos à compreensão da e à atuação na cidade.

2 Empiria e subjetividade: o processo do corpo enquanto método

A discussão acerca do estudo da cidade vai, então, se afastando dos termos de conteúdos disciplinares específicos e se aproximando de questões relativas ao método de seus enfoques: até que ponto procedimentos acerca do estudo da cidade se distanciam da noção oitocentista de repositório de exemplos? Quais as repercussões dessa abertura de possibilidades anti-binária e pró-ocasional no âmbito do ensino? Adota-se a oralidade nos exercícios da compreensão da cidade? A imagem projetada pelo datashow é encarada como documento e iconologicamente tratada? No espaço da sala de aula, dá-se espaço para a interpretação criativa?

Nos últimos anos, a julgar por ações universitárias sediadas no Nordeste brasileiro, vem sendo possível reconhecer emergências transgressoras em termos de atuação metodológica de ensino e aprendizagem, no âmbito da formação de base do arquiteto, e que acompanham os avanços contemporâneos de pensamento acerca da cidade, na medida em que consideram a arquitetura através do corpo “não apenas ergométrico, mas que se diferencia, que se move inusitadamente, que se tem pulsões, prazer e sofrimento”, abrindo “grandes janelas para a criação” (Figuras 2, 3, 4 e 5) (SILVA, 2015, p. 10).

Fig. 2: O professor Francisco Xico Costa, da UFPB, com os estudantes vestindo o “Muxarabis portátil para estudantes de arquitetura à beira de um ataque de nervos, temporada 2016.2”. Durante a Oficina de Desenho, eles são deslocados da prancheta e da régua paralela para transformar traço em produto volumétrico, portátil, em formato de capuz. Experimentam seus croquis, vestem seus produtos na perspectiva de discutir, considerando a experiência de seus corpos, que o desenho tem uma consequência. Fonte: Acervo de Francisco Xico Costa, 2016.

Fig. 3: Estudantes em experiências corporais enquanto exercícios da disciplina de Projeto de Arquitetura I, quando ministrada pela Profa. Dra. Maria Angélica da Silva. Derivas e performances são mecanismos essenciais desse processo que tem como fundamento a ideia da cidade como invólucro do próprio corpo humano e que, enquanto tal, este participa das diversas dinâmicas que constituem o espaço habitado. Fonte: SILVA, 2015, pp. 8 e 9.

Fig. 4: Imagens de estudos da cidade na cidade (temporadas 2016.1 e 2016.2) nos núcleos coloniais dos municípios de Igarassu e Cabo de Santo Agostinho, Pernambuco. Fonte: Roseline Oliveira, 2016.

Fig. 5: Livro pop-up, jogo de tabuleiro e folder-origami, exemplos de produtos elaborados pelos alunos da disciplina de História da Arte, Arquitetura e Cidade II (temporada 2017.1), após derivas em núcleos urbanos pernambucanos de origem colonial. Fonte: Dandara Melo, 2017.

A ideia de que o “corpo, coisa mental, é a carne e seu entorno, a natureza e as coisas criadas, a voz humana e os movimentos mais inimagináveis” (KEHL apud SILVA, 2015, p. 10) permeia essas iniciativas, dentre as quais merece destaque o método abraçado pela estrutura do Corpocidade (BRITTO, JACQUES, 2010). Trata-se de um Encontro que busca questionar a situação urbana contemporânea enquanto produto do fenômeno da espetacularização, diminuindo a participação pública e cidadã no cotidiano da cidade, no sentido de:

estimular uma discussão acerca dos modos como se processam as noções de corpo, arte, ambiência e cidade nas práticas e discursos produzidos em diferentes campos do conhecimento e, em particular, nas artes visuais, dança, arquitetura e urbanismo. Pretende-se discutir as diferentes articulações possíveis entre corpo e cidade como estratégia de redesenho das suas condições participativas no processo de formulação da vida pública em que estão co-implicadas. Pretende-se instaurar uma arena de debates para a confrontação de ideias e experimentação coletiva de hipóteses em formatos teóricos e artísticos. (CORPOCIDADE)10.

O Corpocidade é comumente conhecido como um evento acadêmico que acontece bienalmente desde 2008, mas seu projeto tem uma abrangência muito maior. Com o apoio institucional, inicia-se com experiências realizadas no cotidiano da universidade durante as atividades disciplinares e se desdobra para workshops, oficinas, publicações e elaborações conceituais (Figura 6)11.

Fig. 6: Página inicial do website do Corpocidade. Fonte: Evento Corpocidade. Disponível em http://www.corpocidade.dan.ufba.br/. Acesso em: 10 dez. 2017.

Com um primor de trato da identidade visual, na quinta versão do evento intitulado “Gestos Urbanos” (2016), os participantes foram convocados a escreverem seus resumos em formato de manifesto, os quais serviram apenas como uma espécie de “passe” para a entrada no jogo de discussão sobre o tema. Para além das conferências, as sessões temáticas ocorriam paralelamente e aquela denominada Performatividades foi se moldando ao longo do encontro. Analogamente à lógica de um jogo, suas regras foram sendo montadas durante a dinâmica do próprio evento. Os textos dos passes foram abandonados, não houve apresentação dos integrantes, não teve mesa nem microfone, tampouco tempo definido para as apresentações, e as discussões partiram das experiências particulares na tradicional Festa de Nossa Senhora da Conceição da Praia, que no dia 8 de dezembro de todos os anos invade a cidade baixa de Salvador, não prevista na programação do Encontro.

Os resultados dessa experiência, associados ao tema “Gestos urbanos”, foram os próprios processos de interpretação das várias vivências individuais e coletivas da Festa e, em uma composição com o mínimo de orientação e com os materiais ali disponíveis, eram apresentados performaticamente pelos integrantes (profissionais e estudantes de Dança, Teatro, Filosofia, Arquitetura) através de seus corpos, afastando-se da comumente usada expressão audiovisual e arranjo espacial como sala de aula, cadeiras na frente e atrás, tela e microfone (Figura 7).

Fig. 7: Riscos no chão e nos corpos dos participantes marcados pelos mesmos enquanto interpretação e expressão performática da Festa de Nossa Senhora da Conceição do dia 08.12.2016. Fonte: Website do evento Corpocidade. Disponível em http://www.corpocidade.dan.ufba.br/#section-fotos. Acesso em: 14 maio 2020.

O Corpocidade, então, sintetiza, de certa forma, o percurso das aproximações entre as revoluções intelectuais do século XX ocorridas em várias áreas de conhecimento. Dissolve limites disciplinares, provoca dúvidas, aciona trocas perceptivas, dá espaço para multiplicidade de respostas, como um dia Lygia Clark12 e Hélio Oiticica proporcionaram com seus “Bichos” e Parangolés. “Se nos observarmos, veremos que nosso próprio corpo ensina que tudo se une: mente, espírito, carne”. (SILVA, 2015, p. 10). 

3 Considerações finais: entre a cidade e a imprevisibilidade

As posturas acadêmicas aqui citadas atuam tendo o método como prioridade. Partem do pressuposto de que ele, quando motiva a perseguição do movimento da cidade na cidade, aciona a empiria que se transforma em um mecanismo significativo para a formação de um olhar crítico diante dos fenômenos urbanos e criativo diante das fontes referenciais de papel e de pedra (Figura 8). Portanto, ao oportunizar o engajamento do corpo na cidade (BOGEA, 2001), esse método alarga possibilidades perceptivas no sentido de favorecer o enriquecimento interpretativo da dinâmica do tempo, do espaço e de suas repercussões na construção do discurso.

Fig. 8: Imagem da Vila de Igarassu, (Frans Post, 1637), com a Igreja de São Cosme e Damião (1), o convento franciscano (2) e com a marcação do detalhe correspondente a uma foto de 2017, mostrando o pé de fruta pão que parece “invisível”, mesmo inserido no conjunto arquitetônico e paisagístico reconhecido enquanto patrimônio em nível federal desde 1972. Fonte: Acervo do Grupo de Pesquisa Estudos da Paisagem - FAU-UFAL.

Essas experiências podem não render nenhum resultado processual de imediato e notório impacto, mas também, ao darem voz à apreensão individualizada do meio, podem permitir a emersão de situações que parecem invisíveis, adormecidas, subterrâneas e, na maioria das vezes, inquestionavelmente assimiladas13.

Relativamente às primeiras interrogações deste texto, as noções de disciplinas variadas, quando acessada pelo viés da inventividade, se colocam como uma rica base articulável de informações e, por extensão, favorável para produção de um conhecimento incomum e para construção de posturas sólidas de atuação, na medida em que são compreendidas enquanto exercício de criatividade e critério para a crítica14. Mas isso é mais provável de acontecer se encaradas como experiências e não como modelos, tampouco como conceitos estratificados. Mesmo porque, quando algo se repete, ele é outro na repetição, pois é produzido socialmente, de maneira que não existe um conceito fixo sobre o mesmo15.

Adotar o processo como método diante do desafio de estudar a cidade requer, portanto, coragem e humildade. Significa assumir que não há uma verdade absoluta e que a abrangência e abordagem de entendimento sobre as coisas são construções subjetivas e, por extensão, relativas16. É, por isso, libertar o arquiteto da sólida forma moderna de pensar, que por décadas lhe cobra ambição, e sensibilizá-lo para compreender e projetar e não prever, porque “a dinâmica do ambiente que nos rodeia é bem menos óbvia do que nós supomos”. (AREOSA, 2012, p. 13).

Toda a experiência e erudição do arquiteto, urbanista, professor Lúcio Costa não evitaram a reapropriação de seu projeto para o Terminal Rodoviário de Brasília, pensado para funcionar com a atmosfera das cafeterias europeias do início do século XX, e que se transformou no espaço mais popular da capital do Governo (O RISCO..., 2003). O conhecimento é uma perspectiva de entendimento e é constantemente produzido desconsiderando inúmeros aspectos, os quais simplesmente não são, em um dado momento, percebidos. Por isso mesmo, a cidade, enquanto sonho e intervenção17, está à mercê do destino ou da incerteza, como o sociólogo Zigmunt Bauman (2013) e o matemático Nassim Taleb (2016), tratando do tema da felicidade e da aleatoriedade, respectivamente, denominaram (ou identificaram serem conhecidos como) o surpreendente descontrole sobre a vida.

Aceitar a imprevisibilidade no estudo da cidade reforça, portanto, o compromisso da constante atualização da escola, o qual aponta para a flexibilização dos limites de suas grades (curriculares) e para uma reformatação de seus procedimentos (metodológicos). Evocar a autonomia na produção do conhecimento e o corpo como instrumento de criatividade no percurso de formação é desmontar certos padrões da seara científica. Dentre eles, situam-se permitir a escrita em primeira pessoa18, revisar a posição de aluno e professor, e pensar a escola enquanto laboratório de experiências, lugar de processos e de produção, onde o tutor aproxima-se da atuação clássica dos antigos poetas enquanto testemunho (GOFF, 1990), mas também, neste tempo, atua como um aprendiz ao valorizar a troca da discussão coletiva, apostar no aprendizado com base na subjetividade e na abertura de possibilidades do olhar sobre a cidade e da construção do saber.

Há quase 300 anos Raphael Bluteau (1721) registrou em seu dicionário o dia a dia enquanto base do aprendizado. A experiência e o tempo podem provocar maturidade, mas a própria história denuncia que isso não significa garantias e certezas. Se encarada com sutileza, ela só pode nos tornar menos despreparados para tudo o que a cidade pode e ainda nos vai ensinar19.

Agradecimentos

Este artigo é inspirado na experiência do Grupo de Pesquisa Estudos da Paisagem (Base Lattes-CNPq desde 1998), do qual a autora compartilha a liderança com a Prof. Dra. Maria Angélica da Silva, a quem agradeço pela revisão dos argumentos desse texto, bem como ao Prof. Dr. Geraldo Faria do PPGAU-Ufal. O Grupo vem atuando de forma interdisciplinar (unindo arquitetos e membros com formação em história, geografia, arqueologia, antropologia, fotografia e design) com o tema das temporalidades de núcleos urbanos de origem colonial, catalogando referências paisagísticas materiais e imateriais, e tomando como ferramentas metodológicas principais o uso de fontes primárias, o trabalho de campo e a análise iconográfica através de processos de manipulação digital e elaboração de produtos.

Referências

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1 Paola B. Jacques (2001) constrói a ideia de fragmento, labirinto e rizoma enquanto figuras conceituais da dinâmica dos espaços da favela com base na filosofia deleuziana.

2 O Positivismo dos Oitocentos pode ter sido o culpado das primeiras reticências acerca da função da História por ter balizado discussões das Ciências Sociais, as quais remetiam autonomia ao documento e, portanto, questionavam a importância do trabalho do historiador. Nesse contexto, a ideia de História era a de um repositório modelar de determinado tema que justificava o desenho de identidades, alimentava o desejo de colecionadores e motivava a criação de museus.

3 No período das Grandes Guerras mundiais, uma outra postura renova esses debates, focando-os na valorização da interpretação do passado e no papel ativo do historiador enquanto criador de hipóteses e questões, na medida em que se amplia a noção de documento também como linguagem. Um marco dessa dobra de pensamento foi o trabalho de Fernand Braudel, produzido durante o seu momento de prisioneiro dos alemães, cuja narrativa abordou essencialmente a relação do homem com o meio ambiente, tendo como protagonista o mar mediterrâneo. Aproximando narrativa e Geografia, sua obra representa um movimento que vai se efetivando como interdisciplinar, passando a História, então, a ser pensada como produto elaborado e não como dado contraído (BRAUDEL, 1983).

4 Quando a História se dissolve na postura antropológica, inicia-se um processo de adjetivação/denominação do próprio campo do saber que irá permear as publicações historiográficas a partir dos anos de 1970. Georges Duby e Jacques Le Goff, com suas “Histórias das Mentalidades”, são as referências da Escola Francesa que gerou uma linha de seguidores voltados para os estudos da cultura e da natureza. A então chamada Nova História consentirá historiar interpretações de dados naturais da vida, como atitudes diante da morte e da infância, assumindo que em toda manifestação humana reside uma forma de pensar para além de um contexto que as justificam. Por extensão, isso permitirá uma ampliação do olhar sobre o passado e das próprias fontes de investigação, e aceitará como documentos registros que por muito tempo foram excluídos das bases científicas e das fontes arquivísticas, a exemplo dos relatos de época, da oralidade e da imagem. (Argumentos baseados na conferência, inserida no ciclo organizado pelo professor Vitor Manuel Jorge, sobre A História dos Annales, proferida por Fátima Sá Estevão (ISCTE), ocorrida em 17.11.2017, nas instalações do Museu de Cerâmica de Sacavém, Portugal).

5 Contudo, essas mudanças da forma de pensar o mundo não são de todo libertadoras. O passado em longa duração e a avaliação quantitativa enquanto aspectos estruturantes das narrativas denunciam ainda carregarem consigo procedimentos tradicionais da construção do pensamento histórico. “A História em Migalhas”, de François Dosse (1994), confirmou as consequências desses avanços discursivos e o desafio do historiador contemporâneo em assumir a pluralidade, readaptar a noção de tempo e se dissolver em outras abordagens narrativas, especialmente diante da situação contemporânea da “informação entre os homens dos diferentes continentes, torna necessária uma reorientação do discurso do historiador que se adapte à nova consciência do tempo histórico”. (DOSSE, 1994, p.102).

6 No campo da cultura visual, por exemplo, os primeiros estudos modernos de referência foram realizados por Ervin Panofsky (1979), seguido por Carlo Ginzburg (1989), os quais trataram do valor instrumental da imagem enquanto dado histórico que estaria associado à postura interpretativa do observador. A obra de arte, nesse sentido, seria uma imagem a ser decodificada e percebida de acordo com uma certa ordem moldada pela linguagem de determinados padrões culturais. Ao mesmo tempo, ela seria a própria linguagem por representar um olhar carregado de personificação autoral. Sendo assim, ultrapassando a análise de aspectos formais e a partir da observação de minúcias, pode-se reconhecer modismos, desejos e anseios que marcam determinada época. A imagem representa os “princípios de fundo que revelam a atitude fundamental de uma nação, um período, uma classe, uma concepção religiosa ou filosófica, inconscientemente classificada por uma personalidade e condensada numa obra”. (PANOFSKY, 1979, p. 59).

7 A obra do historiador e ex-prefeito de Roma Giulio Carlo Argan, de 1983, talvez possa ser reconhecido como um divisor de águas enquanto referência para o estudo da história da cidade, pois, diferente do desenvolvimento argumentativo baseado em causa e consequência de Leonardo Benévolo (1993), o qual, de uma maneira geral, por décadas chefiou as fontes bibliográficas dos cursos, sua abordagem se dá em torno da cidade enquanto obra de arte, explicando-a por vias estéticas e expandindo o seu entendimento da face da paisagem construída para o movimento do cotidiano: “São espaço urbano também os ambientes das casas particulares; o retábulo do altar da igreja, a decoração do quarto de dormir ou da sala de jantar, até mesmo o vestuário e o ornamento com que as pessoas se movem, recitam a sua parte na dimensão cênica da cidade. (...) os bosques onde vai caçar, o lago ou os rios onde vai pescar (...)”. (ARGAN, 2005, p. 03). 

8 Do original em espanhol: “Las edificaciones, las construcciones, las obras que poseen en sí la cualidad arquitectónica de formalizar elementos que potencian la memoria de la cultura”. (RAMIREZ NIETO apud CASTRIOTA, 2011, p. 265). 

9 Etnocentrismo, ou seja, base na noção ocidental do Logos que traz a reboque uma visão de mundo onde um grupo é tomado como centro e, através de seus valores e modelos, pensam a condição dos demais grupos. (DERRIDA, 1973).

10 CORPOCIDADE. Plataforma. Disponível em: <http://www.corpocidade.dan.ufba.br/encontro.htm>. Acesso em: 10 dez. 2017.

11 A exemplo do conceito de Corpografia que consiste em “um tipo de cartografia realizada pelo e no corpo, ou seja, a memória urbana inscrita no corpo, o registro de sua experiência da cidade, uma espécie de grafia urbana, da própria cidade vivida, que fica inscrita, mas também configura o corpo de quem a experimenta”. (JACQUES, 2008).

12 “É o nome que dei às minhas obras desse período (...) A disposição das placas de metal determina as posições dos Bichos, que ao primeiro golpe de vista parece ilimitado. Quando me perguntam quantos movimentos o Bicho pode efetuar, eu respondo: Não sei nada disso, você não sabe nada disso, mas ele, ele sabe”. (CLARK, 1980, p. 17).

13 A exemplo de discursos clássicos acerca do urbanismo luso-brasileiro, os quais oscilam basicamente entre o regular e o irregular, demonstrando “uma certa rigidez nas explicações do desenho urbano colonial, desconsiderando, por exemplo, a influência de outros elementos que podem configurar a malha urbana, como o porto que margeia o rio; o forte do outro lado da ilha, ou o engenho afastado do núcleo urbano da vila. Deixam à margem também outras definições sobre o traçado de determinada localidade que podem caracterizar o conjunto de caminhos tais como, largo, estreito, longo, curto, longitudinal, transversal, inacabado, definidos pelo casario, cruzando as igrejas...”. (OLIVEIRA, 2018, p. 32).

14 Como exemplo podemos citar o reconhecimento dos aspectos cenográficos da obra de Oscar Niemeyer e, por isso, chamá-las de barrocas, sem medo do anacronismo, como o fez Glauco Campello (2001) e a aproximação entre as representações dos jardins de Burle Marx e a composição dos chapéus de Carmen Miranda (paisagismo e carnaval) ou arquitetura, Bossa Nova e Pelé (Modernismo, música e futebol) como engenhosamente fez Márcio Campos, professor da FAU-UFBA, em sua conferência proferida na VI SEMAU com o tema O irresistível risco do novo, organizada pelo Programa de Educação Tutorial do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Ufal, ocorrido em 2010.

15 De acordo com Derrida, quando algo é reapropriado há sempre um aspecto que lhe confere singularidade, uma forma de pensar, de manusear, de funcionar. É como a leitura, o discurso, a observação – quando se lê, se fala e se vê algo novamente, lê-se, fala-se, vê-se diferente. A própria palavra refalada é outra, transformada pela expressão fonética, pela velocidade, entonação, enfim, pelas forças da pronúncia, que, por sua vez, é influenciada por uma série de situações, sejam de caráter cultural ou simplesmente ocasional, momentâneo: “Os conceitos só adquirem sentido nos encadeamentos de diferenças, não se pode justificar sua linguagem, e a escolha dos termos, senão no interior de uma tópica e de uma estratégia histórica. Portanto, a significação não pode jamais ser absoluta e definitiva”. (DERRIDA, 1973, p. 86).

16 Como desconcertantemente comentou o poeta Manuel de Barros no documentário JANELA DA ALMA (2001), não é o olho que vê, é a nossa maneira de pensar e sentir que molda nossa forma de perceber o mundo.

17 “As cidades são tanto os dados imediatos de suas materialidades, quanto o impalpável dos sonhos, dos desejos. Essas cidades imaginárias são dimensões paralelas, evocadas pela fantasia e, no entanto, tão reais quanto as cidades de pedra e cal, na medida em que são o fermento e instrumento das transformações, da busca do melhor modo de viver (...)”. (PAULA, 2006, p. 21).

18 “É curioso que eu tenha acabado por fazer filmes na primeira pessoa, porque não é uma coisa natural para mim. Tenho muita dificuldade em falar de mim. Quando enviei ao Escorel o material do Santiago e lhe disse que tinha chegado à conclusão de que a única maneira de fazer o filme seria recorrendo à primeira pessoa, acrescentei que ficava muito incomodado porque isso me parecia narcísico. Então ele respondeu, por email, com uma frase do [documentarista francês] Chris Marker [1921-2012] que acabou por ser importante: ‘Ao contrário do que as pessoas dizem, o uso da primeira pessoa em filmes tende a ser sinal de humildade: tudo o que tenho a oferecer sou eu mesmo”. (SALLES, 2018).

19 Desde o mês de dezembro de 2019, cidades de todo o mundo têm sofrido as consequências de uma crise pandêmica com o alto poder de disseminação do novo coronavírus, originário da China. “Os posicionamentos que os diversos meios de comunicação e linguagens de divulgação têm registrado oscilam entre um avanço tecnológico forçado e a eminência de um caos, provocado pelo aparente despreparo social para encarar o surto epidêmico”. (OLIVEIRA, GUDINA, 2020).

Body, criticism and creativity in the study of the city

Roseline Oliveira

Roseline Oliveira is an Architect and Urbanist and Ph.D. in Architecture and Urbanism, with post-doctoral studies at the University of Évora, Portugal. She is an Associate Professor at the Federal University of Alagoas, Brazil, where she coordinates the Postgraduate Program in Inhabited Space Dynamics. She is a member of the Landscape Studies research group, working on the Brazilian northeastern landscape with a focus on heritage issues and the socialization of this knowledge. roselineoliveira@gmail.com


How to quote this text: Oliveira, R., 2020. Body, criticism and creativity in the study of the city. Translated from Portuguese by Tamires Aleixo Cassella. V!rus, Sao Carlos, 20. [e-journal] [online] Available at: <http://www.nomads.usp.br/virus/virus20/?sec=4&item=8&lang=en>. [Accessed: 27 January 2023].

ARTICLE SUBMITTED ON MARCH 10, 2020


Abstract

To think about the city is to consider it as dynamic and complex. The university an essential element in the architect’s basic education career, taking its constant updating as a commitment and challenge. Understanding the last century intellectual advances in several fields of knowledge, this article deals with contemporary ways of thinking, which point to the disciplinary complicity and the notion of uncertainty to think about its repercussions in the teaching field. For this purpose, speeches of historians, sociologists, a poet, and a mathematician are mentioned to frame methodological issues. Their combination with artistic and philosophical concepts take autonomy as the foundation for the production of knowledge, the body as an instrument to enhance urban perception, and subjectivity as a creative means of interpretation. Therefore, going opposite to the academic tradition on its teaching routine which tends towards a strict disciplinary debate, it accepts research, teaching, and learning as processes and the city as possibilities, just as the diversity itself of looking at it.

Keyword: City, Method, Interdisciplinarity, Body and uncertainty



1 Interdisciplinary intersections in the criticism formation/critical training

In all determinations, the next day is the master of the previous day. The experience is the universal master, underneath it, everyone learns at its expense; battles teach the soldier, ruins, the architect, shipwrecks, the Pilot (Bluteau, 1721, our translation).

The production of the city arises from ways of seeing the world. This is a dynamic view, and culture and time report its variations and changes. To architects and urban planners, understanding the context of the appropriation of the space is an important challenge to be faced but often they do not seem prepared for the concerns that the city insists on provoking1.

In University, the future architect is involved by a lot of information that intends to translate urban dynamics, explaining them through several perspectives and promoting the exercise of facing them. It is a center for intellectual and financial investment in research, extension, publicizing, and discussion activities in countless forums of multiple approaches. In the core of this production of knowledge, the subjects of disciplinary complicity (Brandão, 2006) and randomness (Taleb, 2016) are discussed to enhance the comprehension of the cities’ complex realities and different attitudes towards them. Then arises questions about the impacts of this university update on its own teaching and learning routine.

The school is a center that works by organizing and, as a consequence, shaping perceptions. The Architecture and Urbanism curriculum encompass historical, artistic, philosophical, environmental, mathematical contents, among many others. However, to what extent does the future architect recognize the moments of intersection between these various fields of knowledge? For example, do they pay attention to the meaning of the geometric composition in Franciscan convents? Do they notice the idea of​​ sustainability in Le Corbusier's action when he designed cities based on medieval monasteries? Do they identify the classical element of Cardo and Decumanus in Lúcio Costa’s early sketches for the pilot plan of Brasília, the capital of Brazil? What about Lina Bo Bardi's approximation between the popular and the erudite? Looking at the favela (slums), do they see Foucault (2007) or only buildings with rubble? Do they suspect that they can learn from this inhabited space that dismissed the architect's planning?2

Relevant literature shows several intellectual advances that occurred during the last century, among which, some have a direct or indirect impact on the development of the two subjects mentioned above. Maybe the most upsetting issues are related to the History field, which was questioned about its usefulness faced by the classical and western construction of the knowledge area itself. This was determined by three redefinition aspects: the positivist notion on the document’s autonomy3; the increasing notion of the historian as a hypothesis creator4, and the association of the narrative with other knowledge areas5, especially Anthropology, which was the basis for the idea of ​​New History6.

The idea that the document is a language that carries intentions and desires in it, and its reading depends on the reader’s interpretation will give way to the appropriation of other sources and analysis devices with strong repercussions in the diverse dimensions of city studies7. In this regard, History and Aesthetics, as concepts that particularly emphasize the processes of human and social identification with space, for example, will state their complicity8. On the other hand, Contemporary Art, with its socially shocking expressions, will be taken as a realm to support the awareness on urban understanding and intervention when, in the 1960s, an ingredient was added to the aesthetically way of thinking the city and critically intervening over it: the empirical knowledge. Differently from the experience of the Renaissance and the erudition of the Illuminist Grand Tour, the practice of the urban space body in New History’s context was originally introduced in Guy Debord’s ([1958] 2003) Situationist International study and takes the experience as an understanding guide. The drifts (dérive), the observation of what cannot be predicted, and the study of the city in its own physical environment, then, come to be considered as methodological processes that aim to (re)discover the place, considering itself as a documentary reference9.

The intellectual revolution boosted by Physics and Philosophy regarding the idea of relativity also provided unquestionable support for loosening disciplinary bonds, as the expressive acceptance by architectural production shows. The Theories of Chaos and Quantum and terms as In Between and Displacement will later be elaborated according to Derrida’s Deconstruction discourse and justify the shape of buildings from the end of the 1980s, disorganizing stratified ideas about the built world such as architecture’s concreteness, which had its essential and permanent structure based in the trilithon system. Overcoming the shape defined by the preferences of an epoch, it is possible to see a paradigmatic example of architectural expression in Bilbao’s Guggenheim Museum (Figure 1).

Fig. 1: Guggenheim Museum in Bilbao, Spain, 1997, designed by Frank Gehry. Source: Roseline Oliveira, 2017.

Hidden behind their inclined, crooked and shapeless surfaces, having in mind the difficulty of making ways of thinking more ease10, this architectural expression pointed to the need to reposition ourselves in the face of dualities (good/bad, beautiful/ugly, form/function, inside/outside, theory/experience) and move from our comfortable positions to try to understand the other. Less ambitiously, to give ourselves the opportunity of having other experiences as a thinking mechanism.

It is evident that these changes based on approximations between disciplines and the impact of the relativity notion, which was briefly highlighted in this article, demonstrate the tendency to evoke a critical stance according to the knowledge and its production method. In this context, empirical knowledge and subjectivity are understood as ways of proceeding, encouraging possibilities for manipulating documentary and perceptual information, and allowing for the invention of other ways of understanding certain aspects, in this case, related to the comprehension and performance in the city.

2 Empirical knowledge and subjectivity: the process of the body as a method

The debate about the study of the city, then, moves away from specific disciplinary content and brings closer issues related to its approaches: how far procedures regarding the study of the city are distant from the 19th-century notion of examples repository? What are the outcomes, in the teaching field, of this opening of anti-binary and pro-occasional possibilities? Is orality used in exercises about the comprehension of the city? Is the image shown by a multimedia projector seen as a document and is it treated based on iconology? In the classroom, is there room for creative interpretation?

Examining activities of universities based in the Northeast of Brazil over the past years, it has been possible to recognize transgressor emergencies on the architect's basic education in terms of teaching and learning methodological practice. These actions follow contemporary advances regarding notions about the city, as they recognize architecture through the body “not only ergometric, but that distinguishes itself, that moves in an unusual way, that has impulses, pleasure, and suffering”, opening “great windows for creation” (Figures 2, 3, 4 and 5) (Silva, 2016, p.10, our translation).

Fig. 2: Professor Francisco Xico Costa, from UFPB – Federal University of Paraíba, with students wearing the “Portable ‘Muxarabis’ for architecture students on the edge of a nervous breakdown, season 2016.2”. During the Drawing module, they move from the drawing board and parallel ruler to transform the line into a volumetric, portable product in mask or hood shapes. Considering the experience of their bodies, the students try on their sketches and wear their objects to discuss that drawing has a consequence. Source: Francisco Xico Costa's collection, 2016.

Fig. 3: Architectural Design I discipline, when conducted by Professor Maria Angélica da Silva, with students involved in body language exercises. Drifts and performances are essential mechanisms of this process, which is based on the idea of ​​the city as an enclosure of the human body itself, which, as such, participates in several dynamics that constitute the inhabited space. Source: Silva, 2015, pp. 8-9.

Fig. 4: Images of city studies during a field trip (seasons 2016.1 and 2016.2) in colonial centers of Igarassu and Cabo de Santo Agostinho, Pernambuco, Northeast of Brazil. Source: Roseline Oliveira, 2016.

Fig. 5: Pop-up book, board game, and origami leaflet, examples of products made by students within the Art History, Architecture and City II discipline (2017.1 season), after drifting in urban centers of colonial origin in Pernambuco, Northeast of Brazil. Source: Dandara Melo, 2017.

The idea that “the body, a mental thing, is the flesh and its surroundings, nature and created stuff, the human voice and the most unimaginable movements” (Kehl apud Silva, 2015, p. 10, our translation) crosses these initiatives. Among them, the method embraced by Corpocidade (“Bodycity”, our translation) stands out (Britto and Jacques, 2010). It is a Meeting that seeks to question the contemporary urban situation as a product of the spectacularization phenomenon that reduces public and citizen participation in the city’s daily life, trying to:

stimulate a debate about how the body, art, ambiance, and city are processed in practices and discourses produced in different fields of knowledge and, particularly, in the visual arts, dance, architecture, and urbanism. It intends to discuss the possible links between body and city as a strategy for redesigning their participatory conditions in the process of shaping public life in which they are co-involved. It intends to establish an arena to debate the ideas and experiment hypotheses collectively, in theoretical and artistic formats11.

Corpocidade is mostly known as an academic event held every two years since 2008, but its project goes beyond. It starts with experiences carried out in the university's routine during disciplinary activities and transforms the results into workshops, publications, and conceptual elaborations12 (Figure 6).

Fig. 6: Corpocidade’s website homepage. Source: Corpocidade event. Available at http://www.corpocidade.dan.ufba.br/. Accessed: 10 December 2017.

In the event’s fifth edition, entitled “Urban Gestures” (2016), with exquisite use of the visual identity, the participants were supposed to write their abstract as a manifesto, which was a kind of “pass” to access the discussion topic. The lectures and the thematic sessions were held simultaneously and the one called “Performativities” was shaped over the meeting. Similar to the logic of a game, its rules were set up during the dynamics of the event itself. The “passes” were abandoned, there was no introduction for the participants, nor table or microphone, and no time was set for the presentations. The discussions were based on the members’ experiences during an event that was not initially planned in the meeting’s program, the traditional “Festa de Nossa Senhora da Conceição da Praia” (a Catholic religious festivity) which every year, on December 8, invades the lower part of Salvador, capital of Bahia – Northeast of Brazil.

Connected to the topic “Urban gestures”, the results of this experience were the own interpretation processes about individual and collective perceptions of the Festa. Then, with minimal guidance and using the materials available at the time, performances happened through the members’ bodies (professionals and students of Dance, Theater, Philosophy, Architecture), moving away from the commonly used audiovisual support and conventional spatial arrangements such as classroom, chairs in front and back, screen, and microphone (Figure 7).

Fig. 7: Drawings on the floor and on the participants’ bodies as part of the interpretation and performance of the Festa de Nossa Senhora da Conceição da Praia on December 8, 2016. Source: Corpocidade’s website. Available at http://www.corpocidade.dan.ufba.br/#section-fotos. Accessed: 14 May 2020.

In a certain way, Corpocidade summarizes the path of connecting the 20th-century intellectual revolutions, which took place in several areas of knowledge. It dissolves disciplinary boundaries, causes doubts, stimulates perceptual exchanges, and gives space to multiple possible answers. That was once showed by Lygia Clark13 and Hélio Oiticica with their “Animals” and Parangolés. “If we watch ourselves, we will see that our own body teaches that everything is united: mind, spirit, flesh” (Silva, 2016, p. 10, our translation).

3 Final considerations: between the city and unpredictability

The academic approaches mentioned in this article take the method as a priority. They understand that, when the movement for the city’s pursuit is motivated by the method, it activates the empirical knowledge, which becomes an important mechanism for the development of a critical view before urban and creative events in face of regular references made of paper and stone (Figure 8). Therefore, by allowing the body’s involvement in the city (Bogea, 2001), this approach broadens perceptual possibilities in order to benefit the interpretation of dynamics of time, space, and its impacts in the discourse formation.

Fig. 8: Image of Igarassu Village, Northeast of Brazil (Frans Post, 1637), showing the Saints Cosmas and Damian Church (1), the Franciscan convent (2), and with a black rectangle corresponding to a 2017 photo. This detail shows the breadfruit tree, which seems “invisible” even when inserted in the architectural and landscape ensemble recognized as heritage at the federal level since 1972. Source: Landscape Studies Research Group collection – Federal University of Alagoas (UFAL).

These experiences may not provide any procedural result or noticeable impact immediately but, by giving voice to an individualized apprehension of the environment, they can allow the emergence of invisible, asleep, hidden, and, mostly, unquestioned situations14.

Regarding the first issues raised in this text, when several disciplines are accessed through innovation, they become a rich base of information and, consequently, become favorable to an unusual production of knowledge and establishment of solid practice approaches, as they are taken as a creativity and criticism exercise15. However, that is more likely to happen if faced as an experience, not as a model or a strict concept, because when something happens again, it becomes different by repetition as it is socially produced and, subsequently, has no rigid concept16.

To take the process as a method in front of the challenge of studying the city, therefore, requires courage and humbleness. It means assuming that no absolute truth exists and that the ways of understanding things are subjective and relative constructions17. It is about setting the architect free from the solid modern way of thinking, which has demanded ambition for decades, and making him sensitive to understand and project instead to foresee, because “the dynamics of the environment that surrounds us is much less obvious than we suppose” (Areosa, 2012, p.13 our translation).

Even all the experience and erudition of the architect, urban planner and Professor Lúcio Costa could not prevent the readjustment of his design for the Brasília Bus Terminal, which was planned to work with the atmosphere of early 20th century European cafeterias and became the most popular space of the Government’s capital (O Risco..., 2003). Knowledge is a perspective of understanding and it is constantly produced disregarding aspects that are not perceived at a certain moment. For this reason, recognizing the city as a dream and intervention18, is at the mercy of fate or uncertainty, as the sociologist Zigmunt Bauman (2013), dealing with happiness, and the mathematician Nassim Taleb (2016), with randomness, named (or identified to be known as) the surprising lack of control over life.

Accepting unpredictability when studying the city reinforces the commitment to constantly updating the school. This makes the limits of its framework (curriculum) more flexible and pushes to a reformulation of its practices (methodological). During the educational journey, the evocation of autonomy in knowledge production and the body as a creative instrument is about changing certain standards of the scientific field. As examples, it is possible to mention the possibility of writing in the first person19, to put the student and teacher position into revision, and to think of the school as a laboratory of experiences, a place for processes and production. The tutor comes closer to the classical performance of the ancient poets as a testimony (Goff, 1990) but also participates as an apprentice by valuing the exchange of collective debate, investing in learning based on subjectivity, and opening up possibilities of looking at the city and producing knowledge.

Almost 300 years ago, Raphael Bluteau (1721) recorded in his dictionary daily life as a basis for learning. Experience and time can turn into maturity but history itself shows that this does not mean guarantees and certainties. If seen subtely, it can only make us less unprepared for all that the city can and will still teach us20.

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1 This article is inspired by the experience of the Landscape Studies Research Group (registered on the CNPq database since 1998), which the author shares the leadership with Professor Maria Angélica da Silva, who I thank for reviewing this text. The Group has been working in an interdisciplinary way (bringing together architects, historians, geographers, archeologists, anthropologists, photographers, designers). It studies the temporalities of urban centers with a colonial origin, cataloging material/immaterial landscape references, and taking as central methodological tools the use of primary sources, fieldwork, iconographic analysis through digital manipulation processes, and product elaboration.

2 Paola B. Jacques (2001) explains the idea of ​​fragment, labyrinth, and rhizome as conceptual figures of the slums dynamics based on Deleuze’s philosophy.

3 The 1800s Positivism may have been the starting point of questions regarding the History’s function because it pointed to discussions in the Social Sciences that referred autonomy to the document and, therefore, put the importance of the historian's work into question. The idea of ​​History, in this context, was that of a model repository of a certain subject that justified identities design, fueled the collectors’ desire, and motivated the creation of museums.

4 During the Great World Wars, another posture renewed these debates, focusing them on valuing the past interpretation and the historian's role as a creator of hypotheses and questions, since the notion of the document was also expanded as a language. A milestone of this moment was the work of Fernand Braudel, produced during his time as a prisoner of the Germans, whose narrative essentially addressed the relationship between men and the environment, with the Mediterranean Sea as the protagonist. Bringing closer narrative and Geography, his work represents a movement that became an interdisciplinary one, and then History began to be thought of as an elaborated product and not as contracted data (Braudel, 1983).

5 When History is dissolved in an anthropological stance, an adjective/denomination process begins in this field of knowledge that will cross historiographical publications from the 1970s. Georges Duby and Jacques Le Goff, with their “Histories of Mentalities” (Histoire des mentalités), are the French School references which generated disciples focused on culture and nature studies. The so-called New History allows historians to record natural life data interpretations, such as attitudes towards death and childhood, assuming that in every human manifestation lies a way of thinking that goes beyond a context that justifies it. This will allow an enlargement of the observation of the past and the investigation sources themselves and will accept as documents records such as epoch reports, orality, and images, which, for a long time were eliminated from scientific bases and archival sources (these arguments are based on a conference about The Annales History, part of the series organized by professor Vitor Manuel Jorge, and given by Fátima Sá Estevão (ISCTE), which took place on 11.17.2017, at Sacavém Ceramics Museum, Portugal).

6 However, these changes in the way of thinking the world are not all liberating. The long-term past and the quantitative evaluation as structuring aspects of narratives denounce that they still carry traditional procedures for the development of historical thought. “New history in France: the triumph of the Annales” (original title: L'Histoire en miettes. Des "Annales" à la "nouvelle histoire”, and Brazilian version “History in crumbs”, which is used here) by François Dosse (1994), validated these discursive advances consequences and the contemporary historian challenge to assume plurality, readapt the time notion and to dissolve himself in other narrative approaches, especially when facing the contemporary situation of “information among men from different continents, makes it necessary to reorient the historian's discourse to adapt to the new historical time awareness” (Dosse, 1994, p.102, our translation).

7 The first modern reference studies in the visual culture field were held by Ervin Panofsky (1979) followed by Carlo Ginzburg (1989), who dealt with the image’s instrumental value as historical data that would be associated with the observer’s interpretive posture. So, the work of art would be an image to be decoded and seen according to a particular order, shaped by the language of specific cultural patterns. At the same time, it would be the language itself because it represents a look filled with authorial personification. Therefore, going beyond the analysis of the formal aspects and from the observation of details, it is possible to recognize fads, desires, and expectations that characterize a certain time. The image represents the "background principle that reveals the major attitude of a nation, a period, a class, a religious or philosophical conception, unconsciously classified by a personality and condensed into a work" (Panofsky, 1979, p. 59, our translation).

8 The work of the historian and ex-mayor of Rome Giulio Carlo Argan (1983) can be recognized as a changing point for the history of the city’s study, because unlike Leonardo Benévolo’s (1993) argumentative development based on cause and consequence, which for decades headed the bibliographic sources of courses, his approach takes the city as a work of art, explaining it through aesthetic ways and expanding his understanding of the built landscape for the everyday movement: “Urban spaces are also the environments of the private house; the altarpiece of the church, the bedroom or the dining room decoration, even the clothing, and ornaments with which people move, represent the scenic dimension of the city. (...) the woods where you go hunting, the lake or the rivers where you go fishing” (Argan, 2005, p. 3, our translation).

9 “Buildings, constructions, works that have in them the architectural quality of shaping elements that improve the cultural memory” (Ramirez Nieto apud Castriota, 2011, p. 265, our translation).

10 Ethnocentrism has its basis on the western notion of the Logos, which brings as consequence a world view in which a group is taken as the center and, through its values ​​and models, think about other conditions of groups (Derrida, 1973).

11 Corpocidade Platform. Available at http://www.corpocidade.dan.ufba.br/encontro.htm. Accessed: 10 Dec. 2017.

12 Such as the “Corpography” concept, which is “a type of cartography performed by and in the body, the urban memory recorded in the body, the record of your experience in the city, a kind of urban spelling of the lived city itself, which is inscribed, but also shapes the body of those who experience it” (Jacques, 2008, our translation).

13 “It is how I named my work of this period (…) The positions of the Animals are defined by the arrangement of the metal pieces, which at first glance seem infinite. When I’m asked about how many movements can the Animals do, I say: I don’t know, you don’t know, but they do” (CLARK, 1980, p. 17, our translation).

14 As classic discourses about Luso-Brazilian urbanism show, which basically vary between regular and irregular, demonstrating “a certain inflexibility in the colonial urban design explanations, disregarding the influence of other elements that can configure the urban mesh, like the port that borders the river; the fort on the other side of the island, or the sugar mill away from the village’s urban center. They also leave other definitions out, as the layout of a given location that can characterize a set of paths such as, wide, narrow, long, short, longitudinal, transversal, unfinished, defined by the houses, crossing the churches...” (Oliveira, 2018, p. 32, our translation).

15 As an example, it’s possible to mention the recognition of scenographic aspects in Oscar Niemeyer's work and call them baroque without fearing the anachronism, as did Glauco Campello (2001). Also the approximation between Burle Marx's gardens representations and the composition of Carmen Miranda’s hats (landscaping and carnival) or architecture, Bossa Nova and Pelé (Modernism, music, and football) as did Márcio Campos, professor at UFBA – Federal University of Bahia, in his conference at VI Architecture and Urbanism Week – SEMAU (2010) with the theme “The irresistible risk of the new”, organized by the Tutorial Education Program of Architecture and Urbanism Course – Federal University of Alagoas.

16 According to Derrida, when something is readjusted there is always an aspect that gives it uniqueness, can be a way of thinking, handling, functioning. It’s like the reading, the discourse, the observation - when you read, you speak and see something again, you read, speak, see differently. The spoken word itself is different, transformed by the phonetic expression, speed, intonation, pronunciation, which, on the other hand, is influenced by a series of situations, of cultural nature or simply occasional, momentary: “Concepts only acquire meaning in the chain of differences, their language and the choice of terms cannot be justified, but inside a topical and a historical strategy. Therefore, meaning can never be absolute and definitive” (Derrida, 1973, p. 86, our translation).

17 As the poet Manuel de Barros commented in the documentary Janela da Alma [Window of the Soul] (2001), it isn’t the eye that sees it is our way of thinking and feeling that shapes our way of sensing the world.

18 “Cities are both the immediate data of their concreteness, and the untouchable ones of dreams, desires. These imaginary cities are parallel dimensions, evoked by fantasy and yet as real as the cities of stone and lime, as they are the leaven and instrument for transformations, of the search for the best way of living (…)” (Paula, 2006, p. 21, our translation).

19 “It’s curious that I ended up making films using the first person because it’s not natural for me. I have a very hard time talking about myself. When I sent Santiago's material to Escorel and told him that I had come to the conclusion that the only way to make the film would be using the first person, I added that I was very uncomfortable because it seemed narcissistic. Then he replied, by email, with a quote from [French documentary filmmaker] Chris Marker [1921-2012] which turned out to be important: 'unlike what people say, using the first person in films is a sign of humbleness: all I have to offer is myself” (Salles, 2018, our translation).

20 Since December 2019, cities around the world have been suffering the consequences of a high dissemination pandemic crisis with the Covid-19, originally from China. "The stance that the different media ​​have registered goes from a forced technological advance to the imminence of chaos, caused by the apparent social unpreparedness to face the epidemic outbreak" (Oliveira and Gudina, 2020, our translation).