Vetores pandêmicos e a modulação algorítmica do possível

Danichi Hausen Mizoguchi, Leandro Jose Carmelini Fafa Borges

Danichi Hausen Mizoguchi tem graduação, mestrado e doutorado em Psicologia. Professor Adjunto do Departamento de Psicologia e do Programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal Fluminense - UFF. Pesquisa temas como subjetividade e experiência urbana, subjetividade e microfascismos, questões transversais entre arte, clínica e política, e as modulações contemporâneas do poder. danichihm@hotmail.com
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Leandro Jose Carmelini Fafa Borges tem graduação em Biologia e mestrado em Comunicação e Cultura. Desenvolve pesquisa de doutorado no Programa de Pós-graduação em Comunicação e Cultura da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, na linha de pesquisa Mídia e Mediações Socioculturais. Seus temas de pesquisa são: cidade, transportes, algoritmos, cognição e subjetividade. lcarmelini@gmail.com
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Como citar esse texto: MIZOGUCHI, D. H.; CARMELINI, L. J. F. B. Vetores pandêmicos e a modulação algorítmica do possível. V!RUS, São Carlos, n. 21, Semestre 2, dezembro, 2020. [online]. Disponível em: <http://www.nomads.usp.br/virus/virus21/?sec=4&item=11&lang=pt>. Acesso em: 16 Out. 2021.

ARTIGO SUBMETIDO EM 23 DE AGOSTO DE 2020


Resumo

As três principais estratégias de contenção da Covid-19 – lockdown, tracking e contact tracing – compartilham aquilo que parece ser a marca mais generalizável de nosso tempo: a mediação algorítmica. Em paralelo, as tecnologias do silício também avançam. Se, de fato, nunca fomos tão digitais, suspeitamos que a suspensão pandêmica atual abre vetores de convergência com as tendências tecnológicas do presente e dão pistas de que podemos ser ainda mais. O texto a seguir se divide em duas partes: 1. O rosto e a tela e 2. O corpo e a rua. Na primeira, relacionando o lockdown e os investimentos recentes do Facebook nos óculos de Realidade Virtual e Realidade Aumentada, pensamos uma tendência de intensificação da domesticidade. Na segunda, aproximando o tracking, o contact tracing e a Kinto – empresa de mobilidade urbana inteligente da Toyota – discutimos a condução algorítmica das trajetórias urbanas. Nos dois casos, seja na relação rosto-tela ou corpo-rua, o que parece estar em jogo é a modulação algorítmica do possível. 

Palavras-chave: Pandemia, Algoritmos, Modulação



1O rosto e a tela

Em setembro de 2019, Mark Zuckerberg (2019) concedeu uma entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo. É surpreendente a compatibilidade entre os planos do empresário e os argumentos defendidos por Descartes, no século XVII, e é ainda mais curioso como a perspectiva de ambos se coaduna a situações de confinamento doméstico, tal como a que, há meses, estamos submetidos por conta da pandemia da Covid-19. É inquietante que, quase quatro séculos depois, e após tantas inflexões tecnológicas e comportamentais, o responsável pelas redes sociais mais acessadas da Internet compartilhe dos anseios cartesianos de uma superação do corpo e do espaço, dessa vez via imagem.

Tentativas de atualização tecnológica de um certo cartesianismo não são bem uma novidade. Kunzru (2009) mostrou, por exemplo, que, nos anos 1950, os primeiros ciborgues já eram uma espécie de sonho científico e militar para escapar às limitações espaço-corporais: exoesqueletos, braços robóticos, órgãos artificiais são alguns exemplos dos rumos já tomados, sobretudo na Guerra Fria, e, em grande parte, já abandonados. No entanto, as coisas parecem ganhar força vetorial de atualização quando evocadas por uma personalidade contemporânea tão influente em nossos modos de existência quanto Zuckerberg. 

Perguntado sobre sua atual investida no ramo da Realidade Virtual (RV) e Realidade Aumentada (RA), Zuckerberg, quase que realizando o sujeito incorpóreo de Descartes, responde, em tom altruísta: 

No futuro, poderemos dar às pessoas a escolha de viverem onde elas quiserem, aproveitar oportunidades de trabalho em qualquer lugar do mundo. Estar perto de quem você ama e trabalhar em qualquer lugar, interagindo por meio de um holograma. (ZUCKERBERG, 2019, n.p.)

A expectativa do empresário – e talvez essa seja uma novidade – é que, em cinco ou dez anos, os novos hardwares do Facebook tomem o lugar dos smartphones como as principais interfaces da comunicação online. Reardon (2020, tradução nossa), um dos responsáveis pelo setor de RV e RA da empresa, é bastante direto: “Temos absoluta fé de que as pessoas não usarão dispositivos como teclados, mouses e joysticks. No futuro, você usará sua mente”. Se a a-topia cartesiana de uma regularidade racional foi uma força importante no progresso moderno, quando os planos de Zuckerberg e o confinamento pandêmico se somam ela parece quase inevitável. No lugar da relação direta entre a essência interior pensante e as regularidades geométricas do espaço, aos poucos vai emergindo um plano relacional digital cada vez mais estreito e totalizado entre o rosto e a tela. 

É na procura das unidades indivisíveis que Descartes encontra a dúvida como dispositivo metodológico e evidência de manifestação do pensamento, que, por sua vez, será o fator de determinação do ser: duvido, logo penso; penso, logo sou. Assim, a divisão fundamental entre pensamento e corpo, e também o privilégio do primeiro em relação ao segundo, se estabelece na oposição entre unidades essenciais puras, por um lado, e compostos imperfeitos, por outro. As conclusões do filósofo são enfáticas: “Examinando com atenção o que eu era, e vendo que podia supor que não havia corpo algum e que não havia qualquer mundo [...] compreendi que era uma substância cuja essência ou natureza consiste apenas no pensar” (DESCARTES, 1979, p. 46-47). Há, portanto, uma coisa pensante que é a garantia da existência. Mais especificamente, da existência de um eu, porque a célebre expressão cogito ergo sum pressupõe um sujeito oculto e em uma delimitação pronominal em primeira pessoa do singular que não é trivial: eu penso, logo eu existo.

Entre os quatro séculos que separam Descartes e Zuckerberg existe, porém, um intenso processo de codificação do pensamento via superfície comportamental, sobretudo visual e atencional. Esse processo avizinha, entre outros elementos, a psicologia e a informática. E se a filosofia cartesiana fez do pensamento a essência do ser, a psicologia, impulsionada pelo confronto entre o veto kantiano (FOUCAULT, 1999) e as tendências oitocentistas de objetividade (DASTON, GALISON, 2007), não cansará de tentar lhe dar uma dimensão extensiva e quantificável. Desde os métodos da introspecção de Wundt até o behaviorismo e suas sínteses com o cognitivismo, a neurologia e a informática, o que se busca, sem sucesso, é a unidade elementar fisiológica ou comportamental, cujo funcionamento sirva de generalização, representação ou réplica da subjetividade independente das indeterminações do espaço e do corpo. 

Passos (2008), entretanto, enfatiza que a entrada da computação nos laboratórios de psicologia a partir dos anos 1940, apesar de uma aceleração das tendências objetivantes, disparou uma inflexão sobre o naturalismo científico herdado pelo behaviorismo, contribuindo para a emergência de um conjunto transdisciplinar que se convencionou nomear de Ciências Cognitivas1 – componente, nos termos de Simon (1981), das Ciências do Artificial. Ao invés de uma busca pela natureza opaca da subjetividade, por meio do monitoramento matemático das periferias sensório-motoras, como propunha a tradição comportamental, esse novo cognitivismo informático se desenvolverá pelo método da simulação, de modo que “o estudo da inteligência dos mecanismos será já o estudo dos mecanismos de inteligência” (LE MOIGNE apud PASSOS, 1992, p. 219). Mais que representar, o esforço será o de produzir a cognição por mimese assumidamente artificial de suas funções e operações manifestas. Não mais se buscará a verdade da cognição na decifração de um conteúdo a partir do que nele haveria de específico, mas no desenvolvimento de um autômato capaz de interagir com estímulos a partir de codificação e processamento matemático – nesse caso, algorítmico. 

É como no texto de Anderson (2008, n.p.): “Quem sabe por que as pessoas fazem o que fazem? O ponto é que elas fazem, e podemos rastrear e medir com fidelidade sem precedentes. Com dados suficientes, os números falam por si”. Contudo, onde Anderson encontra um argumento para defender a defasagem da ciência moderna e um método sem precedentes de monitoramento dos comportamentos, o cognitivismo localiza um artifício descritivo do sujeito cognoscente: o que importa por que as pessoas fazem o que fazem ou conhecem como conhecem, se os computadores já conseguem realizar ações mecânicas e cognitivas? 

São duas faces da mesma inflexão científica em que o maquinismo naturalista, que Descartes legou às coisas extensas, perde lugar para o maquinismo inteligente, que não apenas supera as causalidades geométricas da natureza mas também os pressupostos de opacidade do cogito. O pensamento, que é central ao sistema cartesiano, se reduzirá à inteligência, que, por sua vez, será reduzida à capacidade de quantificar e responder logicamente a estímulos exteriores. Esses pressupostos são condição de possibilidade para a emergência do termo Inteligência Artificial. O computador, poderosa máquina de calcular, torna-se o modelo privilegiado da cognição e, “pela via da algoritmização da inteligência, dá-se então a nova formulação do cogito moderno: calculo, logo existo” (PASSOS, 1992, p. 219). 

Os artifícios inteligentes, todavia, além de se mover e calcular, ainda deverão simular a comunicação com outros humanos. Os computadores, como máquinas interativas, passarão a simular o outro, e, como mostrou Crary (2013), além de avizinhados à psicologia, alinham-se agora à história dos dispositivos ópticos e midiáticos, e avançam por interfaces privilegiadamente audiovisuais – sobretudo imagéticas –, dinâmicas e sensíveis. Surge aqui um sistema que poderíamos resumir como tela-câmera-tecla (INTRONA, 2016), voltado para interagir autonomamente com o eixo corporal olho-mão (VIRILIO, 1994), e que é, ao mesmo tempo, dispositivo de espetáculo e vigilância (CRARY, 2013).

A esse mecanismo propriamente cibernético de adequação, em tempo real, de um poder às contingências imediatas, Deleuze (2010) conceitua como modulação. Este termo aparece para o grande público em um pequeno e célebre texto quase premonitório – ou, ao menos, especulativo – publicado pelo filósofo em um primeiro momento no L'autre journal, em maio de 1990, e, depois, no livro Conversações (2010). Fazia a distinção entre o diagrama disciplinar – aquele que, nas palavras de Deleuze, e é importante atentar ao gerúndio, estávamos deixando de ser – e o diagrama do que chamou de sociedade de controle. Nas palavras de Deleuze, os confinamentos, através dos quais o primeiro adquire condições de possibilidade, funcionam por molde, ao passo que o segundo opera, justamente, por modulação. 

Talvez Deleuze esteja fazendo menção a um pensador que lhe era muito caro: Gilbert Simondon. Em conferência ministrada em 1962, intitulada A amplificação nos processos de informação, ele dirá que a modulação é “o modelo do controle” em uma “operação destinada a evitar a variação fortuita” (SIMONDON, 2020, p. 298). Se essa é certamente uma inspiração possível, não podemos nos furtar a lembrar que Espinosa (2015) era também uma inspiração muito presente no pensamento de Deleuze, e que o pensador holandês, em sua Ética, indicava que aquilo que se concretizava na substância imanente eram os modos – as modulações, portanto. 

Se tomarmos as duas possíveis inspirações deleuzeanas, talvez entendamos o sentido ontológico e político do diagnóstico das sociedades contemporâneas: modular é controlar as variações em um plano de imanência. Se o nosso plano de imanência chama-se capitalismo, isso implica em dizer que o que a sociedade de controle faz é extrapolar os limites do poder – antes contido nas instituições modeladoras disciplinares, como o hospício, a prisão, o hospital e a escola, e seus objetos qualificados, como o louco, o delinquente, o doente, a criança – para tudo o que existe: modular as existências sem quaisquer fronteiras e em todos os âmbitos – as amizades (MIZOGUCHI, 2016), a militância (SOUZA, 2018) e o que mais houver de tornar-se alvo de um poder sem fora.

É esse processo de controle imanente – de modulação, portanto – que se intensifica hoje. Ao processo automatizado que soma a captação e o armazenamento massivo de dados (dataveillance e big data), o processamento de dados (data mining) e a ação sobre os comportamentos, Rouvroy e Berns (2018) chamam de governamentalidade algorítmica. O que enfatizamos – e os planos de Zuckerberg, somados ao confinamento pandêmico, nos parecem pistas disso – é que há um vetor de refino dessa governança que se aprofunda à medida que torna cada vez mais estreita e totalizada a relação entre o rosto e a tela.

Se empresários como Zuckerberg mantiverem ou alastrarem sua condição de indução dos processos subjetivos globais, pode ser que, em breve, independentemente das exigências sanitárias atuais, possamos estar ombro a ombro e sob o mesmo teto, cada um confinado em sua cabine ocular e imerso em sua realidade algorítmica própria, trabalhando, se divertindo com amigos em um show, fazendo sexo ou visitando outros países. Ou, de outro modo, cada um em um ponto diferente, pouco importa se do mundo ou da casa, e reunidos à distância através da reprodução de nossas imagens e sons diretamente sobre os olhos e ouvidos alheios.

2O corpo e a rua

Após meses de confinamento, por conta da pandemia da Covid-19, nos perguntamos: o que importa a cidade? Para que um centro movimentado e diverso, se a experiência social couber na cada vez mais extensa e complexa a-topia incorporal da rede mundial de computadores? Para que a cidade, se nossos encontros, reduzidos a toques, sons e luzes, já puderem ser codificados e organizados pela sensibilidade objetiva cada vez mais sofisticada das telas, câmeras, microfones e algoritmos? Para que atritar o corpo com as indeterminações da rua, se a vida puder se resumir à fluidez confortável da relação rosto-tela?

Mais que responder a essas perguntas, podemos intuir que uma vida mais confinada já não é, como parece ter sido nas sociedades disciplinares, uma necessidade do controle (DELEUZE, 2010). Com o acelerado progresso tecnológico, a maquinaria algorítmica parece elevar a outro patamar o alcance das forças de objetivação – e, logo, de subjetivação. Assim como o laboratório perdeu suas fronteiras físicas (BRUNO, BENTES, FALTAY, 2019), talvez os possíveis indutivos do poder já possam se alargar a ponto de não ser mais preciso, por necessidade, privilegiar o rosto e o olho como locus de intervenção. Isso seria possível a partir dos perímetros e da potência aparentemente ilimitados dos sistemas de captura, armazenamento e processamento de dados. Já que a governamentalidade algorítmica funde o laboratório, a vida social e as subjetividades, talvez ela possa, agora e cada vez mais, incluir em seu campo de determinação, além dos fluxos visuais e atencionais, o fluxo do corpo na cidade, elemento tido pela longa tradição urbanística herdeira do cartesianismo como improdutivo ou perigoso. 

Se pensamos há pouco a convergência entre lockdown e os óculos de RV e RA para discutir indícios vetoriais de domesticação e refino totalizante da relação rosto-tela, para tratar da algoritmização da relação corpo-espaço recorremos à convergência entre o tracking, contact-tracing e a Kinto, empresa de mobilidade urbana inteligente da Toyota. O tracking foi adotado inicialmente na China. Como descreveu Weiland (2020), a estratégia funciona a partir de um sistema de pareamento obrigatório por QR code, acoplado ao monitoramento das localizações e deslocamentos via GPS. Com a câmera do smartphone, o usuário deve parear seu aparelho com pontos espalhados nas cidades (checkpoints) – interiores locomotivos, terminais, portais de acesso a instituições e edifícios comerciais – para que o sistema avalie se é permitido seguir. Caso o geomonitoramento capte que o perímetro de locomoção tenha abrangido locais de alta incidência de infectados, o pareamento QR code indica o sinal vermelho e o código se torna um fator de restrição. O contact-tracing, iniciado na Coreia do Sul, como mostraram Criddle e Kelion (2020), não monitora a localização, mas rastreia a proximidade dos corpos via bluetooth. Caso uma pessoa se aproxime da rede de contatos de outra que teve a doença ou sintomas, ela recebe uma mensagem recomendando isolamento. Apesar das diferenças, as duas estratégias têm por objetivo – seja por meio do monitoramento das trajetórias ou pelo rastreio dos contatos – controlar a circulação dos corpos na cidade. 

Conforme defendido em outra oportunidade (CARMELINI, 2016), a história dos transportes modernos e do urbanismo hegemônico também pode ser pensada como um longo e contínuo processo de contenção da indeterminação urbana pela gestão estatal e mercadológica da circulação e, portanto, dos encontros possíveis na cidade. Entendemos o confinamento locomotivo como complementar aos confinamentos doméstico-televisivo e institucional: enquanto o primeiro compõe um sistema urbanístico de condução dos corpos pelo traçado prescrito das cidades, os outros conduzem, respectivamente, a atenção pelos circuitos imagéticos de consumo e os movimentos do corpo pelos circuitos mecânicos da produção disciplinar. Como escreveu Virilio (2015), são sistemas sobreponíveis de um mesmo processo de eliminação do corpo e do espaço em favor da ubiquidade. 

Assim, a função dos transportes é principalmente comunicacional – de organização do comum (SODRÉ, 2016): além de distribuir os corpos no espaço e induzir os encontros, protege os corpos da intensidade urbana durante as travessias perigosas e indesejadas, porém necessárias. Pavimentação, confinamento, ordenação, conforto e aceleração são elementos fundamentais, desenvolvidos de maneira complementar pela indústria automotiva e pela ação urbanística. Acreditamos, desse modo, que os variados dispositivos somados ao longo da modernidade para organizar a circulação urbana funcionaram como mecanismos de encaixe dos circuitos de trabalho e consumo sobre os fluxos intempestivos da cidade; encaixe que talvez esteja sendo acelerado e inflexionado no sentido de uma algoritmização da rua.

Um algoritmo é “um conjunto de instruções para alcançar um determinado resultado” (FINN, 2017, p. 32). Não está necessariamente relacionado com cálculo ou computação, apenas com a obediência de passos para se chegar a um fim. O planejamento e a estrutura da rede viária das cidades, bem como a definição dos itinerários, frequência, pontos de parada, desembarque ou baldeação, são definidos de antemão, via de regra a partir das demandas e anseios das elites econômicas e políticas. Levando isso em conta, talvez possamos pensá-los como grandes sistemas algorítmicos cuja função fundamental é encadear mecanicamente as etapas da travessia cotidiana de corpos, coisas e dinheiro por pontos estrategicamente dispostos na cidade. 

Embora alarmados com as possibilidades de aceleração algorítmica a partir das estratégias pandêmicas – tracking e contact-tracing –, é importante levarmos em consideração que matrizes operacionais desses mecanismos já estavam presentes. Por um lado, o desenho das vias e os sistemas de transporte já são sistemas muito eficientes de regulação da circulação, das localizações, das proximidades e dos encontros (CHUN et al., 2019). E, por outro, desde que estamos sob o regime da governamentalidade algorítmica2, nossos dados relacionais são justamente a matéria-prima mais cobiçada do mercado (TOONDERS, 2014, n.p.).

Como camada tecnológica que se sobrepõe à rede viária para regular a circulação urbana e privilegiar certas relações, a novidade dos algoritmos computacionais como sistema de gestão dos encontros é de grau, e não de natureza. Alteram-se os métodos e a escala para que se acelere e refine o sistema; substituem-se atores humanos e mecânicos por autômatos cinéticos e inteligentes. Entretanto, as bases e os objetivos permanecem ainda os mesmos desde a medicina urbana parisiense do século XVIII (FOUCAULT, 2004): impor uma métrica à indeterminação das cidades para então governá-la. Se há uma novidade nos algoritmos, acreditamos estar em novos graus de modulação.

Introna (2016) defende que as telas algoritmizadas disparam uma performatividade cognitiva; o tracking e o contact-tracing nos permitem imaginar uma dimensão espacial dela: a organização de uma certa coreografia locomotiva, por meio de dispositivos fronteiriços dinâmicos que regulem e ordenem os fluxos dos corpos em circulação pela cidade. O tracking, por exemplo, funciona por um sistema de códigos próximo ao dos semáforos, e com efeitos semelhantes aos dos torniquetes dos transportes coletivos. Agora, é como se cada indivíduo tivesse um semáforo ou uma catraca acoplada ao corpo, e que se fecha ou abre-se diretamente em função dos encontros imediatos, e não da ordenação pendular prévia dos fluxos massivos. As demarcações que canalizam os fluxos urbanos não apenas ganham movimento e se automatizam como proliferam pelos espaços e corpos. A performance algorítmica, desse modo, apesar de sua abrangência crescente sobre as populações, pode agora ser realizada por coreografias singularizadas. 

Sabe-se que os sistemas de captação de dados já evadiram há muito os limites domésticos e os computadores pessoais. Câmeras, cartões, superfícies interativas, gadgets smart variados, sistemas de localização, drones, etc., são alguns exemplos. Entretanto, a intervenção algorítmica, isto é, a resposta personalizada e automática sobre os comportamentos de que nos falam Introna (2016) e Rouvroy e Berns (2018), ainda ocorre, em grande medida, pela relação olho-tela. O que estamos vendo com as estratégias do tracking e do contact-tracing é a novidade de respostas algorítmicas que ocorrem diretamente por meio de elementos espaciais sobre os corpos, neste caso, sobre os possíveis da locomoção. Trata-se de uma intervenção que define, em tempo real e de modo personalizado, as possibilidades de deslocamento de um corpo a partir da leitura automatizada de seus padrões comportamentais, ou seja, um tipo de intervenção que não passa mais logística algorítmica do visível mas por modulação infraestrutural do espaço.  

Recorrendo à antropologia da caça de animais, Seaver (2018) inclui os algoritmos na linhagem tecnológica das armadilhas. Para ele, no entanto, a armadilha é um sistema contextual, físico e subjetivo que, além do ato final de aprisionamento ou execução de um corpo, é composto pela artificialização de etapas pelas quais a presa será conduzida até o momento derradeiro. Ainda que no contexto algorítmico não haja um gesto violento ou repressivo explícito, há, antes, tanto a generalização social da estrutura – o que tende a tornar seu uso progressivamente necessário – quanto uma compressão automatizada do arco de possíveis, que se justifica pela necessidade de uma seleção preditiva dos conteúdos disponíveis, mas que resulta na indução performativa de comportamentos previsíveis. Tudo aquilo que existe – tudo o que é atual, seja porque já está estabilizado em estratos, seja porque já é previsível através das conexões e dos desmanches destes mesmos estratos – e tudo aquilo que ainda não existe – o que Deleuze chamou de virtual (DELEUZE, PARNET, 1998) – é o alvo deste governo que quer não só gerir o possível, mas também constranger o impossível. Mesmo que nas plataformas algorítmicas haja um suposto respeito às liberdades individuais de decisão, há, antes, a produção de um ambiente operacional no qual as decisões esperadas tornam-se mais prováveis e mesmo necessárias. Assim, o ato da decisão, ou as possibilidades de decisão, tanto pela imposição da estrutura quanto pelo afunilamento da virtualidade, já estão previamente decididos. A manifestação espacial disso, como vimos, remonta às matrizes oitocentistas do urbanismo, principalmente pelas estratégias de gestão dos encontros via circulação. O que nos parece novo – e o tracking e o contact-tracing dão pistas disso – é a possibilidade da indução, simultaneamente, massiva e singularizada das trajetórias. 

Ainda que nossa discussão parta de cenários ditatoriais, há pistas de que um maquinário algorítmico ainda mais largo e sofisticado esteja se montando sobre os espaços urbanos para além da China e da Coreia do Sul, e que esses sistemas, agora operacionalizados pelo Estado e legitimados pela exceção pandêmica, possam se sedimentar de variados modos pelo corpo social e ser aproveitados para fins mais cotidianos de controle. A Google e a Apple, por exemplo, se juntaram para elaborar o mais abrangente sistema de contact-tracing do mundo, abarcando, com seus sistemas IOS e Android, cerca de três bilhões de pessoas (NICAS, WAKABAYASHI, 2020). Em Hong Kong (MEISENZAHL, 2020) e na Índia (JOSH, 2020), visando à expansão do controle para além das fronteiras de classe e casta, já estão em uso pulseiras eletrônicas que substituem os celulares na aplicação da estratégia e que vibram em caso de proximidade de risco. Em diversos outros países, estão sendo desenvolvidos acessórios vestíveis e sistemas móveis de vigilância – como drones – combinados com monitoramento algorítmico da localização dos contatos, da temperatura corporal, dos batimentos cardíacos, etc., com o objetivo de realizar um controle da Covid-19 que não seja danoso aos fluxos de produção e consumo (BIDDLE, 2020; RODRIGUEZ, WINDWEHR, SCHOEN, 2020). 

Sistemas semelhantes e mais cotidianos não estão distantes. Em julho de 2020, a Kinto, empresa criada pela Toyota para investir no ramo da mobilidade urbana, chegou ao Brasil. Sabe-se que a Toyota foi paradigmática nos métodos de produção fabril no segundo pós-guerra: automação e aumento da sensibilidade para as variações do consumo (CORIAT, 1994). Se, naquele momento, ela foi a primeira a perceber que o capital estava se deslocando da exploração disciplinar para a modulação algorítmica das subjetividades, agora ela parece perceber que os valores simbólicos da experiência automotiva – velocidade, virilidade, imponência –, tão marcantes na primeira metade do século XX (BERARDI, 2019), estão se deslocando, sob o signo da mobilidade inteligente, para o puro fluxo do corpo no espaço. 

Sabe-se que os dados da circulação cotidiana são muito reveladores dos padrões comportamentais (ANDREJEVIC, 2015). A novidade é que a Toyota, com a Kinto, não precisa abdicar de seu hardware tradicional – o automóvel – para avançar sobre esse valioso terreno. Além de produzir seus carros, ela pode agora, tanto informatizá-lo (LEÓN, 2019), como considerá-lo dentro da rede de movimentos possíveis cujos nós de conexão – outros hardwares, como bicicleta, patinetes, estações – ela também produzirá. Com isso, além de captar e processar dados, a Kinto poderá modular as trajetórias. Mais do que equipamentos de propulsão, seu produto passa a ser circuitos urbanos, dentro dos quais os modais serão apenas etapas. O objetivo final parece ser o de produzir rotas privadas multimodais para algoritmizar os possíveis locomotivos das cidades. A Toyota, que tradicionalmente produz máquinas urbanas, passa a produzir também máquinas urbanísticas. 

Retornemos a Descartes. Na primeira parte do texto, para discutir um vetor pandêmico que alinha a estratégia do lockdown e os anseios declarados de Zuckerberg, discutimos pontos de compatibilidade entre o cogito, a domesticidade e o aprofundamento da relação rosto-tela. Agora, diferentemente, recorremos a Descartes para refletir sobre a cidade – o trato cartesiano com a coisa extensa. Na segunda parte do Discurso do Método, Descartes (1998) exercita um curioso impulso urbanístico que nos parece compatível com os planos da Kinto-Toyota. Ele escreve que, para atingir a perfeição, uma cidade deve ser projetada por uma só pessoa, um só pensamento, uma só razão – “aí está o motivo pelo qual as grandes cidades são comumente mal alinhadas [...] com ruas curvas e desiguais” (DESCARTES, 1998, p. 30-31). Para ele, a perfeição espacial é geométrica. Apesar de desnecessário, uma vez existindo, os fenômenos espaciais compostos – res extensa – devem se relacionar com o eu essencial pensante – res cogitans – pela razão matemática. A operação cartesiana realiza uma verticalização totalitária na cidade para, assim, harmonizá-la com a unidade interiorizada que ele supõe ser a essência da existência. É importante ressaltar que a noção de interioridade aqui utilizada diz menos de uma delimitação espacial do que de uma individualização. Trata-se de um enclausuramento em si mesmo, a exclusão de poros para a alteridade. Assim, desde que se esteja suficientemente isento de interferências relacionais que possam abrir zonas – perigosas ou inúteis – de indeterminação, é possível estar em um dentro, mesmo sem estar espacialmente confinado. A supressão das multiplicidades urbanas é, pois, o mesmo que a interiorização da cidade – ou melhor, sua destruição, uma vez que a cidade é exterioridade por excelência (DELEUZE, GUATTARI, 2012). 

A Kinto, no entanto, não apenas dispara um vetor de interiorização da cidade por meio de uma rede de equipamentos urbanísticos privados, como também oferece aos seus clientes a experiência particularizada de interiorização urbanística, já que sua estrutura viária em rede é capaz de, em alguma medida, modular itinerários particularizados, supostamente mais adequados para usuários em diferentes situações. Na raiz do argumento, o que a Kinto parece ofertar, talvez em grau ainda baixo, é justamente uma domesticidade urbanística: uma experiência locomotiva que soma a individualidade doméstica do paradigma automotivo, a agilidade fluida do ciclista e a mobilidade radial do pedestre. Tudo isso, evidentemente, encadeado pelo automatismo veloz dos dispositivos algorítmicos.

3Conclusão

Neste texto, discutimos a convergência entre vetores contemporâneos disparados pela urgência pandêmica da Covid-19 e avanços recentes das tecnologias algorítmicas. Se, como propõe a chamada desta edição da revista V!RUS, nunca fomos tão digitais, neste texto indicamos que as três principais estratégias de contenção do coronavírus – lockdown, tracking e contact tracing – coadunam com avanços tecnológicos recentes e nos ajudam a cartografar tendências de um porvir, no qual poderemos estar ainda mais envoltos nas tramas apertadas e flexíveis de uma governamentalidade algorítmica.

Na primeira parte, tratamos da compatibilidade entre o lockdown e os óculos de RV e RA – tecnologias ansiadas por Zuckerberg (2019) – como aquelas que, em breve, substituirão os smartphones como a principal tecnologia mediadora das relações online. Interessou-nos especialmente a convergência entre as tendências de aprofundamento da domesticidade e a intensificação da relação rosto-tela. Mostramos que, apesar da euforia contemporânea, a relação digitalizada entre o rosto e as telas remonta a alguns dos anseios mais básicos do cartesianismo, sobretudo àquele de uma superação das indeterminações corpo-espaciais, em privilégio da essência pensante e das determinações racionais do espaço. 

Na segunda parte, relacionamos o tracking e o contact tracing com a Kinto – empresa criada pela Toyota para investir em mobilidade urbana – e discutimos as possibilidades de uma modulação algorítmica das trajetórias urbanas. Se a Toyota tradicionalmente produz automóveis, isto é, máquinas urbanas, entendemos que agora, com a Kinto, será capaz de oferecer também experiência de trajetória urbana personalizada, ou seja, máquinas urbanísticas. Qualquer dispositivo online que tenha acesso aos inúmeros GPS espalhados pela cidade, seja nos smartphones ou em um dos gadgets online disponíveis, conseguem capturar dados da locomoção. A novidade que entendemos estar sendo disparada, tanto pelas estratégias de monitoramento de localização e rastreio de contato utilizadas na pandemia, quanto pela Kinto, é justamente a capacidade de, a partir dos dados capturados, intervir diretamente sobre as trajetórias urbanas: operar algoritmicamente modulações infraestruturais no espaço.

Referencias

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BIDDLE, S. Coronavirus Monitoring Bracelets Flood The Market, Ready To Snitchc On People Who Don´t Distance. The Intercept, 25 may 2020. Disponível em: <https://theintercept.com/2020/05/25/coronavirus-tracking-bracelets-monitors-surveillance-supercom/>. Acesso em: 16 out. 2020.

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1 Campo investigativo surgido durante a década de 1970 do cruzamento entre diversas disciplinas – psicologia, linguística, neurociências, epistemologia, etc. – com as tecnologias da informática e a ciência da computação. (PASSOS, 1992).

2 Principalmente após 1998, quando o Google inaugura o algoritmo PageRank. (CARDON, 2016).

Pandemic vectors and the algorithmic modulation of the possible

Danichi Hausen Mizoguchi, Leandro Jose Carmelini Fafa Borges

Danichi Hausen Mizoguchi has a bachelor's, master's, and doctorate degree in Psychology. He is an Adjunct Professor in the Department of Psychology and the Graduate Program in Psychology at Universidade Federal Fluminense - UFF, Brazil. He researches topics such as subjectivity and the urban experience, subjectivity and microfascisms, cross-cutting issues between art, clinic, and politics, and contemporary modulations of power. danichihm@hotmail.com
http://lattes.cnpq.br/6111160614032846

Leandro Jose Carmelini Fafa Borges has a degree in Biology and a master's degree in Communication and Culture. He develops doctoral research in the Graduate Program in Communication and Culture at the School of Communication at the Federal University of Rio de Janeiro - UFRJ, Brazil, within the line of research Media and Sociocultural Mediations. His research topics are the city, transport, algorithms, cognition, and subjectivity. lcarmelini@gmail.com
http://lattes.cnpq.br/5254670370455140


How to quote this text: Mizoguchi, D. H., Carmelini, L. J. F. B., 2020. Pandemic vectors and the algorithmic modulation of the possible. Translated from Portuguese by Erika Tambke. V!RUS, 21, December. [online] Available at: <http://www.nomads.usp.br/virus/virus21/?sec=4&item=11&lang=en>. [Accessed: 16 October 2021].

ARTICLE SUBMITTED ON AUGUST 23, 2020


Abstract

Three main strategies of restraining COVID-19 – lockdown, tracking, and contact tracing – share what seems to be the most generalizable mark of our time: algorithmic mediation. In parallel, silicon technologies are also advancing. If indeed, we have never been so digital, we suspect that the suspension caused by the pandemic opens up vectors of convergence with the current technological trends, and gives clues that we may become even more digital. The text is organized into two parts: 1. The face and the screen, and 2. The body and the street. In the first part, we consider a trend towards domesticity intensification, by putting in relation the lockdown and recent investments made by Facebook in Virtual Reality and Augmented Reality headsets. In the second part, we discuss the algorithmic leading of urban trajectories, by bringing together the notions of tracking, contact tracing, and Kinto – the Toyota-owned intelligent urban mobility company. In both cases, either in the relationship between face and screen or between body and street, what seems to be at stake is the algorithmic modulation of the possible.

Keywords: Pandemic, Algorithms, Modulation



1The face and the screen

In September 2019, Mark Zuckerberg (2019) was interviewed by the Brazilian newspaper O Estado de S.Paulo. It is rather surprising to note the compatibility between the businessman's plans and arguments Descartes defended in the 17th century. It is moreover intriguing how their perspective relates to situations of domestic confinement, such as the one we have been subjected to for months, due to the COVID-19 pandemic. Almost four centuries later, and after so many technological and behavioral inflections, it is disturbing that the person responsible for the most accessed social networks on the Internet shares Cartesian aspirations to overcome the body and space, and this time via image.

Attempts to technologically update a certain Cartesianism are not exactly a novelty. Kunzru (1997), for instance, demonstrated that in the 1950s, the first cyborgs were already a sort of scientific and military dream to escape spatial and corporal limitations. Exoskeletons, robotic arms, and artificial organs are examples of different paths taken particularly during the Cold War, and largely already abandoned. Nevertheless, things seem to gain some updated vectorial strength when evoked by a contemporary personality as influential in our ways of existence as Zuckerberg.

Asked about his current assault into the Virtual Reality (VR) and Augmented Reality (AR) field, Zuckerberg replies in an altruistic way, almost realizing Descartes' incorporeal subject:

“In the future, we will be able to give people the choice to live wherever they want, to take advantage of work opportunities anywhere in the world. Being close to the one you love, and working anywhere, interacting through a hologram.” (Zuckerberg, 2019, n. p., our translation). 

The entrepreneur’s expectation – and maybe this is new – is that these new types of hardware by Facebook may replace smartphones as the primary interfaces of online communication in five or ten years. Reardon (2020, n.p.), responsible for the RV and RA in the company, is pretty direct: “We have absolute faith that people will not use devices such as keyboards, mouses and joysticks. In the future, you will use your mind.”

If Descartes' a-topia of a rational regularity was an essential force in modern progress, when Zuckerberg's plans and pandemic confinement combine, it seems almost inevitable. Instead of the direct relationship between the inner thinking essence and the geometric regularities of space, an increasingly narrow and totalized digital relational plane is gradually emerging between the face and the screen.

It is in the search for the indivisible units that Descartes finds the doubt as a methodological device and evidence of the manifestation of thought, which, in turn, will be the determining factor of being: I doubt, therefore I think; I think, therefore I am. Thus, the fundamental division between thought and body, and also the privilege of the former concerning the latter, is established in the opposition between pure essential units, on the one hand, and imperfect compounds, on the other.

The philosopher's conclusions are emphatic: "Examining carefully what I was, and seeing that I could assume there was no body and that there was no world [...] I understood that it was a substance whose essence or nature consists only of thinking." (Descartes, 1979, p. 46-47, our translation). Therefore, there is a thinking thing, which is the guarantee of existence. More specifically, the existence of a self, because the famous expression cogito ergo sum presupposes a hidden subject. In a first-person pronominal delimitation of the singular that is not trivial: I think, therefore I am.

Between the four centuries separating Descartes from Zuckerberg, there was an intense process of codification of the thought via behavioral surface, above all visual and attentional. This process approximates, among other elements, psychology, and information technology. If Cartesian philosophy made thinking as the essence of the being, psychology, driven by the confrontation between the Kantian veto (Foucault, 1999) and the nineteenth-century tendencies of objectivity (Daston, Galison, 2007), will pursue giving it an extensive and measurable dimension. From Wundt’s introspection methods until the behaviorism and its synthesis with cognitivism, neurology, and informatics, there has been an unsuccessful search for the elementary physiological or behavioral unit, whose functioning may serve as a generalization, representation, or replica of subjectivity and who is independent of the indeterminacy of the space and the body. 

Passos (2008), however, emphasizes that, despite an acceleration of the objective trends, the outcome of computing in the psychology labs from the 1940s onwards triggered an inflection upon the scientific naturalism taken after by the behaviorism. Thus it has contributed to the emergence of a transdisciplinary set that was conventionally named Cognitive Sciences1 – a component, under Simon (1996), of the Artificial Sciences.

Instead of searching for the opaque nature of subjectivity, through the mathematical monitoring of the sensorimotor peripheries, as proposed by the behavioral tradition, this new computer cognitivism will be developed through the simulation method, so that "studying the intelligence of the mechanisms will be already the study of the mechanisms of intelligence" (Le Moigne in Passos, 1992, p. 219, our translation). Beyond representation, the effort will be to produce cognition through mimesis and admittedly artificial of its manifest functions and operations. We will no longer seek the truth of cognition in the deciphering of content from what would be specific about it, but in the development of an automaton capable of interacting with stimuli based on mathematical coding and processing – in this case, algorithmic.

It is like in Anderson's text (2008, n. p.): "Who knows why people do what they do? The point is that they do, and we can trace and precisely measure it like never before. With enough data, numbers speak for themselves. Nonetheless, whereas Anderson finds an argument to defend the modern science gap and a method unprecedented of behavioral monitoring, cognitivism pinpoints a descriptive gimmick of the cognizing subject: what is the matter in knowing why people do what they do or know how they know if computers are already able to carry out mechanical and cognitive actions? 

These are two sides of the same scientific inflection. The naturalist machinery, which Descartes bequeathed to extensive things, loses its place to intelligent machinery, which not only overcomes the geometric casualties of nature but also the opacity assumptions of the cogito. The thought is central to the Cartesian system, and it will be reduced to intelligence, which, in turn, will be reduced to the ability to quantify and respond logically to external stimuli. These assumptions are a condition for the emergence of the term Artificial Intelligence. The computer, a powerful calculating machine, becomes the privileged model of cognition and, "through the algorithmization of intelligence, the new formulation of the modern cogito occurs: I calculate, therefore I am" (Passos, 1992, p. 219, our translation). 

Intelligent devices, however, besides moving and calculating, should simulate communication with other humans. Computers, as interactive machines, will now mimic the other, and, as Crary (2001) has shown, in addition to being close to psychology, they become aligned with the history of optical and media devices, and advance through privileged audiovisual interfaces – especially imagery –, dynamic and sensitive. Here emerges a system that we could summarize as screen-camera-key (Introna, 2016), aimed at autonomously interacting with the eye-hand body axis (Virilio, 1994), which is, at the same time, a spectacle and surveillance device (Crary, 2001).

To this properly cybernetic mechanism of adapting, in real-time, of a power to the immediate contingencies, Deleuze (2010) conceptualizes as modulation. This term appears to the general public in a small and famous text – almost premonitory or, at least, speculative – first published by the philosopher in L'autre journal, in May 1990, and, later, in the book Conversações (2010). He made the distinction between the disciplinary diagram – the one that we were ceasing to be, in Deleuze's words, it is important to pay attention to the gerund – and the diagram of what he called the society of control. In Deleuze's words, the confinements, through which the first one acquires conditions of possibility, work by mold, while the second operates, precisely, by modulation.

Perhaps Deleuze is mentioning a thinker who was very dear to him: Gilbert Simondon. In a conference entitled Amplification in information processes, held in 1962, he will say that modulation is "the model of control" in an "operation designed to prevent random variation" (2020, p. 298, our translation). If this is a possible inspiration, one cannot avoid remembering that Espinosa (2015) was also a very present inspiration in Deleuze's thought. The Dutch thinker, in his work Ethics, indicated that what was materialized in the immanent substance were the modes – therefore, the modulations.

If we take the two possible Deleuzian inspirations as a reference, perhaps we understand the ontological and political sense of the diagnosis of contemporary societies: modular is to control variations in a plane of immanence. If our plan of immanence is called capitalism, it means that controlling society extrapolates the limits of power – previously contained in disciplinary modeling institutions, such as the hospice, the prison, the hospital and the school, and its qualified objects, such as the crazy, the delinquent, the sick, the child – for everything that exists: modulating existences without any borders and in all areas – friendships (Mizoguchi, 2016), militancy (Souza, 2018) and whatever else will become the target of exterior power. 

It is this process of immanent control – ergo modulation – that intensifies today. To the automated process that adds massive data capture and storage (dataveillance and big data), data processing (data mining), and behavior action, Rouvroy and Berns (2018) call it algorithmic governance. What we emphasize – and it seems that Zuckerberg's plans, in addition to the confinement during the pandemic, are clues to this – there is a refinement vector of this governance that deepens as the relationship between the face and the screen becomes increasingly closer and total. 

Suppose entrepreneurs like Zuckerberg maintain or spread their condition of inducing global subjective processes. In that case, it may be that soon, regardless of current sanitary requirements, we may be shoulder-to-shoulder and under the same roof, each confined in his ocular cabin and immersed in his own algorithmic reality, working, having fun with friends at a show, having sex or visiting other countries. Or, in another way, each one at a different point, it doesn't matter if from the world or from home, and gathered at a distance through the reproduction of our images and sounds directly over the eyes and ears of others.

2The body and the street

After months of confinement, because of the COVID-19 pandemic, we ask: what does the city mean? What is the point of a busy and diverse center, if social experience may progressively fit in the extensive and complex incorporeal a-topia of the worldwide network of computers? What is the city for, if our encounters are being reduced to touch, sound and light? If they may be coded and organized by the objective sensibility increasingly more sophisticated of screens, cameras, microphones, and algorithms? Why should we friction the body against the uncertainties of the street, if life can be summarized in the comfortable flow of the relation face - screen?

More than answering these questions, we can perceive that a more confined life is not, as it might have been in the disciplinary societies, a request of control (Deleuze, 2010). With the accelerated technological progress, the algorithmic machinery may raise it to another level the reach of the forces of objectivation – and, thus, of subjectification.   

In the same way, the laboratory lost its physical limits, (Bruno, Bentes, Faltay, 2019), perhaps the possible inducements of power can already be extended to the point where it is no longer required, by necessity, to privilege the face and the eye as the locus of intervention. This could be possible placing on the seemingly limitless perimeters and power of data capture, storage, and processing systems. Since algorithmic governmentality fuses the laboratory, social life, and subjectivities, perhaps it may include the flow of the body in its field of determination at this stage and progressively. This flow, in addition to the visual and attentional ones, has been considered an unproductive and dangerous element by the long-standing urban tradition inheriting Cartesianism.

We have just discussed the convergence between lockdown and VR and AR headsets to discuss vector evidence of domestication and totalizing refinement of the face-screen relationship. So, to deal with the algorithmization of the body-space relationship, we turn to the convergence between tracking, contact-tracing, and Toyota's smart urban mobility company Kinto. Tracking was first adopted in China. As Weiland (2020) described it, the strategy works from a mandatory pairing system by QR code, connected to the monitoring of locations and displacements via GPS. With the smartphone camera, the user must pair his device with points scattered over the cities (checkpoints) – locomotive interiors, terminals, access portals to institutions, and commercial buildings – so that the system can assess whether it is allowed to proceed. In case the geomonitoring captures that the perimeter of locomotion has covered places of a high incidence of infected people, the pairing QR code indicates the red signal and the code becomes a restriction factor. Contact-tracing, initiated in South Korea, as shown by Criddle and Kelion (2020), does not monitor the location, but tracks the proximity of the bodies via Bluetooth. If a person approaches the contact network of another person who has had the disease or symptoms, they receive a message recommending isolation. Despite the differences, the two strategies aim to control the circulation of bodies in the city – either by monitoring trajectories or by tracking contacts.

As previously defended (Carmelini, 2016), the history of modern transport and hegemonic urbanism can also be thought of as a long and continuous process of containing urban uncertainty by the state and market management of circulation, and thus of possible encounters in the city. We understand the locomotive confinement as complementary to domestic-television and institutional confinements: while the former composes an urbanistic system of conduction of bodies by the prescribed layout of cities, the others lead, respectively, attention to the imagery circuits of consumption and the movements of the body by mechanical circuits of disciplinary production. As Virilio (2015) wrote, they are overlapping systems of the same process of eliminating the body and space in favor of ubiquity. 

Thus, the function of transportation is mainly communicational – organization of the common (Sodré, 2016): besides distributing the bodies in space and inducing encounters, it protects the bodies from urban intensity during dangerous and unwanted but necessary crossings. Paving, confinement, ordering, comfort, and acceleration are fundamental elements, developed in a complementary way by the automotive industry and urban action. We believe, therefore, that the various devices added throughout modernity to organize urban circulation have worked as mechanisms to fit the circuits of work and consumption over the untimely flows of the city; a fitting that is perhaps being accelerated and inflected towards an algorithmization of the street.

An algorithm is "a set of instructions to achieve a certain result" (Finn, 2017, p. 32). It is not necessarily related to calculation or computation, just with the obedience to the steps to reach an end. Planning and the structure of the cities' road network, as well as the definition of itineraries, frequency, bus stops, getting off, or transfers, are all defined ahead, mostly according to the requests and expectations of the economic and political elite. Taking this into consideration, we might think of them as big algorithmic systems, whose primary function is to mechanically link stages of daily crossings of bodies, things, and money through spots strategically placed in the city. 

Although alarmed by the possibilities of algorithmic acceleration from pandemic strategies – tracking and contact-tracing –, it is important to acknowledge that operational matrices of these mechanisms were already present. On the one hand, the design of roads and transport systems are already very efficient systems for regulating circulation, locations, proximity, and meetings (Chun, et al., 2019). And, on the other hand, as long as we are under the regime of algorithmic governmentality2, our relational data is precisely the most coveted raw material in the market. (Toonders, 2014).

As a technological layer that overlaps the road network to regulate urban circulation and privilege certain relationships, the novelty of computational algorithms as a meeting management system is a question of a degree, not of nature. Methods and scales are changed to accelerate and refine the system; kinetic and intelligent automata replace human and mechanical actors. However, the basis and goals remain the same since the Parisian urban medicine in the eighteenth century (Foucault, 2004): to impose metrics to the uncertainty of the cities to govern it. If there is any novelty in the algorithms, it is that we may be in new grades of modulation.  

Introna (2016) argues that algorithmic screens trigger cognitive performance; tracking and contact-tracing allow us to imagine a spatial dimension of it: the organization of a specific locomotive choreography, employing dynamic border devices that regulate and order the flow of bodies in circulation through the city. Tracking, for instance, works with a system of codes analogous to traffic lights and with similar effects to tourniquets in public transport. It is like each individual had a traffic light or a turnstile attached to the body, which closes and opens in response to immediate encounters and not to the previous pendular ordination of massive flows. The boundaries that channel urban flows not only generate movement and become automated but proliferate through spaces and bodies. This way, algorithmic performance can now be performed by singular choreographies, despite its growing reach over the populations. 

It is common knowledge that systems capturing data have long evaded domestic limits and personal computers. Cameras, bank cards, interactive surfaces, several smart gadgets, location systems, drones, and so on are mere examples. Nonetheless, the algorithmic intervention, in other words, the personalized and automatic response over behavior, discussed by Introna (2016) and Rouvroy and Berns (2018), occurs to a large extent through the eye-screen relation. What we can see with the strategies of tracking and contact-tracing is the novelty of algorithmic responses that occur directly through spatial elements over the bodies, in this case, of the possibilities of locomotion. It is an intervention that defines, in real-time and in a personalized way, the possibilities of displacement of a body from the automated reading of its behavioral patterns, that is, a type of intervention that no longer passes through the algorithmic logistics of the visible but by infrastructural modulation of space.

Appealing to the anthropology of animal hunting, Seaver (2018) includes algorithms in the technological lineage of traps. For him, however, the trap is a contextual, physical, and subjective system that, besides the final act of imprisonment or execution of a body, is composed of the artificialization of stages through which the prey will be conducted until the ultimate moment. Although there is no explicit violent or repressive gesture in the algorithmic context, there is rather both the social generalization of the structure – which tends to make its use progressively necessary – and an automated compression of the arc of possibilities, which is justified by the need for a predictive selection of available contents, but which results in the performative induction of predictable behaviors. Everything that exists – everything that is contemporary whether because it is already stabilized in strata, or because it is already predictable through the connections, and dismantling of these same strata – and everything that does not yet exist – what Deleuze called virtual (Deleuze, Parnet, 1998) – is the target of this government which wants to manage the possible and also constrain the impossible. Freedom to the individual decision is supposedly respected on algorithmic platforms. However, there is the production of an operational environment beforehand, in which expected decisions become more likely and even necessary. Thus, the act of decision, or the possibilities of decision, are already previously defined, both by imposing the structure and by the narrowing of virtuality. The spatial manifestation of this, as we have seen, goes back to the 19th-century matrices of urbanism, mainly due to the strategies for managing meetings through circulation. What seems new to us – and tracking and contact-tracing provide clues to this – is the possibility of simultaneously inducing massive and singular trajectories.

Even though our discussion starts with dictatorial scenarios, there are clues that an even broader and more sophisticated algorithmic machinery is being built on urban spaces beyond China and South Korea, and that these systems, now operationalized by the state and legitimized by pandemic exception, can settle in various ways by the social body and be used for more everyday purposes of control. Google and Apple, for example, have come together to develop the most comprehensive contact-tracing system in the world, covering, with their IOS and Android systems, around three billion people (Nikas, Wakabayashi, 2020). In Hong Kong (Meisenzahl, 2020) and India (Josh, 2020), aiming at expanding control beyond class and caste borders, electronic bracelets are already in use, replacing cell phones in the application of the strategy and which vibrate in the event of proximity to risk. In several other countries, wearable accessories and mobile surveillance systems are being developed – such as drones – combined with algorithmic monitoring of the location of contacts, body temperature, heart rate, etc., in order to carry out a COVID-19 control that may not be harmful to production and consumption flows (Biddle, 2020; Rodriguez, Windwehr, Schoen, 2020). 

Similar and more everyday systems are not far away. In July 2020, Kinto, a company created by Toyota to invest in the field of urban mobility, arrived in Brazil. It is known that Toyota was paradigmatic in the methods of manufacturing production in the second post-war period: automation and increased sensitivity to variations in consumption (Coriat, 1994). If at that moment, it was the first to realize that capital was shifting from disciplinary exploration to the algorithmic modulation of subjectivities, now they seem to realize that the symbolic values of the automotive experience – speed, virility, grandeur –, so striking in the first half of the 20th century (Berardi, 2019), are moving, under the sign of intelligent mobility, to the pure flow of the body in space.

Data from daily circulation are very revealing of behavioral patterns (Andrejevic, 2015). The novelty is that Toyota, with Kinto, does not need to give up its traditional hardware – the automobile – to move forward on this valuable terrain. In addition to producing its cars, it can now both computerize it (León, 2019) and consider it within the network of possible movements whose connection nodes – other hardware, such as bicycles, scooters, stations – it will also produce. As a consequence, in addition to capturing and processing data, Kinto will be able to modulate the trajectories. More than propulsion equipment, its product is now urban circuits, within which the modes will be just stages. The ultimate goal will be producing private multimodal routes to algorithmize possible city locomotives. Toyota, which traditionally makes urban machines, also begins to produce urbanistic machines.

Returning to Descartes: in the first part of the text, to discuss a pandemic vector that aligns the lockdown strategy and Zuckerberg's stated yearnings, we have discussed points of compatibility between cogito, domesticity, and the deepening of the face-screen relationship. At this point, unlike before, we return to Descartes to reflect on the city – the Cartesian trait with the extensive thing. In the second part of the Discourse on Method, Descartes (1998) exercises a curious urban impulse that seems to be compatible with Kinto-Toyota's plans. He writes that, in order to achieve perfection, a city must be designed by one person, one thought, one reason – "that's why big cities are commonly poorly aligned with curved streets and unequal" (Descartes, 1998, p. 30-31, our translation). For him, spatial perfection is geometric. Although they may be unnecessary once they exist, composite spatial phenomena – res extensive – must relate to the essential thinking self – res cogitans – for a mathematical reason. The Cartesian operation performs a totalitarian verticalization in the city, thus harmonizing it with the interiorized unity that it supposes to be the essence of existence. It is important to note that the notion of interiority used here says less of a spatial delimitation than of an individualization. It is an enclosure in itself, the exclusion of pores for otherness. Thus, as long as we are sufficiently free from relational interference that can open zones – dangerous or useless – of indeterminacy, it is possible to be inside, even without being spatially confined. The suppression of urban multiplicities is, therefore, the same as the interiorization of the city – or rather, its destruction, since the city is exteriority par excellence (Deleuze, Guattari, 2012)

Kinto, however, not only triggers a vector of interiorization of the city through a network of private urban equipment but also offers its customers the individualized experience of urban interiorization, since its networked road structure is capable of, to some extent, modulate individualized itineraries, supposedly more suitable for users in different situations. At the root of the argument, what Kinto seems to offer, perhaps in a still-low degree, is precisely urban domesticity: a locomotive experience that adds the domestic individuality of the automotive paradigm, the fluid agility of the cyclist and the radial mobility of the pedestrian. All of this, evidently, linked by the fast automatism of algorithmic devices.

3Conclusion

In this text, one discussed the convergence among contemporary vectors triggered/boosted by the urgency of the COVID-19 pandemic and recent advances in algorithmic technologies. If, as proposed by this edition of the journal, we have never been so digital, in this text one indicates the three main strategies of restraining COVID-19 – lockdown, tracking, and contact tracing – relate with recent technological improvements and help us mapping trends of what might be coming up. We might become even more involved in tight and flexible plots of algorithmic governmentality.

In the first part, we deal with the compatibility between lockdown and RV and AR glasses – Technologies longed for by Zuckerberg (2019) – such as those that will soon replace smartphones as the primary technology mediator of online relationships. We have been particularly interested in observing tendencies of deepening domesticity and the intensification of the relationship between face and screen. We have shown that, despite the current euphoria, the digitalized relationship between the face and the screens dates back to some most basic Cartesian aspirations, especially when regarding overcoming body and spatial uncertainties, in favor of the thinking essence and rational determination of space. 

In the second part, we have related tracking and contact tracing with Kinto – a company created by Toyota to invest in urban mobility – we have discussed the possibilities in algorithmic modulation in urban trajectories. If Toyota traditionally produces automotive vehicles, that is, urban machines, we understand that now, with Kinto, they will also be able to offer a personalized urban trajectory. In other words, urbanistic machines. Any online device with access to the countless GPS spread in the city, be it smartphones or online gadgets, will manage to capture transport data. The novelty here, both by strategies of monitoring location and the contact tracing used during the pandemic as well as by Kinto, lies in the capacity of, based on captured data, directly interfere over urban trajectories: algorithmically operate infrastructure modulations in space.

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1 An investigative field that emerged during the 1970s, on the crossroads of several disciplines – psychology, linguistics, neuroscience, epistemology, etc – with computer technologies and computer science. (Passos, 1992).

2 Especially since 1998, when Google inaugurated the PageRank algorithm. (Cardon, 2016).