V!RUS 04 editorial desenhando coexistência

marcelo tramontano, denise mônaco dos santos

Como citar esse texto: TRAMONTANO, M.; SANTOS, D. M. Desenhando coexistência. Editorial. V!RUS, São Carlos, n.4, dez. 2010. Disponível em: <http://www.nomads.usp.br/virus/virus04/?sec=1&item=1&lang=pt>. Acesso em: 20 03 2019.

Antes de apresentar o quarto número da revista V!RUS, queremos agradecer aos leitores pela acolhida à sua edição número 03, de junho de 2010, sobre o tema "Sistema". Ela foi lida, até agora, em 220 cidades situadas em 41 países, conforme o mapa abaixo gerado pelo nosso contador, o que constitui, para nós, uma grande honra e um enorme estímulo.

Fonte: Google Analytics

A temática da V!RUS 04, Desenhando coexistência, parte da percepção de que, hoje e cada vez mais, os dados do problema apresentado a todos aqueles chamados a intervir nas cidades, sejam planejadores, políticos, arquitetos, designers, artistas, animadores sociais, ou estudiosos de diversos campos, estão se alterando. Não se trata mais de unicamente desenhar e produzir espaços físicos que, no fim, constituirão lugares de vivência ou de expulsão, em variadas escalas, para populações que pensamos conhecer de cor. Trata-se, antes de mais nada, de entender que a essência da sociedade se alterou, através de fenômenos diversos como migrações, acesso à informação, valorização de culturas locais, respeito e estímulo a minorias, entre muitos outros, e que, como a cidade é formada por essas pessoas, desenhar a cidade significa desenhar condições para que suas diferenças possam coexistir. E com brilho e dignidade!

Esse assunto tem ocupado um lugar central nas discussões do Nomads.usp desde há algum tempo, permitindo ao Núcleo perceber novas conexões entre suas pesquisas. A V!RUS 04 constitui uma busca de interlocutores que o Nomads.usp estende para além de seus muros, querendo escutá-los em um debate que, esperamos, continue a ampliar-se. Assim, abrimos a palavra a todo pesquisador que se interessasse em discutir conosco, mas também convidamos alguns pesquisadores e atores sociais a expressar suas posições sobre o tema. O resultado está nas páginas que aqui oferecemos à leitura e ao deleite, com seus vinte e cinco textos, treze vídeos, três áudios, dois projetos de arquitetura e dezenas de fotos.

Esse número da revista V!RUS conta com 47 colaboradores externos ao Nomads.usp, entre autores de textos submetidos e convidados. Estão sediados em 8 países diferentes - Alemanha, Espanha, Inglaterra, Moçambique, Palestina, Portugal, Suécia e Brasil - e transitam entre áreas do conhecimento diversas, como artes cênicas, animação cultural, ciências sociais, design, ciências da computação, educação, comunicação, filosofia, psicologia, geografia, estudos culturais, artes visuais, história, planejamento urbano e arquitetura.

Procuramos organizar a revista enfatizando as várias maneiras de tratar o tema Desenhando Coexistência. Na seção Entrevista, os atores e animadores culturais Adriano Mauriz e Paulo Carvalho, do Instituto Pombas Urbanas, relatam e analisam essa coexistência no dia-a-dia de sua atuação com as comunidades do bairro periférico de Cidade Tiradentes, São Paulo, e também com políticos e financiadores de projetos.

Dois convidados principais oferecem reflexões aprofundadas sobre o assunto: a cientista cultural inglesa Mica Nava aborda a coexistência entre estrangeiros e locais na cidade de Londres, ressaltando o papel das comunidades criadas a partir do fortalecimento de estruturas afetivas entre as pessoas. Comumente entendidas como loci de coexistência, as redes de relacionamento online são objeto de análise no texto do sociólogo Sergio Amadeu da Silveira, que compara o caráter privado das redes com a estrutura aberta mas ainda assim de controle do ciberespaço.

Nos artigos submetidos, pesquisadores acadêmicos abordam o tema elencando e discutindo experiências e posturas em que foram criadas condições para o trato das diferenças em várias partes do Brasil e do mundo. Alguns apresentam estudos e análises, como Adriana Fortes, que investiga o convívio entre skatistas e não skatistas em praças públicas na região central da cidade de Barcelona. Tendo o Rio de Janeiro como campo de estudo, Emika Takaki e Glauci Coelho relacionam multiterritorialidade, cultura e redes sociais através da observação de como se organizam as comunidades de hip hop na cidade. E, finalmente, a participação das pessoas no uso de sistemas online como auxílio para o tratamento do câncer pediátrico em Portugal é explorado por Nuno Duarte Martins e Heitor Alvelos.

Ainda nos artigos submetidos, alguns autores relatam experiências realizadas em diferentes contextos urbanos, com o objetivo de mesclar perfís e ampliar visões de mundo. Tom Bieling, Gesche Jooster e Alexander Müller relatam a experiência do Street Lab, em Berlim, junto à população. Em Belo Horizonte, um experimento que visou estimular, através de um blog, a intervenção das pessoas num trecho de rua abandonado, conforme relato e análise de Lígia Milagres, Silke Kapp e Ana Paula Baltazar. A coexistência em torno do trabalho em galpões de triagem de lixo em Porto Alegre é objeto do estudo de Fernando Fuão, Bruno de Mello, Camilla Bernadellli e Antônio Pedro Figueiredo. E João Diniz e Gabriela Mello Vianna apresentam a experiência poética e interdisciplinar do projeto multimidiático Pterodata.

Finalmente, dois artigos submetidos propõem ações para que a coexistência seja estimulada em meio à diversidade cultural. Na escala urbana, Vinícius de Moraes Netto, Roberto Paschoalino e Maira Pinheiro sugerem estratégias para se planejar coexistência a partir do entendimento do deslocamento físico das pessoas, que permitiria o reconhecimento de padrões de encontro e possibilidades de comunicação. Na escala de um país, Hildizina Norberto Dias delineia princípios para a revisão de aspectos do sistema de educação em Moçambique, frente à diversidade cultural do país.

A seção Projeto apresenta artigos submetidos cujo foco são projetos de arquitetura e urbanismo. Anne Marie Sumner expõe suas ideias para a implantação de habitações nas áreas dos antigos portos de areia na zona sul da cidade de São Paulo, em uma região de mananciais. Denise Morado Nascimento, Simone Tostes, André Soares, Hernán Rieira, Janaína Pinheiro e Renata Nogueira desenham espaços públicos de convivência localizados de forma precisa em partes do centro de Belo Horizonte.

Na seção Tapete, dez estudiosos de áreas diversas foram convidados a livremente agregar breves idéias à temática Desenhando Coexistência, tanto na forma de textos acadêmicos curtos como em depoimentos, imagens e vídeos. Alguns artigos apresentam uma reflexão sobre questões de fundo. A arquiteta Ruth Verde Zein sugere que dificuldades para que pensamentos diversos coexistam no interior do ensino de arquitetura precisam ser superadas para que os arquitetos possam ser propositivos no desenho da coexistência. O papel do arquiteto, enquanto assessor técnico de movimentos sociais para construção de moradias em mutirão em São Paulo, também é examinado pelo arquiteto João Marcos de Almeida Lopes, em ações em que a coexistência entre diferenças tem como objetivo a produção de um bem comum.

Ainda na seção Tapete, e observando as cidades, o arquiteto espanhol Carlos Tápia explora a noção de contraespaço, proposta pelo grupo Outarquías, como meio de reflexão sobre as condições de coexistência nas cidades. O urbanista Rodrigo Firmino enxerga o uso de redes telemáticas como possível vetor da coexistência entre diferenças, implicando, por uma lado, na ampliação significativa da vida urbana através das TIC e, por outro, na valorização da coexistência entre diferenças como ponto focal de ações no espaço urbano. E a arquiteta Eulália Portela Negrelos destaca o risco de gentrificação e homogeneização da população na zona leste de São Paulo a partir da implantação dos chamados grandes projetos públicos. Problemática parecida é tratada pelo pesquisador Benjamin Häger ao contextualizar a experiência da ocupação Frappant, na cidade de Hamburgo, Alemanha, por um grupo de artistas cujo objetivo foi o de discutir alternativas bottom-up aos efeitos gentrificadores das atuais estratégias oficiais neo-liberais de reestruturação da cidade.

Outros textos da seção Tapete propõem ações ou estratégias que visam promover o convívio entre diferenças. O sociólogo alemão Volker Grassmuck comenta dimensões do conceito de coexistência e duas iniciativas de desenho da coexistência: um, no espaço concreto de cidades holandesas e o outro, na troca de arquivos peer-to-peer na Internet. O designer sueco Otto Von Busch enxerga um papel importante do design de objetos no estímulo de posturas mais solidárias entre as pessoas, re-qualificando a convivência nas cidades.

Por fim, outros dois artigos da seção Tapete analisam ações de seus autores na aproximação entre diferenças em duas situações absolutamente distintas. Os arquitetos palestinos Yara Sharif e Nasser Golzari, juntamente com o arquiteto inglês Murray Fraser, criaram o PART, Palestine Regeneration Team, visando agir junto a populações palestinas e israelenses vítimas do conflito entre seus países. E o arquiteto alemão Heiner Lippe apresenta o evento Ringlokschuppenost, que reuniu artistas e trabalhadores ferroviários em um edifício abandonado da estação de trens de Hannover, Alemanha, para três dias de aproximações entre eles e a arquitetura do lugar.

A seção Resenha traz o prazeroso e estimulante exame do cientista social Marco Antônio de Almeida de exemplos de filmes cujo tema central é a coexistência e o trato da diversidade, em sete diferentes estórias.

Esperamos que a leitura desse rico material, produzido a muitas mãos, nos traga visões mais amplas do tema e nos estimule a sermos igualmente propositivos em termos de ações indutoras da coexistência.

V!RUS 04 editorial designing coexistence

marcelo tramontano, denise mônaco dos santos

How to quote this text: Tramontano, M. and Santos, D., 2010. Designing coexistence. Editorial. Translated from Portuguese by Fábio Abreu de Queiroz, V!RUS, 04, [online] Available at: <http://www.nomads.usp.br/virus/virus04/?sec=1&item=1&lang=en>. [Accessed: 20 03 2019].

Before presenting the fourth edition of V!RUS journal, we want to thank our readers for their welcome to the journal's issue number 03 of June 2010 on the theme "System". It was read so far in 220 cities in 41 countries, according to the map below generated by our counter, which constitutes for us a great honor and an enormous stimulus.

Source: Google Analytics

The theme of V!RUS 04, Designing coexistence, is based on the perception that, nowadays and further and further, the data of the problem presented to all those who are called upon to intervene in the cities, either planners, politicians, architects, designers, artists, social animators or scholars from various fields, are changing. It is no longer only about designing and producing physical spaces that eventually will constitute places of living or expulsion, in various scales, for populations that we think we know by heart. Above all, it is about understanding that the essence of society is altered through various phenomena such as migration, access to information, enhancement of local cultures, respect and encouragement for minorities, among many others, and that as the city is formed by these people, designing the city means designing conditions for their differences to coexist. And with dignity and shine!

This subject has been occupying a central place in discussions at Nomads.usp since some time ago, allowing the Center to remark new connections between its research works. V!RUS 04 is a search for interlocutors that Nomads.usp extends beyond its walls, wanting to listen to them in a debate that will hopefully continue to expand. Therefore, we have opened the floor to any external researcher who was interested in discussing with us, but we also invited some researchers and social actors to express their views on the subject. The result is in the pages that we offer here to reading and delight with its twenty-five texts, thirteen videos, three audios, two architectural projects and dozens of photos.

This issue counts with 47 external collaborators out of Nomads.usp, considering authors of both submitted and invited texts. They are from 8 different countries – Germany, Spain, England, Mozambique, Palestine, Portugal, Sweden and Brazil – and transit through various knowedge areas as performing arts, cultural animation, social sciences, design, computer science, education, communication, philosophy, psychology, geography, cultural studies, visual arts, history, urban planning and architecture.

We organized this issue emphasizing many ways of dealing with the theme Designing Coexistence. In the section Interview, the cultural actors and animators Adriano Mauriz and Paulo Carvalho, from Instituto Pombas Urbanas, report e analyze this coexistence in their day-to-day interaction with communities at the peripheral urban area of Cidade Tiradentes, Sao Paulo, and also with politicians and projects sponsors.

Two main invited authors offer thoughtful reflections on the subject: the British cultural scientist Mica Nava addresses coexistence between foreign and local people in the city of London, highlighting the role of communities created from the strengthening of structures of feeling among people. Commonly understood as loci of coexistence, the online social networks are analyzed in the text of the social scientist Sergio Amadeu da Silveira, which compares the networks' private character with the open but still controlling structure of the cyberspace.

In the Submitted Papers, academic researchers address the theme by ranking and discussing experiences and postures that created conditions for dealing with differences in several parts of Brazil and the world. Some of them present studies and analysis, like Adriana Fortes, who investigates the interaction between skaters and non-skaters in public squares in central Barcelona. Having Rio de Janeiro as a field for study, Emika Takaki and Glauci Coelho put multi-territoriality, culture and social networks in relation by observing how hip hop’s communities organize in the city. Finally, Nuno Duarte Martins and Heitor Alvelos explore people’s participation in the use of online systems as an aid to pediatric cancer treatment in Portugal.

Also in the Submitted papers, some authors relate experiences in different urban contexts, aiming at merging profiles and enlarging visions of the world. Tom Bieling, Gesche Jooster and Alexander Müller report Street Lab’s experience with the population in Berlin. In Belo Horizonte, Brazil, an experiment through using a blog targeted to foster neighbors' intervention in an abandoned stretch of street, according to the Lígia Milagres, Silke Kapp and Ana Paula Baltazar report and analysis. The coexistence around the work in waste recycling sheds in Porto Alegre, Brazil, is the object of study for Fernando Fuão, Bruno de Mello, Camilla Bernadellli and Antônio Pedro Figueiredo. And the poetic and interdisciplinary experience of the multimediatic Pterodata project is presented by João Diniz and Gabriela Mello Vianna.

Finally, two submitted papers propose actions to stimulate coexistence in the midst of cultural diversity. In the urban scale, Vinícius de Moraes Netto, Roberto Paschoalino and Maira Pinheiro suggest strategies for planning coexistence from understanding people’s physical displacement, which would allow the recognition of matching patterns and communication possibilities. In the scale of a country, Hildizina Norberto Dias indicates principles for reviewing aspects of Mozambique’s education system, facing the country’s cultural diversity.

The Project section presents submitted papers that focus on architecture and urbanism proposals. Anne Marie Sumner exposes her ideas for deploying habitation on Sao Paulo city's former sand harbors areas, in a region of water bodies at the south of the city. Denise Morado Nascimento, Simone Tostes, André Soares, Hernán Rieira, Janaína Pinheiro and Renata Nogueira design public spaces for coexistence, precisely placed in central Belo Horizonte, Brazil.

In the Carpet section, ten scholars from various fields were invited to freely aggregate brief ideas to the theme Designing Coexistence, either in short academic text format or testemonials, images and videos. Some papers present a reflection on fundamental questions. Architect Ruth Verde Zein suggests the need of overcoming some difficulties for diverse thoughts to coexist within architecture education before architects might be propositivel on the design of coexistence. The architect’s role in social movements for housing construction through collective mobilizations is also examined by architect João Marcos de Almeida Lopes, in actions in which coexistence between differences aims at producing some common goods.

Still in the Carpet section, and observing cities, Spanish architect Carlos Tápia explores the idea of counterspace proposed by the Outarquías group, as a means of reflection on conditions for coexistence in cities. Urbanist Rodrigo Firmino sees the use of telematics networks as a possible vector of coexistence among differences, implying on one hand, in a significant enlargement of urban life through TIC and, on the other hand, on the valuation of coexistence among differences as a focal point of actions in urban space. The architect Eulália Portela Negrelos highlights the risk of the area’s gentrification and homogenization in the Sao Paulo eastern side from the deployment of large public projects. The researcher Benjamin Häger deals with similar problematic by contextualizing the Frappant’s occupation experience, in Hamburg, Germany, by a group of artists whose objective was to discuss bottom-up alternatives to the gentrifying effects of current official neo-liberal strategies for city’s restructuration.

Other texts in the Carpet section propose actions or strategies aiming at promoting the coexistence between differences. The German sociologist Volker Grassmuck comments dimensions of the coexistence concept and two initiatives for designing coexistence: one, in the concrete space of Dutch cities, and the other one, in the peer-to-peer files sharing on Internet. The Swedish designer Otto Von Busch sees an important role of objects’ design to stimulate solidary postures among people, requalifying acquaintanceship in cities.

Lastly, other two papers in the Carpet section analyze their authors’ actions to approximate differences in two completely distinct situations. The Palestine architects Yara Sharif and Nasser Golzari, together with British architect Murray Fraser, created PART, the Palestine Regeneration Team, aiming at acting with Palestinian and Israeli populations, victims of the conflict between their countries. And the German architect Heiner Lippe presents the event Ringlokschuppenost that brings together artists and railway workers in a Hannover’s train station abandoned building, for three days of raprochements among them and the architecture of the place.

The Review section brings the pleasurable and stimulating exam by social scientist Marco Antônio de Almeida of some movies whose central theme is the coexistence and the dealing with diversity, in seven different stories.

We hope that reading this rich material, produced by many hands, bring us wider visions over the subject and stimulate us to be equally propositional in terms of actions able to induce coexistence.