Lugares, gestos e palavras do conforto em casa

Monique Eleb

Monique Eleb é Psicóloga e Doutora em Sociologia, professora da École d'Architecture Paris-Malaquais, França, diretora do grupo de pesquisa Arquitetura, Cultura e Sociedade (ACS), especialista em Arquitetura Doméstica, estuda a evolução da habitação relacionada aos modos de vida na França.

Como citar esse texto: ELEB, M. Lugares, gestos e palavras do conforto em casa. Traduzido do francês por Axel Dieudonné. V!RUS, São Carlos, n. 5, jun. 2011. Disponível em: <http://www.nomads.usp.br/virus/virus05/?sec=3&item=1&lang=pt>. Acesso em: 12 Ago. 2020.

Este artigo foi extraído de um dos capítulos do nosso livro intitulado "Vu de l'intérieur. Habiter un immeuble en Ile de France (1945-2010)" [Visto do interior: Habitar um edifício de apartamentos na Ile de France (1945-2010)], com Sabri Bendimérad, Archibooks/Ordre des Architectes d’Ile de France, 2011.

O conforto é tanto uma noção construída quanto uma conquista. Ao longo do século XX, a noção de conforto passou da expressão de um sentimento qualitativo e subjetivo para uma noção mensurável e objetiva, relativa à ideia de equipar a habitação e igualmente ligada ao progresso. Portanto, ela questiona a relação da sociedade com o corpo, assim como a concepção, mutável, do bem-estar. A ideia de fornecer a todos um mínimo requerido deste bem-estar, avaliado por técnicos e até mesmo por tecnocratas, determinaria numerosas escolhas. O conforto igualmente remete aos ideais de uma sociedade. Assim sendo, a concepção de felicidade propagada nos anos 1950, após os tempos de privação, estava ligada à posse de objetos e equipamentos considerados como atenuadores dos trabalhos domésticos e “libertadores da mulher”, soberana em sua casa higiênica e, em suplemento, sustentáculo do estatuto do homem. Quem ousaria assumir este discurso atualmente?

O conforto, entre valor positivo e modo de vida

Na virada do século XIX, o termo comfort, tomado por empréstimo aos Ingleses e transformado em confort [conforto], é compreendido como um prazer cotidiano ou como uma necessidade transformada em anseio: cuidar do seu corpo, aprender a descontrair-se e, paulatinamente, acostumar-se a se lavar todos os dias, um estado de coisas que mudaria a habitação. Do ponto de vista dos abastados, o conforto corresponde a um modo de vida escolhido que, desde logo, viria a integrar exigências. As posições dos sanitaristas foram interiorizadas e trata-se, sabendo-se da importância da aeração e da luz solar, de viver em casas providas de janelas amplas e bem orientadas. A chegada, desde o final do século XIX, dos serviços de água, gás natural, luz e telefone oferecidos pelas redes técnicas melhorou progressivamente a vida cotidiana, embora continuasse a perpetuar as desigualdades sociais, já que alguns dentre estes equipamentos não chegariam senão muito tardiamente aos bairros desfavorecidos e que a rede de água encanada, no início dos anos 1950, ainda não se encontrava universalmente instalada em toda a Região de Paris.

Entre 1928 e 1959, os Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna (CIAM) perpetuariam a tradição sanitarista, promovendo a um só tempo a aeração e a funcionalidade, por vezes, em detrimento da complexidade simbólica da habitação e do seu entorno ambiental. O corpo é central em suas reflexões, mas trata-se de um corpo esportivo, bem pouco sensual, sobretudo quando é questão de alojar a classe operária em um habitat mínimo. Paralelamente, arquitetos menos radicais construiriam prédios com pátio, arejados, não menos salubres, muito amiúde mais urbanos, como aqueles da “ceinture de brique rouge de Paris” [N.T.: Habitações populares construídas no Pré-Guerra, atualmente denominadas cinturão de tijolo vermelho de Paris]. Após ter chegado à região parisiense em proveniência do mundo rural, a classe operária descobre, em algumas habitações bem estudadas, o conforto e a comodidade, aprendendo a gostar de “estar em casa”, a provar o charme de um interior limpo, bem cuidado e agradável, valores até então burgueses (ELEB, 1994; KNIBICHLER, 1991, 1987).

Os terraços plantados, as coberturas, caracterizavam o habitat parisiense de luxo nos anos 1930 e reapareceriam, quando o construtor esteve aberto à demanda social, em vários momentos ao longo da segunda metade do século XX (SIMON; LECLERCQ, 1994), especialmente nos conjuntos habitacionais. Os imóveis em vários planos de Henri Sauvage, os “gradins-jardins” [plataformas/planos-jardins], os imóveis em forma de pirâmide dos anos 1970, notadamente aqueles de Andrault e Parat em Evry, estão presentes na memória. Este desejo de uma lembrança da natureza em casa, de um interior exteriorizado ou o inverso, conduziu numerosos arquitetos a revisitarem estes dispositivos. Assim sendo, desde os anos 1980, muitas construções, notadamente aquelas de Edith Girard, ganharam coberturas.

A conquista da higiene e do conforto para todos

Entretanto, esta salubridade para todos, programada antes da Primeira Guerra Mundial, se confrontaria com a situação catastrófica das condições habitacionais advindas da destruição, assim como com uma queda na oferta. O calote dos alugueres, insignificante até 1940, não permite a manutenção dos imóveis pelos proprietários e provoca a sua degradação. Esta situação habitacional e o grande número de “mal alojados” seriam inclusive denunciados pelo Abade Pierre, em 1954. O período da Reconstrução é marcado por uma ação do Estado, tanto ao nível dos financiamentos quanto no tocante à implantação dos programas habitacionais, ou ainda no que tange o incentivo à industrialização, considerado um meio de acelerar o ritmo das construções. Embora se saiba que os franceses preferem a casa individual, o Estado opta por empreender a construção de habitações coletivas, em “grandes conjuntos”1, os quais, em primeiro momento, seriam bem acolhidos. Acelera-se criação de canteiros de obras para estas operações, muito frequentemente situadas nos arredores das cidades. A imagem geral que atualmente caracteriza estes conjuntos - seriam todos mal construídos, reservados às classes populares e situados em enclaves - não derivam de uma observação in loco. Alguns, apresentando dificuldades em neles se viver em termos de acesso à cidade de referência, igualmente possuem unidades de alta qualidade, os quais foram objeto de inúmeras reflexões que levaram em conta modos de vida, e foram transmitidos entre si pelos habitantes, eventualmente geração após geração. Em contrapartida, outros pecam por uma concepção obsoleta de conforto, em razão de precipitações no canteiro de obras ou da queda drástica dos custos que impede atingir uma qualidade aceitável. Desde o final do período, eles seriam severamente criticados. Por sua vez, os imóveis de luxo experimentam dispositivos, a um só tempo, funcionais e adaptados aos estilos de vida observados pelos arquitetos.

O conforto proposto nas revistas ou exposições, ao longo dos anos 1950, aparenta estar fora do alcance aos olhos da maioria dos franceses. Embora, nesta mesma época, dispositivos ainda atualmente considerados modernos sejam experimentados na habitação popular, à imagem das cozinhas abertas (ainda que somente paulatinamente aceitas), as divisórias deslizantes e as habitações adaptáveis às horas do dia ou à evolução familiar.

A França lança-se como um todo na aquisição do “eletrodoméstico”, transformado em um verdadeiro “objeto de desejo” (FORTY, 1992), e os decoradores e arquitetos tentam difundir em todas as classes sociais um tipo de mobília leve, depurada e liberada do “rústico” e dos “estofados”, com um sucesso bem relativo. Duas peças são centrais nesta proeminência do conforto: a cozinha e o banheiro. No transcorrer do século XX, a primeira transforma-se e é deslocada no interior da habitação, a segunda teve que ser criada e rapidamente substituiria o luxuoso cabinet de toilette do século XIX, mobiliado e ornamentado.

Conforto para todos, mas conforto normatizado

No Pós-Guerra, o recenseamento geral da população de 1946, incluindo pela primeira vez questões relativas aos “elementos de conforto: água, gás, eletricidade, instalações sanitárias”, mostra que em cada três lares um está em condições de sobreocupação (2 pessoas por cômodo), e, sobretudo, que somente 6% das residências principais dispõem de ducha ou banheira, que apenas uma habitação em cada cinco está equipada com lavabo privativo e que somente 37% dispõem de água encanada! No entanto, ainda em 1951, um levantamento do INED2 mostraria que 32% dos entrevistados “acham normal se lavarem na cozinha”3.

Os Salons des Arts ménagers4 igualmente são reputados como meios para se conduzir os franceses à era da modernidade, através da aquisição de objetos, móveis e equipamentos visando aumentar o conforto. Em que pese a padronização intensiva e a pré-fabricação, o ideal de conforto continua na esfera das aspirações. Como o serviço de aquecimento era raro, “muitas famílias de condição social inferior são obrigadas a viverem na estação fria, ou seja durante oito meses, em suas cozinhas […] o aquecimento central permanece um sonho de todos. Nenhuma dona de casa admitiria ter dois fogos acesos a um só tempo, um na alcova cozinha e outro na grande sala de estar” (LAPRADE, 1950, p.6). Preocupação que rapidamente tornar-se-ia obsoleta.

Outros hábit(os), outras técnicas, outro léxico

Os espaços neste Pós-Guerra, fotografados ou desenhados, estes objetos, estes textos, mostram-nos a evolução dos modos de fazer e dizer, dos gestuais e do vocabulário. Eles mostram, na realidade, a lenta incorporação da necessidade de se lavar, de tirar proveito do ”progresso”, embora em ritmo diferente segundo a classe social. A representação do conforto muda, ao mesmo tempo em que se transformam as sensações condutoras ao descobrimento destes novos objetos.

Atualmente transcorridos não mais que 60 anos, é um mundo totalmente distinto que aparece, em lugar das habitações onde se passa frequentemente muito frio, nas quais as mulheres fazem ferver a roupa com produtos perigosos que lhes atacam as mãos e onde elas transportam bacias com água fervente da cozinha ao banheiro, isso quando possuem esta última. Gestos e riscos esquecidos, como aquele referente a subir o seu “bac à douche-lavoir5 (até qual idade seria alguém capaz disso na época?), onde a roupa é por vezes mergulhada em um produto tóxico… circunstância vista como natural, considerando-se o ciclo da roupa suja, longo e fastidioso, tanto quanto era normal o fato de se possuir uma lavanderia aberta, permitindo a evacuação dos vapores e a secagem, ou ainda de se ter um cesto de roupa suja em sua sacada.

Laprade mostra inclusive a qual ponto isso tudo é banal: “o banheiro para ferver e lavar a roupa e um varal, quer seja no sótão ou na parte externa, tornado invisível por um biombo de concreto [elemento vazado?], são indispensáveis” (LAPRADE, 1950, p.6, grifo da autora). Uma evidência, totalmente “natural” de uma época!

O nome geladeira ainda não é conhecido senão pelos “happy few” e o armário aberto sob a janela da cozinha ainda é a regra. Não se imagina então a subsequente pequena “revolução das máquinas”, pois, evidentemente, a difusão da máquina de lavar e da geladeira tornaria obsoletos todos estes objetos e as correlatas organizações da vida cotidiana.

A racionalização do trabalho doméstico, no prolongamento das reflexões sobre o taylorismo doméstico desenvolvidas nos anos 1920, ainda estaria presente no Pós-Guerra no conteúdo das revistas e periódicos e nas exposições sobre habitação. Ela legitima o trabalho doméstico feminino e incite a se reconhecê-lo enquanto tal. Assim sendo, o equipamento “moderno” que o “facilita” é então apresentado como uma necessidade. A imprensa especializada consagra edições especiais ao “equipamento da casa”, participando deste e participe desta febre em favor da democratização do bem-estar6. Pierre Sonrel, arquiteto e jornalista, em um artigo de 1947 sobre “As funções da habitação” (SONREL, 1947, p.242-243), analisa as “necessidades fundamentais” às quais devem responder as moradias contemporâneas: alimentação, distração-diálogos, sono, puericultura, arrumação-locais anexos, higiene, circulações. Deste modo, ele oferece de passagem uma definição do conforto, segundo a qual ele seria: “O conjunto das regras a seguir, por um lado, para preservar o indivíduo dos rigores da natureza circundante sem privá-lo das suas influências vivificantes e, por outra parte, para aumentar as suas possibilidades de desenvolvimento físico e moral, liberando-o dos trabalhos maçantes”. Nas revistas populares, a ênfase é antes colocada sobre o aspecto prático do equipamento, das instalações, assim como sobre a bricolagem, ao passo que as publicações especializadas apresentam uma abordagem científica do funcionalismo, aproximada das reflexões sobre o habitat mínimo, reforçando a imagem de uma moradia regulada, normatizada e pouco flexível.

Todavia, alguns arquitetos resistem e a posição funcionalista ainda dominante seria portanto questionada, tal como demonstra a abordagem de Roland Bechman, quando ele faz, desde 1948, uma defesa da flexibilidade (BECHMAN, 1948). Ele propõe o novo conceito referente à “maison-enveloppe” [casa-envelope], no interior da qual maior liberdade é conferida às destruições, “tão independentes quanto possível da construção” para contemplar as modificações da família. Trata-se, por assim dizer, de uma espécie de planta livre em cujas paredes divisórias são, entretanto, pré-fabricadas. Ele igualmente evoca as “divisórias móveis, (deslizantes, pivotantes, embutidas)”, referindo-se à cultura da casa japonesa e às “divisórias modificáveis (desmontáveis, removíveis)”. Entretanto, ele coloca a questão do isolamento acústico a ser aperfeiçoado para que estas soluções sejam tenham receptividade. Questão até hoje mal resolvida.

Esta posição, aparentemente tão contemporânea, seria aplicada por alguns e, em seguida, logo rejeitada, em função das necessidades da reconstrução e da industrialização das obras, pois os métodos de construção que se banalizam deixam pouco espaço para a diversidade distributiva e para a reflexão acerca da organização espacial interna. As plantas das moradias são marcadas redistribuição das atribuições entre engenheiros, arquitetos e construtores. E podemos fazer uma constatação: desde a Segunda Guerra Mundial e após a subsequente Reconstrução, as variáveis culturais, os rituais ligados aos diferentes grupos sociais foram minorados. As relações homem/mulher e pais/filhos na casa, tornam-se paulatinamente menos fundamentais na reflexão sobre a organização destes projetos. Os métodos construtivos, a pesquisa relativa à redução de custos e as normas técnicas explicam em larga medida este estado de coisas.

No entanto, se o “invólucro” se fixa em tipos tais que as barras e as torres, a evolução do conteúdo, do equipamento, compõe o objeto de todas as atenções, com o desenvolvimento pelos Franceses de um grande apetite em relação aos objetos da modernidades. E, obviamente, há então uma guinada para a “América” e a sua concepção de conforto. Assim sendo, a “sala de estar” das moradias populares, combinando cozinha e sala, seria rebatizada por promotores como “cozinha americana”, termo que tem o objetivo de apresentá-la como última palavra em termos de modernidade, para uma melhor aceitação da sua área muito reduzida. Além disso, o construtor economiza uma parede divisória e/ou uma porta. É conhecido o desdobramento desta ilusão perceptiva.

Desde os anos 1950 e durante as três décadas subsequentes, a mobília tende a tornar-se mais leve, os móveis estofados ainda ocupam o primeiro escalão junto a alguns grupos sociais, mas ganham a companhia, em meio àqueles que se pretendem na vanguarda e têm o gosto pela vida rente ao solo, por móveis menos pesados, banquetas, pufes, sofás infláveis, cubos de espuma vivamente coloridos, frequentemente de cor laranja nos anos1970, a exemplo de algumas lâmpadas7.

A organização da moradia ou como chegamos a este estádio?

1 Cf. Maurice Rotival que propõe este termo desde 1935 em L'Architecture d'aujourd'hui (junho de 1935) .

2 N.T. Instituto Nacional de Estudos Demográficos. Em francês: Institut national d'études démographiques.

3 "Comment le Français veut-il être logé" Sciences et vie, n° especial, L'habitation, março de 1951, p. 27.

4 Cf. em Vu de l’intérieur, o artigo de Lionel Engrand sobre Arts Ménagers.

5 N.T. Box para chuveiro-tanque. Trata-se de um equipamento sanitário em geral de louça reunindo as funções de banho com chuveiro e lavagem de roupa manual.

6 Como L’Architecture d’Aujourd’hui, Techniques et Architecture ou ainda l’Architecture Française

7 Cf. a exposição festiva recém-encerrada no Musée des Arts décoratifs em Paris, Mobiboom. L’explosion du design en France, 1945-1975.

As normas, os códigos, o savoir-faire de toda a cadeia produtiva da moradia finalmente chegaram ao ponto de produzirem um tipo de moradia francesa característica. Uma definição de moradia “clássica” é atualmente dada por um site do Ministério da Habitação, sem todavia esquivar-se de uma ponta de crítica subjacente. A habitação do nosso tempo seria “uma moradia para uma família com filho(s) de pouca idade (o que se traduz pelo tamanho dos quartos e pela sua pouca autonomia em sua relação entre si), na qual a parte pública (cozinha-sala de estar) e a parte privada (quarto-banheiro) estão dissociadas. Este modelo, comportando múltiplas portas e um hall de entrada independente e geralmente sem janelas, descreve o apartamento denominado ‘clássico’ que se opõe a qualquer outra tipologia, desde então denominado ‘atípico’”.

Esta normatização dos dispositivos e das áreas é implementada nos anos 1950, com a industrialização das obras, perdurando até hoje com leves adaptações, por vezes reversíveis e devidas às preocupações que se sucederam, tais como, por exemplo, aquela referente ao não desperdício das fontes de energia (crise do petróleo) ou à adequação da moradia às pessoas com mobília reduzida. A própria família é normatizada, pois o alvo mais frequente dos construtores é a família nuclear com as suas duas crianças. Se, no habitat burguês permanece presente a tripartição interna e a sua dissociação entre as áreas públicas, privadas e de serviço, há vários séculos reguladora da organização interna da habitação, no que diz respeito ao restante da produção, é a bipartição que prevalece no início dos anos 1950, com o “lampejo” relacionado à divisão da moradia em duas zonas dia/noite (MOLEY, 1985). Esta exceção francesa, concebida por técnicos preocupados em agrupar os fluidos, seria por eles apresentada como derivada de um anseio dos moradores, mas na verdade ela permite sobretudo uma redução de custos.

Dois tipos de projeto se banalizam. As moradias com dupla orientação têm uma cozinha faceando a “sala de estar” e as dependências úmidas são agrupadas, ao passo que a planta da moradia popular continua a se estruturar em torno da sala comum, um polo de distribuição que deve ser atravessado para se alcançar os outros cômodos8.

O interior dos conjuntos habitacionais muda igualmente no tocante à decoração. A febre pelos revestimentos de fácil manutenção, como a Fórmica, denota um último sobressalto da onda sanitarista do final do século XIX, integrada por todas as classes sociais. A sala, no Pré-Guerra denominada “living-room” ou “studio” pelas classes privilegiadas e médias e “sala comum” pelas classes populares, torna-se “sala de estar” para todos, dotada de “móveis modulares”, os quais se difundem naquele período, assim como do coin-repas [canto de refeição], consumando o ocaso da sala de jantar.

Ao longo de todo o período de construção dos grandes conjuntos habitacionais (aproximadamente de 1950 a 1974), a industrialização, a pré-fabricação de módulos idênticos e repetidos, menos custosos que os materiais habituais, marginaliza a questão da organização interior e provoca, na maioria dos projetos de moradia social, planos repetitivos, submetidos aos métodos construtivos empregados e sem maiores reflexões acerca das utilidades9. Os empreendimentos privados seguirá muito rapidamente esta direção, durante muito tempo retomando sem maiores questionamentos os dispositivos colocados em prática pela moradia social.

No entanto, ótimos arquitetos ainda inovam e refletem sobre os meios para se tornar mais confortável o habitat mínimo e sobre como abri-lo, inclusive no caso de um grande conjunto, a um espaço externo agradável, jardins, ou dotando-o de terraços com vista para uma paisagem arborizada. As finalidades observadas no cotidiano encontram-se então na base da concepção.

Desde 1962, o estado das moradias é levado em consideração pelo INSEE10 “que combina as características da parte bruta da obra com os elementos do conforto interno das moradias”. Nesta década de 1960-1970, a qualidade das habitações novas melhorou de acordo com alguns critérios, pois elas são maiores que no antigo parque habitacional (3,5 cômodos em lugar de 3) e, em cada dez moradias, oito dispõem de equipamentos sanitários que começam a se assemelhar àquelas dos quais dispomos atualmente. Paralelamente, as moradias construídas no Pré-Guerra, as quais não dispunham senão raramente de sanitários, foram reformadas e passamos de 13% de moradias equipadas (portanto, “confortáveis” segundo o INSEE), antes de 1945, para 90% em 1996 e 99% nos dias de hoje. Além disso, a diminuição no tamanho dos lares é considerável e uma residência acolhe atualmente, em média, 2,6 pessoas comparativamente às 4 abrigadas no início do século XX, estado de coisas que faria aumentar a sensação de conforto. A melhora generalizada do nível de vida no Pós-Guerra tem igualmente reflexos no habitat que viria, por muito tempo, a ocupar o primeiro lugar no rol das despesas do orçamento dos lares.

Retorno à urbanidade?

As proposições utópicas dos anos 1970 visam confrontar a mediocridade da “moradia industrial”: moradias adaptadas a grupos específicos, moradias adaptáveis e com divisórias móveis que seguem as transformações da família, etc., os temas considerados utópicos nos anos 1950 são novamente atualizados. Estas organizações estariam supostamente aptas a favorecerem a apropriação da moradia. O respeito pelo morador e pelo seu estilo de vida, a descoberta pelo meio arquitetônico da noção de modelo cultural, termo adaptado por Henri Lefebvre e Henri Raymond seguindo a noção de habitus11 de Marcel Mauss, relembra aos arquitetos que o habitat é um fato cultural. O tipo que perdurou em relação a esta abundância de proposições e experimentações é o habitat intermediário, entre o individual e o coletivo, dotado de uma entrada individual e de prolongamentos externos hoje retomados por arquitetos preocupados em “prover a moradia coletiva das qualidades da casa individual”.

O habitat intermediário permite penetrar diretamente em sua casa, ter um terraço, mas igualmente vizinhos próximos, na realidade, habitar em uma moradia individual embora agrupada. A mais notável dentre estas experiências é aquela de Jacques Bardet no Vale de Hyères (1967-1969), porém os numerosos projetos de imóveis piramidais teriam o mesmo objetivo. Trata-se, obviamente, de uma variação do gradin [planos sequenciais], inaugurado por Henri Sauvage e Charles Sarazin em Paris, no ano de 1913 na Rua Vavin, propondo uma arte de viver na cidade que permite manter uma relação com a natureza, acompanhar a sequência das estações, arejar-se e receber a luz solar.

Já desponta o retorno à urbanidade, no mais amplo sentido do termo: construir uma cidade que novamente proporcionasse a vontade de se viver em conjunto, com lugares para se encontrar e que reintroduzisse um amálgama de tipos arquiteturais, de modo a recriar uma mistura social, esta é a crença deste período, todos temas atualmente reencontrados. Os pátios plantados tiveram o seu retorno. Eles são reputados tanto por facilitarem a sociabilidade entre vizinhos quanto pela sua capacidade de aeração.

No tocante à mobília, paulatinamente, o gosto por se estar alongado em colchões para receber visitas ou para assistir televisão, característico de uma determinada vanguarda dos anos 1965-1975, é interrompido e a mobília retoma os seus assentos mais elevados. No entanto, pouco a pouco, os móveis estofados copiados de modelos antigos são substituídos, na maioria dos grupos sociais, em proveito de móveis industrializados, embora concebidos por designers suecos, ingleses e, eventualmente, franceses.

Atravessando todas estas mudanças, o estereótipo do casal com os seus dois filhos permaneceu, contudo, como a base da programação do habitat. Ainda atualmente, estamos apenas começando a levar em conta as transformações da estrutura do grupo doméstico (famílias mono-parentais, convívio de várias gerações na mesma habitação, coabitação…), assim como dos seus ritmos de vida. O habitat específico teve o seu início com uma atenção particular voltada para a moradia estudantil e para as pessoas idosas. As grandes famílias recompostas e os coabitantes ainda não são considerados senão nos concursos de ideias sobre a evolução paralela da moradia e dos estilos de vida. Muitas reflexões, poucas construções.

Área, beleza, saúde

Este século é aquele da notável inversão de uma tendência que perdurava por séculos: o habitat de luxo propunha modelos que, reduzidos, eram transpostos para a criação do habitat mais modesto. Ao início do século XX, o avanço do sanitarismo no âmbito da moradia social produz um modelo dessa inversão, ao menos em alguns projetos: a cozinha equipada, a aeração calculada, o tratamento dos quartos destinados às crianças. Entretanto, atualmente no habitat da classe média abastada ou da alta classe média, algumas normas de superfície são retomadas e conduzem a distribuições que não se justificam senão dificilmente. Os dormitórios minúsculos impuseram-se em todos os tipos de moradia e em grande parte das classes sociais, não obstante as reações negativas de numerosos habitantes. Novamente encontramos os 9 m2 mínimos do início do século, obrigatórios para os quartos das moradias destinadas às classes populares. Respondendo a múltiplas funções, elas são atualmente concebidas e organizadas, tanto para adultos quanto para as crianças, como um lugar de lazer, de repouso, de trabalho, de recepção dos amigos, sendo portanto e simultaneamente públicas e privadas, o que exigiria dimensões generosas tendo em vista que muito amiúde se tornaram um ambiente de convívio (NEITZERT, 1990). A regulamentação concernente às pessoas com mobilidade reduzida permite atualmente aumentar o tamanho dos quartos, pois a cadeira de rodas deve neles poder girar. Todavia, se os corredores igualmente aumentaram em suas proporções, os ambientes de convívio, por sua vez, foram reduzidos.

Além da questão do tipo e do programa que qualificam a moradia, a questão da sua área média é atualmente crucial, pois no tocante ao imóvel coletivo, ela está estagnada há 25 anos na França, estando hoje entre as mais reduzidas da Europa (65 a 66 m2 em média)

Segundo Jean Nouvel “Uma bela moradia é uma grande moradia”, isso evidentemente não basta e o papel dos arquitetos consiste em propor distribuições que correspondam aos estilos de vida do momento. Atualmente, estes últimos são tão penalizados quanto os moradores e se ligam aos prolongamentos da moradia, os quais igualmente não dispõem senão dos metros quadrados habitáveis. Portanto, observa-se a multiplicação dos terraços, galerias ou pórticos, sacadas largas, todos ligados à sala de estar e à cozinha, dispositivo que permite numerosas utilizações, diferentes no verão e no inverno. Os tetos-terraços ou as paredes revestidas com plantas são, desde então concebidos pelos arquitetos para aumentar o conforto térmico. O pátio e o jardim privativo são, muito amiúde, facultativos. Trata-se frequentemente hoje da única inovação nos imóveis coletivos.

O enorme esforço de construção levado a cabo após a guerra renovou em mais de 50% o parque habitacional na França. O conforto, em sua dimensão objetiva, quantificada e normatizada, melhorou portanto consideravelmente após esta data12. Mas simultaneamente, as exigências dos franceses em matéria de conforto, igual e sensivelmente, evoluíram e os habitantes das grandes cidades nos conjuntos habitacionais novos reclamam sempre, como vimos, da área dos cômodos, da questão mal resolvida da roupa suja, dos problemas de manutenção no collectif aidé [coletivo ajudado], assim como da falta de inserção urbana (relação com o centro da cidade, qualidade da paisagem urbana). Sobretudo, deve-se pagar pelo acesso ao conforto para todos e por algumas ideias abstratas especialmente ligadas ao desenvolvimento sustentável, na perspectiva de uma moradia sempre mais normatizada e com uma organização cada vez mais estereotipada e cada vez mais distante das utilizações reais dos seus habitantes. Por exemplo, a necessidade de aeração muito compartilhada condena as soluções que proíbem a abertura das janelas e reduzem o seu tamanho. Pesquisas de opinião mostram que um dos primeiros critérios dos habitantes para a escolha de uma moradia é, além da sua localização, a sua claridade ou a sua luminosidade. Superestimar uma variável conduz a escolhas discutíveis. Inclusive, certos arquitetos resistem a este ditame, ao reintroduzirem grandes janelas e até mesmo batentes bem altos que são tratados para efeito de isolamento térmico e acústico13. Estas janelas tornam-se então verdadeiros dispositivos protetores, frequentemente muito bem resolvidos do ponto de vista estético, conferindo maior qualidade aos cômodos: bela madeira, aparadores e jogo de luz. Trata-se de uma escolha na delicada negociação que eles operam no sentido de oferecer um prazer do espaço aos habitantes, considerando limites de custo muito apertados.

As preocupações ecológicas deste início de século XXI têm aumentado a atenção dedicada à influência exercida pelo ambiente construído na saúde dos habitantes. Desde o início do século a relação com o ar mudou consideravelmente. O volume de metros cúbicos de ar por cômodo habitado era medido e a aeração das moradias é uma garantia de salubridade. Atualmente tenta-se assegurar que o ar seja limpo, tanto interna quanto externamente às moradias. A confiabilidade ecológica dos materiais utilizados, a condensação e a umidade que provocam alergias, assim como o isolamento acústico, tornaram-se questões a serem controladas. O expert em questões térmicas tornou-se especialista da habitação após as crises petrolíferas de no âmbito das campanhas nacionais em favor da economia de energia.

O gosto pelo loft, difundido pelas revistas de decoração e nas emissões televisivas, não diz respeito ainda senão a uma pequena parcela da população e, atualmente, denomina-se loft toda grande área com duplo pé-direito, ao passo que originalmente o termo designava uma construção industrial ou comercial transformado em moradia. O grande cômodo multifuncional, a sala onde todo mundo vivia sob o olhar de todos, caracterizou o habitat da Idade-Média, até o final do século XVI. A divisão em cômodos especializados surgiu com crescimento do individualismo. Como então compreender este retorno nos dias de hoje, este gosto de certos habitantes, alheios ao mundo dos arquitetos que, eles, sempre associaram a beleza aos grandes volumes? Este desejo pelo loft, nos indicaria ele um retorno dos valores familiais? Estes valores estavam evidenciados em algumas moradias concebidas nos anos 1970, por exemplo, com os ambientes de convívio distributivos, os quais deviam ser atravessados para se alcançar cada cômodo, aos quais se retorna atualmente por razões de economia, devido à supressão da área do corredor… As pesquisas de opinião mostram, entretanto, a persistência da necessidade de intimidade junto àqueles habitantes que instalam um pequeno hall de entrada quando o quando o arquiteto havia previsto uma entrada pela sala de estar ou junto àqueles que fecham os espaços abertos propostos (quarto ou cozinha com abertura para a sala de estar).

Os paradoxos do conforto

Embora as mentalidades tenham evoluído junto aos produtores de moradia, numerosas variáveis poderiam ser analisadas para se mostrar certa incoerência entre as escolhas de organização da moradia, certas normas e a concepção de conforto junto aos franceses (ELEB; CHÂTELET, 1997).

Ainda atualmente somente alguns projetos experimentais chegam a integrar as modificações da sociedade, tais como a coabitação, a assincronia das atividades do grupe doméstico ou o trabalho a domicílio, por exemplo. A produção habitual não leva senão raramente em conta observações sobre os estilos de vida. E, em face de uma escassez de moradias, a qualidade da oferta e a real satisfação dos moradores não pode mais ser avaliada.

Naquelas famílias em que, atualmente, o encontro ao redor da mesa ou na sala de estar é valorizado muito embora cada um igualmente viva em seu ritmo, um quarto pessoal que permita numerosas atividades, inclusive ruidosas, é uma aspiração. Não poderia ele igualmente ser considerado como um local de recepção íntima? Para responder à necessidade de se estar só ou de se dedicar a atividades ruidosas sem incomodar o restante do grupo doméstico, foram propostos cômodos de recolhimento, de retirada, à imagem desta “insula”, espécie de alcova que permite o isolamento, em contraste com o restante do apartamento que é muito aberto, ou como estes quartos individuais isolados acusticamente e associados a um grande espaço comunitário.

8 Modelo mais reproduzido de moradia bem modesta com sala comum distributiva, oriundo do 1o concurso para a construção de Habitações baratas da cidade de Paris, Rua Henri Becque, ganho por Albencque e Gonnot (1913).

9 Como o demonstram os Cahiers du Centre Scientifique et Technique du Bâtiment da época.

10 N.T. Instituto Nacional de Estatística e de Estudos Econômicos. Em francês: Institut National de la Statistique et des Etudes Economiques.

11 Cf. Henri Lefebvre, Critique de la vie quotidienne, vol. I et II, ed. de L’arche, de 1958 e 1961 e o seu prefácio ao livro de H. Raymond e M-G. Raymond, A. e N. Haumont, L’habitat pavillonnaire, ISU, CRU, 1966. Mauss propõe encarar os modos de fazer, os gestos da vida cotidiana, como uma interiorização dos valores e da ética de uma sociedade. Cf. Sociologie et Anthropologie, cf. em particular "Les techniques du corps", Paris, P.U.F.,1966.

12 O tamanho médio das moradias passou de 2,7 cômodos em 1946 para 3 cômodos em 1962 e para 4 cômodos em 1992, permanecendo neste nível desde então. Cf. François Clanché, Anne-Marie Fribourg "Grandes évolutions du parc et des ménages depuis 1950" in Logement et habitat, l'état des savoirs (coll.), Ed. La Découverte, 1998 e INSEE première, 2006.

13 Os dispositivos de Jean Dubuisson, especialmente em suas obras de Montparnasse, haviam indicado a via dos anos 1960-1970.

Interrogar-se acerca das relações entre os pais e filhos, equivale igualmente a repensar a questão da autonomia e da dependência na moradia, a questão do lugar e do tamanho dos cômodos da vida em comum e dos territórios privativos, respectivamente. A ideia segundo a qual os diferentes habitantes que dividem um mesmo apartamento seriam indivíduos coabitantes, e não uma família com objetivos unificados e desejos da mesma ordem, é uma das tendências que se propaga na sociedade francesa14. Caso seja organizado o espaço de modo a propor uma autonomia possível a cada um, estar-se-á permitindo uma resposta a estas questões.

Aumentar a cozinha ou multiplicar as áreas dos sanitários, iluminá-los ou abri-los para sacadas ou loggias, equivale a fazê-los passar do papel habitual referente a uma área de serviço àquele de espaço habitável, quiçá local de prazer. Numerosas atividades externas encontram-se atualmente privatizadas, internalizadas na habitação. Encontrar um lugar para os objetos do conforto ainda permanece uma questão atual, enquanto multiplicam-se na casa os equipamentos ligados ao lazer ou ao trabalho: computadores de toda espécie, televisores, de tela plana ou não, posicionados na sala de estar ou no quarto da criança, bicicletas ergométricas, etc. Estes novos estilos de vida exigem mais espaços qualificados, levando melhor em conta práticas, novos rituais e requerendo um melhor isolamento acústico no interior da moradia.

O aspecto social do desenvolvimento sustentável aparenta-me ligado ao ato de levar em conta as fases da vida: evolução das representações e das novas condições das diferentes faixas etárias (individualmente ou em casal, com ou sem filhos, idoso ou muito idoso…) e, por conseguinte, sucessão de passagens da vida. Estas situações têm, há muito tempo, levado a sonhar que o habitat evolua e se adapte, que a sua área aumente ou seja reduzida em função dos momentos, sem que se deva abandonar o seu espaço familiar, o seu bairro, a escola das crianças, os seus vizinhos-amigos, os seus comerciantes. Um espaço flexível, até mesmo modular e, portanto, reversível, permitindo evitar o deslocamento/mudança caso se esteja ligado ao seu bairro, à sua vizinhança. Trata-se de um ponto de vista oposto à ideia de mobilidade externa e que valoriza uma espécie de mobilidade em sua própria morada, tanto mais quanto é atualmente reduzida a atual oferta de imóveis. Em 2005, o número médio de pessoas por moradia equivale a 2,31, ele estará (talvez) compreendido entre 2,04 e 2,08 em 2030 segundo o INSEE, pois os comportamentos de coabitação mudaram: cada vez mais pessoas vivem sozinhas e a vida em casal aparenta estar sendo menos desejada15.

Quais estilos de vida nos indicam estas reflexões? Podemos arriscar dizer que exista uma tendência a sempre mais se valorizar a sociabilidade entre pares, comparativamente ao casal. A se valorizar os coabitantes, uma vida comum onde os espaços compartilhados não signifiquem uma partilha própria à vida em casal. A tendência aparenta ser de familiarizar as relações de amizade em espaços que o permitam, com ambientes em comum, partilhados mas com intimidade protegida. Por outra parte, a presença cada vez mais habitual de filhos adultos em casa, impõe como nunca a questão da coabitação intergerações, em razão da crise econômica, mas igualmente em função da maior tolerância atual dos pais vis-à-vis da vida sexual dos seus filhos. E isso requer soluções espaciais. Com efeito, atualmente muitos filhos adultos ainda vivem com os seus pais e, por vezes, com o seu par conjugal16. Como organizá-las, como evitar os atritos quando tantas atividades se encontram? A demanda por moradia acompanha estes novos estilos de vida. Embora seja possível observar em alguns projetos uma adaptação a esta situação, como por exemplo a coabitação entre pais e filhos adultos facilitada pela anexação de um studio ao apartamento principal17, por via de regra, as evoluções das estruturas do grupo doméstico ainda não são senão muito raramente levadas em conta. Esta coabitação pode igualmente concernir um adolescente em transição, um jovem adulto, um jovem casal ou uma avó. Estes são, após os exemplos no habitat social, os promotores privados que investem neste dispositivo há alguns anos. Alguns projetos HLM18, ainda muito pouco números, tentam adotar a reversibilidade: eles propõem moradias “banalizadas”, por exemplo, com 3 cômodos, as quais poderiam posteriormente ser alugadas a famílias.

Trabalhando em um sítio, analisando o contexto histórico e geográfico, sonhando e projetando uma construção, os arquitetos permitem aos habitantes inserirem a sua própria história, construindo esta história atribuindo-lhe um substrato material do qual eles vão se amparar. O habitat não é um produto, ele deve nos oferecer um prazer cotidiano, estimular os sentidos e ajudar-nos a nos encontrarmos, permitindo a nossa transformação e evolução. Falar do futuro do habitat equivale, igual e eventualmente, a compreender as razões que levaram, no passado, ao advento de mutações, além de corresponder a aprender a reconhecer as soluções às vezes experimentadas demasiado precocemente, pois não estavam sintonizadas aos estilos de vida e aos valores, mas que permaneceram pertinentes para o futuro.

Os efeitos de todas estas ideias sobre o espaço da moradia ainda são pouco visíveis, embora elas constituam as demandas dos moradores. Quando estes últimos reivindicam o ato de levar em consideração o seu estilo de vida, eles obtêm como resposta duplo fluxo, isolamento, painéis solares, etc. Estas técnicas podem ou devem ser utilizadas, mas elas não podem se sobrepor ao respeito pelos rituais e pela cultura habitacional de uma sociedade e, portanto, pelo trabalho referente à distribuição da moradia em sintonia com a evolução das mentalidades, dos desejos, dos prazeres, tal como eles são expressos aqui e agora.

Referências

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ELEB, M. L’apprentissage du chez-soi. Le Groupe des Maisons Ouvrières, Paris, Avenue Daumesnil, 1908. Marseille: Éditions Parenthèses, 1994, 122 p.

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MOLEY, C. La genèse du jour/nuit: scission de l’espace du logement en deux parties. In: ELEB, M. (ed.). La maison, espaces et intimités. Extenso, n°9, École d’architecture de Paris-Villemin, 1985, p.259-281.

NEITZERT, F. La chambre d'enfant. Représentations et pratiques. Plan Construction et Architecture, 1990.

SIMON, P.; LECLERCQ, F. (ed.). Sous les toits de Paris. Catalogue d’Exposition, Pavillon de l'Arsenal, setembro de 1994.

SONREL, P. Les fonctions de l’habitation. Techniques et Architecture, vol. VII, n.5-6, 1947, p.242-243.

14 Cf. os trabalhos de François de Singly e, especialmente, Libres ensemble. L’individualisme dans la vie commune, Paris, Nathan, 2000.

15 “Há 20 anos o casal perde espaço” escreve Alain Jacquot (membro da divisão da moradia do INSEE) . E ele continua “em 1982, 83% dos homens de 35 anos viviam em casal, em 2005, 71% assim estavam (junto às mulheres: 85% e 74%). A 35 anos, em 2005, 11,3% das mulheres são chefes de uma família mono-parental e 8,7% viviam sozinhas (em 1982, 6,7% e 4,5%)”.

16 E quando eles o deixam, é com maior frequência para viverem sozinhos, ainda que seja provisoriamente (INSEE, 2009)

17 Ele pode estar situado ao lado, acima ou abaixo e a solução mais fácil reside em dispor de um cômodo equipado perto da entrada da moradia.

18 N.T.: Habitação de Aluguel Moderado. Em francês, Habitations à Loyer Modéré.

Places, gestures and words of comfort at home

Monique Eleb

Monique Eleb is a Psychologist and Doctor in Sociology, Professor at the École d'architecture Paris-Malaquais, France, director of the Architecture, Culture, Society ACS research center, she studies the development of housing design related to lifestyles in France.

How to quote this text: Eleb, M., 2011. Places, gestures and words of comfort at home. Translated from French by Marcelo Tramontano. V!RUS, [online] June, 5. [online] Available at: <http://www.nomads.usp.br/virus/virus05/?sec=3&item=1&lang=en>. [Accessed: 12 August 2020].

This article is an excerpt from a chapter of our book "Vu de l'intérieur: Habiter un immeuble en Ile de France (1945-2010)" [Seen from inside: Living in a building at Ile de France (1945-2010)] (with Sabri Bendimerad, Archibooks/Order of Architects of Ile de France, 2011.

Comfort is a built notion as well as a conquest. During the twentieth century, the notion of comfort has increased from the expression of a qualitative, subjective feeling to a measurable, objective notion, linked to the idea of habitation equipment and of progress. It is thus questioning the relationship between society and the body, and the changeable concept of well-being. The idea of providing everyone a minimum of this well-being, evaluated by technicians or even technocrats, will guide many choices. Comfort also refers to the ideals of a society. Thus the conception of happiness promoted in the fifties, after the times of deprivation, was it related to the possession of goods and equipment seen as easing the housework and "liberating women", mistresses of their hygienic house and, more importantly, supporting the man status. Who today would dare to sustain this speech?

Comfort, between positive value and way of living

At the turn of the nineteenth century, the term comfort, borrowed from the English, become confort [comfort], is understood as a daily pleasure or a necessity, turned into a need: to take care of one's body, to learn how to relax and slowly to get used to wash oneself every day, it changes the habitation. From the perspective of the rich, comfort is a lifestyle choice which now incorporates requirements. The hygienists positions have been internalized and, now that we know the importance of ventilation and sun, it is about living in houses with large windows well oriented. The arrival of the technical networks already from the late nineteenth century (water, gas, electricity, telephone) will continue to improve daily life, yet reproducing social inequality: some of this equipment arrive very late in disadvantaged areas and running water is not installed everywhere in the Paris area, still in the early 1950s.

The International Congresses of Modern Architecture (CIAM) will continue the hygienic tradition between 1928 and 1959, promoting both aeration and functionality, sometimes to the detriment of the symbolic complexity of housing and its environment. The healthy body is central in their thinking, but it is a sportive body, very little sensual, especially when it comes to house the working class in the minimum habitat. At the same time, less radical architects will build courtyard buildings, airy, no lesshealthy, often more urban, such as those of the red bricks belt in Paris. The working class arriving in the Parisian region from the rural world discovers comfort and convenience in some well-designed dwellings, learns to love the "home", to enjoy the charm of an interior clean, tidy, charming, ​​bourgeois values until then (Eleb, 1994; Knibichler, 1991, 1987).

Planted terraces, the houses on the roof characterized Parisian luxury habitat in the 30'sand will reappear, when the client is open to social demand, at different times in the second half of the twentieth century (Simon and Leclercq, 1994), especially in the social housing. Henri Sauvage's stepped buildings, the "step-back gardens", the pyramids buildings of the seventies, especially Andrault and Parat's in Evry, marked the spirits. This desire of reminding nature at home, of an externalized interior or vice versa, has led many architects to revisit these devices. And from the 80's, some buildings roofs, including those by Edith Girard, are surmounted by houses.

The conquest of hygiene and comfort for all

But the sanitation for all, scheduled before the war of 1914, will encounter the catastrophic dwelling situation after destructions as well as a declining supply. The moratorium on rents, very low until 1940, does not allow owners to maintain their deteriorating buildings. This housing situation and the large number of "poorly housed" people will be moreover denounced by the Abbé Pierre, in 1954. The period of Reconstruction was marked by an involvement of the State both in funding and setting up programs or in aidding industrialization, intended to accelerate the pace of construction. While it is known that the French prefer the detached house, the State chooses to build collective dwellings in "large housing complexes" [N. T.: grands ensembles, in French]1, which, initially, will be very welcome. The starts of these operations, usually located on the outskirts of cities, accelerate. The unified image that characterize them today - they would all be poorly constructed, reserved for working classes, and landlocked - is not due to field observation. And some of them, difficult to live in concerning their connections to their reference town, also possess high quality dwellings, which have been the object of a thousand thoughts to reflect lifestyles, and which people sometimes transmit from generation to generation. But others are mistaken because of an outdated conception of comfort, following a rush on the construction site or the drastic reduction of costs that does not achieve an acceptable quality. By the end of the Reconstruction period, they will be severely criticized. For their part, luxury buildings experiment devices both functional and adapted to the ways of living observed by the architects.

The comfort offered in magazines or exhibitions in the 50's seems to most of the French out of reach. Yet at the same time, devices that are still considered modern are experienced in social housing units such as open kitchens (although they are struggling to gain acceptance), sliding partitions and housing adapted to daylight timetable or the family's evolution. France engages entirely in the acquisition of "home appliances" that becomes a real "object of desire" (Forty, 1992), and decorators and architects try to spread in all social classes light, clean furniture, rid of the "rustic" and the "padded", with a great success. Two pieces are central to the rise of comfort: the kitchen and the bathroom. The first one changes and moves through the dwelling throughout the twentieth century; the second is to be created and will quickly replace the nineteenth century luxurious bathroom, furnished and decorated.

Comfort for all but normalized

After the war, the general population census of 1946, which includes for the first time questions about "the elements of comfort: water, gas, electricity, sanitation facilities", shows that one household out of three lives in a situation of overcrowding (2 people per room), but also that only 6% of primary residences have a shower or bath, a home in five has aprivate toilet and only 37% have running water! But in 1951, a survey by the INED2 shows that 32% of respondents "find normal to wash oneself in the kitchen"3. The Salon des Arts Ménagers [Home Exhibition]4 are also supposed to bring the French into the era of modernity through the possession of objects, furniture and equipment designed to increase comfort. In spite of intensive standardization and prefabrication, the ideal of comfort remains in the range of aspiration. And heating being scarce "many families of modest means are forced to live in the cold season, ie for eight months, in the kitchen [...] central heating remains the dream of all. No housekeeper would admit to have two fires at once, one in the alcove kitchen, and one in the great common room" (Laprade, 1950, p.6). A concern which will soon become obsolete.

Other habit(s), other techniques, other lexical

Post-war spaces, photographed or drawn, these objects, these texts, show the evolution of ways of doing and saying, of gestures and vocabulary. They actually show the slow acquisition of the daily need to wash, to take advantage of "progress", but with different rates according to social class. The representation of comfort changes along with the feeling these new items of comfort allow to discover. While we are only 60 years later, a whole new world appears, in homes where one has cold too often, where women boil the clothes with hazardous products spoiling their hands and where they carry basins of boiling water from the kitchen to the bathroom when they have one. Forgotten gestures and risks, such as climbing the "shower tray-washing" (until what age are we able then?), Where the laundry was sometimes soaked in a toxic product... And where one perceives as natural, given the long and tedious laundry cycle, to havean open laundry room, which serves to remove vapors and to dry, and sometimes to have a laundry chest on his balcony.

Laprade besides shows how commonplace it is: "the bathroom to boil and wash the laundry and a dryer either in an attic or outside and made ​​invisible by a concrete grating [a concrete claustra?] are essential" (Laprade, 1950, p.6, author's emphasis). An evidence, all the "natural" of a period!

The name of the refrigerator is still known only by the "happy few" and the airy cupboard under the kitchen window is still the rule. We can not imagine then the small "Machinist revolution" that will follow, because obviously the dissemination of the washing machine and the fridge will make obsolete all those objects and organizations of daily life related to them.

The rationalization of housework in the continuity of reflections on domestic Taylorism, engaged in the twenties, is still very present in the post-war journals, magazines and exhibitions of the house. It legitimizes women's work in the home and encourages recognizing it as such. And "modern" equipment which "facilitates" it is then presented as a necessity. The specialized press devotes special issues to "the equipment of the home" and participates of this enthusiasm for the democratization of welfare.5 Pierre Sonrel, architect and journalist, in a 1947 article on "The functions of the home" (Sonrel, 1947, p.242-243), analyzes the "basic needs" to be met by contemporary dwellings: food, entertainment-conversation, sleep, childcare, storage-annexes, sanitation, circulation. In passing, he gives a definition of comfort which would be: "The set of rules to follow, on the one hand to preserve the individual from the rigors of the natural environment without depriving him of its invigorating influences and, on the other, to increase the possibilities of physical and moral development by freeing him of tedious tasks." In popular magazines, the focus is instead on the practical aspect of equipment, facilities and DIY while specialized magazines have a scholarly approach of functionalism that is close to reflections on the minimum habitat and reinforces the image of a regulated, standardized, not very flexible dwelling.

But some architects resist and the still dominant functionalist position will be however questioned, as shown by the approach of Roland Bechman when he does, in 1948, a plea for flexibility (Bechman, 1948). He proposes the new concept of the "house-envelope" within which a greater freedom is given to distributions, "as independent as possible of the construction" to take into account changes in the family. It is in a way a free plan but whose partitions are prefabricated. He also refers to "movable partitions (sliding, swing, eclipsable)", referring to the culture of the Japanese house and to the "editable partitions (dismountable, removable)." However, he raises the question of sound insulation to improve for these solutions to be admissible. Poorly resolved issue until today.

This position, which seems so contemporary, will be applied by a few but will be swept away by the needs of reconstruction and industrialization of the building, as construction methods which are becoming commonplace leave little room for distributive diversity and to reflection on the interior spatial organization. The dwellings' plans are marked by the redistribution of responsibilities between engineers, architects and enterprises. And we can make an observation: since the Second World War and the Reconstruction, cultural variables, the rituals associated with the different social groups are reduced. Relations male / female and parents / children in the home, are less and less the basis for reflection on the organization. Construction methods, the search for cost reduction and technical standards largely explain it.

But if the "container", the envelope, freezes in types such as bars and towers, the development of contents, of equipment, is the object of much attention: the French then develops a great appetite for objects of modernity. And of course, we turn to the "America" ​​and its conception of comfort. Thus the "common room" of popular housing, mixing kitchen and dining, will be renamed by developers "American kitchen", a term which is intended to present it as at the forefront of modernity, to better acceptance of its very small surface. In addition, the manufacturer saves a partition and / or a door. We know the future of this perceptive illusion.

From the 50's and during the next three decades, the furniture tends to decrease, padded furniture still hold the upper hand in some social groups, but are joined, for those which are cutting-edge and have the will to live at ground level, by lighter furniture, sofas, ottomans, inflatable seats, cubes of foam brightly colored, often orange in the 70s, as some lamps6.

The dwelling organization or how did we get here?

Standards, codes, know-how of the entire chain of housing production eventually produced a type of characteristic French dwelling. A definition of nowadays "classic" dwelling is given by a site of the Ministry of Housing, with a hint of criticism behind. The habitation of our time would be "a home for a family with child(ren) when young (which is expressed by the size of rooms and their low level of autonomy one with respect to others), where the public portion (kitchen-diner) and the private area (bedroom-bathroom) are separated. This model, which has multiple doors and an enclosed entrance hall, usually blind, describes the apartment known as "classic" which is opposed to any other type, then called 'atypical'."

Such normalization of devices and surfaces is set up in the fifties with the buildings industrialization and continues to this day with slight adjustments, sometimes reversible, due to concerns that have followed such, for example, as not to waste energy sources (oil crisis) or adapting the dwelling to persons with disabilities. The family itself is standardized because the most common target of manufacturers is the nuclear family with its two children. While in the bourgeois habitat the internal tripartition, which is the dissociation between the public, private and service areas, adjusting for several centuries the interior home organization, is still present, it is the bi-partition that dominates the rest of the production with the "find" in the early 50s of the division into two zones day/night (Moley, 1985). This French exception was created by technicians eager to group the fluids who will present it as a result of the uses while it mainly helps to reduce costs.

1 Cf. Maurice Rotival proposing this term ["grands ensembles"] as early as 1935 in L'Architecture d'aujourd'hui(June 1935).

2 N.T. National Institute of Demographic Studies. In French, Institut national d'études démographiques.

3 "Comment le Français veut-il être logé" Sciences et vie, n° hors série, L'habitation, mars 1951, p. 27.

4 Cf. at Vu de l’intérieur, the article by Lionel Engrand on the Arts Ménagers.

5 As L’Architecture d’Aujourd’hui, Techniques et Architecture or l’Architecture Française.

6 Cf. the joyful exhibition just ended at the Museum of Decorative Arts, in Paris, Mobiboom. L’explosion du design en France, 1945-1975.

Two types of plans become commonplace. Accommodations with double orientation have a kitchen in front of the "living room" and wet rooms are grouped together, while in terms of popular housing it continues to be structured around the common room, distribution center that must be crossed to reach other rooms7.

The interior of collective dwellings changes also in terms of decor. The enthusiasm for easy maintenance coatings, such as Formica, show a final burst of the wave officer of health of the late nineteenth century, incorporated by all social classes. The salon, called before the war "living room" (in English) or "studio" for the upper and middle classes, and "common room" for the working classes, becomes "salle de séjour" (living room) for all, with "furniture element" then spread, and with dining area, signing thus the disappearance of the dining room.

Throughout the period of construction of large housing estates (from about 1950 to 1974), industrialization and prefabrication of identical and repeated modules, less expensive than current materials, marginalize the issue of internal organization and leads, in most social housing operations, to repetitive plans submitted to the construction systems employed, without further reflection on the uses8. Private development will follow this direction by taking, for a long time without further reflection, the devices developed for social housing.

Still very good architects still innovate and think about ways to make comfortable the habitat minimum, and to open it, even in the case of a large ensemble, on a nice outdoor space, garden, terraces overlooking a wooded landscape. Observed everyday use are then the basis of design.

Since 1962, the state of the housing is considered by the INSEE9, "which combines the features of structural work and elements of interior comfort of dwellings". The quality of new homes has improved in the decade 60-70, according to certain criteria because they are larger than in the old park (3.5 rooms instead of three) and eight times out of ten health facilities begin to resemble those we have today. At the same time, housing built before the war, which had only rarely toilets were rehabilitated and we pass from 13% serviced accommodation (so "comfortable" according to the INSEE) before 1945 to 90% in 1996 and to 99% today. In addition, the decline in household size is important and a dwelling hosts an average of 2.6 people today against 4 in the early twentieth century, which should increase the feeling of comfort. The general improvement in living standards in the postwar period is also reflected in the habitat that is for a long time the first item in consumption expenditures of households.

Back to urbanity?

Utopian proposals of the 70s are intended to face the mediocrity of the 'industrial housing': specially designed dwellings for specific groups, adaptable units with movable partitions following the changes of the family, and so on. Subjects perceived as utopian in the fifties are updated. These organizations are supposed to promote the dwellings appropriation. Respect for the users and their ways of living, the discovery by the architectural milieu of the idea of cultural model, a term adapted by Henri Lefebvre and Henry Raymond, based on the concept of habitus10 from Marcel Mauss, reminded the architects that the habitat is a fact of culture. The type that has persisted in relation to this abundance of proposals and experiments is the intermediate home, between individual and collective, enjoying of a separate entrance and external extensions currently undertaken by architects eager to "give collective housing the qualities of the detached house."

The intermediate habitat allows to penetrate directly at home, to have a terrace as well as close neighbors, to live in a single dwelling together but still in a complex. The most notable of these experiments is that of Jacques Bardet in Val d'Hyères (1967-1969), but many operations of pyramidal buildings will have the same purpose. This is of course a variation on the stepped building, inaugurated by Henri Sauvage and Charles Sarazin in Paris in 1913, at rue Vavin, and proposing an art of living in town enabling a relationship with nature, to observe the seasons, to get some fresh air and to bask in.

It points out already the return to urbanity in all senses of the term: a city that would restore the desire to live together, with places to meet and which would reintroduce a diversity of architectural types in order to recreate a social mix, such is the credo of this period. All subjects that can be found today. Planted courtyards have been back. They are deemed to facilitate neighborhood sociability as much as helping ventilation.

Regarding furniture, the taste to lie on mattresses to receive or watch TV that characterized some avant-garde in the years from 1965 to 1975, gradually fades and furniture resumes its high seatings. Yet little by little, padded furniture, copies of the old, are replaced in most social groups by industrialized furniture, but designed by Swedish, English and sometimes French designers.

Through all those changes the stereotype of the couple with two children has nevertheless remained the basis of the habitat program. We are just beginning to consider the transformations of the domestic group structure (single parents, gathering of several generations in the same house, co-habitation...) as well as its rhythms of life. The specific habitat has emerged with particular attention to student accommodation and those for the elderly. Large reconstituted families and co-inhabitants are still considered only in the ideas competitions on the parallel evolution of housing and ways of living. Many thoughts, few realizations.

Surface, beauty, health

This century is that of the remarkable reversal of a trend that had persisted for centuries: luxury habitat suggested models that were reduced and transposed to create more modest housing. In the early twentieth century, the hygienic progress in social housing makes it a model at least in certain domains: the equipped kitchen, the calculated ventilation, the attention to children's rooms. But today, in the homes of the middle class, wealthy or more, some norms of surfaces are reviewed and lead to distributions that can only be justified with difficulty. Tiny bedrooms were imposed in all kinds of dwelling in most social classes, despite the negative reactions many residents. It contains the minimum of 9 m2 of the beginning of the century, required for bedrooms of the working classes housing. Responding to multiple functions, it is now seen and organized, for adults as for children, as a place to play, resting, work, receiving friends, so it is both private and public, and it should be wide as it has often become a living room (Neitzert, 1990). The norms on disabled people can now enlarge the rooms, for a wheelchair should be able to rotate. But if the corridors have also expanded, living rooms are reduced.

Beyond the question of the type and the program that qualifies the dwelling, the question of its average size is critical today because, in the apartment building, it has stagnated in France since 25 years and is now among the lowest in Europe (65 to 66 m2 on average).

According to Jean Nouvel, "A beautiful apartment is a large apartment". This is obviously not enough, and the role of architects is to propose distributions that correspond to the ways of living of the moment. Currently they are penalized as much as the residents, and propose dwelling extensions which are not calculated in the same way as living spaces area. We observe the proliferation of terraces, loggias, wide balconies connected with the living room and with the kitchen, a device that allows many uses, different in summer and winter. Flat terraced roofs or green walls are now conceived by architects to increase thermal comfort. The courtyard and even more the patio or private garden are acclaimed. And it is often the only innovation in apartment buildings.

The massive construction effort undertaken since the war renewed for more than half the housing stock in France. Comfort in its objective, quantifiable, standardized dimensions has therefore greatly improved since then.11 At the same time, the demands of the French in terms of comfort have also significantly changed and the inhabitants of new apartments buildings in major cities still complain, as we have seen, of the surface of rooms, the poor solutions for the laundry issue, the maintenance problems in the assisted community, and a lack of urban integration (relationship with central areas and quality of the urban landscape). Especially, should we pay for access to the comfort for all and some beautiful abstract ideas related in particular to sustainable development, with the perspective of a dwelling increasingly standardized, organized in a increasingly stereotyped way, less and less close to the actual uses of their inhabitants. For example the quite agreed need of ventilation condemns solutions that prohibits the opening of windows and reduce their size. Field surveys show that one of the first inhabitants criteria for choosing a home is, besides its location, its clarity, luminosity. Overestimate a variable leads to questionable choices. Indeed, architects are resisting this diktat by reintroducing large windows and even full-height bays that they double for insulation to cold and noise.12 These windows thus become genuine protective devices often aesthetically very successful providing quality to the rooms: beautiful wood, shelves and play of light. It is a choice in the delicate negotiations that they operate to give a pleasure of space to inhabitants under very tight limitations of cost.

Environmental concerns of this beginning of the XXIst century increased attention to the influence of the built environment on the health of inhabitants. Since the beginning of the century the relation with the air has changed considerably. Air space per room was measured and ventilation was a guarantee of sanitation. Today we try to ensure that the air is clean inside and outside homes. The ecological reliability of materials, condensation and humidity that cause allergies as well as sound insulation have become issues to manage. The heating engineer has emerged as a dwelling specialist after the oil crises and in the national campaigns for energy savings.

The taste for loft, released by the decoration magazines and television shows applies to only a small portion of the population and is now called loft any large area with double height, so that the original term a designated industrial and commercial buildings converted into dwellings. The large polyfunctional room, the one where everyone lived under the gaze of all characterized the habitat of the Middle Ages until the late sixteenth century. The division into specialized rooms appeared with the rise of individualism. How then understand this return today, the taste of some people outside the world of architects, who have always associated beauty with large volumes? Would this desire for loft indicate a return to family values? They were evident in some homes designed in the 70s, for example, with their distributive living rooms, that one had to cross to reach every room, and to which we return today for economic reasons, since the surface of the corridor has been removed... Our field surveys show, however, the continuing need for intimacy among residents who install an airlock when the architect has planned an entrance through the living room, or close priorly proposed open spaces (room or kitchen open to living room).

Paradoxes of comfort

If attitudes have changed among producers of housing, many variables could be analyzed to show some inconsistency between the choice of the dwelling organization, certain standards and the idea of ​​comfort among the French (Eleb; Châtelet, 1997).

Even today, only a few experimental operations are able to incorporate changes of the society such as cohabitation, desynchronism of the households activities or work at home, for example. Current production takes rarely into account the ways of living. And facing a shortage of homes, the quality of supply and the real satisfaction of residents can not be assessed.

In families where at present the meeting around the table or in the living room is valued, but where everyone, too, lives at their own pace, a private room that allows many activities, including noisy ones, is an aspiration. Can it also be seen as a place for intimate reception? To address the need to be alone or engaging in noisy activities without disturbing the rest of the domestic group, rooms of recess and retirement were proposed as the "insula", a sort of alcove making it possible to isolate oneself while the rest of the apartment is very open, or as the single rooms soundproofed associated with a large communitary space.

Questioning about the relationship parents/children is also to rethink the issue of autonomy and dependence in the dwelling, the question of the position and the respective size of the common rooms of life and private territories. The idea that different people who share the same apartment are individuals who live together and not a family with unified goals and desires of the same order, is a trend that is spreading in French society13. If we organize the space so as to provide a possible autonomy to everyone, we already provide an answer to these questions.

Enlarge the kitchen or multiplying sanitation surfaces, illuminating them or opening them onto balconies or loggias takes them from their usual role of service to that of space for living or even a place of pleasure. Many outdoor activities end up now privatized, internalized in the house. Finding a place from the comfort objects remains a topical issue as the devices associated with leisure or work in the home are increasing: computers of all kinds, flat-screen TVs or not in the living room and in the children room, exercise bikes etc.. These new lifestyles require more qualified areas, taking practices more into account; new rituals and requiring reduced noise inside the housing.

The social aspect of sustainable development seems bound to the taking into account of the phases of life: development of representations and new conditions of different ages (single or couples, with or without children, elderly or very aged...) and therefore succession of passages of life. These situations have since long driven at dreaming that the habitat follows, adapts, that its surface is reduced or increased depending on the time without having to leave one's area of familiarity, neighborhood, school children, one's neighbors, friends, shopkeepers. A flexible space or even modular, therefore reversible so that it would avoid moving if one is attached to one's district or neighborhood. This point of view opposes the idea of ​​external mobility and promotes a kind ​​mobility at home, especially since housing supply is reduced now. In 2005, the average number of persons per household was 2.31. It will be (perhaps) between 2.04 and 2.08 in 2030 according to INSEE because the behaviors of cohabitation have changed: more and more people live alone and life as a couple seems to disaffection.14

7 Model reproduced the most of the very modest dwelling with distributive common room from the 1st competition for the construction of low-cost housing for the City of Paris, rue Henri Becque, won by Albencque and Gonnot (1913).

8 As shown by the Cahiers du Centre Scientifique et Technique du Bâtiment of the time.

9 National Institute of Statistics and Economic Studies. In French, Institut National de la Statistique et des Etudes Economiques.

10 Cf. Henri Lefebvre, Critique de la vie quotidienne, vol. I and II, ed. de L'arche, 1958 and 1961, and his preface to H. Raymond and M-G. Raymond, A. and N. Haumont, L’habitat pavillonnaire, ISU, CRU, 1966. Mauss proposes seeing the ways to do, the gestures of everyday life as an internalization of values ​​and ethics of a society. Cf. Sociologie et Anthropologie, cf. especially "Les techniques du corps", Paris, PUF, 1966.

11 The average size of homes has increased from 2.7 rooms per unit in 1946 to 3 rooms in 1962 and 4 rooms in 1992, and remained at that figure since then. Cf. François Clanché, Anne-Marie Fribourg "Grandes évolutions du parc et des ménages depuis 1950" in Logement et habitat, l'état des savoirs (coll.), Ed. La Découverte, 1998 and INSEE première, 2006.

12 Jean Dubuisson devices, particularly in his buildings of Montparnasse, had led the way in the years 60s to 70s.

13 Cf. the work of François de Singly, and particularly Libres ensemble. L’individualisme dans la vie commune, Paris, Nathan, 2000.

14 "Since 20 years the couple is losing ground," writes Alain Jacquot from the INSEE Housing Division Housing . And he continues: "In 1982, 83% of men age 35 lived with a partner; in 2005, 71% (women: 85% and 74%). At the age of 35, in 2005, 11.3% of women are head of a single parent family and 8.7% lived alone (in 1982, 6.7% and 4.5%)."

Which ways of living show us these thoughts? One might venture to say that there is a tendency to valorize more sociability among peers compared to the couple. A tendency to valorize by co-inhabitants, a common life where shared spaces do not mean sharing a life together. The trend seems to be to "familialize" friendly relations in spaces that allow it, with shared common areas but intimacy protected. Moreover, the increasingly long presence of adult children at home poses as never before the issue of intergenerational cohabitation as a result of the economic crisis, but also of the greater tolerance of parents to the sexual life of their children. And it requires spatial solutions. Indeed, many adult children still live with their parents and sometimes in couple.15 How to organize it, how to avoid frictions when so many activities can be found? The demand for homes follows these new ways of living. If an adaptation to this situation can be seen in some operations, such as the cohabitation of parents and adult children helped by the annexation of a studio to the main apartment16, on the whole the evolution of the domestic group structures are still too rarely taken into account. This cohabitation can both relate to a teenager in transition, a young adult, young couple or a grandmother. From the examples in social housing, private developers are those who invested this feature in recent years. Some public housing agencies, still very few in number, are trying to play the reversibility: they offer "trivialized" dwellings ", such as a 3 rooms which can then be rented to families.

While working on a site, in analyzing the historical and geographical context, dreaming and projecting a building, the architects allow people to insert their own history, to build it giving it a material substratum they will seize. Habitat is not a product, it must provide us a daily pleasure, stimulate our senses and help us get to become, to evolve. Talk about the future of the habitat is also understanding why sometimes in the past changes have taken place. Means learning to recognize the solutions tested sometimes too early, because they were not in phase with the ways of life and values, and remain relevant for the future. The effects of all these ideas on the dwelling space are still barely visible even though they represent the inhabitants' request. When they call for a consideration of their way of life, they are answered double flow, insulation, solar panels, and so on. These techniques can or should be employed but they can not oust the observance of rituals and culture of living in a society, thus the work on the dwelling design in accordance with changing attitudes, desires, pleasures, as expressed here and now.

References

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15 And when they leave, it's more often to live alone, at least transitionally (INSEE, Household Survey Projection, Metropolitan France in 2030, 2009)

16 It can be next to, above or below and the easiest solution is to have an equipped room close to the dwelling entrance.