Habitar o desastre: projetos urgentes em situações emergentes

Lara Leite Barbosa

Arquiteta e Doutora em Arquitetura e Design, professora e pesquisadora do Departamento de Projeto da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP), Brasil, estuda o design de habitações para situações emergenciais.

Como citar esse texto: BARBOSA, L. L. Habitar o desastre: projetos urgentes em situações emergentes. V!RUS, São Carlos, n. 5, jun. 2011. Disponível em: <http://www.nomads.usp.br/virus/virus05/?sec=4&item=8&lang=pt>. Acesso em: 01 Out. 2014.

Resumo

Nos anos recentes, não somente a população brasileira, mas o mundo todo tem sido afetado por excessivas precipitações hídricas. Apesar de resultar de circunstâncias excepcionais, habitar o desastre é um tema fundamentalmente contemporâneo, problema que exige um estudo mais aprofundado sobre sua formação, construção, instalação, permanência, recorrência e acima de tudo, suas consequências. Este artigo introduz resultados iniciais da pesquisa “Design Emergencial: Projeto de Mobiliário e Equipamentos para Abrigos Temporários com Grupos Afetados por Desastres Relacionados às Chuvas”. A pesquisa visa compor um projeto piloto, tendo como estudo de caso a cidade de Eldorado, cuja proposta possa ser replicada em outras cidades do vale do Ribeira, constantemente afetadas pelas chuvas. Como resultado, são esperados estudos de possíveis implantações de abrigos temporários e outras instalações necessárias para o atendimento a desastres, com projeto de mobiliário e equipamentos elaborado a partir das aspirações de um grupo colaborativo com vivência na situação emergencial de enchente. O presente artigo reflete essencialmente sobre a espacialidade dos abrigos temporários. Apresenta a pesquisa e sua metodologia, aborda os resultados de uma experiência participativa, analisa soluções de equipamentos para a prática de reabilitação e sugere redefinições para uma arquitetura socialmente comprometida.

Palavras-chave: abrigos temporários, desastres relacionados às chuvas, design centrado no homem, mobiliário e equipamentos, projeto de produtos

Reflexões sobre os lugares. Temporários ou permanentes?

Um número de pessoas sem precedentes tem sido acomodado em abrigos temporários, em decorrência de desastres naturais. Quais as implicações deste fato?

O nível rudimentar das instalações, a inadequação dos espaços e as dificuldades enfrentadas para satisfazer as necessidades básicas ao longo do dia afetam parte importante da dignidade humana. A reconstrução do cotidiano privado em lugares coletivos traz à tona o confronto com situações constrangedoras num momento em que a pessoa está despreparada emocionalmente para enfrentá-las.

A espacialidade onde os acampamentos de desabrigados se instalam possui um caráter transitório, reiterado pela fé da reconstrução. Os arranjamentos espaciais são determinados pelas ocupações que podem transitar de experiências temporárias que se tornam permanentes e permanentes que se tornam temporárias.

Categorizar os abrigos como temporários ou permanentes gera uma imprecisão de termos, uma vez que os estados de ocupação se sobrepõem à medida que misturam noções de legalidade, resistência, liberdade e organização. Para Charlie Hailey (2009), em assentamentos informais o espaço desestruturado ressalta o valor para o encontro. O autor discorre que o território onde acampamentos se instalam pode ser entendido como espaço da mudança: adaptado a vários usos, em momentos transitórios, cria um ambiente de diálogo e invenção. Em situações de desastres, o deslocamento forçado de sua habitação antes tida como permanente para uma habitação temporária pode suscitar uma subversão às regras. O desastre desestabiliza a habitação permanente.

Contraditoriamente, o Dr. John Murlis (1977) recomenda que momentos como este não são adequados para mudanças nos padrões aos quais estão habituados. Sua opinião deve ser considerada, uma vez que esboçou princípios que apresentam uma certa universalidade quanto à possibilidade de aplicação em situações de desastres aos designers, baseado nas situações que possuíram maior frequência de sucesso. Acredita que o contexto humano determina que os aspectos familiares devem ser restaurados. É possível aderir a necessidades, como do culto a alguma religião, que recorrentemente exige uma improvisada igreja ou local para acomodar pessoas reunidas com a finalidade de aliviar suas angústias.

Por outro lado, o estado de emergência prolongado pelas reincidências dos desastres desestabiliza as acomodações provisórias, que podem se tornar fixas. Em ocasiões onde a reconstrução das habitações ultrapassa seis meses, a moradia no abrigo temporário se torna mais permanente do que provisória.

Em outros casos, como verificou a pesquisa de Gustavo Caminati Anders (2007) sobre abrigos emergenciais, nas situações de uso de construções transportáveis e pré-fabricadas fornecidas para situações temporárias que superam o padrão da vida anterior da população abrigada, há uma propensão a estas pessoas se fixarem no local de abrigo. Gera-se uma expectativa que conforma um novo assento permanente que vem a se transformar em favelas.

Apresentação da pesquisa e sua metodologia

Os abrigos temporários adotados como medida mitigadora tem se mostrado insuficientes e, às vezes, inadequados. A pesquisa na qual se baseia este artigo visa desenvolver estudos para se obter requisitos de projeto de produtos para a prática de reabilitação em abrigos temporários, minimizando as consequências negativas dos desastres. Os resultados deste projeto serão analisados segundo parâmetros relativos à sustentabilidade.

O desenvolvimento deste projeto interdisciplinar conta com a contribuição de dois grupos de trabalho: o SIG-RB - Sistema de Informações Geográficas do Ribeira de Iguape e Litoral Sul, mantido pelo Comitê da Bacia Hidrográfica do Ribeira de Iguape e Litoral Sul (UGRHI-11) do qual fazem parte o geólogo Prof. Dr. Arlei Benedito Macedo e o biólogo Ms. Fabrício Bau Dalmas e o NEPED - Núcleo de estudos e Pesquisas Sociais em Desastres -, coordenado pela Profa. Norma Felicidade Valencio do Departamento de Sociologia da UFSCar, quem contribuiu com a fase de constituição do conteúdo desta proposta ao Programa Jovens Pesquisadores1. A parceria da autora, que é a pesquisadora responsável, com os pesquisadores associados se estabeleceu a partir dos interesses comuns em estudos na cidade de Eldorado, especialmente pelo atual projeto “Levantamento e monitoramento de áreas de risco na UGRHI-11 e apoio à defesa civil”, financiado pelo Fundo Estadual de Recursos Hídricos. As alianças fortalecem a inserção dos pesquisadores na comunidade local e nos já estabelecidos contatos com a Prefeitura Municipal da Estância Turística de Eldorado, o CRAS- Centro de Referência de Assistência Social e o chefe da Defesa Civil, Edson Ney Barbosa.

A pesquisa percorrerá as seguintes etapas de trabalho: Estudo Preliminar; Projeto Conceitual; Projeto executivo; Projeto de produção; Acompanhamento da produção; Avaliação e Detalhamento do projeto (BAXTER, 1998). Para obtermos os requisitos de projeto faremos as etapas iniciais de levantamentos e tratamento de dados. Após esta verificação, dá-se início ao desenvolvimento do projeto, que buscará atender às necessidades percebidas com a participação colaborativa de um grupo de desabrigados em decorrência de enchente.

A metodologia para o desenvolvimento do projeto é baseada no método utilizado pelo IDEO, um dos principais centros de Design ao redor do mundo. Com o foco na inovação, o método sugere estratégias para a criação de produtos que se baseiam na compreensão das pessoas, suas experiências, comportamentos, necessidades e percepções. Subdividido em quatro categorias, que correspondem às maneiras de causar empatia nas pessoas, o método propõe: aprender, procurar, perguntar e testar. Objetivando um design centrado no homem, os estágios de criação são balizados pela identificação de informações as quais correspondam às verdadeiras aspirações que o homem pretende com aquele objeto.

As técnicas deste método serão adaptadas à investigação dos abrigados em contexto de desastre relacionado às chuvas. As dimensões psicossociais que afetam as pessoas envolvidas em desastres é parte das preocupações estudadas pelo grupo de pesquisa NEPED- Núcleo de estudos e Pesquisas Sociais em Desastres, e servirão de referência para o desenvolvimento da presente pesquisa.

O projeto contará com a colaboração dos pesquisadores associados do SIG-RB e Instituto de Geociências da USP para o trabalho de localização das possíveis implantações e instalações de abrigos temporários e outras instalações necessárias para o atendimento a desastres, considerando o território provavelmente afetado pelo desastre e poderão também auxiliar nas etapas de processamento de dados dos levantamentos e mapeamentos. O SIG-RB mantém um escritório na cidade de Registro, São Paulo, nas dependências do DAEE (Departamento de Águas e Energia Elétrica), fato que é bastante relevante para um suporte local nas proximidades da cidade escolhida para o estudo de campo da pesquisa.

Para a experimentação das alternativas construtivas está prevista a construção de modelos de estudos no campus da USP, em São Paulo, contando com a infraestrutura laboratorial do LAME - Seção Técnica de Modelos e Ensaios, coordenado pelo Prof. Paulo Eduardo Fonseca de Campos. O laboratório fornece máquinas adequadas para atividades como marcenaria, serralheria, cabine de pintura, trabalhos com resina e cerâmica e a assistência de técnicos habilitados no manejo dos mais diversos materiais, como madeira, gesso, cortiça, plásticos, fibra de vidro, argila, metais, etc. De acordo com a complexidade do modelo, é ainda possível recorrer ao apoio de eventuais empresas que se comprometam com o escopo da proposta e com as quais seja possível estabelecer parcerias ao longo do desenvolvimento do projeto, como por exemplo, fabricantes de componentes em aço inox para cozinhas industriais.

O caso da cidade de Eldorado, Estado de São Paulo, Brasil.

O tema das mudanças climáticas tem sido foco de preocupações e discussões mundiais. No Brasil, os desastres naturais mais prevalentes de acordo com as regiões são: incêndios florestais e inundações (Norte); secas e inundações (Nordeste); incêndios florestais (Centro-oeste); deslizamento e inundações (Sudeste); inundações, vendavais e granizo (Sul)2.

A Secretaria Nacional de Defesa Civil, que visa minimizar os danos humanos, materiais e ambientais quando ocorre um desastre, apresenta dados que confirmam a vulnerabilidade de certas cidades às enchentes, enxurradas e alagamentos no Brasil. Dentre os desastres notificados à SEDEC\MI nos anos de 2008 e 2010, destacamos a predominância dos desastres naturais relacionados com o incremento das precipitações hídricas e com as inundações em cidades de diferentes Estados do Brasil. Notamos ainda que ocorre uma crescente vulnerabilidade de pequenas cidades em lidar com as destruições das enchentes. Após análise das ocorrências atuais e alternativas de cidades no Brasil (preferencialmente no Estado de São Paulo) com disponibilidade de visitação para o levantamento, o Município de Eldorado, com aproximadamente 14.641 habitantes em 2010 (IBGE), foi escolhido como o local para o estudo de caso devido a uma série de fatores que propiciam o desenvolvimento da pesquisa, tais como:

- Recorrência de enchentes que frequentemente desalojam e desabrigam sua população. Foram registradas intensas chuvas que assolaram a região nos anos de 1954, 1965, 1973, 1983, 1987, 1990, 1995, 1997, 1998, 2010;

- Alto potencial à ocorrência de chuvas do tipo frontal, de grande intensidade e duração, que colocam a cidade em situação de enchente eminente;

- Necessidade de intervenções urgentes, porque as cheias do rio Ribeira anualmente geram prejuízos com a inundação de habitações e estabelecimentos comerciais, perda da produção agrícola e a interrupção do tráfego, assim como a perda de vidas humanas (DAEE apud CBH-RB, 1998);

- Bom relacionamento com a prefeitura e demais órgãos administrativos, os quais demonstraram estar receptivos e com abertura às propostas e visitas dos pesquisadores.

1 Projeto de Pesquisa “Design Emergencial: Projeto de Mobiliário e Equipamentos para Abrigos Temporários com Grupos Afetados por Desastres Relacionados às Chuvas”.

2 Disponível em: <http://www.defesacivil.gov.br/>. Acesso em 17 mai. 2009.

Em Eldorado


Em Registro


Mês/Ano

Vazão (m3/s)

Mês/Ano

Vazão (m3/s)

Jan/97

4.261

Jan/97

2.782

Jan/95

3.061

Jun/83

2.476

Mai/83

2.573

Jan/95

2.214

Mai/54

2.455

Fev/47

2.144

Fev-Mar/98

2.279

Fev-Mar/98

2.058

Jan/90

2.184

Fev/46

2.010

Quadro 1. Maiores cheias observadas na Bacia do Ribeira de Iguape. Fonte: CESP 1993 e DAEE CTH apud CBH-RB, 2007, p.387.

Figura 1. Foto aérea da cidade de Eldorado, às margens do Rio Ribeira de Iguape, localizado no sul do Estado de São Paulo e nordeste do estado do Paraná. Foto: Lara Leite Barbosa.

Espacialidade dos abrigos temporários: uma experiência participativa.

Segundo a Coordenadoria Municipal de Defesa Civil (COMDEC), na última enchente de 27 de janeiro de 2010, setenta e cinco pessoas desabrigadas foram removidas para o Centro Comunitário do Município de Eldorado, localizado na Avenida Caraíta – Centro, e dez pessoas desalojadas foram transferidas para a casa de parentes e amigos. A enchente de janeiro de 1997, a maior já registrada até hoje, deixou cerca de 15.400 desabrigados no Vale do Ribeira.

Considerando os dados, percebemos o grande contingente afetado pelos desastres. Os abrigos temporários existentes nem sempre possuem a capacidade para acolher tantas pessoas. Medidas de improviso complementam as instalações oferecidas pela Defesa Civil, por Órgãos Públicos, ONGs e entidades de caridade em geral.

Os equipamentos existentes e utilizados em decorrência de situações emergenciais possuem um alto custo de fabricação, difícil transporte, não atendimento às normas de segurança alimentar, necessidade de manutenção especializada, necessidade de sistemas não autônomos de energia, água e esgotamento sanitário, não adaptação às diferentes situações de implantação. É preocupante que nas ocasiões onde se abrigam temporariamente as vítimas de catástrofes ambientais ocorram óbitos decorrentes de toxinfecções alimentares, devido ao baixo controle sanitário (BRASIL, 2007). Norma Valencio (2009, 2010) relata ocorrências de violência que são percebidas nos diversos abrigos temporários de todo o Brasil. Com o cuidado de não reduzir as pessoas que vivenciam a situação do desastre em meras contagens de vítimas, busca-se uma aproximação que descubra como é a rotina das atividades cotidianas de quem se encontra provisoriamente desabrigado ou desalojado. A vivência coletiva neste contexto de incertezas requer uma adaptação às novas condições em um território que não o pertence. São ainda mais desconfortáveis as familiarizações de grupos como idosos com problemas de demência, portadores de deficiências ou pessoas com dificuldades de locomoção, mulheres gestantes, entre outros. Muitas vezes, a ausência de um policiamento ou supervisão de gestores, assim como a ausência de privacidade nos abrigos propiciam atos de violência como estupros, brigas, roubos e furtos, afetando ainda mais o já fragilizado desabrigado. Estas situações poderiam ser evitadas através do uso adequado do espaço e de equipamentos apropriados à situação.

Neste sentido, foi realizada em 18 de dezembro de 2010 na cidade de Eldorado pelo NEPED a oficina de capacitação “Metodologias Participativas com Enfoque em Desastres Relacionados à Água”. Conforme narração das assistentes sociais locais, Poliana e Ana, juntamente com a população que já ficou desabrigada e participou da atividade, foram discutidos os valores fundamentais para determinar onde alocar as pessoas de acordo com as necessidades específicas de cada um. Resgatando a memória do que ocorreu em 1997 e em outros anos, o grupo relembra de que maneira as famílias se agrupavam e como foi a organização do abrigo temporário no Centro Comunitário de Eldorado, montando a maquete interativa.

Nesta atividade, as assistentes sociais relataram problemas do edifício utilizado como abrigo: o galpão é mal ventilado e ocorre a entrada de água das chuvas. Ainda que a abertura das portas ocupe o espaço que poderia abrigar uma família, a primeira atitude foi manter as portas sempre abertas para aliviar um pouco o calor.

Com exceção do pior caso que ocorreu em 1997, quando até o prefeito e sua equipe, o chefe da defesa civil, a polícia militar, estavam desabrigados, em geral são de 8 a 9 famílias para serem acomodadas no abrigo temporário. À medida que aumenta o número de famílias a serem instaladas, são reorganizadas e renegociadas as condições de conforto que o abrigo pode oferecer. Por se tratar de uma cidade pequena, muitas pessoas são parentes ou possuem vínculos mais fortes, por isso são identificadas as relações entre elas para aproximar as famílias com afinidades dentro do abrigo.

As divisórias foram colocadas quando aumentou o número de desabrigados, em outros casos, os armários que as pessoas trouxeram serviram de repartições espaciais. As pessoas com dificuldade de locomoção como os idosos e gestantes (grupo que existe em grande número na cidade) foram distribuídas próximas à cozinha e ao banheiro; portadores de alguma doença infectocontagiosa devem ser isolados da cozinha; as crianças se agrupam junto à televisão e em espaços onde possam ficar brincando, etc.

Foi criada uma lavanderia coletiva na parte externa do edifício, mas para a atividade de cocção, por exemplo, nota-se que a mãe brasileira prefere manter o seu fogão individual e ser responsável pela provisão do alimento de sua família. Justamente como ocorreu em Eldorado: num primeiro momento a refeição era coletiva, mas depois várias pessoas trouxeram seus fogões para o abrigo e começaram a preparar suas refeições. As pessoas carregaram seus pertences que conseguiram recuperar e estes foram sendo estocados próximos à lavandeira, do lado de fora por falta de espaço. Em casos de superlotação, além do Centro Comunitário, a igreja teve que servir de abrigo para as pessoas também.

Como são reincidentes, as pessoas já se organizam quando anteveem uma nova situação de enchente: já recolhem os pertences e se deslocam para os abrigos. Infelizmente, não somente o aspecto das vidas pessoais é afetado, mas ainda a economia do município, com perdas avassaladoras.

Conclui-se que a oficina de capacitação é um ótimo recurso para repensar as disposições no abrigo e auxilia a projetação dos novos equipamentos. Este suporte explicita as atitudes, as regras utilizadas para a distribuição espacial e os valores que fundamentaram as escolhas contemplando a dignidade humana. Há de se estabelecer um ambiente de confiança recíproca e de amizade entre as pessoas que compartilham o mesmo espaço. O ímpeto de solidariedade estiola a possessividade quando objetos antes individuais passam a ter usos coletivos. Alguns hábitos são preservados, mas outros podem ser alterados e, com isso, muda-se a rotina para consolidar as relações de respeito no abrigo.

Figuras 2 e 3. Maquete interativa do Centro Comunitário. Representação da apropriação espacial da edificação comumente utilizada como abrigo provisório em Eldorado. Fotos: Lara Leite Barbosa.

Análise de soluções para a prática de reabilitação em abrigos temporários.

Um encorajamento à criatividade e a quase utopia ocorre quando se trata de arquitetura móvel. Diversos autores citados neste artigo recorrentemente apostam na possibilidade de renovação de comportamentos, hábitos e costumes para as propostas de caráter efêmero. O tema é atraente para estudantes e arquitetos que veem uma oportunidade de trabalhar novas técnicas construtivas de materiais manufaturados com o desafio do baixo custo. Recebemos chamadas de um número crescente de concursos internacionais de projetos para abrigos temporários. Cameron Sinclair organiza desde 1999, através da Architecture for Humanity3, uma série de iniciativas que instigam arquitetos a participarem de concursos e atividades de projeto de caráter social, principalmente em atendimento aos desastres. Infelizmente, como alerta Dr. John Murlis (1977), poucos protótipos são construídos, pois quase nenhum projeto atende às condições reais dos desastres. Dada a importância de conhecer de perto o contexto dos desastres, serão avaliadas algumas respostas que têm sido dadas às exigências por abrigos atualmente.

Lembramos que a pesquisa encontra-se em fase inicial de desenvolvimento, quando ainda não ocorreu a coleta de informações para o projeto junto aos grupos sociais vulneráveis aos impactos de eventos associados às chuvas. Por isso, as soluções aqui estudadas apenas contribuem para a compreensão das tipologias de projetos disponíveis ao atendimento imediato nas enchentes.

O kit emergencial Shelterbox.

No Brasil, o equipamento para uso como abrigo emergencial que vem sendo noticiado pelas mídias é o kit emergencial Shelterbox, doado pelo Rotary Club. O produto foi distribuído durante as enchentes que ocorreram nas cidades brasileiras dos Estados de Santa Catarina em 2008, Pernambuco, Alagoas (400 unidades); Nova Friburgo, Petrópolis e Teresópolis (1200 unidades) e São José do Vale do Rio Preto (150 unidades) em 2010.

A partir da doação de £590, o Rotary Club disponibiliza uma ShelterBox por família que tenha sido atingida por um desastre. A sede da ShelterBox Brasil está em São Caetano do Sul, na grande São Paulo. O fabricante considera a leveza e a resistência à água da caixa, que é fechada em Helston, Cornwall, na Inglaterra. Segundo o site, o kit é composto por uma tenda, utensílios de cozinha como talheres e fogareiro, material de desenho para crianças, ferramentas e acessórios de sobrevivência. Tudo é entregue novo, elaborado segundo critérios de durabilidade e praticidade.

A tenda é manufaturada pela Vango, com a capacidade de até 10 pessoas e resistência às tempestades e temperaturas extremas. Para cozinhar, um pequeno fogão, utensílios como talheres, panelas e canecas. Para as crianças, giz de cera, canetas e cadernos para desenho são oferecidos no sentido de entretê-los em tão delicado momento. Como proteção térmica, dependendo da localidade do desastre, o kit inclui diferentes acessórios. Em locais de baixas temperaturas, provê cobertores térmicos e lençóis infláveis. Em locais de altas temperaturas, telas para mosquitos e meios de purificação de água, especialmente onde há incidência de malária e epidemias tropicais. Ferramentas básicas como martelo, machado, serra, pá de escavação, cabeça de enxada, alicates e cortadores de fio instrumentam o desabrigado caso venham a realizar algum reparo ou construção necessários no local.

Figuras 4 e 5. ShelterBox. Ocupação do território no Parque de Exposições em Teresópolis, onde couberam cerca de 600 tendas do kit. Fonte: http://www.shelterbox.org.br/sbb/meuclube.site#location1.

Figura 6. ShelterBox. Componentes. Fonte: http://www.shelterbox.org/about.php?page=9.

A dificuldade burocrática de efetivar a doação foi declarada pelo chefe de operações da Shelterbox, John Leach: "Historicamente, tem sido extremamente difícil para a ShelterBox ajudar o Brasil, mesmo quando houve uma necessidade evidente” (ORSATTI, 2010). Além de uma verificação das famílias que devem ser prioritariamente atendidas, há de se obter ajuda na logística da entrega. Quando foram enviadas 1200 unidades à Nova Friburgo, Petrópolis e Teresópolis, o transporte aéreo e terrestre dos kits foi realizado pela Força Aérea Brasileira. Em reportagem assinada pelo coordenador geral Shelterbox Brasil, Conrado Orsatti (2010), as filas por vaga em abrigo eram maiores do que para obter alimentos. A situação se refere ao ocorrido em Barreiros, entre Pernambuco e Alagoas, em junho de 2010, quando as pessoas se acomodaram nos edifícios que não foram destruídos, como igrejas, a rodoviária e até embaixo de árvores quando não havia mais espaço para ficar.

De modo geral, as tendas cedidas por militares e instituições humanitárias funcionam no primeiro estágio pós desastre. Combinadas ao uso de banheiros coletivos e cozinhas privadas, podem ser uma solução adequada quanto ao tempo de montagem e o baixo custo.

Redefinições para uma arquitetura comprometida socialmente.

Porque nos surpreendemos quando notamos a presença do design em locais tidos como “inesperados”, mas que é na verdade onde reside a urgência da intervenção profissional do designer?

Incentiva-se a implantação de empresas como a canadense Weatherhaven Resources que possam prover soluções para dar suporte à sobrevivência.

Novas políticas públicas que estejam de acordo com as aspirações das pessoas envolvidas podem ser formuladas. Um exemplo seria a transparência na relação entre o ente público e os desabrigados. A prestação de contas públicas deveria ser demonstrada para que todo o dinheiro destinado ao auxílio aos processos de reconstrução ou à distribuição dos donativos em nome dos desabrigados fosse acessível às consultas do cidadão.

Quais as regras que podemos contemplar, na medida do possível, para melhorar o bem estar nesta situação provisória?

Um dos poucos estudiosos sobre arquitetura de emergência, Ian Davis (1980, p. 138), mapeou observações, ainda que correspondam à realidade de outros países, que podem ser úteis.

- O uso de tendas de acampamento é uma solução imediata eficaz e bem aceita, transmitindo segurança e agrupamento;

- As pessoas têm tendência a fazer comparação com suas moradias originais;

- A importação é mais cara e mais lenta do que a construção local;

- O modelo importado de casas pré-fabricadas não é bem aceito por populações locais;

- Habitações intermediárias, como as pré-fabricadas, atendem à necessidade social de ser uma família, mas os investimentos que requerem para mantê-la fazem com que as pessoas prefiram ficar em abrigos enquanto reconstroem suas casas.

A construção de habitações para situações de desastres é classificada como desnecessária e indesejável por Ian Davis (1980). Para ele, pode ser substituída pela provisão de abrigos de emergência em paralelo com a reconstrução das casas.

Na opinião de Robert Kronenburg (2002), os futuros moradores poderiam estar envolvidos na criação e construção destas instalações. O autor concorda com a atitude das assistentes sociais de Eldorado, uma vez que deveria se respeitar a organização dos grupos familiares prévios, assim como provisões especiais para doentes, velhos e crianças. Os pertences pessoais que podem se salvar no acidente trazem um pouco do conforto que objetos pessoais e recordações oferecem neste delicado momento. Para ele, a edificação deve ser um investimento que, se for portátil, reutilizável e com tempo de vida suficiente, será aproveitada e relocada como habitação permanente para os próprios refugiados.

Esperamos que o artigo instigue novas abordagens que possuam contribuir com a redução do caótico estado que se encontram os abrigos temporários. E que o planejamento estratégico possa substituir as medidas dispendiosas e inapropriadas para as acomodações das famílias desabrigadas.

Referências

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BAXTER, M. Projeto de produto: guia prático para o desenvolvimento de novos produtos. São Paulo: Edgard Blücher, 1998.

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CBH-RB Comitê da Bacia Hidrográfica do Ribeira de Iguape e Litoral Sul. Relatório de situação dos recursos hídricos da UGRHI 11. Registro: CBH-RB, 2007.

DAVIS, I. Arquitectura de emergência. Barcelona: Gustavo Gilli, 1980.

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WEATHERHAVEN RESOURCES Ltd. Disponível em: <http://www.weatherhaven.com/>. Acesso em: 10 mar. 2009.

Inhabiting the disaster: urgent projects in emerging situations

Lara Leite Barbosa

Architect and Doctor in Architecture and Design, Professor and researcher at the Design Department of the Architecture and Urbanism Faculty of the University of Sao Paulo (USP), Brazil, she studies design of housing for emergency situations.

How to quote this text: How to quote this text: Barbosa, L. L., 2011. Inhabiting the disaster: urgent projects in emerging situations, V!RUS, [online] June, 5. [online] Available at: <http://www.nomads.usp.br/virus/virus05/?sec=4&item=8&lang=en>. [Accessed: 01 October 2014].

Abstract

In recent years, not only brazilian population, but the whole world has been affected by excessive rainfall water. In spite of being the result of exceptional circumstances, inhabiting the disaster is a fundamentally contemporary issue, a problem that requires a deeper study of its formation, construction, installation, permanence, recurrence and, above all, its consequences. This article presents initial research results of the study "Emergency Design: Project of Furniture and Equipment for Temporary Shelters to Groups Affected by Disasters Related to Rainfall". The research aims to make a pilot project, taking the Eldorado city as case study, which proposal can be replicated in other cities in Ribeira valley, constantly affected by rain. As result are expected studies about possible deployments of temporary shelters and other facilities necessary to attend disasters, with design of furniture and equipment developed from aspirations of a collaborative group with experience in emergency flood situation. This article reflects primarily on the spatiality of temporary shelters. It presents the research and its methodology, it discusses the results of a participatory experience, it analyzes equipment solutions for the practice of rehabilitation and it suggests resets to a socially engaged architecture.

Keywords: temporary shelters, disaster related to rainfall, human-centered design, furniture and equipment, product design

Reflections on the sites. Temporary or permanent?

An unprecedented number of people have been accommodated in temporary shelters due to natural disasters. What are the implications of this fact?

Rudimentary level of facilities, inadequate spaces and difficulties faced to satisfy everyday basic needs affect a significant part of human dignity. The reconstruction of private everyday life in collective places brings to light the confrontation with embarrassing situations at a moment when the person is emotionally unprepared to face them.

The site where shelterless camps are installed have a transitory character, reiterated by faith in reconstruction. The spatial arrangements are determined by the occupations which can move from temporary experiences to permanent ones and vice-versa.

Categorizing shelters as temporary or permanent generates an inaccuracy of terms, since the occupation circumstance overlaps as it combines thoughts of legality, resistance, freedom and organization. For Charlie Hailey (2009), in informal settlements the unstructured space underscores the value of gathering. The author discourses that territory where camps are installed can be understood as a space for change: adapted to various uses, in transient moments, it creates an environment of debate and invention. In disaster situations, forced displacement from their homes once regarded as permanent to temporary housing may violate rules. Disasters destabilize permanent housing.

Paradoxically, Dr. John Murlis (1977) advises that moments like these are not appropriated for changes of standards to which they are accustomed. His opinion should be considered, as he has outlined principles which present certain universality regarding the possibility of application in disaster situations to the designers, based on situations that had higher frequency of success. He believes human context determines that familiar aspects should be restored. It is possible to satisfy requirements, as religious worship that recurrently calls for a makeshift temple or place to accommodate people gathered in order to relieve their distress.

On the other hand, the state of emergency extended by disaster recidivism destabilizes the temporary accommodations, which can become fixed ones. In instances when housing reconstruction exceeds six months, housing in temporary shelters becomes more permanent than temporary.

In other cases, as Gustavo Caminati Anders’ study (2007) on emergency shelters reveals, in situations of use of portable and prefabricated buildings provided for temporary situations that exceed the previous standard of living of the population sheltered, there is a propensity that these people settle permanently in these shelters. This creates an expectation which forms a new permanent settlement that turns into slums.

Presentation of research and its methodology

Temporary shelters adopted as mitigative measure are insufficient and sometimes inadequate. The research on which this article is based aims study in order to obtain product design requirements for rehabilitation practice in temporary shelters, minimizing the adverse consequences of disasters. The results of this project will be analyzed according to parameters related to sustainability.

The development of this interdisciplinary project counts on the contribution of two working groups: GIS-RB-Geographic Information System of the Ribeira do Iguape and Southern Coastline regions, sponsored by the Ribeira do Iguape and Southern Coastline Hydrographic Basin Committee (UGRHI-11) whose members are geologist Professor Arlei Benedito Macedo, PhD, biologist Fabrizio Bau Dalmas, MSc, and NEPED (Center of Studies and Social Research in Disasters), coordinated by Professor Norma Felicidade Valêncio from the Sociology Department of UFSCar (São Carlos Federal University), who contributed in the initial stage of this proposal to The Young Investigators Awards1. The partnership of the author, who is the responsible researcher, with the associate researchers was established from studies of common interests in the Brazilian town of Eldorado, especially by the current project "Survey and Monitoring of Risk Areas in UGRHI-11 and Sup] The partnership of the author, who is the responsible researcher, with the associate researchers was established from studies of port for Civil Defense”, sponsored by the State Water Resources Fund. The alliances have strengthened the integration of the researchers in the local community with the already established contacts with the city hall of the tourist city of Eldorado, the CRAS-Reference Center for Social Services and the Head of Civil Defense, Edson Barbosa Ney.

The research will go through the following steps: Preliminary Study, Conceptual Design, Project Production, Production Monitoring, Assessment and Detailing of the project (Baxter, 1998). In order to obtain project requirements, we will perform the initials stages of data collection and analysis. After assessment, the project will be developed, which will try to meet the perceived needs with the collaborative participation of a group of flood affected shelterless people.

The methodology for the development of the project is based on the method used by IDEO, one of the leading design centers around the world. Focused on innovation, the method suggests strategies for designing products based on people´s understanding, experiences, behaviors, needs and perceptions. Divided into four categories, which correspond to the ways rapport is established, the method proposes: learning, seeking, asking and testing. Aiming a human-centered design, the stages of creation are distinguished by identifying information which corresponds to the real wishes of what man wants with that object.

The techniques of this method will be adapted to the research on flood affected shelterless people. The psychosocial dimensions which affect people involved in disasters are part of the concerns investigated by the NEPED (Center of Studies and Social Research in Disasters) research group and will be used as reference in the development of this research.

The project will be carried out in collaboration with researchers associated with the GIS-RB and the Geosciences Institute of USP to find possible deployments and installations of temporary shelters and other facilities needed in disaster response, considering the territory probably affected by the disaster as well as in works of mapping and data processing of our survey. The GIS-RB is based in the city of Registro, São Paulo, in the premises of DAEE (Department of Water and Power), a fact which is quite relevant to the local support in the outskirts of the city chosen for the field study.

For the testing of constructive alternatives, model studies will be built on the University of São Paulo campus, in the city of São Paulo, with the laboratory infrastructure of the Technical Section of LAME-Models and Tests, coordinated by Professor Paulo Eduardo Fonseca de Campos. The laboratory provides adequate machinery for such activities as carpentry, metalwork, painting booth, working with resin and ceramic and the assistance of qualified technicians in handling different materials such as wood, plaster, cork, plastics, fiberglass, clay, metals, etc. According to the model's complexity, it is still possible to obtain support from companies which are committed to the scope of the proposal and with which we can work in partnership throughout the project development, for example, manufacturers of stainless steel components for industrial kitchens.

The case of the city of Eldorado, São Paulo, Brazil

The theme of climate change has been the focus of worldwide discussions and concerns. In Brazil, the most prevalent natural disasters in each region are: forest fires and floods (North), droughts and floods (Northeast), forest fires (Midwest); mudslides and flash floods (Southeast), floods, windstorms and hail (South)2.

The National Civil Defense Department, which seeks to minimize human, environmental and material damages when a disaster strikes, presents data which confirms the vulnerability of certain cities to flash floods, mudslides and floods in Brazil. Among the disasters reported to SEDEC \ MI in the years 2008 and 2010, we highlight the prevalence of natural disasters related to the increase in rainfall and floods in cities of different states in Brazil. We have also noticed that there is a growing vulnerability of small towns in dealing with the ravages of floods. After considering alternatives and current occurrences in Brazilian cities (preferably in the State of Sao Paulo) open to visitation and data collection, the city of Eldorado, with approximately 14,641 inhabitants in 2010 (IBGE), was chosen as the venue for the case study due to a series of factors which enable the development of the research, such as:

- Recurrence of flooding that often dislodge its population. Heavy rains struck the region in the years 1954, 1965, 1973, 1983, 1987, 1990, 1995, 1997, 1998, and 2010;

- High potential for rainfall-type front, with high intensity and duration, which leave the city in a situation of imminent flooding;

- Need for urgent action because Ribeira River floods annually generate losses from the flooding of homes and businesses, loss of agricultural production and traffic disruption and the loss of human life (DAEE apud CBH-RB, 1998);

- Good relationship with the mayor and other administrative bodies, which were open to proposals and visits from researchers.

1 Research Project “Emergency: Furniture and Equipment Design for Temporary Shelters to Groups Affected by Disasters Related to Rainfall”.

2 Available at: <http://www.defesacivil.gov.br/> [Accessed 17 March 2009].

In the city of Eldorado


In the city of Registro


Month / Year

Flow (m3/s)

Month / Year

Flow (m3/s)

Jan/97

4.261

Jan/97

2.782

Jan/95

3.061

Jan/83

2.476

May/83

2.573

Jan/95

2.214

May/54

2.455

Feb/47

2.144

Feb/98

2.279

Feb/98

2.058

Jan/90

2.184

Feb/46

2.010

Table 1: Largest floods in the Ribeira Iguape Hydrographic Basin. Source: CESP 1993 and DAEE CTH cited in CBH-RB, 2007, p.387.

Picture 1. Aerial view of the city of Eldorado, on the shore of the Rio Ribeira de Iguape, located in the southern state of São Paulo and the northeastern state of Paraná. Source: Lara Leite Barbosa.

Spatiality of the temporary shelters: a participatory experience.

According to the Municipal Civil Defense Coordinator (COMDEC), in the latest flood of January 27, 2010, seventy–five flood affected shelterless people were referred to the Community Center in the city of Eldorado, located at Caraíta Avenue - Downtown, and ten other people were accommodated in their relatives and friends homes. The flood of January 1997, the largest ever recorded to date, left about 15,400 flood affected shelterless people in Vale do Ribeira.

Taking this data into consideration, we have observed a large contingent affected by disasters. The existing temporary shelters not always have the capacity to accommodate so many people. Alternative emergency measures supplement the facilities offered by the Civil Defense, by Governmental Agencies, NGOs and charities in general.

Existing equipment used in emergency situations have a high manufacturing cost and difficult transportation, lack food safety standards, need specialized maintenance, need non-autonomous power, water and sanitation systems, and are not adjusted to different implementation situations. It is worrying that in temporary shelters for environmental disasters victims, deaths are caused by food poisoning due to low sanitation control (Brasil, 2007). Norma Felicidade Valêncio (2009-2010) reported incidents of violence perceived in various temporary shelters across Brazil. Carefully trying not to turn people who experience disasters into mere counts, we seek to learn about the everyday life of flood affected shelterless people. The collective experience of uncertainty in this context requires an adjustment to new conditions in a territory that does not belong to that individual. Even more uncomfortable is the situation of the elderly suffering from dementia, the handicap or people with restricted mobility, pregnant women, among others. Often, the absence of surveillance or monitoring of coordinators, as well as lack of privacy in the shelters, lead to acts of violence such as rapes, fights, robberies and theft, affecting the already fragile shelterless people. These situations could be avoided through proper use of space and adequate equipment.

In this sense, the training workshop "Participatory Methodologies Focusing on Water-Related Disasters" was held on December 18th, 2010 in the city of Eldorado, organized by NEPED. According to two local social workers report, Poliana and Ana, along with the shelterless population who have participated in the activity, we discussed the core values to decide where to lodge people according to the specific needs of each one. Rescuing the memory of what happened in 1997 and other years, the group recalled how families were grouped and how the organization of temporary shelters in the Eldorado Community Center was, assembling the interactive model.

In this activity, the social workers reported problems in the building used as a shelter: the shelter is poorly ventilated and rainwater comes into. While opening the doors would fill in the space that could house a family, the first thing was to keep the gates open to dissipate some of the heat.

Except for the worst case that occurred in 1997 when even the mayor and his team, the head of civil defense and the military police, were shelterless, in general there are 8-9 families to be lodged in temporary shelters. As you increase the number of families to be lodged, conditions of comfort in the shelter are reorganized and renegotiated. Because it is a small city, many people are related or have stronger ties, so relationships among them are identified to bring families with certain affinity to the shelter.

Partitions walls were placed when the number of shelterless people increased, in other cases, the cabinets brought by people divided the spaces. People with restricted mobility as the elderly and pregnant women (a large group in the city) were accommodated near the kitchen and the bathroom; the ones with infectious diseases must be isolated from the kitchen, children were grouped around the television and in spaces where they could play.

A communal laundry on the outside of the building was built. However, in cooking chore, for example, we could notice that Brazilian mothers prefer having their own stove and being individually responsible for the provision of food for their families. Just as what happened in Eldorado: at first it was a communal meal, but soon several people brought their stoves to the shelter and began fixing their meals. People took their belongings they managed to recover and these were stored near the communal laundry outside due to the limited space. In cases of overcrowding, besides the Community Center, the church had to provide shelter for people as well.

As it is a recurrent problem, people get organized when flood is forecast: they pick up their belongings and move to shelters. Unfortunately, not only the aspect of personal life is affected, but the city's economy, with overwhelming losses.

We conclude that the training workshop is a great resource for rethinking the rules at the shelter and it helps new equipment projecting. This support gives evidence to the attitudes, the rules for spatial distribution and the values which motivate the choices contemplating human dignity. It is vital to establish an environment of mutual trust and friendship among people who share the same space. The impetus of solidarity decreases possessiveness when individual objects are replaced by communal uses. Some habits are preserved, but others may be altered and, therefore, everyday life is changed to strengthen relations of respect in the shelter.

Figures 1 and 2. Interactive Model in the Community Center. Representation of spatial ownership of the building commonly used as temporary shelter in the city of Eldorado. Source: Lara Leite Barbosa.

Analysis of solutions for rehabilitation practice in temporary shelters

When it comes to mobile architecture creativity and a possible utopia are encouraged. Several authors cited in this article repeatedly believe in the possibility of renewal of behaviors, habits and customs for the ephemeral proposals. The issue is attractive to students and architects who see an opportunity to work on new construction techniques of materials manufactured with a low cost challenge. We received calls from a growing number of international contests to design temporary shelters. Since 1999, through Architecture for Humanity3, Cameron Sinclair has undertaken a series of initiatives to stimulate architects to participate in social project contests and activities, especially in disaster relief 5. Unfortunately, as Dr. John Murlis (1977) alerts, few prototypes have been built, since almost no project suits the actual conditions of disasters.

We should note that this research is in its initial phase and data collection with the social groups mostly vulnerable to the impacts of events associated with rainfall has not been carried out. Therefore, the solutions studied here only contribute to understanding the types of projects available for immediate relief in floods.

The emergency kit Shelterbox.

In Brazil, the equipment to be used as emergency shelter which has been broadcast is Shelterbox emergency kit, donated by Rotary Club. The product was distributed during the floods that occurred in the Brazilian cities of the states of Santa Catarina in 2008, Pernambuco and Alagoas (400 units); and in the cities in the state of Rio de Janeiro as Nova Friburgo, Petropolis and Teresopolis (1,200 units) and São José do Vale do Rio Preto (150 units) in 2010.

From the donation of £590, Rotary Club provides one ShelterBox per family hit by a disaster. ShelterBox Brazil is headquartered in Sao Caetano do Sul, in the Greater Sao Paulo. The box which is lightweight and waterproof is closed in the city of Helston, Cornwall, England. According to the site, the kit consists of a tent, cooking utensils, cutlery, children’s pack, accessories and survival equipment. Only new equipment is delivered, selected for durability and practicality.

Manufactured by Vango, the tent accommodates a family of up to 10 people and is designed to withstand storms and extreme temperatures. For cooking, a small stove, utensils, cutlery, pans and mugs. For children, crayons, pens and drawing books are offered in order to entertain them in such a difficult moment. As thermal protection, depending on the location of the disaster, the kit includes various fittings. Where low temperatures, thermal blankets and insulated ground sheets. In places of high temperatures, mosquito nets and water purification means are supplied, especially where malaria and tropical epidemics are prevalent. Basic tools such as hammer, ax, saw, trenching shovel, hoe head, pliers and wire cutters enable the shelterless population to improve, construct or repair their immediate environment.

Figures 4 and 5. ShelterBox. Occupation of territory in the Teresopolis Exhibition Center, where around 600 tents were put up Images available at: < http://www.shelterbox.org.br/sbb/meuclube.site#location1> [Accessed 18 February 2011].

Figures 6. ShelterBox. Components. Image available at: <http://www.shelterbox.org/about.php?page=9> [Accessed 18 February 2011].

Bureaucracy made donation difficult as informed by the chief operating officer of Shelterbox, John Leach: "Historically, it has been extremely difficult for ShelterBox help Brazil, even when there was an obvious need" (Orsatti, 2010). In addition to a look-see at the families that must urgently be addressed, help is needed in delivery logistics. When 1,200 units were sent to the Brazilian cities of Nova Friburgo, Petropolis and Teresopolis, the air and ground transportation of the kits was conducted by the Brazilian Air Force. In a report signed by the general coordinator of Shelterbox Brazil, Conrad Orsatti (2010), queues for shelters were longer than the ones for food. The situation refers to what happened in the Brazilian city of Barreiros, between Pernambuco and Alagoas states, in June 2010, when people were accommodated in buildings which were not destroyed, such as churches, bus stations and even under trees when there were no more places to stay.

In general, the tents donated by military and humanitarian institutions work in the first stage post-disaster. Combined with the use of communal toilets and private kitchens, may be a suitable solution regarding the assembly time and low cost.

Redefinition for a socially committed architecture.

Why are we surprised when we notice the presence of design in places considered as "unexpected", when it is actually where the urgent intervention of a designer resides?

Encourages the implantation of companies as Canadian Weatherhaven Resources that can provide solutions to support survival.

New public policies that are in tune with the needs of the people involved can be formulated. An example would be transparency in the relationship between public institutions and the shelterless. Public accountability should be available so that all the resources allocated to aid the processes of reconstruction or distribution of donations on behalf of the shelterless can be tracked by citizens.

What rules can we consider, up to a certain extent, to improve welfare in this temporary situation?

One of the few scholars on emergency architecture, Ian Davis (1980, p.138), mapped observations in other countries that may still be useful.

- The use of camping tents is an effective, immediate and well-accepted solution, assuring safety and grouping;

- The tendency of people to compare with their original homes;

- The importation is more expensive and slower than the construction site;

- The imported model of prefabricated houses is not well accepted by local populations;

- Intermediate housing, such as pre-fabricated, meets the social need of being a family, but the investments required in its maintenance force people to stay in shelters while rebuilding their homes.

The construction of housing for disaster situations is classified as unnecessary and undesirable by Ian Davis (1980). For him, it can be replaced by the provision of emergency shelters in parallel with the reconstruction of the houses.

In Robert Kronenburg’s (2002) opinion, future residents could be involved in creating and building these facilities. The author agrees with the attitude of social workers from the city of Eldorado, since it should respect the previous family group organizations, as well as special provisions for the sick, the elderly and children. Personal belongings and memorabilia which can be saved in the accident provide a little comfort in this difficult moment. For him, the building should be an investment that, if portable, reusable and enough useful life, will be used and relocated as permanent housing for the refugees themselves.

We hope this article instigates new approaches which can contribute to minimize the chaotic state of temporary shelters. And that strategic planning can replace those expensive and inappropriate measures when accommodating shelterless families.

References

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Orsatti, C., 2010. Equipe da Shelterbox vai para inundação que atingiu Brasil. Available at: <http://rotary4750.blogspot.com/2010/06/equipe-da-shelterbox-vai-para-inundacao.html> [Accessed 18 February 2011].

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Valencio, N., Siena, M., Marchezini, V. and Gonçalves, J. C. (org.), 2009. Sociologia dos desastres: construção, interfaces e perspectivas no Brasil. São Carlos: Rima.

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