Teorias da Gentrificação: Um estudo sobre sua aplicação no Sul Global

Marina Diógenes

Marina Guerra Diógenes: é arquiteta e urbanista e mestranda em Urbanismo, no Programa de Pós-graduação em Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PROURB-UFRJ). Sua pesquisa aborda a temática da gentrificação, priorizando as áreas de Planejamento e Forma Urbana. marinagdiogenes@gmail.com
http://lattes.cnpq.br/4088053556533955


Como citar esse texto: DIÓGENES, M. G. Teorias da gentrificação: Um estudo sobre sua aplicação no Sul Global. V!RUS, São Carlos, n. 22, Semestre 1, julho, 2021. [online]. Disponível em: <http://www.nomads.usp.br/virus/virus22/?sec=4&item=16&lang=pt>. Acesso em: 07 Dez. 2022.

ARTIGO SUBMETIDO EM 7 DE MARÇO DE 2021


Resumo

Partindo da reflexão colocada por Roy (2009), sobre a necessidade de perspectivas que vão além do eixo teórico urbano euro-americano, entende-se que o que acontece é uma tentativa de encaixar contextos do Sul Global nas teorias já existentes, as quais nem sempre abrangem todas as questões e necessidades dessas áreas. Propõe-se aqui uma investigação acerca do fenômeno da gentrificação por essa ótica, visando entender qual definição seria capaz de contemplar a diversidade urbana de contextos do Sul Global e, particularmente, da América Latina. Para tal, parte-se da análise do conceito de gentrificação e suas alterações no tempo, desde quando o termo foi cunhado por Glass (1964), passando pelos estudos de Smith, Zukin, Clark, Lees, Siqueira, dentre outros. São colocadas questões sobre dinâmicas urbanas neoliberais e contemporâneas relacionadas ao fenômeno em países ditos periféricos, objetivando a compreensão de como esse processo ocorre e quais as suas particularidades em contextos latino-americanos. Assim, este artigo busca evidenciar contribuições ou limitações da teoria de gentrificação já estabelecida por estudos do Norte Global e apontar definições a serem adotadas para compreender e abranger a diversidade do fenômeno, também em contextos urbanos do Sul Global.

Palavras-chave: Gentrificação, Sul Global, Definições, Descolonizar



1Introdução: Em busca de uma quebra de visões teóricas euro-americanas

Em um artigo de 2009, publicado pela revista acadêmica britânica Regional Studies, a urbanista indiana Ananya Roy já refletia sobre a necessidade de se ter uma perspectiva guiada por novas geografias da teoria (new geographies of theory) atentas à condição urbana do Sul Global, defendendo uma abordagem capaz de trazer especificidades teóricas sobre o espaço urbano. Por esse prisma, Roy ressalta que boa parte do aparato teórico utilizado para compreender questões urbanas é produzida com base em experiências de cidades localizadas no eixo euro-americano, ocorrendo, assim, uma tentativa de se encaixarem contextos do Sul Global nessas teorias já existentes. Ela questiona então se é possível que, por meio dos contextos urbanos do Sul Global — os quais, em geral, ocupam menor espaço no centro dos debates —, haja uma reconfiguração de teorias já estabelecidas, proporcionando um entendimento mais completo acerca de diversos fenômenos urbanos. O argumento colocado por Roy é mais relacionado ao alcance das análises e menos à pertinência de se generalizar teorias.

Assim, partindo dessa perspectiva de limitação do alcance das análises, ou seja, de que não é suficiente estudar contextos urbanos do Sul Global somente como casos exóticos e distantes, este artigo se propõe repensar a aplicação e a pertinência das definições de gentrificação na região. Compartilhando a visão dos geógrafos Loretta Lees e Hyun Bang Shin e do arquiteto urbanista Ernesto López-Morales, no livro Planetary Gentrification de 2016, no qual a gentrificação é colocada como modelo generalizado do urbanismo neoliberal produzido e consumido em massa no século XXI, entende-se que esse fenômeno pode também ser encarado como um rastro do planejamento urbano capitalista concebido e praticado desde meados do século XIX, e que privilegia interesses da iniciativa privada. Só assim conseguiremos estar atentos às diferentes formas segregadoras de produção do espaço.

Lees, Shin e López-Morales (2016) reúnem questões, investigações e conclusões de uma pesquisa ampla e essencial sobre a gentrificação, desenvolvida através de estudos de regiões que fogem da ótica euro-americana habitual e já tão investigada, tais como América Latina, Sudeste e Leste da Ásia, além das próprias Europa e América do Norte. Os autores trazem uma análise do fenômeno por um prisma mais global e por perspectivas econômica, política e social mais críticas. Acredita-se que é hora de “descolonizar” literaturas de teorias urbanas, saindo-se da perspectiva hegemônica euro-americana e voltando a atenção para o Sul Global, buscando contribuir especialmente para reflexões e entendimentos acerca de territórios da América Latina. Contudo o “descolonizar o pensamento” que se propõe aqui não significa ignorar ou descartar tudo o que é colocado sobre os contextos de países centrais. Por exemplo, como Lees, Shin e López-Morales (2016) enfatizam, é importante perguntar-se quais aspectos do Sul Global podem, tanto quanto os do Norte, enriquecer conceitos, teorias e caracterizações do fenômeno da gentrificação em países periféricos.

Esses países tiveram processos de colonização e industrialização diversos, refletidos em diferenças socioeconômicas e padrões de ocupação urbana. Há, ainda, particularidades e fortes contrastes relacionados a assentamentos precários e favelas, por exemplo, que apresentam condições espaciais e de infraestrutura específicas, as quais implicam em fluxos e dinâmicas que podem interferir na gentrificação nessas cidades. Desse modo, Roy (2009) coloca muito bem a questão de que o problema não é que as teorias e ideias do Norte Global não se aplicam ao Sul, mas que essas teorias estão limitadas pelos contextos desses países e podem não abarcar todas as variações urbanas e necessidades dos países do Sul Global, considerando outros tipos de contradições e problemáticas:

A crítica à hegemonia euro-americana da teoria urbana não é, portanto, uma discussão sobre a inaplicabilidade das ideias euro-americanas às cidades do Sul Global. Não vale a pena policiar as fronteiras através das quais ideias, políticas e práticas fluem e sofrem mutações. A preocupação é com os locais limitados em que a produção teórica é atualmente teorizada e com a falha de imaginação e epistemologia que assim é engendrada. (ROY, 2009, p. 820, tradução nossa).

É partindo dessa perspectiva que este trabalho busca ressaltar contribuições e/ou limitações da teoria de gentrificação já estabelecida por estudos do Norte Global e apontar definições que caibam ser usadas para compreender os casos do fenômeno em contextos do Sul Global, sobretudo latinoamericanos.

2Sobre a definição de gentrificação e suas alterações no tempo

A socióloga Ruth Glass (1964) foi a primeira a cunhar o termo gentrification, na introdução do livro London: aspects of change, o qual, sob a perspectiva de alguns autores, traz análises e estudos sobre Londres durante as décadas de 1950 e 1960. Muitas das questões urbanas abordadas nesta obra ressoam hoje, sendo ainda relevante para entenderem-se mudanças que ocorreram e ocorrem na capital inglesa. Glass apresenta uma visão de Londres como uma cidade complexa, variada e sobre a qual não se pode ter um entendimento fechado. Desse modo, descreve alterações nas dinâmicas urbanas que estavam ocorrendo desde o segundo pós-guerra e cunha o termo gentrification para denominar uma movimentação nova e distinta que ela previu que poderia transformar áreas centrais da cidade. Essa dinâmica observada e evidenciada por ela consistia em um processo de substituição de moradores pertencentes a uma classe proletária e mais vulnerável de bairros centrais, nos quais unidades habitacionais haviam passado por reformas realizadas por novos residentes, pertencentes a uma classe média com poder econômico mais alto. Esse foco do fenômeno — a reabilitação de residências pelos próprios novos habitantes e sua localização nos centros urbanos — permaneceu marcante por algum tempo e tem um caráter mais conservador, principalmente ao observarmos o processo nas cidades de hoje.

É válido pontuar que, embora tenha cunhado o termo nessa obra, Glass não se propôs a teorizar sobre a gentrificação nesse livro, estando mais interessada em retratar aspectos das mudanças urbanas de Londres. Ainda assim, ela descreve a dinâmica que observou, dá nome a essa dinâmica e coloca alguns pontos importantes para o seu entendimento. Nessa perspectiva, Glass se refere à gentrificação como um processo — aspecto que também será defendido no presente artigo — e o compreende como um fenômeno inevitável em Londres, decorrente de pressões demográficas, econômicas e políticas.

O geógrafo Neil Smith, que estudou e publicou ao longo de décadas sobre o tema, enfatiza em 1979 o papel da produção capitalista de moradia e da obtenção de lucro, que muitas vezes se sobrepõem à demanda e à necessidade por habitação das classes de menor poder aquisitivo. Ele também ressalta que é necessário analisar o papel tanto dos produtores, quanto dos consumidores nos processos de gentrificação, afirmando que o poder do lucro é mais decisivo que o da demanda por determinado produto e que essa demanda pode ser “manipulada” com certo nível de sucesso:

Explicar a gentrificação de acordo com as ações dos gentrificadores apenas, ignorando o papel dos construtores, incorporadores, proprietários, credores hipotecários, agências governamentais, agentes imobiliários e inquilinos, é excessivamente limitado. Uma teoria mais ampla de gentrificação deve levar em conta o papel dos produtores e dos consumidores e, quando isso é feito, parece que as necessidades de produção — em especial a necessidade de obter lucro — são uma iniciativa mais decisiva por trás da gentrificação do que a preferência do consumidor. Isso não quer dizer de uma maneira ingênua que o consumo é a consequência automática da produção, ou que a preferência do consumidor é um efeito totalmente passivo causado pela produção. [...] Pelo contrário, a relação entre produção e consumo é simbiótica, mas é uma simbiose na qual a produção domina. (SMITH, 1979, p. 540, tradução nossa).

Embora Smith já evidencie a importância de entender os processos pela ótica capitalista de produção, ele permanece, de certo modo, seguindo a perspectiva original e mais conservadora de Glass. Smith (1982) define gentrificação como um processo no qual bairros centrais de classes operárias são reabilitados por novos moradores, proprietários ou incorporadores imobiliários da classe média. Na sua publicação Gentrification and uneven development, de 1982, ele deixa isso claro ao fazer uma diferenciação teórica entre a “reabilitação” (rehabilitation) que, para ele, é o que ocorre na gentrificação, e o “redesenvolvimento” (redevelopment). Para Smith, o “redesenvolvimento” não envolve a reabilitação de edificações antigas existentes, mas sim a construção de novos prédios nessas áreas, fazendo uso da infraestrutura já implantada e, muitas vezes, demolindo edifícios antigos.

Contudo, reestruturando esse seu posicionamento, Smith revela um entendimento mais amplo sobre o fenômeno no texto The new urban frontier, publicado em 1996, ao defender que essa distinção não faria mais sentido. Ele argumenta que o fenômeno não deve se restringir apenas à reabilitação de moradias nas áreas centrais pela classe média, pois está ligado a uma reestruturação urbana maior, na qual seria falho excluir o “redesenvolvimento” da esfera da gentrificação. Assim, nesse processo, é possível falar em remoções para demolição de uma estrutura existente, estando essa estrutura degradada ou apenas porque a construção de um novo empreendimento no local pode render maiores lucros. Embora apresente esse entendimento mais amplo que traz o prisma da força do capital, Smith (2000) mantém o foco espacial nos bairros centrais e em países ditos desenvolvidos, definindo o fenômeno como um processo de reinvestimento de capital nos centros urbanos que visa atender uma classe mais abastada e que faz uso, além de reabilitações e construções residenciais, de redesenvolvimentos com foco em comércios e serviços.

É interessante constatar que Smith, ao longo de décadas estudando o processo, foi um pesquisador com contribuições importantes para a consolidação do entendimento empírico do fenômeno e para sua definição. Ele relacionava seus estudos a uma abordagem também teórica, visando uma compreensão com base em questões urbanas significativas do período e atualizando suas conceituações quando necessário. A socióloga francesa Catherine Bidou-Zachariasen, também estudiosa do processo, acompanha a perspectiva de Smith e reconhece que: “[…] a gentrificação tornou-se hoje a forma dominante do urbanismo contemporâneo, assim como “a” política urbana das grandes cidades ocidentais, articulando parcerias financeiras público/privadas” (BIDOU-ZACHARIASEN, 2006, p. 32).

Para a socióloga americana Sharon Zukin (2010), gentrificação é um processo de substituição, no qual ricos substituem pobres, e em que homogeneidade social e cultural substitui a diversidade. As pesquisas de Zukin concentram-se nas cidades e em como elas foram remodeladas por meio da desindustrialização, gentrificação e imigração, trazendo a ótica capitalista do mercado imobiliário, da produção do espaço e da economia simbólica. Zukin (1991) ressalta que os distritos centrais são transformados em novos mercados para compras, serviços, cultura e habitação para classes mais altas, atraindo novas dinâmicas e populações para a área. Esse processo, por sua vez, aumenta o valor do ambiente construído nos centros, aumenta os investimentos e a pressão imobiliária em prédios históricos, e aumenta também a demanda por edifícios restaurados. Leva à reprodução de estilos arquitetônicos antigos e — contrariamente — à criação de distritos históricos de proteção do patrimônio edificado, como forma de tentar manter a autenticidade desses espaços, resistir a réplicas e lucrar com a autenticidade.

Os valores urbanos colocados pela jornalista americana Jane Jacobs (2011) no seu famoso livro Morte e Vida de Grandes Cidades, publicado originalmente em 1961 — quarteirões menores, ruas ocupadas por pessoas, bairros com identidade local, autenticidade — tornaram-se parte do ideal buscado por gentrificadores. Desse modo, muitos dos objetivos sociais de Jacobs e da preservação das classes nos seus bairros de origem foram perdidos com o tempo. Nesse âmbito, Zukin (2010) observa a busca por autenticidade em Nova York e argumenta que, por ser uma prática mais comum às classes média e alta, funciona exatamente como forma de deslocar os habitantes originais do que seriam esses bairros autênticos, à medida que os ricos se mudam e remodelam a área para si próprios. Ela ressalta também que muitos dos ditos bairros autênticos, normalmente de classes trabalhadoras, se tornam bairros de etnia branca e classe média e alta. Na tentativa dessas classes mais altas usufruírem do “autêntico”, surge a gentrificação. Grupos dominantes usam capital e cultura para transformar os espaços urbanos, ou seja, a autenticidade em si também pode ser considerada um produto social e de consumo. Nessa perspectiva, sendo real ou projetada, a autenticidade se torna uma ferramenta de poder.

Conforme os centros das cidades foram se alterando, o mesmo aconteceu com a gentrificação. Nos Estados Unidos, por exemplo, a atenção dada aos prédios antigos com restaurações — que eram a característica básica do fenômeno — passou a ser acompanhada por uma grande quantidade de novas construções, desde o início dos anos 1980, segundo Zukin (1991). Esse fato alinha-se à ideia de que o “redesenvolvimento” também faz parte da gentrificação, como defendido por Smith (1982). Projetos de novos edifícios residenciais, comerciais e de uso misto próximos a distritos históricos exploram a atração por prédios antigos e pela diversidade dos centros urbanos.

3Gentrificação e o Sul Global

Com indagações potentes em relação ao urbanismo e à gentrificação de hoje, Lees, Shin e López-Morales (2016) abordam questões trazidas por uma pesquisa diversa e essencial sobre o fenômeno, desenvolvida em seus estudos em diferentes regiões do mundo. Eles trazem uma análise por uma ótica mais global — como o próprio título Planetary Gentrification já indica — e realizam estudos de caso menos abordados comumente, por serem do Sul Global ou da Ásia. Por meio de uma perspectiva econômica, política e social mais crítica, os autores unem suas experiências regionais e estudos globais em urbanismo, abordando a gentrificação para além da ótica euro-americana comum já tão investigada. Em consonância com a perspectiva de Roy (2009), apresentada no início deste artigo, os autores conseguem desconstruir algumas conceituações, conclusões e práticas muito restritas sobre a dinâmica. Além disso, questionam o padrão de estudos produzidos apenas em países ditos desenvolvidos, ao enfatizarem que entendem as experiências de contextos urbanos de variados países como forma de enriquecer a teoria e os conceitos que fundamentam o fenômeno.

Um desses conceitos é o de deslocamento (tradução nossa do inglês displacement). Entende-se que é importante considerá-lo e compreendê-lo, visto que é um aspecto essencial para o processo de gentrificação. Ele pode ser entendido como uma dinâmica individual ou coletiva, voluntária ou involuntária, de acordo com a sua dimensão temporal ou espacial. Davidson e Lees (2010 apud LEES, SHIN, LÓPEZ-MORALES, 2016) colocam essas duas dimensões no entendimento deles de deslocamento, ressaltando que este não deveria ser reduzido apenas ao momento específico em que o morador é forçado ou pressionado a sair da sua casa. Eles defendem que trata-se de um conjunto de procedimentos variáveis e que se articulam em função de cada contexto.

Há ainda a considerar o entendimento bastante coerente sobre deslocamento dado por Angotti (2016):

Deslocamento não é apenas sobre pessoas mudando-se de um lugar para outro, mas também sobre um grande número de pessoas tendo que se mudar e tendo pouca escolha sobre o assunto. É sobre pessoas sendo forçadas a sair pelo aumento dos preços e aluguéis dos imóveis, o que está acontecendo em toda a cidade, em maior ou menor grau. Isso pode acontecer como parte de um processo gradual de gentrificação ou pode estar conectado a mudanças rápidas desencadeadas pelo desenvolvimento em grande escala e pelo rezoneamento. (ANGOTTI, 2016, p. 38, tradução nossa).

É segundo esse prisma de Angotti que se concorda com o entendimento posto por Lees, Shin e López-Morales de que cidades com os mais variados contextos urbanos tem experienciado reestruturações econômicas, políticas, socioculturais e geográficas desde o surgimento do termo, em 1964, e que a própria gentrificação tem mudado devido a isso, o que tornou a definição pioneira de Glass datada, menos útil para se entender a progressão do fenômeno e atrelada à experiência de uma cidade específica. Esse fato é limitante para as dinâmicas que ocorrem hoje. Assim, Lees, Shin e López-Morales (2016) seguem a definição dada por Eric Clark (2010), professor da Lund University, na Suécia, e que parece, de fato, mais condizente com os contextos atuais:

A gentrificação é um processo que envolve uma mudança na população de usuários da terra de modo que os novos usuários tenham um status socioeconômico mais elevado do que os usuários anteriores, juntamente com uma mudança associada no ambiente construído por meio de um reinvestimento em capital fixo. Quanto maior a diferença de status socioeconômico, mais perceptível é o processo, até porque quanto mais poderosos são os novos usuários, mais marcada será a mudança concomitante no ambiente construído. Não importa onde, não importa quando. Qualquer processo de mudança que se enquadre nesta descrição é, no meu entendimento, gentrificação. (CLARK, 2010, p. 25, tradução nossa).

Para entender o surgimento e crescimento da gentrificação no âmbito global e reconhecer suas diferenças em contextos diversos, é preciso compreender que essa globalização se refere a uma expansão tanto vertical (para cidades menores) quanto horizontal (para outros contextos geográficos do mundo), e que é importante lidar com os aspectos econômicos que norteiam e determinam os meios para o florescimento do fenômeno. Com essa finalidade, Lees, Shin e López-Morales (2016) dedicaram-se a analisar questões econômicas contemporâneas, chamando a atenção para alguns aspectos.

Primeiro, a gentrificação é um dispositivo de produção de capital e em escala global, como já foi mencionado aqui. Em segundo lugar, o fenômeno também é identificado nas dinâmicas de “destruição criativa”, uma vez que o espaço urbano é um caminho de reinvestimento do capital excedente eficiente e com certo grau de estabilidade de lucro. Assim, motivadas pela necessidade inerente de crescimento econômico, estruturas obsoletas (ou não) são substituídas por outras mais recentes, incentivando, muitas vezes, dinâmicas urbanas que levam a certa homogeneização do espaço. Um terceiro aspecto é a produção do espaço com foco na acumulação de capital de forma desigual e em disputas por lucro através de áreas urbanas que passam por requalificação. Parece bastante válido que esses aspectos econômicos sejam investigados, pois podem revelar muito sobre a gentrificação em contextos específicos.

É pertinente ressaltar a relação entre o terceiro aspecto apresentado pelos autores e o conceito de rent gap, cunhado por Smith em 1979, como a disparidade entre a renda da terra capitalizada de uma área atualmente e o potencial futuro de renda da terra capitalizada. Nessa concepção, a diferença é positiva para o mercado se o potencial de lucro atual for menor do que o potencial de lucro futuro. Esse conceito permanece relevante hoje e pode ser identificado em diversos casos pelo mundo. Como enfatizado por Lees, Shin e López-Morales, estamos em um momento no qual é difícil negar ou ignorar o poder dos bancos, dos incorporadores e do Estado tanto na desvalorização, quanto na revalorização de espaços urbanos com base nos seus interesses. A gentrificação parece ser o processo para atender as necessidades do capital financeiro e do mercado imobiliário, ou seja, aquela característica observada inicialmente por Glass em que o gentrificador da classe média, como agente primário, chega e restaura edificações para usufruto próprio, tem bem menos força em contextos atuais.

Com uma perspectiva mais próxima daquela de Clark (2010) e Zukin (2010), e também fazendo uso do conceito de rent gap de Smith (1979), é interessante inserir aqui o ponto de vista da arquiteta urbanista brasileira Marina Siqueira. Siqueira (2014 e 2019) analisa e teoriza sobre questões relacionadas à aplicação do conceito de gentrificação em contextos brasileiros e propõe uma estrutura analítica para identificação do fenômeno. No entanto, antes de apresentar essa estrutura, é interessante evidenciar algumas de suas observações. Ela pontua que o uso do termo “gentrificação” tem aumentado no Brasil, principalmente desde a organização e implantação de obras com foco nos megaeventos de 2014 e 2016. Políticos, a mídia e a própria população passaram a apontar diversas transformações socioespaciais decorrentes de grandes projetos urbanos como constituintes do fenômeno. Além disso, o dicionário brasileiro Caldas Aulete, em 2013 (apud SIQUEIRA, 2014), incluiu o termo nas suas definições, deixando evidente que o neologismo passa a ser mais popularmente conhecido e entendido como um processo presente na realidade do Brasil, indo além da utilização apenas no âmbito acadêmico.

Essa popularização do termo no país traz a importante questão de uma generalização da aplicação de uma teoria, na qual não estejam sendo consideradas as diferenças entre as realidades urbanas das regiões em que essa teoria surgiu, e das regiões em que está sendo aplicada. Exemplos dessas diferenças são contrastes socioespaciais mais particulares, diferenças econômicas e de padrões de uso e ocupação do solo, dentre outros. Siqueira (2014) aponta que, em geral, o que acontece é uma importação do conceito do Norte Global e seu uso tentando uma adequação a exemplos locais semelhantes. Contudo, ela defende, como vários dos pesquisadores já abordados aqui, que a gentrificação não está mais restrita e relacionada apenas a bairros históricos ou centrais urbanos, nem somente a países do Norte Global. Ainda que já haja certo consenso quanto à globalização da gentrificação, observa-se que não há ainda concordância em torno de um conceito capaz de se manter consistente ao ser aplicado em variados contextos contemporâneos. Ou seja, existe a dificuldade de aplicar uma definição padrão do fenômeno em um contexto socioespacial diferente do qual ele surgiu. Desse modo, a estrutura analítica de Siqueira busca propor critérios capazes de abranger a diversidade empírica do processo, visando uma definição passível de ser aplicada não apenas em exemplos urbanos mais tradicionais, mas também em casos mais recentes de gentrificação global.

Siqueira (2014 e 2019) propõe uma estrutura que busca identificar as dimensões da gentrificação capazes de garantir credibilidade e consistência à definição. Ela estabelece, então, três critérios mínimos que delimitam o conceito e que devem poder ser identificados em cada caso: (1) possibilidade de produção de um espaço gentrificável (a condição), isto é, na linha do rent gap de Smith, deve haver uma diferença no capital acumulado com os usos atuais do espaço e os lucros potenciais futuros provenientes de mudanças no uso; (2) elitização socioeconômica da população local com deslocamento de grupos vulneráveis antes moradores (a dinâmica), ou seja, com a entrada de um grupo ingressante (in-mover) com maior poder socioeconômico, o conceito é claramente delimitado por classe; e (3) alterações no ambiente edificado (a consequência), devido às necessidades e usos dos novos moradores, trazendo o fato de que essas transformações físicas também estão relacionadas a uma solução espacial para a acumulação de capital, liberando o capital fixo de usos e usuários menos lucrativos. Posto que se entende a importância da perspectiva da autora sobre os critérios expostos nessa estrutura, questiona-se a determinação de melhorias no ambiente construído como “a consequência”. Entende-se que elas podem ser, em muitas situações, um atrativo para o capital, fazendo parte de uma prática de redesenvolvimento e da “condição” para a gentrificação, constituindo uma das causas de substituição populacional.

A proposta de Siqueira é uma estrutura de análise com consistência suficiente para não perder a relevância teórica, ao mesmo tempo em que também possibilita elasticidade suficiente capaz de abranger contextos diferentes. O objetivo dela está centrado na necessidade de entender o fenômeno como um processo e não apenas como um resultado. Ou seja, o objetivo não é perceber apenas o espaço gerado com elitização social, mas compreender que a gentrificação é uma sequência de fatos e ações que produzem crescimento urbano com expulsão de classes moradoras mais vulneráveis. Ela não se prende, portanto, a características de contextos particulares, nem a condições socioespaciais específicas. É importante ressaltar que a gentrificação implica que o espaço seja ocupado após deslocamentos e o reinvestimento de capital. Ou seja, demolições e novas construções sem reutilização posterior podem causar deslocamentos, mas não podem ser consideradas gentrificações. Entretanto, essa ocupação do espaço não precisa ser necessariamente por moradia. Pode haver novos e diferentes usos que também apresentem caráter segregador e que também caracterizem a gentrificação: por exemplo, comércios, serviços de hospedagem, espaços para atividades turísticas, dentre outros.

Em contraposição aos pontos de vista apresentados aqui, alguns autores, como os professores americanos Lance Freeman e Frank Braconi, negam essas substituições e deslocamentos. Freeman (2005) e Freeman e Braconi (2004) questionam se deslocamentos e substituições populacionais são de fato consequências sempre presentes e responsáveis pelas mudanças demográficas em bairros que passam pelo processo. Freeman defende que bairros podem ser gentrificados sem um deslocamento generalizado, contanto que os in-movers tenham poder econômico maior e suficiente expressão política para promover alterações na região. Ou seja, seriam os in-movers, em vez dos out-movers, a força motriz da mudança do bairro. A condição para que este ponto de vista seja levado em conta é a existência de situações nas quais haja uma quantidade de unidades habitacionais e edificações subutilizadas expressiva o suficiente para receber um contingente de novos moradores, e/ou usuários capazes de provocar e manter, na região, as mudanças econômicas, sociais e espaciais características da gentrificação. Contudo, parece claro que a substituição de uma população com menor poder econômico por uma com um poder maior é um dos aspectos que pode ser apontado como parte da dinâmica do fenômeno, conforme evidencia Siqueira. É válido ainda ressaltar que os estudos abordados por Freeman e Braconi referem-se especificamente a territórios do Norte Global, principalmente Estados Unidos.

4Conclusões: Sugerindo uma definição de gentrificação capaz de abranger mais

Entender as transformações que ocorreram ao longo do tempo em contextos territoriais do Sul Global, a partir de processos que remetem a uma clara conceituação da gentrificação, parece ser o caminho correto para se entender o próprio fenômeno. Desse modo, embora se reconheça a importância da definição original de Glass, enfatiza-se aqui novamente que ela parte e se detém a observar eventos de um contexto específico — bairros centrais operários de Londres — e mais comum a cidades do Norte Global. Nessa perspectiva, volta-se a evidenciar aqui a pontuação feita por Roy (2009) sobre o fato de a maior parte da produção urbana, envolvendo cidades do Sul Global, apoiar-se no aparato teórico referenciado em experiências de cidades do eixo euro-americano. Percebe-se, desse modo, uma tentativa de se encaixar contextos próprios ao Sul Global a teorias existentes. Pensando nisso, e conforme Siqueira (2014) evidencia, é importante deixar claro que a compreensão da gentrificação e sua definição não podem ser excessivamente elásticas, correndo o risco de perder sua relevância teórica, sendo então necessário o entendimento consistente de como o fenômeno ocorre no Sul Global partindo de estudos do próprio Sul Global.

Dessa perspectiva, e ressaltando o argumento de Siqueira de que a gentrificação deve ser compreendida como um processo e não apenas como um resultado, propõe-se nesta seção — a partir das análises acerca de visões teóricas sobre o fenômeno apresentadas antes neste artigo — qual definição é capaz abranger a diversidade de características da gentrificação existentes no Norte e Sul Globais. Para uma definição coerente com as dinâmicas do Sul Global, em especial as latinoamericanas, atentou-se para alguns dos aspectos urbanos mais particulares desses contextos já pontuados anteriormente, como padrões diferentes de organização, uso e ocupação urbana, grandes contrastes socioeconômicos e de infraestrutura espacialmente próximos, presença de assentamentos precários e favelas.

Desse modo, concorda-se com e propõe-se o uso da definição de Clark (2010) já apresentada, entendendo-a como uma análise pertinente e amadurecida acerca da gentrificação, das transformações sofridas por ela ao longo do tempo, das suas características decorrentes de dinâmicas urbanas contemporâneas e da existência do fenômeno no Sul Global. O autor deixa claro que a gentrificação não está mais limitada a centros urbanos e históricos, nem a países do Norte Global. Clark (2010) defende a existência de um processo no qual haja: (1) uma substituição populacional segregadora, com os novos usuários ou moradores apresentando um poder socioeconômico maior que seus antecessores, e no qual há (2) melhorias físicas no ambiente construído por meio de reinvestimento de capital. Clark faz ainda questão de ressaltar que, se o processo apresenta esses aspectos, para ele se trata de gentrificação, não importando onde seja.

Entende-se que é válido observar também o conceito de rent gap de Smith (1979), que pode ser explicado como a diferença positiva entre a renda da terra capitalizada de uma área atualmente e o potencial futuro de renda dessa terra capitalizada, colocando-o como essencial para o entendimento do fenômeno aqui em questão e de por que se torna tão atrativo no sistema neoliberal. A alta possibilidade de lucro decorrente de interferências em determinado espaço é uma importante característica da gentrificação hoje. O rent gap atrai investimentos e projetos para essas áreas, que passam a ser do interesse do capital, e estimulam a gentrificação. Nas dinâmicas contemporâneas neoliberais, torna-se cada vez maior o poder dos bancos, dos incorporadores e do Estado nos processos urbanos, visando seus interesses. O fenômeno em questão tem se mantido como um grande trunfo para atender às necessidades de reinvestimento de capital, do mercado imobiliário e do capital financeiro.

Nessa ótica, os gentrificadores individuais e as classes médias, originalmente considerados agentes fundamentais da gentrificação, perderam espaço em comparação ao poder do Estado combinado ao poder do mercado, usando de dinâmicas imobiliárias e do capital cultural para intervir nos processos urbanos do Norte e Sul Globais. Desse modo, é válido ressaltar que, para que haja gentrificação, o espaço deve ser ocupado após deslocamentos, ou seja, deve de fato haver uma substituição populacional, podendo haver inclusive alterações nos usos. Assim, reformas e novas edificações sem ocupação posterior podem causar deslocamentos, mas não podem ser consideradas gentrificação. A gentrificação é um processo de substituição populacional, de reestruturação, apropriação e revalorização dos espaços urbanos, que ganhou ainda mais força com dinâmicas econômicas globais e unificadas. Entretanto, existem particularidades, agentes e consequências sociais específicas em diferentes contextos, principalmente no Sul Global. Daí a necessidade de definir-se esse fenômeno também de acordo com características urbanas de cidades dessas regiões e, em particular, as cidades latinoamericanas.

Referencias

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Theories of Gentrification: A study on their applicantion in the Global South

Marina Diógenes

Marina Guerra Diógenes is an Architect and Urban Planner and is a Master's candidate in Urbanism, at the Postgraduate Program in Urbanism at the Federal University of Rio de Janeiro, Brazil. Her research addresses the theme of gentrification, prioritizing the areas of Planning and Urban Form. marinagdiogenes@gmail.com
http://lattes.cnpq.br/4088053556533955


How to quote this text: Diógenes, M. G., 2021. Theories of gentrification: A study on their application in the Global South. Translated from Portuguese by Jacob Wolbert. V!RUS, 22, July. [online] Available at: <http://www.nomads.usp.br/virus/virus22/?sec=4&item=16&lang=en>. [Accessed: 07 December 2022].

ARTICLE SUBMITTED ON MARCH, 7, 2021


Abstract

Based on the reflection raised by Roy (2009), concerning the need for perspectives that go beyond the Euro-American urban theoretical axis, we understand that there is an attempt to fit contexts of the Global South into dominant existing theories, which do not always address all the issues and needs of those areas appropriately. With this critique in mind, we propose an investigation about the phenomenon of gentrification to understand which definition would cover the urban diversity of the Global South, particularly, in Latin America. This article brings an analysis of the concept of gentrification and its changes over time since the term was first coined by Glass (1964), through the studies of Smith, Zukin, Clark, Lees, and Siqueira, among others. We pose questions about neoliberal contemporary urban dynamics related to this phenomenon in the so-called peripheral countries. Our goal is to understand how this process occurs and its particularities in Latin American contexts. In doing so, this article highlights contributions and limitations of gentrification theories established by studies from the Global North and identifies the most relevant definitions to understand and to cover the diversity of the phenomenon, also in urban Global South.

Keywords: Gentrification, Global South, Definitions, Decolonize



1Introduction: in search of a rupture from Euro-American theoretical views

In an article published in 2009 by the British academic journal Regional Studies, the Indian urban planner Ananya Roy has already considered the need for a perspective guided by new geographies of theory that are attentive to the urban condition of the Global South. She advocated an approach capable of bringing theoretical specificities about urban spaces. Roy emphasizes that much of the theoretical apparatus used to understand urban issues is based on experiences of cities in the Euro-American axis. As a result, there is an attempt to fit Global South situations into such existing theories. She then questions whether it would be possible to use urban contexts from the Global South — which generally have less space at the center of debates — to reconfigure conventional theories by providing a more complete understanding of several urban phenomena. Roy's argument is more related to the scope of the analysis than to the pertinence of generalizing theories.

Considering the limitation of the scope of the analyses, in other words, that it is not enough to study urban issues in the Global South only as exotic and distant cases, this article proposes to rethink the application and relevance of the definitions of gentrification in the region. We share the view of geographers Loretta Lees and Hyun Bang Shin, and the architect and urban planner Ernesto López-Morales in the book Planetary Gentrification (2016) as they present gentrification as a generalized model of neoliberal urbanism that is mass produced and consumed in the 21st century. We understand that this phenomenon can also be seen as a trace of the capitalist urban planning conceived and practiced since mid-19th century, which favors the interests of the private sector. Only then we will be aware of the various segregating forms of space production.

Lees, Shin, and Lopez-Morales (2016) gather issues, investigations, and conclusions from a broad and essential research on gentrification. The research was developed through studies of regions outside the usual Euro-American perspective, which is already so investigated. In addition to Europe and North America, these regions include Latin America, Southeast Asia, and East Asia. The authors analyze gentrification from a more global angle and from more critical economic, political, and social perspectives. We believe that it is time to “decolonize” the literature regarding urban theories, leaving the Euro-American hegemonic point of view and paying attention to the Global South, seeking to contribute especially to thoughts and understandings about Latin American territories. However, the “decolonization of thought” proposed here does not mean ignoring or dismissing everything that is known about the contexts of countries of the Global North. For example, as Lees, Shin and López-Morales (2016) emphasize, we ask what aspects of the Global South, as well as those of the North, can enrich concepts, theories, and characterizations of the phenomenon of gentrification in peripheral countries.

These countries had diverse colonization and industrialization processes, which reflect in socioeconomic differences and several patterns of urban occupation. There are also particularities and strong contrasts related to precarious settlements and slums, which have specific spatial and infrastructure conditions. These conditions imply flows and dynamics that can interfere with gentrification in these cities. This way, Roy (2009) elucidates that the problem is not related to the application of the theories and ideas of the Global North to the Global South, but that these theories are limited by the urban contexts of these countries and may not cover all urban variations and needs of Global South countries, considering other kinds of contradictions and problems:

The critique of the EuroAmerican hegemony of urban theory is thus not an argument about the inapplicability of the EuroAmerican ideas to the cities of the global South. It is not worthwhile to police the borders across which ideas, policies and practices flow and mutate. The concern is with the limited sites at which theoretical production is currently theorized and with the failure of imagination and epistemology that is thus engendered (Roy, 2009, p. 820).

From this perspective, this paper seeks to highlight contributions and/or limitations of the gentrification theory already established by studies of the Global North and to identify definitions that can be used to understand the cases of the phenomenon in the Global South, especially in Latin America.

2On the definition of gentrification and its changes over time

The sociologist Ruth Glass (1964) was the first to coin the term gentrification, in her introduction to the book London: aspects of change. This book offers, through the perspective of various authors, analyses and studies about London during the years of 1950 and 1960. Many of the urban issues addressed in that work still resonate today, helping to understand the changes that have occurred and the ones that are occurring in the English capital. Glass presents a view of London as a complex and diverse city, about which one cannot have a closed understanding. This way, she describes changes in urban dynamics that were occurring since the post-World War II period and coins the term gentrification to denote a new and distinct movement that she predicted could transform the central areas of the city. This dynamic, which she observed and highlighted, consisted of a process of replacing residents belonging to more proletarian and vulnerable classes in central neighborhoods, where housing units had undergone renovations carried out by new residents belonging to a middle class with higher economic power. This focus of the phenomenon — the rehabilitation of housing units by the new residents themselves and the location in urban centers — remained remarkable for some time and retains a more conservative character, especially when observing the process in today's cities.

It is worth mentioning that, although Glass coined the term in this book, she did not propose to theorize about gentrification. She was more interested in portraying aspects of urban changes in London. Even so, she describes the observed dynamics, gives a name to that dynamic, and lays out some important points for its understanding. In this light, Glass refers to gentrification as a process — a characterization that this article will also defend — and understands it as an inevitable phenomenon in London, due to demographic, economic, and political forces.

The geographer Neil Smith, who studied and published for decades on the subject, emphasized in 1979 the role of capitalist housing production and profit making, which often override the needs and demands for housing of the lower-income classes. He also points out that it is necessary to analyze the role of both producers and consumers in gentrification processes. Smith claims that the power of profit is more decisive than that of the demand for a certain product and that this demand can be “manipulated” with a certain level of success:

To explain gentrification according to the gentrifier’s actions alone, while ignoring the role of builders, developers, landlords, mortgage lenders, government agencies, real estate agents, and tenants, is excessively narrow. A broader theory of gentrification must take the role of producers as well as consumers into account, and when this is done, it appears that the needs of production — in particular the need to earn profit — are a more decisive initiative behind gentrification than consumer preference. This is not to say in some naive way that consumption is the automatic consequence of production, or that consumer preference is a totally passive effect caused by production. [...] Rather, the relationship between production and consumption is symbiotic, but it is a symbiosis in which production dominates (Smith, 1979, p. 540).

Although Smith already highlights the importance of understanding processes from a capitalist point of view of production, he remains following Glass' original and more conservative position. Smith (1982) defines gentrification as a process in which central working-class neighborhoods are rehabilitated by new residents, owners, or real estate developers of the middle class. In his 1982 publication Gentrification and Uneven Development, he makes that clear by making a theoretical distinction between “rehabilitation”, which, for him, is what occurs in gentrification, and “redevelopment”. For Smith, “redevelopment” does not involve the rehabilitation of old buildings, but it involves the construction of new buildings in these areas, using the infrastructure already in place and often demolishing old constructions.

However, Smith restructures his position in text The New Urban Frontier, published in 1996. Revealing a broader understanding of gentrification, Smith advocates that this distinction would no longer make sense. He argues that the phenomenon should not be restricted to the rehabilitation of housing in central areas by the middle class, since it is connected to a larger urban restructuring. In this restructuring, it would be a mistake to exclude “redevelopment” from the scope of gentrification. With this broader characterization of the process, it is possible to include evictions for the demolition of an existing structure, either due to structural degradation or simply because the construction of a new project on the site may yield higher profits. Although he presents this broader understanding that emphasizes the power of the capital, Smith (2000) maintains the spatial focus on central neighborhoods and on so-called developed countries. And he defines gentrification as a process of capital reinvestment in urban centers that aims to serve a wealthier class. In addition to residential rehabilitations and constructions, this process uses redevelopments with focus on businesses and services.

Smith, over decades studying this process, was a researcher with important contributions to the consolidation of the empirical understanding of the phenomenon and to its definition. He also linked his studies to a theoretical approach, aiming for an understanding based on significant urban issues from the period and updating his concepts when necessary. The French sociologist Catherine Bidou-Zachariasen, also a scholar of the process, follows Smith's perspective and acknowledges that: “[…] gentrification has now become the dominant form of contemporary urbanism, as well as ‘the’ urban policy of large Western cities, articulating public-private financial partnerships” (Bidou-Zachariasen, 2006, p. 32, our translation).

To the American sociologist Sharon Zukin (2010), gentrification is a replacement process, in which the rich replace the poor and in which social and cultural homogeneity replaces diversity. Zukin's research focuses on cities and on how they were remodeled through deindustrialization, gentrification, and immigration, bringing the capitalist view of the real estate market, the production of space, and the symbolic economy. In an earlier work, Zukin (1991) highlights that the central districts are transformed into new markets for shopping, services, culture, and housing for the upper classes, attracting new dynamics and populations to the area. This process thus increases the value of the built environment in the centers, increases investments and real estate pressure in historic buildings, and also increases the demand for restored buildings. Such demands lead to the replication of old architectural styles and, contrary to that, to the creation of historic districts for the protection of built heritage, as a way of trying to maintain the authenticity of these spaces, to resist replicas and to profit from authenticity.

The urban values proposed by the American journalist Jane Jacobs (2011) in her seminal book The Death and Life of Great American Cities, originally published in 1961 — such as smaller blocks, streets occupied by people, neighborhoods with local identity, and authenticity — became part of the ideal sought by gentrifiers. Thus, many of Jacobs’ social goals and the preservation of classes in their original neighborhoods have been lost over time. In this scope, Zukin (2010) observes the search for authenticity in New York and argues that, as this search is a practice more common to the middle and upper classes, it works exactly as a way of displacing the original inhabitants from what would be these authentic neighborhoods, as the rich move in and remodel the area for themselves. She also mentions that many of the so-called authentic neighborhoods, originally comprised of working classes, become neighborhoods of white ethnicity and middle and upper classes. In an attempt by these upper classes to benefit from the “authentic”, gentrification arises. Dominant groups use capital and culture to transform urban spaces, that is to say, authenticity itself can also be considered both a social product and a product to be consumed. From this perspective, whether real or produced, authenticity becomes a tool of power.

As city centers changed, so did gentrification. In the United States, for example, the attention given to old buildings with restorations — which were the basic characteristic of gentrification — was followed by a large number of new constructions, since the early 1980s, according to Zukin (1991). This fact is aligned to the idea that “redevelopment” is also part of gentrification, as agued by Smith (1982). Projects for new residential, commercial, and mixed-use buildings near historic districts take advantage of the desire for old buildings and for the diversity of urban centers.

3Gentrification and the Global South

With strong questions regarding today’s urbanism and gentrification, Lees, Shin and López-Morales (2016) address issues brought up by a diverse and essential body of research on gentrification, developed within their studies in different regions of the world. They bring an analysis from a more global standpoint — as the title Planetary Gentrification already indicates — and carry out less commonly discussed case studies, as they are located in the Global South or Asia. Through a more critical economic, political, and social perspective, the authors combine their regional experiences and global studies in urbanism, addressing gentrification beyond the common and already well-investigated Euro-American view. In agreement with Roy’s (2009) position, presented at the beginning of this article, the authors can deconstruct some very strict concepts, conclusions, and practices on the dynamics. Furthermore, they question the pattern of studies produced only in so-called developed countries, by foregrounding their understandings of urban experiences in various countries as a way of enriching the theory and concepts that underlie the phenomenon.

One of these concepts is displacement. It is important to consider it and understand it, given that it is an essential aspect of the gentrification process. It can be understood as an individual or a collective dynamic, voluntary or involuntary, according to its temporal or spatial dimension. Davidson and Lees (2010, cited in Lees, Shin and López-Morales, 2016) propose these two dimensions in their understanding of displacement. They emphasize that it should not be reduced to just the specific moment when a resident is forced or pressured to leave his home. They argue that it is a set of variable procedures that are articulated according to each context.

We also consider the very coherent understanding of displacement given by Angotti (2016):

Displacement is not only about people moving from one place to another, but also large numbers of people having to move and having little choice in the matter. It is about people being forced out by rising land prices and rents, which is happening all over the city to a greater or lesser degree. It can happen as part of a gradual gentrification process, or it can be connected to rapid changes sparked by large-scale development and rezoning (Angotti, 2016, p. 38).

According to this Angotti’s viewpoint, this article agrees with the understanding proposed by Lees, Shin and López-Morales that cities with different urban contexts have experienced economic, political, sociocultural, and geographic restructuring since the term was coined in 1964, and that gentrification itself has changed due to this. That made Glass' pioneering definition dated, less useful to understand gentrification's progression, and linked to the experience of a specific city. This fact limits the dynamics that occur nowadays. Thus, Lees, Shin and López-Morales (2016) follow the definition given by Eric Clark (2010), professor at Lund University, in Sweden, and which seems, indeed, more compatible with the current contexts:

Gentrification is a process involving a change in the population of land-users such that the new users are of a higher socio-economic status than the previous users, together with an associated change in the built environment through a reinvestment in fixed capital. The greater the difference in socio-economic status, the more noticeable the process, not least because the more powerful the new users are, the more marked will be the concomitant change in the built environment. It does not matter where, it does not matter when. Any process of change fitting this description is, to my understanding, gentrification (Clark, 2010, p. 25).

To understand the emergence and growth of gentrification globally and to recognize its differences in various contexts, we note that this globalization refers to an expansion both vertical (to smaller cities) and horizontal (to other geographical locations in the world). It is also necessary to deal with the economic aspects that guide and determine the means for gentrification to flourish. To this end, Lees, Shin and López-Morales (2016) devoted themselves to analyze contemporary economic issues, drawing attention to some of its aspects.

First, gentrification is a device of capital production on a global scale, as already mentioned here. Second, the phenomenon is also identified in the dynamics of “creative destruction”, given that the urban space is an efficient path for reinvesting surplus capital with a certain degree of profit stability. Thus, motivated by the inherent need for economic growth, obsolete structures (or ones that are not) are replaced by more recent ones, often encouraging urban dynamics that lead to a certain homogenization of space. A third aspect is the production of space focusing on the unequal capital accumulation and on disputes for profit through urban areas under requalification. These economic aspects merit further investigation, since they can reveal a lot about gentrification in specific areas.

It is relevant to highlight the relationship between the third aspect presented by the authors and the concept of rent gap, coined by Smith in 1979, as the disparity between the current rental income of a property in an area and the future potential rental income of that property. According to this view, the difference is positive for the market if the current profit potential is less than the future profit potential. This concept remains relevant today and can be identified in many cases around the world. As Lees, Shin, and López-Morales emphasized, we are at a time when it is difficult to deny or ignore the power of banks, developers, and the State, both in devaluation and in revaluation of urban spaces according to their interests. Gentrification seems to be the process to meet the needs of the financial capital and the real estate market. That is to say, the characteristic initially observed by Glass of the middle class gentrifier, as the primary agent arriving and renovating buildings for their own enjoyment, has much less strength in current times.

With a perspective closer to that of Clark (2010) and Zukin (2010) and using the concept of rent gap of Smith (1979), it is interesting to include here the point of view of the Brazilian architect and urban planner Marina Siqueira. Siqueira (2014, 2019) analyzes and theorizes on issues related to the applicability of the concept of gentrification in Brazil and proposes an analytical framework to identify its existence. However, before presenting this structure, we highlight some of her observations. She points out that the use of the term gentrification has increased in Brazil, especially since the organization and implementation of projects focusing on the mega-events that took place in the country: the 2014 FIFA World Cup and the 2016 Summer Olympics. Politicians, the media, and the population itself began to point out several socio-spatial transformations resulting from these large urban projects as part of the phenomenon. In addition, the Brazilian dictionary Caldas Aulete, in 2013 (cited in Siqueira, 2014), included the term in its definitions, making it clear that the neologism was becoming more known and understood as a process present in Brazil’s reality, going beyond its use only in the academic field.

The popularization of the term in Brazil raises the important issue of a generalization of application of a theory, in which the differences between the urban realities of the regions from where this theory was originated and of the regions on where it is being applied are not being considered. Examples of these differences are more specific socio-spatial contrasts, economic differences, and also in patterns of land use and occupation, among others. Siqueira (2014) notes that, in general, what happens is an import of the concept from the Global North and its use with an attempt to fit it to similar local examples. However, she argues, like many of the scholars already cited here, that gentrification is no longer limited and related only to historic or central urban neighborhoods, nor just to countries in the Global North. Although there is already a certain consensus as to the globalization of gentrification, there is still no agreement on a concept able to remain consistent when applied to various contemporary contexts. In other words, there is a difficulty in applying a standard definition of gentrification to a different socio-spatial context from which it arose. This way, Siqueira's analytical framework seeks to propose criteria capable of embracing the empirical diversity of the process, aiming at a definition that can be applied not only to more traditional urban examples but also to more recent cases of global gentrification.

Siqueira (2014, 2019) proposes a framework that seeks to identify the dimensions of gentrification capable of ensuring credibility and consistency to the definition. She then establishes three minimum criteria that delimit the concept and that must be able to be identified in each case: (1) possibility of producing a gentrifiable space (the condition), that is to say, in agreement with Smith's rent gap, there must be a difference between the capital accumulated with current land uses and the potential future profits from changes in use; (2) upward socioeconomic change of the local population with displacement of vulnerable resident groups (the dynamics), in other words, with the arrival of an incoming group (in-movers) with higher socioeconomic power, the concept is clearly bounded by class; and (3) changes in the built environment (the consequence) due to the needs and uses of the new residents, such that these physical changes are also related to a spatial solution to the accumulation of capital, releasing fixed capital from less profitable uses and users. Assuming that the importance of the author's perspective on the criteria exposed in this framework is understood, we question the determination of improvements in the built environment as "the consequence". We understand that they can be, in many situations, attractive to capital, being part of a redevelopment process and of the “condition” for gentrification, as being one of the causes for population displacement and replacement.

Siqueira's proposal is a structure of analysis consistent enough not to lose its theoretical relevance, while also allowing sufficient flexibility to cover different contexts. Her goal is centered on the need to understand gentrification as a process and not just as a result. In other words, the goal is not only to perceive the space generated with upward socioeconomic change but to understand that gentrification is a sequence of events and actions that produce urban growth pushing out the most vulnerable classes of residents. Therefore, she does not limit to the characteristics of particular locations, nor to specific socio-spatial conditions. It is important to emphasize that gentrification implies that space is occupied after displacement and reinvestment of capital. That is, demolitions and new constructions without later reuse can cause displacement but they cannot be considered gentrification. However, this occupation of space does not necessarily have to be for housing. There can be new and different uses that also have a segregating character and that also characterize gentrification: for example, stores, accommodation services, spaces for tourist activities, among others.

In contrast to points of view presented here, some authors, such as the American professors Lance Freeman and Frank Braconi, deny these replacements and displacements. Freeman (2005) and Freeman and Braconi (2004) question whether population displacements and replacements are indeed consequences always present and responsible for demographic changes in neighborhoods that experience the process. Freeman argues that neighborhoods can be gentrified without widespread displacement, as long as the in-movers have greater economic power and sufficient political expression to promote changes in the area. That is to say, in-movers, instead of out-movers, would be the driving force behind the change in the neighborhood. The condition for taking this point of view into consideration is the existence of situations in which there is a significant amount of underutilized housing units and buildings to receive a contingent of new residents and/or users capable of causing and maintaining, in the area, the economic, social, and spatial changes characteristic of gentrification. However, it seems clear that the replacement of a population with less economic power by another population with a higher power is one of the aspects that can be noted as part of the dynamics of the phenomenon, as emphasized by Siqueira. It is also worth noting that the studies addressed by Freeman and Braconi refer specifically to territories of the Global North, mainly the United States.

4Conclusions: Suggesting a wide-ranging definition of gentrification

Understanding the transformations that have occurred over time in territories of the Global South, from processes that lead to a clear concept of gentrification, seems to be the correct way to understand the phenomenon itself. Thus, although the importance of Glass' original definition is acknowledged, we emphasize here again that she starts from and is limited by observing events in a specific location — London’s central working-class neighborhoods — and more common to cities in the Global North. From this position, it is worth highlighting once again Roy’s (2009) emphasis on the fact that most urban literature involving cities from the Global South relies on a theoretical apparatus grounded in experiences of cities on the Euro-American axis. An attempt is therefore made to fit contexts specific to the Global South into existing theories. With the aforementioned process in mind, and as Siqueira (2014) shows, we clarify that the understanding of gentrification and its definition cannot be overly elastic, at the risk of losing its theoretical relevance. Hence, it is necessary to have a consistent understanding of how the process occurs in the Global South based on studies of the Global South itself.

From this perspective and keeping in mind Siqueira's argument that gentrification should be understood as a process and not just as a result, this section draws on the above analyses of theoretical views on gentrification to propose a definition that is able to cover the diversity of characteristics in the Global North and South. For a definition consistent with the dynamics of the Global South, especially Latin American ones, we paid attention to some of the most particular urban aspects of these contexts mentioned earlier, such as: different patterns of urban organization, use and occupation; large socioeconomic and infrastructure contrasts existing in close proximity; precarious settlements and slums.

Thus, we agree with and propose to use the aforementioned definition by Clark (2010), recognizing it as a proper and mature analysis about gentrification, about its transformations over time, its characteristics resulting from contemporary urban dynamics and its existence in the Global South. The author makes it clear that gentrification is no longer limited to urban and historic centers, nor to countries in the Global North. Clark (2010) defends a process in which there are: (1) a segregated substitution of population, with new users or residents having a higher socioeconomic status than their predecessors; and (2) physical improvements to the built environment through capital reinvestment. Clark is also keen to emphasize that, if the process presents these aspects, to him it is gentrification, no matter where it is.

We also deem that observing Smith’s (1979) concept of rent gap, which can be explained as the positive difference between the current rental income of land in an area and the future potential rental income of that land, is essential to the understanding of the phenomenon under discussion here and of why it becomes so attractive in the neoliberal system. The high possibility of profit resulting from interference in a built space is an important characteristic of gentrification today. The rent gap attracts investments and projects to these areas, which become of interest to capital and stimulate gentrification. In the contemporary neoliberal dynamics, the power of banks, developers and the State in urban processes benefiting their interests is increasing. Gentrification has remained a great asset to meet the needs of capital reinvestment, real estate market and financial capital.

From this viewpoint, individual gentrifiers and the middle classes, originally considered main agents of gentrification, lost ground in comparison to the power of State combined with the power of market, using real estate dynamics and cultural capital to interfere in urban processes of the Global North and South. Thus, it is worth noting that, for gentrification to happen, space must be occupied after displacement, that is to say, there must be a population replacement, and there can even be changes in uses. Renovations and new buildings without further occupation can cause displacement but cannot be considered gentrification. Gentrification is a process of population replacement and of restructuring, appropriation and upgrading of urban areas, which has gained even more strength with global and unified economic dynamics. However, there are particularities, agents, and specific social consequences in different contexts, especially in the Global South. Hence the need to define this phenomenon also according to urban characteristics of cities from these regions and, particularly, of Latin American cities.

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