Madres de Plaza de Mayo: estratégias narrativas e espaciais

Isadora Monteiro

Isadora Carraro Tavares Monteiro é arquiteta e urbanista e mestre em Arquitetura. Atualmente é docente do Instituto Federal de Minas Gerais - campus Santa Luzia, onde desenvolve pesquisa sobre as relações entre cidade, narrativa e gênero na América Latina, atuando nas fronteiras comuns do urbanismo, da literatura e das artes. isa.tavares.monteiro@gmail.com http://lattes.cnpq.br/2295509324506866


Como citar esse texto: MONTEIRO, I. C. T. Madres de Plaza de Mayo: estratégias narrativas e espaciais. V!RUS, São Carlos, n. 22, Semestre 1, julho, 2021. [online]. Disponível em: <http://www.nomads.usp.br/virus/virus22/?sec=4&item=5&lang=pt>. Acesso em: 07 Dez. 2022.

ARTIGO SUBMETIDO EM 7 DE MARÇO DE 2021


Resumo

Em 2021, o Madres de Plaza de Mayo, um dos mais resilientes e relevantes movimentos sociais da América Latina, completa 44 anos de existência. Sua luta por direitos humanos atravessa a história da cidade de Buenos Aires e cria um paradigma para a relação entre os movimentos sociais e a produção das cidades latino-americanas. O objetivo deste artigo é fazer uma investigação espacializada da trajetória do movimento e entender a relação existente entre as territorialidades produzidas pela atuação das Madres e a construção das narrativas que permeiam o grupo e suas integrantes. A partir dos conceitos de espaços de aparição, de Hannah Arendt, e de território, de Haesbaert, pretende-se mapear a jornada das Madres da casa à praça e, posteriormente, a outros territórios. A pesquisa utiliza como método a análise de poemas e prosas do livro El Corazón en la Escritura e o mapeamento dos espaços-chave da luta, localizando as trajetórias e espacializando as narrativas do grupo. O artigo conclui que os binários público-privado e materno-político, comuns nas análises de movimentos sociais encabeçados por mulheres, não dão conta da complexidade territorial e narrativa das Madres e não fazem jus à contribuição do movimento para uma outra produção do espaço e para o enfrentamento das mazelas comuns às nações latino-americanas.

Palavras-chave: Madres de Plaza de Mayo, Buenos Aires, Narrativa, Movimentos sociais, América Latina



1 Introdução

Em setembro de 1983, nos arredores da Plaza de Mayo, em Buenos Aires, os desaparecidos da ditadura argentina presenciaram sua primeira experiência de corporificação ao revés1. Pintadas sobre papel, a partir do molde de outros corpos (também ativistas e manifestantes), as silhuetas se espalharam por todos os lados: coladas em muros, fixadas em grades e penduradas pelas árvores, as grandes folhas de papel ocuparam a praça que há centenas de anos é palco de grandes acontecimentos políticos e sociais na capital argentina. A ação ficou conhecida como El Siluetazo e consistia na ideia simples de confeccionar e expor milhares de silhuetas “vazias”, em uma alusão direta aos corpos insepultos dos torturados e mortos pela ditadura, entre os anos de 1976 e 1983 (Figura 1). A proposta, idealizada pelos artistas Rodolfo Aguerreberry, Julio Flores e Guillermo Kexel, foi apresentada às Madres de Plaza de Mayo2 às vésperas da terceira Marcha de la Resistencia, realizada pouco antes do fim do regime (LONGONI; BRUZZONE, 2008). O movimento das Madres, encabeçado por mães que tiveram seus filhos sequestrados e mortos durante a ditadura militar, já despontava, então, como um dos mais relevantes movimentos sociais da América Latina. 

A parceria entre as Madres e os artistas na realização dos siluetazos revela uma importante faceta da estratégia de atuação do movimento no enfrentamento do autoritarismo e na busca por justiça pelos filhos. As Madres tiraram partido de uma matéria-prima que ultrapassa a materialidade dos cartazes e estandartes, e também a potência dos discursos e manifestos. Essa matéria-prima tornou-se a marca primordial de grande parte das lutas e organizações nascidas no período pós-ditatorial dos países latino-americanos: o espaço. A mobilização do espaço como ferramenta não deixa a cidade passar ilesa: a atuação das Madres de Plaza de Mayo, assim como a atuação de muitos outros movimentos sociais da América Latina, faz um corte no espaço urbano, altera as dinâmicas da vida na cidade e funda um novo paradigma no que diz respeito à potência das mobilizações sociais, na criação de uma outra produção do espaço.

Fig. 1: El Siluetazo, realizado em 1983, durante a III Marcha de la Resistencia. Fonte: Eduardo Gil, 1983. Disponível em: https://www.eduardogil.com/obras/siluetazo/14.jpg/. Acesso em: 8 mai. 2021.

O movimento das Madres de Plaza de Mayo, como já anuncia o seu nome, nasce geograficamente situado, espacializado, mobilizando esse recurso urbano que sempre foi paradigmático em solo latino-americano. Reunidas na Plaza há 44 anos, suas integrantes marcham todas as semanas para não deixar esquecer. A territorialização, manifesta através do movimento descrito no espaço, que caracteriza as rondas de todas as tardes de quinta-feira, passaram a ser uma espécie de carimbo, a marca registrada de um movimento social novo e formado quase exclusivamente por mulheres. A espacialização, no entanto, não figura como a única estratégia de ação das Madres de Plaza de Mayo. A ela, soma-se também a reivindicação do lugar de narradoras, seja da história de seus filhos e das atrocidades cometidas durante a ditadura militar, ou da própria história e do papel que ocupam, como mulheres e como movimento. As marchas silenciosas na praça, as fotos estampadas em grandes totens, os discursos proferidos em eventos, as entrevistas e documentários elaborados ao longo dos anos, são todos, à sua maneira, uma forma de contar as histórias que a narrativa oficial silenciou.

Dentre todos esses dispositivos, um em específico se destaca por seu caráter fundamentalmente narrativo, uma abordagem quase literal desse desejo de contar e recontar histórias. No início da década de 1990, o escritor argentino Leopoldo Brizuela organizou a primeira oficina literária em parceria com as Madres, parte de um projeto de encontro com a escrita, que tinha por objetivo apresentar às participantes uma nova ferramenta de expressão e de registro (PONZIO, 2009). Nessas oficinas literárias (que aconteceram ao longo das décadas de 1990 e 2000), diversos textos e poemas foram produzidos pelas Madres e, posteriormente, publicados em forma de livro. Entre eles, pode-se destacar Nuestros Sueños (1991), El Corazón en la Escritura (1997) e Pluma Revolucionária (2007). 

Os exemplos dos siluetazos e das oficinas de escrita literária deixam claro que esse encontro entre narrativa e espaço está no cerne das estratégias de ação das Madres de Plaza de Mayo. Com isso em vista, o objetivo deste artigo é fazer uma investigação espacializada da trajetória do movimento e entender a relação existente entre essas territorialidades produzidas pela atuação das Madres e a construção das narrativas que permeiam o grupo e suas integrantes. A partir dos conceitos de espaços de aparição, de Hannah Arendt, e de território, de Haesbaert, pretende-se mapear a jornada das Madres da casa à praça e, posteriormente, a outros territórios, através de um viés crítico que não se contenta com a dicotomia doméstico-público ou materno-político.

Para localizar essas trajetórias e narrativas, a pesquisa recorre a dois principais métodos: 

Seleção e análise de poemas e textos em prosa produzidos pelas Madres durante as oficinas literárias das décadas de 1990 e 2000, concentrados, em sua maioria, no livro El Corazón en la Escritura (ASOCIACIÓN MADRES DE PLAZA DE MAYO, 1997). A seleção priorizou as produções textuais que mobilizam temas espaciais e recorrem às imagens da casa, da praça e de outros espaços-chave da luta como uma forma de narrar a trajetória das Madres e articular as questões do movimento com suas práticas territoriais. Além da produção literária, outros textos e depoimentos foram coletados em entrevistas — concedidas a pesquisadores e à mídia ao longo desses 44 anos — e em materiais institucionais produzidos pelos muitos braços que o movimento tem hoje3;

Mapeamento dos espaços-chave da luta das Madres, assinalando sobre a malha de Buenos Aires os pontos nodais da atuação territorial do movimento (Figura 2). Para a produção da cartografia, foi feito um levantamento dos locais em que alguns dos filhos e netos das Madres foram raptados ou vistos pela última vez4. Foi incluída também a geolocalização da Plaza de Mayo, da Ex-ESMA e da Villa 15, locais que serão explorados ao longo dos itens 2 e 3 deste artigo. A produção do mapa faz parte da estratégia de espacialização da pesquisa, sendo fundamental para a interpretação do entrecruzamento entre narrativa e território.

A pesquisa propõe que a trajetória, tanto espacial quanto narrativa, do movimento não se encaixa nas linearidades que comumente rondam as análises realizadas sobre o grupo. Para além dos vetores casa-praça e materno-político, propõe-se uma interpretação da trajetória das Madres como uma rede de vetores territoriais e narrativos em constante expansão, uma rede que não obedece à normativa das dicotomias comumente impostas aos movimentos encabeçados por mulheres, a partir da metade do século XX. 

2 Da casa à praça

Hannah Arendt (1998), em A Condição Humana, fala sobre o que constitui a esfera pública e quais relações essa esfera estabelece com seus sujeitos. Utilizando a polis grega como medida para a noção de público, a autora define o que ela chama de espaços de aparição, o espaço onde “(...) eu apareço aos outros e os outros aparecem a mim, onde o homem existe não como mero ser vivo ou coisa inanimada, mas fazendo sua aparição explícita” (ARENDT, 1998, p. 198-199, tradução nossa). Após traçar um longo panorama histórico sobre a mudança das esferas políticas e sociais e suas relações com a esfera pública ao longo dos tempos, ela chega à conclusão de que o próprio tecido do que consideramos que seja a realidade é definido por essa “capacidade de aparecer”, de atestar, através da presença do outro, o que vemos e ouvimos. 

A escolha da Plaza de Mayo como espaço chave da luta das Madres se justifica com facilidade frente ao conceito de espaços de aparição. Em um contexto de repressão e autoritarismo, no qual a barbárie e o genocídio contavam com elaborados mecanismos de Estado para permanecerem no anonimato, é de se esperar que um movimento pautado em trazer essas atrocidades à luz recorresse a este espaço de aparição, não apenas por uma questão óbvia de visibilidade, mas para que a partilha desse espaço comum mantivesse viva, para aquelas mulheres, a certeza de que essa era, de fato, uma realidade. 

No entanto, apesar de as análises espaciais sobre o movimento das Madres estarem usualmente focadas no espaço da praça, é importante lembrar o papel que a casa exerceu (e ainda exerce) na construção das redes de mobilização da organização. A casa, como espaço e como lugar simbólico, é um elemento importantíssimo na trajetória do movimento das Madres de Plaza de Mayo. Presente antes mesmo da gênese do grupo — visto que grande parte das ações que culminaram no rapto dos desaparecidos acontecia dentro de suas próprias residências —, a casa teve sua semântica transformada, alargada e adaptada, acompanhando as mudanças sofridas pelo próprio movimento. 

A casa, símbolo do familiar, da maternidade e da performance da feminilidade na narrativa totalizante e colonizada da história das mulheres, aparece em meio ao ativismo das Madres com novas funções e significados. O momento que inaugura a casa como um dos pontos nodais da trajetória do movimento já a introduz como cenário de terror, a partir da invasão e sequestro dos filhos por parte das forças militares, sob a justificativa de que eram subversivos e inimigos da nação (alguns desses locais estão assinalados na figura 2). Pontuado em diversos relatos e entrevistas, esse momento geralmente se configura como a última vez em que mães e filhos viram uns aos outros.

Fig. 2: Mapa dos locais onde os filhos e netos das Abuelas de Plaza de Mayo foram raptados ou vistos pela última vez (1975-1979). Mapa autoral, elaborado a partir das informações disponíveis em: https://www.abuelas.org.ar/caso. Acesso em: 8 mai. 2021. Fonte (base cartográfica): Open Street Maps. Disponível em: https://bit.ly/3430I7a. Acesso em: 8 mai. 2021.

A brutalidade das invasões dos militares ao ambiente da casa se torna, então, metáfora para o público invadindo o privado, o político se misturando ao materno. Em meio às rememorações dos momentos familiares, a imagem dos “milicos” arrombando a porta surge como o momento em que a ditadura militar deixava de ser apenas palavra ou imagem para se materializar dentro do espaço físico e simbólico da casa. Essa questão se coloca de forma muito clara na fala de Porota Colás Meroño, em um trecho do livro El Corazón en la Escritura, no qual diversas Madres partilham memórias em torno de refeições e receitas que faziam em família:

Antes, quando contávamos a experiência de desaparição de nossos filhos, eu dizia que havia muitas comidas que eu já não fazia: uma era esta. Porque até nestas coisas que parecem tão insignificantes, e não o são, a ditadura militar também influenciou. Nos desfizeram a família, já não podíamos nos reunir, uns não estavam e outros não tínhamos vontade, comer em família e com amigos é conversar, rir, brincar, é projetar, é amar. (ASOCIACIÓN MADRES DE PLAZA DE MAYO, 1997, p. 26, tradução5 e grifo nossos)

No entanto, é a partir da mesma casa que muitas dessas mães começam a construir sua caminhada como Madres, organizando reuniões para tecer estratégias e trocar experiências. Sobre o primeiro cenário (o trágico), passa-se a construir um novo, de união e organização. Depois de se cruzarem e se conhecerem nos corredores e salas das repartições públicas, para onde se encaminhavam diariamente em busca de informações, começaram a se encontrar em outros lugares, especialmente em apartamentos e casas cedidos pelas próprias Madres participantes. 

As Abuelas relembram essas reuniões em um dos trechos do livro La Historia de Abuelas: 30 años de búsqueda:

Quando se reuniam em casas particulares tomavam precauções para não serem descobertas. Se era em um edifício, se juntavam na hora da siesta para não cruzarem com o porteiro. Evitavam usar o elevador por causa dos ruídos, baixavam as persianas e falavam quase sussurrando. Muitas delas deixaram de fumar para que o cheiro não as denunciasse. “O primeiro lugar onde começamos a funcionar foi o apartamento que as Madres tinham, elas nos emprestaram um cômodo. Ficamos lá por um tempo, mas como era muito pequeno, quando pudemos, alugamos um apartamento na Montevideo, número 700 [Figura 3]. Também nos reuníamos nas casas de outras Abuelas (...)”, conta Raquel [Radío de Marizcurrena]. (ABUELAS DE PLAZA DE MAYO, 2007, p. 15, tradução nossa6).

Fig. 3: Abuelas reunidas no apartamento da rua Montevideo, 700, década de 1980. Autor desconhecido. Fonte: ABUELAS DE PLAZA DE MAYO, 2017, p. 59. Disponível em: https://www.abuelas.org.ar/publicacion?pagina=1. Acesso em: 8 mai. 2021.

Falando sobre esta mudança do papel da esfera privada e da inserção do ativismo no cotidiano das Madres, Hebe Bonafini, em entrevista, relembra a casa como um lugar em que “mulheres como nós viviam em um mundo isolado, que acabava na porta da frente [...]... quando você vive assim, você não sabe quais direitos tem... você não entende nada” (HOWE, 2006, p. 46, tradução nossa). A memória da casa como espaço de restrição e isolamento não aparece por acaso. Em um contexto de ditadura e autoritarismo, o reduto familiar do lar funcionava, na narrativa e na prática, como um centro anti subversão, um refúgio contra a rebeldia, onde o papel feminino asseguraria o conforto e a educação dos jovens.

Apesar de ter acontecido de diferentes formas para cada Madre, o rompimento dessa esfera para permitir o engajamento na procura dos filhos — que já se iniciara a partir do momento em que a luta encontrou abrigo dentro das casas e apartamentos — geralmente envolvia o enfrentamento de maridos e familiares. Estela Carloto, líder das Abuelas de Plaza de Mayo, conta em entrevista que

uma por uma, enquanto percebíamos o que estava acontecendo e chegamos à devastadora conclusão de que nossos filhos não voltariam para casa ou entrariam em contato, percebemos que não poderíamos continuar passivas. Começamos a tomar atitude. Um dia, por exemplo, eu disse para o meu marido: “você fique em casa — eu estou saindo”. Eu fui falar com advogados, políticos e soldados, tentando descobrir onde estava minha filha. Ninguém conseguia dizer sobre seu paradeiro. (CARLOTTO, 2017, p. 488, tradução nossa)

Esse entre-lugar ocupado pelas Madres, essa ousadia em sair da esfera da casa e, ao mesmo tempo, a insistência no papel de mãe protegeu seu ativismo da mira direta das forças militares, pois persegui-las e torturá-las seria perseguir e torturar os “anjos do lar”. Essa localização entre a casa e a praça foi usada como estratégia pelas Madres, que se apoiavam nas imagens do ideal materno para negociar a permanência na luta. Mas permanecer em casa, mesmo que trazendo reuniões e outras Madres para dentro dela, passou a não ser suficiente. Chegou o dia em que disseram “chega, chega de esperar, chega de olhar pela janela, é preciso sair para a rua” (ASOCIACIÓN MADRES DE PLAZA DE MAYO, 1997, p. 61, tradução nossa7). Da mesma forma que o regime entrou em suas casas, levando-lhes os filhos, elas iriam também sair, iriam às ruas, à praça, iriam, elas também, mesclar maternidade e política, privado e público. Ao sair da esfera da casa, elas faziam a transição da luta individual para a luta coletiva (Figura 4). O depoimento de Hebe Bonafini aborda essa mudança e a escolha da praça:

Muita gente se pergunta por que, havendo outras instituições, as Madres foram à Plaza, e por que nos sentimos tão bem na Plaza. E isto é uma coisa que pensamos agora, não pensamos no dia. E quanto mais falo com as pessoas que sabem mais do que nós, mais nos damos conta de por que se criaram as Madres. E nos criamos porque não nos sentíamos bem em outras instituições; havia sempre um escritório de colocar medo, havia sempre uma coisa mais burocrática. E na Plaza éramos todas iguais. Esse “o que aconteceu?”, “como foi?”. Éramos uma igual à outra; a todas nos tinham levado os filhos, com todas se passava o mesmo, tínhamos ido aos mesmos lugares. E era como se não houvesse nenhum tipo de distanciamento. Por isso é que a Plaza nos agrupou. Por isso é que a Plaza se consolidou. (MADRES DE PLAZA DE MAYO, 1997, p. 16, tradução8 e grifo nossos)

Quando decidiram, pela primeira vez, andar em círculos no centro da Plaza, em uma estratégia para permanecer no local e confundir os policiais, iniciavam uma marcha ainda incipiente, mas que duraria por muitas décadas, até os dias atuais, alterando a dinâmica do espaço público, exigindo a pausa para o olhar e vincando o chão de ladrilho, semana após semana, para garantir que o esquecimento não é uma opção. 

Fig. 4: Abuela Clara Jurado, em protesto na Plaza de Mayo. Data desconhecida. Autor: Daniel García. Fonte: ABUELAS DE PLAZA DE MAYO, 2017, p. 37. Disponível em: https://www.abuelas.org.ar/publicacion?pagina=1. Acesso em: 08 maio 2021.

A partir deste momento, a Plaza de Mayo se torna a perfeita definição do conceito de espaço de aparição, de Hannah Arendt. A transferência da luta para a esfera pública se relaciona diretamente à ideia de que “toda atividade performada em público consegue atingir uma excelência que nunca seria equiparada no privado; para a excelência, por definição, a presença de outros é sempre requerida, e essa presença precisa da formalidade do público (...)” (ARENDT, 1998, p. 49, tradução nossa). A possibilidade de ver e ser vista na praça (em comparação com a privacidade — agora indesejada — do lar) é relatada no poema de Hebe Bonafini (ASOCIACIÓN MADRES DE PLAZA DE MAYO, 1997, p. 70):

Vienen a mi mente tantas puertas
las de mi casa de infancia, siempre sin llave
las de mi escuela, abiertas, limpias
las de la sala de partos, fuertes, suaves, de vaivén

y de repente las de las comisarías, los cuarteles y la
iglesia
cerrándose con fuerza en nuestras propias caras sabiendo que
allí detrás seguro estaban nuestros hijos

Cuántas puertas cuánta vida
cuánta muerte detrás de ellas.

Por eso lo más lindo es la Plaza
porque no tiene puertas.
Por eso allí todo es más claro.

A modificação da paisagem da Plaza, que ocorre através da presença e da movimentação dos corpos das mulheres ao redor da pirâmide, vai muito além de uma mobilização estética da imagem da praça como um elemento da luta política. A ação presencial das Madres vira estratégia de territorialização, uma espacialização que se tornou fundamental para a longevidade do movimento; simultaneamente, essa mesma presença modifica também o próprio espaço, a partir do momento em que sua ocupação interfere nas interlocuções com o entorno e ressignifica o lugar da praça para a população da capital. Sobre esse fenômeno e sua relação com o conceito de território, Haesbaert comenta:

Podemos afirmar que o território é relacional não apenas no sentido de ser definido sempre dentro de um conjunto de relações histórico-sociais, mas também no sentido, destacado por Godelier, de incluir uma relação complexa entre processos sociais e espaço material (...). Além disso, outra consequência muito importante ao enfatizarmos o sentido relacional do território é a percepção de que ele não implica uma leitura simplista de espaço como enraizamento, estabilidade, delimitação e /ou “fronteira”. Justamente por ser relacional, o território é também movimento, fluidez, interconexão — em síntese e num sentido mais amplo, temporalidade. (HAESBAERT, 2004, p. 82)

A visualização da Plaza de Mayo como território das Madres, portanto, não se encerra em si mesma e não pressupõe que a mera ocupação do espaço seja o caráter fundamental para que esse laço territorial seja estabelecido. O que define a territorialização do movimento é a convicção de que os muitos anos de ocupação daquele espaço físico fez com que os processos sociais a ele conectados fossem modificados, em uma equação que nunca se balanceia por completo. María del Carmen Berroca, utilizando a metonímia do banco da praça, exemplifica essa ideia, de forma poética:

Os bancos da Plaza de Mayo sabem que, ainda que não haja ninguém na Plaza, nossos filhos estão lá, sempre presentes, e estão lá porque a Plaza não tem grades e eles amavam a liberdade e lutavam por ela. Os bancos da Plaza têm vida. Essa vida somos nós que damos. (ASOCIACIÓN MADRES DE PLAZA DE MAYO, 1997, p. 75, tradução9 e grifo nossos)

A definição de território desenhada por Haesbaert (2004), no entanto, também deixa pistas para a compreensão do que considero uma segunda fase da trajetória do movimento. Assim como no conceito de Haesbaert, a construção relacional de um território das Madres não pressupõe o seu arraigo às fronteiras da Plaza de Mayo. O movimento, a fluidez e a interconexão inerentes ao conceito levaram a luta a outros espaços de aparição possíveis e modificaram não apenas as arenas de atuação e ocupação, mas os próprios limites do que as Madres consideravam suas causas de luta. Ao longo dos anos, principalmente após o processo de democratização, o espaço deixa de ser apenas ferramenta ou dispositivo e se torna, ele mesmo, parte das causas pelas quais lutam as Madres. Há mais de 40 anos vivendo no espaço entre a praça e a casa, tensionando territórios e temporalidades, as Madres garantiram que o raio da caminhada em círculos se expandisse, abraçando outras causas, outros desafios, extravasando os contornos da praça e se espalhando por outros territórios. 

3 Para além da casa e da praça

Lynn Stephen (1997), em seu livro Women and Social Movements in Latin America: Power from Below, argumenta sobre a divisão da vida social, política, cultural e econômica em uma esfera privada-feminina e uma esfera pública-masculina. Para ela, é preciso existir uma “(...) análise alternativa, que ligue os mundos social, político, econômico e cultural das mulheres através de uma unidade de experiência, não uma dicotomia público/privado” (STEPHEN, 1997, p. 7, tradução nossa). Analisar a trajetória das Madres como uma jornada linear da casa — privada, materna e feminina — à praça — política e inerentemente masculina — encapsula seu ativismo em uma dicotomia que, além de imprecisa, veda outras possibilidades de leitura de suas estratégias narrativas e espaciais. 

Além de terem desafiado o espaço físico e simbólico da casa como um reduto de privacidade e passividade — levando para dentro dela os encontros e reuniões do movimento — e da praça como essa arena pública e masculina — levando para dentro dela seus corpos de mulher e de mãe —, as Madres não limitaram suas investidas espaciais a esse vetor casa-praça. Duas iniciativas, realizadas após o período de redemocratização, podem ser citadas para exemplificar esses desvios e expansões das estratégias utilizadas e das causas defendidas pelo movimento. 

O primeiro transbordamento para além dos contornos da Plaza que exemplifica esse movimento de expansão é iniciado ao fim da ditadura militar, na década de 1980, e permanece, até os dias de hoje, como importante arena de debates, controvérsias e, principalmente, novas e potentes reflexões. A menos de 15 quilômetros da Plaza de Mayo, um dos lugares que protagonizou a barbárie e a violência do regime militar argentino permanece como uma marca histórica no tecido urbano de Buenos Aires. A ESMA (Escuela de Mecánica de la Armada), que era, até o início da ditadura, apenas mais uma das instituições militares da cidade, transformou-se no maior centro clandestino de encarceramento e tortura da última ditadura militar argentina (ver localização no mapa da Figura 2). A estimativa é de que 5.000 pessoas foram “desaparecidas” dentro dos edifícios que compunham a escola. (PAUCHULO, 2009) 

Com o fim do regime, propostas de demolição e de construção de um parque no local foram ferrenhamente opostas pelas famílias das vítimas, que entendiam a iniciativa como uma forma de apagamento dos vestígios forenses e da memória dos que tinham sido torturados e mortos no local (FELD, 2017). Diante das propostas, as Madres de Plaza de Mayo direcionaram suas articulações para garantir que aquele espaço, cenário da tortura e assassinato dos filhos, fosse também um território das Madres por direito. Após anos de debates e mobilizações, em 2004, no aniversário de 28 anos do golpe militar, o espaço foi definitivamente desocupado pelos militares e se tornou um Espacio para la Memoria y para la Promoción y Defensa de los Derechos Humanos (FELD, 2017). Dentro do movimento das Madres, no entanto, estabeleceu-se um dilema entre os valores de passado e de presente/futuro, abrigados pelo local: enquanto integrantes dos grupos Línea Fundadora e Abuelas acreditavam que o espaço devia ser deixado intacto, para servir como prova judicial dos crimes cometidos durante a ditadura, as Madres da Asociación apostavam em uma abordagem “de vida”, na qual a memória seria preservada e propagada através de atividades e intervenções artísticas e culturais10.

Em 2007, mesmo com o fim definitivo das atividades militares no perímetro da ex-ESMA, a partilha dos edifícios entre diferentes associações e a decisão de manter os principais locais de tortura e encarceramento praticamente intactos, os tensionamentos sobre esse espaço não se esgotaram. A ex-ESMA, envolta, portanto, em um paradigma de temporalidade em que passado, presente e futuro se confrontam e as possibilidades de ocupação colocam os atores em movimento, atende aos requisitos da definição de território delineada por Haesbaert (2004). Sua semântica de espaço-problema, criador de dissenso, reorganiza (ou, no melhor sentido, desorganiza) a lógica territorial centrada no eixo casa-praça, abrindo-se como uma nova possibilidade de ocupação e de atuação para o movimento.

No mesmo ensejo de expansão das causas e territorialidades abraçadas pelas Madres, o segundo transbordamento para além dos contornos da Plaza é a iniciativa Sueños Compartidos. Em 2005, após um incêndio destruir diversas áreas no bairro conhecido por Villa 15, a Asociación Madres de Plaza de Mayo deu início ao programa, que tinha por objetivo reconstruir as moradias e oferecer empregos e capacitação na área da construção civil para a comunidade (ver localização no mapa da Figura 2). A região do bairro onde nasceu a iniciativa também é conhecida como Ciudad Oculta. Segundo o suplemento Cortamos el Cordón, publicado pela Asociación e dedicado à história dos projetos desenvolvidos pelo grupo, a alcunha é quase literal: durante a Copa do Mundo de 1978, os militares levantaram um muro em torno da comunidade, para esconder dos turistas “a miséria planejada em um país que se autoproclamava direito e humano” (BERENGUER, 2011, p. 1, tradução nossa11). O programa Sueños Compartidos, mais de 30 anos depois, reclamou a Ciudad Oculta, escondida e silenciada pela ditadura militar, como um território possível das Madres. No projeto piloto da Villa 15, além da construção de moradias, o programa previa também a reativação do Elefante Blanco, um hospital abandonado que teve as obras retomadas pela Asociación, para virar uma espécie de centro comunitário, onde se instalaram cozinhas, refeitórios, ginásio, atelier de costura e creche para as crianças dos trabalhadores envolvidos nas obras (BERENGUER, 2011).

O projeto, posteriormente, passou a integrar um programa de financiamento do governo federal argentino, que destinava verbas para iniciativas de produção desmercantilizada de moradia. Mais de 20 novos empreendimentos foram construídos em diversas cidades do país, expandindo o raio de atuação do programa para além dos contornos de Buenos Aires (PALOMBI, 2019). À maneira dos movimentos circulares performados no centro da praça, a trajetória de atuação das Madres volta, então, ao seu ponto de partida: a casa. No entanto, esse espaço, agora, aparece transmutado em uma causa coletiva, um território comum, no qual o binômio privado-feminino não vigora.

A essas duas experiências, somam-se muitas outras: a criação da Universidad Popular Madres de Plaza de Mayo, a Biblioteca Popular Julio Huasi, a Librería de las Madres, entre outras. As iniciativas citadas, encabeçadas pela Madres da Asociación, fazem parte de um projeto de “memoria de acción” (PAUCHULO, 2009, p. 33), que surge a partir da expansão dos objetivos do movimento para além da busca pelos desaparecidos e que aposta na continuidade da luta dos filhos por justiça social e liberdade como a melhor forma de celebrá-los e rememorá-los. É importante também citar a imensa rede internacional de colaboração, que transportou a Plaza de Mayo pelo mundo e que transformou a causa das Madres em um modelo de luta por direitos humanos.

4 Conclusão

“(...) A esfera política surge diretamente da ação conjunta, da ‘partilha de palavras e feitos’. Assim, a ação não só tem uma relação íntima com a parte pública do mundo que é comum a nós todos, mas é exatamente a atividade que o constitui” (ARENDT, 1998, p. 198, tradução e grifo nosso). A reflexão de Hannah Arendt abre uma nova possibilidade de entendimento para a trajetória de luta das Madres de Plaza de Mayo: mais do que uma caminhada do privado ao público, da casa à praça, a territorialização produzida pelos corpos das Madres é exatamente o que cria o público, o que compõe a urdidura da esfera política. 

Enquanto escreviam poemas ou marchavam na Plaza (e para além dela), o movimento mobilizou estratégias narrativas e espaciais não apenas para ocupar um espaço sitiado e masculino, mas para construir uma possibilidade de outro território comum. Na expansão dos objetivos e desdobramentos do movimento, o caráter da atuação das Madres também se atualiza, como é possível observar nos slogans da Marcha Anual de la Resistencia, que passam a exigir justiça social, combate à fome e ao desemprego, o não-pagamento da dívida externa e a união latino-americana. 

Em um continente que ainda luta contra suas heranças coloniais, que sofre com os avanços neoliberais e que acompanha, com temor, o despertar de uma nova onda fascista, sempre à espreita, a resiliência das Madres de Plaza de Mayo e a sua luta incessante, sempre em expansão, são pontos de ancoragem, um precedente-presente que desafia as configurações políticas, sociais e urbanas das cidades latino-americanas e contribui para o coro de movimentos sociais que resistem em busca de justiça e liberdade no Sul Global.

Referências

ABUELAS DE PLAZA DE MAYO. Abuelas de Plaza de Mayo: photographs of 30 years in Struggle. Buenos Aires: [s.n.], 2017. Disponível em: https://www.abuelas.org.ar/archivos/publicacion/APM%20photographs%2030%20years%20Translated%20
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. Acesso em: 9 maio 2021.

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1 As reflexões desenvolvidas neste artigo foram elaboradas no contexto da pesquisa Narrativas Cartográficas: espaço e literatura de autoria feminina na América Latina (MONTEIRO, 2019). Agradeço a orientação e as contribuições preciosas de Renata Moreira Marquez.

2 Ao longo do artigo, o nome do movimento será grafado em espanhol, seu idioma original, para que se mantenham suas noções semânticas e referências espaciais. O mesmo vale para a expressão Plaza de Mayo. (PONZIO, 2009)

3 O movimento das Madres de Plaza de Mayo, já em seu primeiro ano, ganhou um subgrupo chamado Abuelas de Plaza de Mayo. Ele reunia as Madres que, além de estarem à procura dos filhos, buscavam também pelo paradeiro dos netos, que, em sua maioria, ainda estavam sendo gestados no momento do rapto. Em 1986, no entanto, devido a divergências em relação à exumação ou não das valas comuns encontradas após o julgamento dos principais oficiais da ditadura e às divergências referentes à continuidade do movimento após a redemocratização, o movimento das Madres se dividiu em dois grandes grupos: a Asociación Madres de Plaza de Mayo e Madres de Plaza de Mayo – Línea Fundadora (para mais sobre a história do movimento, ver GORINI, 2006, 2008). No contexto do artigo, no entanto, entende-se o movimento das Madres ainda como uma potência de unidade, por acreditar-se que todos os grupos, mesmo em suas divergências, colaboraram na construção da luta e no desenvolvimento das estratégias espaciais e narrativas.

4 Levantamento realizado a partir dos dados disponibilizados no website das Abuelas de Plaza de Mayo, na seção Nuestros Nietos. Disponível em: https://www.abuelas.org.ar. Acesso em: 9 mai. 2021.

5 Do original em espanhol: “Antes, cuando contábamos la experiencia de la desaparición de nuestros hijos, yo decía que había muchas comidas que yo ya no hacía: una era ésta. Porque hasta en estas cosas que parecen tan insignificantes, y no lo son, también influyó la dictadura militar. Nos deshicieran la familia, ya no nos podíamos reunir, unos no estaban y otros no teníamos ganas, la comida en familia y con amigos es charlar, es reir, es bromear, es proyectar, es amar.”

6 Do original em espanhol: “Cuando se reunían en casas particulares tomaban recaudos para no ser descubiertas. Si era en un edificio, se juntaban a la hora de la siesta para no cruzarse con el encargado. Evitaban usar el ascensor por los ruidos, bajaban las persianas y hablaban casi susurrando. Muchas de ellas dejaron de fumar para que el olor no las delatara. ‘El primer lugar donde empezamos a funcionar fue el departamento que tenían las Madres, quienes nos prestaron una habitación. Estuvimos ahí un tiempo, pero como era muy chica cuando pudimos alquilamos un departamento en Montevideo al 700. Además nos reuníamos en casas de otras Abuelas (...)’, cuenta Raquel [Radío de Marizcurrena].”

7 Do original em espanhol: “basta, basta de esperar, basta de mirar detrás de la ventana, hay que salir a la calle”.

8 Do original em espanhol: “Mucha gente se pregunta por qué habiendo otros organismos las madres fuímos a la Plaza, y por qué nos sentimos tan bien en la Plaza. Y esto es una cosa que la pensamos ahora, no la pensamos ese día; y cuanto más hablo con la gente que sabe más que nosotros, más nos damos cuenta por qué se crearon las Madres. Y nos creamos porque en otros organismos no nos sentíamos bien cerca; había siempre un escritorio de por medio, había siempre una cosa más burocrática. Y en la Plaza éramos todas iguales. Ese ‘¿qué te pasó?’, ‘¿cómo fue?’. Éramos una igual a la otra; a todas nos había llevado hijos, a todas nos pasaba lo mismo, habíamos ido a los mismos lugares. Y era como que no habría ningún tipo de distanciamiento. Por eso es que la Plaza agrupó. Por eso es que la Plaza consolidó.”.

9 Do original em espanhol: “Los bancos de la Plaza de Mayo saben que aunque no haya nadie en la Plaza nuestros hijos están ahí, siempre presentes, y están ahí porque la plaza no tiene rejas y ellos amaban la libertad y lucharon por ella. Los bancos de la plaza tienen vida. Esa vida se la damos nosotros.”.

10 Para mais sobre as controvérsias em torno da ESMA, consultar FELD, 2017.

11 Do original em espanhol: “la miseria planificada en un país que autoproclamabam derecho y humano”.

Madres de Plaza de Mayo: spatial and narrative strategies

Isadora Monteiro

Isadora Carraro Tavares Monteiro is an Architect and Urban Planner and has a Master's Degree in Architecture. She currently teaches at the Federal Institute of Minas Gerais, on the Santa Luzia campus, Brazil, where she develops research on the relationship between the city, narrative, and gender in Latin America. She works at the common borders of urbanism, literature, and the arts. isa.tavares.monteiro@gmail.com http://lattes.cnpq.br/2295509324506866


How to quote this text: Monteiro, I. C. T., 2021.Madres de Plaza de Mayo: Narrative and spatial strategies. Translated from Portuguese by Andre Guimarães Couto Andrade Marques. V!RUS, 22, July. [online] Available at: <http://www.nomads.usp.br/virus/virus22/?sec=4&item=5&lang=en>. [Accessed: 07 December 2022].

ARTICLE SUBMITTED ON MARCH, 7, 2021


Abstract

In 2021, Madres de Plaza de Mayo, one of the most resilient and relevant social movements in Latin America, completes 44 years of existence. Their struggle for human rights runs through the history of the city of Buenos Aires and creates a paradigm for the relationship between social movements and the production of Latin American cities. The purpose of this article is to make a spatial investigation of the movement's trajectory and understand the relationship between the territorialities produced by the Madres’ actions and the construction of the narratives that permeate the group and its members. Based on the concepts of spaces of appearance, by Hannah Arendt, and territory, by Rogerio Haesbaert, we intend to map the journey of the Madres from the house to the square and, later, to other territories. The research method involves the analysis of poems and prose from the book El Corazón en la Escritura and the mapping of the key spaces for the struggle, locating the trajectories and spatializing the group's narratives. The article concludes that the public-private and maternal-political binaries, common in the analysis of social movements headed by women, do not account for the territorial and narrative complexities of the Madres and do not do justice to the movement's contribution to another production of space and to the confrontation against issues commonly related to Latin American nations.

Keywords: Madres de Plaza de Mayo, Buenos Aires, Narrative, Social Movements, Latin America



1 Introduction

In September 1983, in the surroundings of the Plaza de Mayo, in Buenos Aires, the people disappeared during the Argentine dictatorship witnessed their first experience of “embodiment1”. Painted on paper, using the mold of other bodies (that also belonged to activists and protesters), the silhouettes were spread all around: glued to walls, fixed to metal bars, and hung in trees, the large sheets of paper occupied the square that, for hundreds of years, has been the stage of major political and social events in the Argentine capital. The action became known as El Siluetazo and consisted of the simple idea of making and exhibiting thousands of “empty” silhouettes, in a direct allusion to the unburied bodies of those tortured and killed by the dictatorship, between the years 1976 and 1983 (Figure 1). The proposal, idealized by the artists Rodolfo Aguerreberry, Julio Flores, and Guillermo Kexel, was presented to the Madres de Plaza de Mayo2 on the eve of the third March of the Resistance, held shortly before the end of the regime (Longoni, Bruzzone, 2008). The Madres movement, headed by mothers who had their children kidnapped and killed during the military dictatorship, was already emerging, then, as one of the most relevant social movements in Latin America.

The partnership between the Madres and the artists in the production of the siluetazos reveals an important facet of the movement's strategy of action in confronting authoritarianism and seeking justice for lost children. The Madres took advantage of a raw material that goes beyond the materiality of posters and banners, as well as the power of speeches and manifestos. This raw material has become the primordial mark of most of the struggles and organizations born in the post-dictatorial period of Latin American countries: space. The mobilization of space as a tool does not disregard the city: the action of the Madres de Plaza de Mayo, as well as the action of many other social movements in Latin America, leaves marks on the urban space, changes the dynamics of city life, and establishes a new paradigm for the power of social mobilizations in the creation of another kind of production of space.

Fig. 1: El Siluetazo, held in 1983 during the Third Marcha de la Resistencia. Source: Eduardo Gil, 1983. Available at: https://www.eduardogil.com/obras/siluetazo/14.jpg/. Accessed 8 May 2021.

The Madres de Plaza de Mayo movement, as its name already announces, is born geographically situated, spatialized, mobilizing this urban resource that has always been paradigmatic on the Latin American soil. The Plaza de Mayo, the place chosen as a symbol and stage of the movement, is the center of civic life in Buenos Aires, the Argentine capital. Gathered at the Plaza for 44 years, its members march every week so as not to be forgotten. Its territorialization, expressed through the movement performed in the space, which characterizes the rounds of every Thursday afternoon, has become a kind of stamp, the trademark of a new social movement formed almost exclusively by women. Spatialization, however, does not figure as the only strategy of action performed by the Madres de Plaza de Mayo. It also involves the vindication of their role as narrators: of the history of their children and the atrocities committed during the military dictatorship, or of their own history and role as women and a movement. The silent marches in the square, the pictures printed on large totems, the speeches given at events, the interviews, and documentaries elaborated over the years, are all, in their own way, a way of telling the stories that the official narrative has silenced.

Among all these devices, one stands out for its fundamentally narrative character, an almost literal approach to this desire to tell and retell stories. In the early 1990s, Argentine writer Leopoldo Brizuela organized the first literary workshop in partnership with the Madres, which aimed to present participants with a new expression and record tool (Ponzio, 2009). In these literary workshops (taking place throughout the years of 1990 and 2000), several texts and poems were produced by the Madres and, subsequently, published in book form. Among them, we highlight Nuestros Sueños (1991), El Corazón en la Escritura (1997) and Pluma Revolucionária (2007).

The examples of siluetazos and literary writing workshops emphasize that the encounter between narrative and space is at the heart of the strategies of action of the Madres de Plaza de Mayo. With this in mind, the aim of this article is to make a spatial investigation of the movement's trajectory and understand the relationship between the territorialities produced by the actions of the Madres and the construction of the narratives that permeate the group and its members. Based on the concepts of space of appearance, by Hannah Arendt, and territory, by Rogerio Haesbaert, we intend to map the journey of the Madres from the house to the square and, later, to other territories, through a critical view that is not fulfilled by the domestic/public or maternal/political dichotomy.

To locate these trajectories and narratives, the research uses two main methods:

Selection and analysis of poems and texts produced by the Madres during the literary workshops in the years of 1990 and 2000, mostly concentrated in the book El Corazón en la Escritura (Asociación Madres de Plaza de Mayo, 1997). The selection prioritized textual productions that mobilize spatial themes and resort to images of the house, the square, and other key spaces of the struggle as a way of narrating the trajectory of the Madres and articulating the movement's issues with their territorial practices. In addition to literary production, other texts and testimonies were collected thought the survey of interviews — granted to researchers and the media over these 44 years — and institutional materials produced by the many arms the movement has today3;

Mapping of the key spaces of the Madres’ struggle, pointing out the nodal points of the movement's territorial action over Buenos Aires’ urban fabric (Figure 2). For the cartographic production, we carried out a survey of the places where some of the Madres' children and grandchildren were kidnapped or last seen4. The geolocation of the Plaza de Mayo, the Former ESMA (Higher School of Mechanics of the Navy) and the Villa 15 were also included, locations that will be explored throughout items 2 and 3 of this article. The production of the map is part of the research’s spatialization strategy, which is fundamental to the interpretation of the intersection between narrative and territory.

The research suggests that the trajectory of the movement, both spatial and narrative, does not fit in the linearities that commonly surround the analysis carried out on the group. In addition to the house-square and maternal-political vectors, the paper suggests an interpretation of the Madres trajectory as a network of territorial and narrative vectors in constant expansion. A network that does not comply with the norms related to the dichotomies frequently imposed on movements headed by women, from the middle of the 20th century.

2 From the House to the Square

In The Human Condition, Hannah Arendt (1998) discusses the constitution of the public sphere and the relationships this sphere establishes with its subjects. Using the Greek polis as a measure for the notion of public, the author defines what she calls spaces of appearance, the space where “(…) I appear to others as others appear to me, where men exist not merely like other living or inanimate things but make their appearance explicitly” (Arendt, 1998, pp. 198-199). After drawing a long historical panorama about the change in the political and social spheres and their relations with the public sphere over time, she concludes that the very fabric of what we consider to be reality is defined by this “capacity to appear”, to attest, through the presence of the other, what we see and hear.

The choice of the Plaza de Mayo as a key space in the struggle of the Madres is easily justified in view of the concept of spaces of appearance. In a context of repression and authoritarianism, in which barbarism and genocide relied on refined State mechanisms to remain anonymous, it is expected that a movement based on bringing these atrocities to light would resort to this space of appearance, not only for an obvious matter of visibility but for the sharing of that common space as a way to keep alive, for those women, the certainty that this was, in fact, a reality.

However, although the spatial analyses of the Madres movement are usually focused on the space of the square, it is important to remember the role that the house played (and still plays) in the construction of the organization's mobilization networks. The house, as a space and as a symbolic place, is an important element in the trajectory of the Madres de Plaza de Mayo movement. Present even before the genesis of the group — since most of the actions that culminated in the abduction of the people disappeared during the dictatorship took place inside their own homes — the house had its semantics transformed, extended, and adapted, following the changes undergone by the movement itself.

The house, symbol of the family, the motherhood, and the performance of femininity in the totalizing and colonized narrative of women's history arises in the Madres activism with new functions and meanings. The moment that inaugurates the house as one of the nodal points of the movement's trajectory already introduces it as a scenario of terror, from the invasion and kidnapping of children by the military forces under the justification that they were subversives and enemies of the nation (some of these locations are shown in Figure 2). Punctuated in several reports and interviews, this moment is usually the last time mothers and children saw each other.

Fig. 2: Map of the places where the children and grandchildren of the Abuelas de Plaza de Mayo were kidnapped or last seen (1975-1979). Authors’ map, based on the information available at: https://www.abuelas.org.ar/caso. Accessed 8 May 2021. Source (cartographic base): Open Street Maps. Available at: https://bit.ly/3430I7a. Accessed 8 May 2021.

The brutality of the military’s forcible entries into the house environment becomes, then, a metaphor for the invasion of the public into the private, the combination of the political with the maternal. During reminiscences of family moments, the image of military men breaking down the door arises as the moment when the military dictatorship stopped being just a word or an image to materialize within the physical and symbolic space of the house. This matter becomes very clearly in the speech of Porota Colás Meroño in an excerpt from the book El Corazón en la Escritura, in which several Madres share memories about meals and recipes they made as a family:

Before, when we talked about the disappearance of our children, I used to say that there were many dishes that I no longer prepared: one of them was that. Because even these things that seem so insignificant, and are not, the military dictatorship also influenced. They tore apart the family, we could no longer get together, some were not around and others we did not have the desire, eating with family and friends is talking, laughing, playing, is projecting, is loving (Asociación Madres de Plaza de Mayo, 1997, p. 26, our translation<5 and italics).

However, it is from the same houses that many of these mothers begin to build their journey as Madres, organizing meetings to weave strategies and exchange experiences. Upon the first scenario (the tragic one), they began to build a new one, of union and organization. After meeting each other in the corridors and rooms of public offices, where they went daily in search of information, they began to meet in other places, especially in apartments and houses provided by the participating Madres themselves.

The Abuelas recall these meetings in one of the excerpts from the book La Historia de Abuelas: 30 años de búsqueda (The Story of the Grandmothers: 30 Years of Search).

When they met in private homes, they took precautions not to be discovered. If it were in a building, they would get together at siesta time to avoid crossing the doorman. They avoided using the elevator because of the noise, lowered the blinds and spoke almost in a whisper. Many of them stopped smoking so that the smell would not give them away. “The first place where we started to work was the apartment that the Madres had, they lent us a room. We stayed there for a while, but as it was very small, when we could, we rented an apartment at 700 Montevideo Street, [see Figure 3]. We also met in the houses of other Abuelas (...)”, says Raquel [Radío de Marizcurrena]. (Abuelas de Plaza de Mayo, 2007, p. 15, our translation6).

Fig. 3: Abuelas gathered in the apartment situated at 700 Montevideo Street, the decade of 1980. Unknown author. Source: Abuelas de Plaza de Mayo, 2017, p. 59. Available at: https://www.abuelas.org.ar/publicacion?pagina=1 . Accessed 8 May 2021.

Regarding the change in the role of the private sphere and the insertion of activism in the daily life of the Madres, Hebe Bonafini, in an interview, recalls the house as a place where “women like us lived in an isolated world that had an end at the front doors. […] When you live like this you do not know what rights you have got… you do not understand anything” (Howe, 2006, p. 46). The memory of the house as space of restriction and isolation does not arise by chance. In a context of dictatorship and authoritarianism, the family stronghold based on the home functioned, both in narrative and practice, as an anti-subversion center, a refuge against rebellion, where the feminine role would ensure comfort and education for the youth.

Despite happening in different ways for each Madre, the breaking of this sphere aiming at the optimization of their engagement with the children’s search — which had already started from the moment the struggle found shelter inside houses and apartments — usually involved the confrontation with husbands and family members. Estela Carloto, leader of the Abuelas of Plaza de Mayo, tells in an interview that

One by one, as we saw what was happening and reached the devastating conclusion that our children weren’t going to come home or get in touch, we realized we couldn’t remain passive any more. We began to take action. One day, for example, I said to my husband, ‘You stay home – I’m going out.’ I went to speak to lawyers, politicians and soldiers, trying to find out where my daughter was” (Carlotto, 2017, p. 488).

This in-between space occupied by the Madres — this daring act of leaving the sphere of the house and, at the same time, the insistence on performing the role of mother — protected their activism from the direct confrontation with the military forces, because pursuing and torturing them would be pursuing and torturing the “angels of the home”. This location between the house and the square was used as a strategy by the Madres, who relied on the images of the maternal ideal to negotiate their permanence in the struggle. But staying at home, even if it involved meetings and bringing other Madres together, was not enough. A day came when they said “enough, enough waiting, enough looking out the window, you must go out into the street” (Asociación Madres de Plaza de Mayo, 1997, p. 61, our translation7). In the same way the regime came into their homes, taking their children from them, they would also go out, they would go to the streets, to that square, they would also mix motherhood and politics, private and public. When they left the sphere of the house, they made the transition from individual to collective struggle (Figure 4). Hebe Bonafini's testimony addresses this change and the choice of the square:

Many people wonder why, having other institutions, the Madres went to the Plaza, and why we feel so good at the Plaza. And this is something we think about now, we did not think about it back then. And the more I talk to people who know more than we do, the more we realize why the Madres were created. And we created the group because we did not feel well at other institutions; there was always an office that triggered fear, there was always something more bureaucratic. And in the Plaza, we were all the same. This “What happened?”, “How was it?”. We were all like one another; our children had been taken from us all, the same thing happened to all, we had been to the same places. And it was as if there was no distance at all. That is why the Plaza brought us together. That is why the Plaza has consolidated (Madres de Plaza de Mayo, 1997, p. 16, our translation8 and italics).

When they decided, for the first time, to walk in circles in the center of the Plaza, in a strategy to remain in place and confuse the police, they started a march that was still incipient but would last for many decades, until today, changing the dynamics of public space, demanding people to stop and look, and creasing the tile floor, week after week, to ensure that forgetting is not an option.

Fig. 4: Abuela Clara Jurado, protesting in Plaza de Mayo. Unknown date. Author: Daniel García. Source: Abuelas de Plaza de Mayo, 2017, p. 37. Available at: https://www.abuelas.org.ar/publicacion?pagina=1. Accessed 8 May 2021.

From this moment on, Plaza de Mayo became the perfect definition of the concept of space of appearance, by Hannah Arendt. The transfer of the struggle to the public sphere is directly related to the idea that “every activity performed in public can attain an excellence never matched in privacy; for excellence, by definition, the presence of others is always required, and this presence needs the formality of the public (…)” (Arendt, 1998, p. 49). The possibility of seeing and being seen in the square (compared to the privacy — now unwanted — of the home) is reported in the poem by Hebe Bonafini (Asociación Madres de Plaza de Mayo, 1997, p. 70, our translation9):

So many doors come to my mind
Those of my childhood home, always unlocked
Those of my school, open, clean
Those in the delivery room, strong, light, swing doors

and suddenly the ones from police stations, military quarters
and the Church
shutting violently at our faces knowing that
behind them, certainly, there were our children

So many doors, so much life
so much death behind them.

That is why the most beautiful thing is the Square
because it has no doors.
That is why everything there is clearer.

The modification of the landscape of the Plaza, which occurs through the presence and movement of women's bodies around the pyramid, goes far beyond an aesthetic mobilization of the image of the square as an element of political struggle. The Madre’s embodied action becomes a territorialization strategy, a spatialization that has become fundamental for the movement's longevity; simultaneously, this same presence also modifies the space itself, from the moment its occupation interferes in the relationship with the surroundings and resignifies the place of the square for the population of the Argentine capital. On this phenomenon and its relation to the concept of territory, Haesbaert comments:

We can affirm that the territory is relational not only in the sense of always being defined within a set of historical-social relations but also in the sense, highlighted by Godelier, of including a complex relationship between social processes and material space (...). In addition, another very important consequence when emphasizing the relational sense of the territory is the perception that it does not imply a simplistic reading of space such as rooting, stability, delimitation, and/or "border". Precisely because it is relational, the territory is also movement, fluidity, interconnection — in short and in a broader sense, temporality (Haesbaert, 2004, p. 82, our translation

The visualization of the Plaza de Mayo as the territory of the Madres, therefore, does not remain closed in on itself and does not assume that the mere occupation of space is the fundamental character for the establishment of this territorial connection. What defines the movement's territorialization is the conviction that the many years of occupation of that physical space caused the social processes connected to its modification, in an equation that is never fully balanced. Using the metonymy of the square bench, María del Carmen Berroca poetically exemplifies this idea:

The benches of the Plaza de Mayo know that, even when there is no one in the Plaza, our children are there, always present, and they are there because the Plaza has no metal bars, and they loved freedom and fought for it. The benches of the Plaza are alive. We give them that life (Asociación Madres de Plaza de Mayo, 1997, p. 75, our translation10 and italics).

Haesbaert’s (2004) definition of territory, however, also leaves clues for understanding what I consider to be a second phase of the movement's trajectory. As in Haesbaert’s concept, the relational construction of a territory of the Madres does not presuppose its rooting to the borders of the Plaza de Mayo. The movement, fluidity, and interconnection inherent in the concept took their fight to other possible spaces of appearance and changed not only the arenas of action and occupation but the very limits of whatever the Madres considered being the causes of their struggle. Over the years, especially after the democratization process, the space is no longer just a tool or device and becomes itself part of the causes for which the Madres fight. For more than 40 years, living in the space between the square and the house, tensioning territories and temporalities, the Madres ensured that the radius of the walk-in-circles expanded, embracing other causes, other challenges, reaching beyond the contours of the square and spreading to others territories.

3 Beyond the house and the square

Lynn Stephen (1997), in her book entitled Women and Social Movements in Latin America: Power from Below, argues about the division of social, political, cultural, and economic life into a private-female and a public-male sphere. For her, there needs to be “(…) an alternative analysis that links individual women’s social, political, economic, and cultural worlds through a unity of experience, not a public/private dichotomy” (Stephen, 1997, p. 7). The analysis of the Madres’ trajectory as a linear journey from the house — private, maternal, and feminine — to the square — political and inherently masculine — encapsulates their activism in a dichotomy that, besides imprecise, prevents other ways of reading their narrative and spatial strategies.

In addition to challenging the physical and symbolic space of the house as a place of privacy and passivity — bringing into it the movement’s meetings and gatherings— and the square as this public and masculine arena — taking into it their women and mother bodies —, the Madres did not limit their space incursions to this square-house vector. Two initiatives carried out after the period of re-democratization exemplify the deviations and expansions of the strategies used and the causes defended by the movement.

The first expansion beyond the contours of the Plaza that exemplifies this movement started at the end of the military dictatorship in the 1980s, and remains, until today, as an important arena of debates, controversies, and, mainly, new and powerful reflections. Less than 15 kilometers from Plaza de Mayo, one of the places that staged the barbarism and violence of the Argentine military regime remains a historic mark in the urban fabric of Buenos Aires. The ESMA — Escuela de Mecánica de la Armada —, which was, until the beginning of the dictatorship, just one of the city's military institutions, became the largest clandestine prison and torture center of the last Argentine military dictatorship (see location on the map of Figure 2). The estimate is that 5.000 people went "missing" inside the buildings of the school (Pauchulo, 2009)

With the end of the regime, proposals for the demolition and the construction of a park on the site were fiercely opposed by the victims' families, who understood the initiative as a way of erasing the forensic vestiges and the memory of those who had been tortured and killed there (Feld, 2017). In view of the proposals, the Madres de Plaza de Mayo directed their efforts to ensure this space, the scene of the torture and murder of their children, was also a territory of the Madres in its own right. After years of debates and mobilizations, in 2004, on the 28th anniversary of the military coup, the space was vacated by the military and became a Space for Memory and the Promotion and Defense of Human Rights (Feld, 2017). Within the Madres movement, however, a dilemma was established between the values of the past and the values of the present/future, sheltered by the place: while members of the Línea Fundadora and Abuelas groups believed that the space should be left intact, to serve as judicial proof of the crimes committed during the dictatorship, the Madres of the Asociación bet on a “life” approach, in which the memory would be preserved and promoted through artistic and cultural activities and interventions11.

In 2007, even with the definitive end of military activities on the perimeter of the former ESMA, the sharing of the buildings between different associations and the decision to preserve the main places of torture and incarceration almost as they originally were, the tensions over this space were not put to an end. Involved in a temporality paradigm in which the past, present, and future clashes and the possibilities of occupation put the actors in motion, the former ESMA meets the requirements related to the definition of territory outlined by Haesbaert (2004). Its semantics of space-problem, which creates dissent, reorganizes (or, in the best sense, disorganizes) the territorial logic centered on the house-square axis, becoming a new possibility of occupation and action for the movement.

In the same opportunity to expand the causes and territorialities embraced by the Madres, the second expansion beyond the contours of the Plaza is the Sueños Compartidos (Shared Dreams) initiative. In 2005, after a fire destroyed several areas in the neighborhood known as Villa 15, the Asociación Madres de Plaza de Mayo started the program, which aimed to rebuild homes and provide jobs and training in the construction area for the community (see location on the map in Figure 2). The area of the neighborhood where the initiative started is also known as Ciudad Oculta or Hidden City. According to the supplement Cortamos el Cordón, published by Asociación and dedicated to the history of the projects developed by the group, the name is almost literal: during the 1978 World Cup, the military erected a wall around the community to hide from the tourists the “planned misery in a country that proclaimed itself right and human” (Berenguer, 2011, p. 1, our translation12).

The Sueños Compartidos program, more than 30 years later, claimed Ciudad Oculta, hidden and silenced by the military dictatorship, as a possible territory for the Madres. In the pilot project of Villa 15, besides the construction of houses, the program also expected the reactivation of Elefante Blanco (White Elephant), an abandoned hospital that had its construction resumed by Asociación, which envisioned the transformation of the building into a community center, where kitchens, dining halls, a gymnasium, a sewing workshop, and a nursery for the children of the workers involved in the construction (Berenguer, 2011). The project later became part of a financing program of the Argentine Federal Government, which allocated funds for not-for-profit housing initiatives. More than 20 new projects were built in several cities in the country, expanding the program's scope of action beyond the limits of Buenos Aires (Palombi, 2019). As with the circular movements performed in the center of the square, the Madres' action trajectory now returns to its starting point: the house. However, this space is now substantiated into a collective cause, a common territory, in which the private-female binomial does not apply.

In addition to these two experiences, there are several others: the creation of the Universidad Popular Madres de Plaza de Mayo, the Biblioteca Popular Julio Huasi, the Librería de las Madres, a university, a library, and a bookstore, respectively, among others. These initiatives, headed by the Madres of the Asociación, are part of a “memoria de acción” project (Pauchulo, 2009, p. 33), which arises from the expansion of the movement's objectives beyond the search for people disappeared during the Argentine dictatorship and which invests in the continuity of their children's struggle for social justice and freedom as the best way to celebrate and remember them. It is also important to mention the immense international collaboration network, which transported Plaza de Mayo around the world and transformed the cause of the Madres into a model for the Human Rights struggle.

4 Conclusion

“(…) The political realm rises directly out of acting together, the ‘sharing of words and deeds.’ Thus action not only has the most intimate relationship to the public part of the world common to us all, but is the one activity which constitutes it.” (Arendt, 1998, p. 198). Hannah Arendt's reflection introduces a new possibility to understand the struggle history of the Madres of Plaza de Mayo: more than a walk from the private to the public, from the house to the square, the territorialization produced by the bodies of the Madres is exactly what creates the public, which composes the fabric of the political sphere.

While writing poems or marching in the Plaza (and beyond it), the movement mobilized narrative and spatial strategies not only to occupy a besieged and masculine space but to construct a possibility for another common territory. In the expansion of the movement's objectives and developments, the character of the Madres' action is also updated, as we can see in the slogans of the Marcha Anual de la Resistencia — Annual March of the Resistance – demanding social justice, fight against hunger and unemployment, non-payment of external debt, and the union of Latin America.

In a continent that still struggles against its colonial inheritance, that suffers from neoliberal advances, and that witnesses, with fear, the awakening of a new fascist wave always on the prowl, the resilience of the Madres de Plaza de Mayo and their unwavering struggle, constantly in expansion, are anchor points. A present-precedent that challenges the political, social and urban configurations of Latin American cities and contributes by giving voice to social movements that resist in the struggle for justice and freedom in the Global South.

References

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Pauchulo, A. P., 2009. Re-telling the Story of Madres and Abuelas de Plaza de Mayo in Argentina: Lessons on Constructing Democracy and Reconstructing Memory. Canadian Woman Studies, 27(1), pp. 29-35.

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Stephen, L., 1997. Women and Social Movements in Latin America: Power from Below. Austin: University of Texas Press.

1 I develop the arguments of this article in the research Cartographic Narratives: space and women’s literature in Latin America (Monteiro, 2019). I would like to thank Renata Moreira Marquez for her advice and precious contributions.

2 Throughout the article, the name of the movement will be kept in Spanish, its original language, to maintain its semantic notions and spatial references. The same goes for the expression Plaza de Mayo (Ponzio, 2009).

3 The Madres de Plaza de Mayo movement, already in its first year, added a subgroup called Abuelas (grandmothers) de Plaza de Mayo, which gathered the Madres who, besides looking for their children, were also looking for the whereabouts of their grandchildren, who, for the most part, were still being gestated at the time of the abduction. In 1986, however, due to divergences regarding the exhumation or not of the mass graves found after the trial of the main dictatorship officials and the divergences regarding the continuity of the movement after the re-democratization, the Madres movement was divided into two large groups: the Asociación Madres de Plaza de Mayo and Madres de Plaza de Mayo - Línea Fundadora (for more on the history of the movement, see Gorini, 2006, 2008). In the context of the article, however, the Madres movement is still understood as a unity, as it is believed that all groups, even in their differences, collaborated in the construction of the struggle and in the development of spatial and narrative strategies.

4 Survey based on the data available on the Abuelas de Plaza de Mayo website, Nuestros Nietos section. Available at: https://www.abuelas.org.ar. Accessed: 9 May 2021.

5 From the original in Spanish: “Antes, cuando contábamos la experiencia de la desaparición de nuestros hijos, yo decía que había muchas comidas que yo ya no hacía: una era ésta. Porque hasta en estas cosas que parecen tan insignificantes, y no lo son, también influyó la dictadura militar. Nos deshicieran la familia, ya no nos podíamos reunir, unos no estaban y otros no teníamos ganas, la comida en familia y con amigos es charlar, es reir, es bromear, es proyectar, es amar.”

6 From the original in Spanish: “Cuando se reunían en casas particulares tomaban recaudos para no ser descubiertas. Si era en un edificio, se juntaban a la hora de la siesta para no cruzarse con el encargado. Evitaban usar el ascensor por los ruidos, bajaban las persianas y hablaban casi susurrando. Muchas de ellas dejaron de fumar para que el olor no las delatara. ‘El primer lugar donde empezamos a funcionar fue el departamento que tenían las Madres, quienes nos prestaron una habitación. Estuvimos ahí un tiempo, pero como era muy chica cuando pudimos alquilamos un departamento en Montevideo al 700. Además nos reuníamos en casas de otras Abuelas (...)’, cuenta Raquel [Radío de Marizcurrena].”

7 From the original in Spanish: “basta, basta de esperar, basta de mirar detrás de la ventana, hay que salir a la calle”.

8 From the original in Spanish: “Mucha gente se pregunta por qué habiendo otros organismos las madres fuímos a la Plaza, y por qué nos sentimos tan bien en la Plaza. Y esto es una cosa que la pensamos ahora, no la pensamos ese día; y cuanto más hablo con la gente que sabe más que nosotros, más nos damos cuenta por qué se crearon las Madres. Y nos creamos porque en otros organismos no nos sentíamos bien cerca; había siempre un escritorio de por medio, había siempre una cosa más burocrática. Y en la Plaza éramos todas iguales. Ese ‘¿qué te pasó?’, ‘¿cómo fue?’. Éramos una igual a la otra; a todas nos había llevado hijos, a todas nos pasaba lo mismo, habíamos ido a los mismos lugares. Y era como que no habría ningún tipo de distanciamiento. Por eso es que la Plaza agrupó. Por eso es que la Plaza consolidó.”.

9 From the original in Spanish: Vienen a mi mente tantas puertas / las de mi casa de infancia, siempre sin llave / las de mi escuela, abiertas, limpias / las de la sala de partos, fuertes, suaves, de vaivén // y de repente las de las comisarías, los cuarteles y la / iglesia / cerrándose con fuerza en nuestras propias caras sabiendo que / allí detrás seguro estaban nuestros hijos // Cuántas puertas cuánta vida / cuánta muerte detrás de ellas. // Por eso lo más lindo es la Plaza / porque no tiene puertas. / Por eso allí todo es más claro.

10 From the original in Spanish: “Los bancos de la Plaza de Mayo saben que aunque no haya nadie en la Plaza nuestros hijos están ahí, siempre presentes, y están ahí porque la plaza no tiene rejas y ellos amaban la libertad y lucharon por ella. Los bancos de la plaza tienen vida. Esa vida se la damos nosotros.”.

11 For more controversies around ESMA, see FELD, 2017.

12 From the original in Spanish: “la miseria planificada en un país que autoproclamaban derecho y humano”.