Muros: entre-lugares, usos e utilidades

Maíra Ramirez Nobre, Rafael Silva Brandão

Maíra Ramirez Nobre é arquiteta e urbanista. Estuda processos de ocupação espontânea e marginal do espaço público.

Rafael Silva Brandão é arquiteto e urbanista, Doutor em Tecnologia da Arquitetura. Professor Adjunto da Universidade Federal de São João del Rei. Estuda conforto ambiental, planejamento urbano, energia e tecnologia da arquitetura e do urbanismo.


Como citar esse texto: NOBRE, M. R.; BRANDÃO, R. S. Muros: entre-lugares, usos e utilidades. V!RUS, São Carlos, n. 14, 2017. Disponível em: <http://www.nomads.usp.br/virus/virus14/?sec=4&item=7&lang=pt>. Acesso em: 01 Jun. 2020.


Resumo

Muros são elementos constituintes fundamentais dos espaços urbanos, ao configurar ou determinar desenhos, usos e fluxos na cidade. A priori são encaradas de maneira predominantemente negativa pelos estudiosos do espaço, devido ao seu caráter segregador: funcionam como divisão de áreas, mas também de realidades; impedem acessos; hostilizam o usuário a ponto de inviabilizar sua apropriação do espaço. Mas há uma potencialidade subestimada nestes componentes? Este trabalho busca entender as influências dos muros no cotidiano urbano, chamando a atenção para seu papel no tecer da cidade e sua virtualidade que instiga de formas diversas variados grupos sociais, classificando-se como entre-lugares.

Palavras-chave: Cidade; Muros; Segurança; Entre-lugares; Apropriação.


Introdução

O tecido da cidade é composto por um conjunto de espaços inter-relacionados, entremeados por barreiras, que cumprem as funções, dentre outras, de organizar ambiências, traçar fluxos e delimitar áreas públicas e privadas (Figura 1). Entre esses obstáculos, o cotidiano da população acontece, em suas clássicas atividades de morar, trabalhar, divertir-se e transitar. Eles cumprem assim, uma dupla tarefa: ao mesmo tempo em que impedem (ou dificultam) deslocamentos, também indicam (ou possibilitam) conexões. Os muros1 são as manifestações físicas mais claras de barreiras urbanas. Mais que a simples delimitação territorial relacionada à proteção da propriedade privada, este componente simboliza um comportamento social cada vez mais difundido: a individualização do homem contemporâneo e seu desligamento do coletivo, agravante do esgarçamento do tecido urbano.

Fig. 1: Vivência urbana realizada em São João del Rei, por Maíra Ramirez e Fernanda Martins, ao longo do desenvolvimento do Trabalho Final de Graduação “A Cidade e seus Muros”. Fonte: Maíra Ramirez, 2016.

Talvez por isso, as barreiras urbanas sejam comumente vinculadas à sua característica segregadora e o primeiro impacto gerado ao se abordar o tema é, em geral, negativo. Isso porque ao se pensar no muro enquanto objeto (e assim será abordado inicialmente para que depois possa ser dissecado em caracterizações simbólicas), a imagem criada tem em si a indicação de algo intransponível, ou, no mínimo, difícil de passar, havendo, assim, um rompimento da potencial comunicação entre duas partes. Por si só, o muro está ligado à ideia de divisão.

Mas é possível pensar os muros e demais barreiras urbanas como espaços potenciais de apropriação? Quando verticais, podem ser utilizados como murais de comunicação (Figura 2); se horizontais, nas formas de ruas, pontes, ou linhas de trem, por exemplo, podem oferecer possibilidades de uso por diversos grupos e de diferentes maneiras. Para se compreender essas potencialidades, pensando na dupla função (segregadora e apropriadora) das barreiras urbanas, é preciso entender o processo de esvaziamento dos espaços urbanos que levou ao atual estado de insegurança nas cidades.

Fig. 2: Colagem 1. Fonte: Maíra Ramirez, 2016.

Muros e discursos sociais

As cidades não são meros cenários ou aglomerados construtivos aleatórios. Mesmo que nem sempre se perceba no caminhar cotidiano, a cidade é o resultado de ações e discursos sociais. Para Cortés (2008), o espaço construído não é totalmente responsável pela opressão ou libertação da sociedade, mas exerce o papel de condicionante, levando a diferentes formas de prática social. Sendo assim, os elementos construídos auxiliam na manutenção de determinada ordem e, inevitavelmente, na criação de determinada identidade espacial, relacionadas diretamente às ideias de autoridade e capital simbólico. O autor segue constatando que as formas urbanas atuam como espelhos sociais, influenciando na construção e transformações da realidade social. Isso se torna claro em algumas barreiras icônicas, como o Muro de Berlim (figura 3), que materializou uma polarização ideológica que, traduzida para o espaço, significou não só a divisão de um país, mas a separação de famílias e afetos.

Fig. 3: Memorial do Muro de Berlim. Fonte: Maíra Ramirez, 2011.

As cidades iluministas, por exemplo, foram configuradas com base em um ideário de vigilância e controle social e marcadas pela geração de vários e significativos cortes no espaço de maneira a garantir a manutenção do poder e da ordem sobre a vida dos cidadãos e um fluxo que otimizasse a produção e o consumo (CORTÉS, 2008). As antigas vielas e becos escuros foram rasgados e bem iluminados, prezando espaços limpos (higienizados) em que a segurança era garantida por meio dos olhos do poder. Essas características, em geral oriundas de uma contraposição a mobilizações populares que buscavam de melhorias após a exacerbação das contradições sociais fruto do capitalismo, foram muito implantadas ao longo do século XVIII, consagradas pelo plano urbanístico de Hausmann2 (século XIX), e ainda estão presentes nas cidades contemporâneas. Para Guy Débord (1955, apud JACQUES, 2003), o esforço dos poderes estabelecidos pós-Revolução Francesa em manter a ordem nas ruas, acabou por suprimi-las.

É importante ressaltar que a incorporação e concretização dos ideais modernistas, de forma bastante contraditória ao que originalmente pregavam, contribuiu significativamente para a manutenção de cidades vigiadas e "protegidas" por meio de planos urbanísticos setorizados e programáticos. O século XX é ainda mais marcado pela supressão das ruas e espaços públicos, devido ao advento do automóvel e sua priorização em relação aos pedestres. Para Bourriaud (2011), a geometrização do espaço está intimamente ligada ao fato de que andar a pé não gera lucro, o que fez disso um estímulo para que esta atividade fosse realizada da forma mais rápida possível. A estratégia usada por Henry Ford para que seus operários não “perdessem tempo” deslocando-se foi submeter este movimento a “uma organização racional baseada na geometrização do espaço” (BOURRIAUD, 2011, p. 15). Pouco mais de um século depois, esta medida é totalmente absorvida pela sociedade e o andar a pé é negado pelos planejadores urbanos, alheios ao fato de que o esvaziamento das ruas como espaços de uso e permanência está diretamente ligado à importantes questões de violência urbana.

A situação agravou-se de tal forma que as pessoas tendem a não entrar em contato direto com a cidade, escondendo-se dentro de seus automóveis, o que, para Jacobs (2011), faz parte da segunda técnica de convivência com a insegurança urbana. Ela aponta a existência de três técnicas até a atualidade: deixar o perigo acontecer livremente e atingir quem for mais vulnerável a ele; se esconder em carros; e cultivar instituições do território, o que ocorre quando determinado grupo se apropria de parte da cidade e impede que membros de outro grupo entrem neste local estando sujeitos a espancamentos, como no caso dos guetos de Nova York abordados pela autora.

Fica clara, então, a existência de determinações ideológicas que atuam sobre a construção do espaço e indicam a forma e a velocidade como ele deve ser utilizado. Para Cortés (2008, p. 108), “(o) controle arquitetônico das barreiras sociais converteu-se no verdadeiro espírito da reestruturação urbana; a segurança residencial e comercial conseguiu tomar o lugar de qualquer forma de integração social”. A grande rigidez da organização espacial buscou a construção de um mundo perfeito sem espaço para “feiura” e desordem em prol de uma segurança baseada na restrição do acesso. Segundo Argan (1998, p. 214) “a cidade que, no passado, era o lugar fechado e seguro por antonomásia, o seio materno, torna-se o lugar da insegurança, da inevitável luta pela sobrevivência, do medo, da angústia, do desespero”.

Atualmente, o que atrai as pessoas ao uso de espaços públicos são relações comerciais, o que influencia na caracterização da sociedade contemporânea como uma sociedade do consumo. Especialmente nas grandes cidades, as antigas ruas de comércio deram espaço aos centros comerciais: ambientes fechados, climatizados e bem iluminados, que negam o espaço urbano e buscam acolher um público alvo seleto (o que é garantido por meio de estratégias arquitetônicas como fachadas pomposas, muros intimidadores e acesso prioritário para automóveis). As ruas da cidade contemporânea se transformaram, assim, em mero espaço de trânsito, em que o principal fluxo é o que liga as residências a outros espaços restritos como os discutidos anteriormente. Trata-se de uma redução sintomática dos possíveis usos da cidade, já que suas ruas servem (ou deveriam servir) “a vários fins além de comportar veículos; e as calçadas – a parte das ruas que cabe aos pedestres – servem a muitos fins além de abrigar pedestres”. (JACOBS, 2011, p. 29) Até mesmo os locais de lazer são marcados por segregações, seja pelos muros físicos que os cercam, pelas cobranças exigidas para acesso ou pela subordinação direta da permanência a relações de compra e venda – o que faz com que determinadas camadas sociais não tenham condições de apropriação.

A não integração (ou desintegração) social e a dificuldade da população geral (por falta de vontade ou incapacidade) em se sensibilizar com as diferenças e extremas desigualdades facilitam em muito a manutenção da ordem e do poder pelas classes dominantes, gerando uma ilusão de sociedade segura, garantida pela segregação sócio espacial. Para Jacobs (2011, p. 29) no momento em que as pessoas afirmam que determinada cidade ou parte dela é perigosa, o que estão dizendo, basicamente, “é que não se sentem seguras nas calçadas”. Ou seja, a noção de segurança ou violência na cidade está diretamente relacionada à maneira como se dá a vida urbana e o convívio no espaço público. A autora continua reforçando a importância da calçada para as relações urbanas, quando afirma que “as calçadas ou aqueles que as usam não são beneficiários passivos da segurança ou vítimas indefesas dos perigos”, já que quando as pessoas temem as ruas “elas as usam menos, o que torna as ruas ainda mais inseguras” (JACOBS, 2011, p. 30). Cortés (2008, p. 65) lembra que “o espaço público deixa de ser um lugar de encontro, centro da vida social, para se tornar algo mais ligado à regularização estrita, em que tudo esteja controlado e o indivíduo se sinta seguro e considere garantida tal segurança”.

Sendo assim, a violência urbana é um ponto fundamental na discussão sobre a cidade e suas barreiras, tendo em vista que se tornou elemento central no que tange às justificativas contemporâneas para a criação de espaços de segregação. É neste contexto que Jacobs (2011) nos lembra dos muros, usados, muitas vezes, para a formação de ilhas urbanas. Em um caminho oposto ao convencional, em que a segurança está diretamente ligada à construção de muros cada vez mais altos, a autora afirma que a melhor forma de combater a violência urbana são os olhos das ruas3, ou seja, “os olhos daqueles que podemos chamar de proprietários naturais da rua” (JACOBS, 2011, p. 35). Quanto menores os muros e mais permeáveis as cidades, maior o contato entre as pessoas e a ocupação das ruas, reduzindo os fatores causadores da violência urbana - um cuida do espaço do outro e todos vigiam o que é comum. Mais importante que a polícia e as câmeras é o trânsito constante de usuários nas cidades. A vida pública informal impulsiona a vida pública formal e associativa. Ou seja, para Jacobs (2011), a segurança de determinada rua ou bairro é garantida por uma autogestão democrática, baseada principalmente na criação de uma rede de relações.

Muitas vezes, a ideia de segurança está vinculada à vigilância, como se pode observar em grande parte das cidades que instalam câmeras nas ruas como promessa de minimizar a violência. Como abordado anteriormente, esse tipo de estratégia é recorrente desde o início do pensamento urbanístico, quando os planejadores pretendiam, ao ampliar as ruas e fazer dos seus desenhos traços ortogonais, facilitando a visão e, consequentemente, o controle sobre as atividades ali realizadas. A grande diferença entre o tipo de vigilância aplicado na atualidade e o proposto por Jacobs (2011) é justamente uma ideia de hierarquia e de controle. Os olhos da rua só funcionam pelo impulso da curiosidade humana, e isso fica claro quando a autora descreve a forma como cada acontecimento do bairro leva todos os moradores até as calçadas e janelas. Entretanto, apesar de “julgador”, este observar passa mais por um cuidado do que por uma atitude fascista e opressora.

Muros como entre-lugares

Indo em direção à noção de segurança abordada por Jacobs (2011), partindo para uma ideia de vigilância baseada na lógica da confiança, é possível pensar sobre a apropriação das ruas e espaços públicos. Muitos dos espaços negligenciados na cidade apresentam um significativo potencial para uso e reunião de indivíduos. Apesar de serem muitas vezes consideradas áreas perigosas, essas regiões têm em si a qualidade da multiplicidade que pode ser intensificada por meio de propostas de apropriação.

Essas áreas marginais, dotadas de inúmeras possibilidades de vivência e criação, são chamadas por Guatelli (2012) de entre-lugares, ou seja, aquilo que está entre os espaços programáticos. Ao contrário destes, os entre-lugares, a princípio, não têm função e não são feitos conscientemente para e nem por ninguém e, justamente por isso, permitem uma apropriação de maneiras diferentes e por públicos variados. Esses lugares são, muitas vezes, observados ao longo das barreiras urbanas. São espaços capazes de romper com a noção do dentro/fora, ou, estando fora, de serem ocupados, usufruídos e recriados como se não importasse estar dentro. Sobre estes espaços residuais, Guatelli (2012, p. 22) afirma que “estariam sempre abertos ao constante processo de apropriações diversas, livres da influência de qualquer imposição ocasionada por uma pré-condição”. Trata-se da coisa entre as coisas, que não é nem uma, nem outra, podendo ser várias, além de se inventar e reinventar no cotidiano dos usos diversos. É a “articulação do definido em direção ao indefinido” (GUATELLI, 2012, p. 23).

Espaços de infraestrutura como muros, avenidas, linhas de trem – alguns deles caracterizados como barreiras urbanas – são entre-lugares4, porque podem permanecer, ao contrário de espaços pré-determinados, impassíveis e indiferentes mesmo diante de figurações momentâneas (GUATELLI, 2012). Eles funcionam como suporte, estando abertos a diferentes intervenções que não atuam diretamente sobre sua estrutura, podendo ser transformados tantas vezes quanto desejado.

Pode-se dizer, articulando estes conceitos às teorias de Lefebvre (1999), que os entre-lugares são espaços em que há possibilidades de apropriação e que, por não despertarem os interesses do capital, não estão inseridos na lógica do valor de troca, possuindo grande potencial como valor de uso e, consequentemente, como espaços da criação, do virtual, da obra5.

Seria no espaço, não no espaço predeterminado, mas nos “entres”, nos espaços livres de preconfigurações que vivenciaríamos esses “momentos de invenção” e criaríamos condição para o devenir autre, indo além dos limites impostos pelo “natural”, pela história construída por discursos dominantes (GUATELLI, 2012, p. 32).

Para entender estes espaços e processos, os tradicionais modos de investigação racionais e analíticos tornam-se insuficientes, demandando reinvenções metodológicas e novas abordagens. Recupera-se então a deriva situacionista (JACQUES, 2003), como estratégia de percepção e apropriação urbana, trazida para um contexto contemporâneo. Esta derivação da deriva (ou deriva ao quadrado ou deriva2) promove um estar na cidade ao mesmo tempo atento e despreocupado, despertando novas sensibilidades e conectando o corpo ao urbano.

O diagrama representado na figura 4 trata justamente da forma como essa conexão entre os objetos de estudo, os conceitos abordados e os processos escolhidos dialogam entre si, com o objetivo de promover um debate amplo sobre as barreiras urbanas tanto na escala do corpo, quanto do muro e da cidade.

Fig. 4: A investigação das barreiras urbanas (aqui denominadas ‘muro’) e sua relação com o corpo e a cidade foi desenvolvida ao longo do Trabalho Final de Graduação “A Cidade e seus Muros”, por meio de uma análise de conceitos dialéticos e da realização de derivas². Essa experiência transcendeu as técnicas convencionais de investigação arquitetônica, permitindo o espaço do corpo, do indivíduo e do subjetivo na percepção da cidade e da forma como os muros atuam sobre ela. Fonte: Maíra Ramirez, 2016.

De acordo com Benjamin (1982), de certa forma a construção ocupa o lugar do inconsciente, tendo em vista a potencialidade inerente à arquitetura de confirmar lógicas latentes ainda não percebidas (figura 5). As inúmeras potencialidades de apropriação do espaço, que vão desde instigar o usuário chegando a superar o desejo do arquiteto são a prova que o objeto gerado independe da vontade de um único autor e dialoga com as relações de diversos indivíduos. O entre-lugar é, desta forma, o principal espaço de recebimento de diferentes intervenções e que pode, em si, ter a marca de múltiplos desejos. Trata-se de um confronto entre lugares imediatamente percebidos, que promovem rápida apropriação, e espaços outros, onde o processo de percepção e uso é mais lento justamente por se tratar de uma perversão do sentido original que passa pela potencialização de leituras indiretas e inventivas.

Fig. 5: Deriva² realizada em Barbacena, no dia 22 de agosto de 2016, por Maíra Ramirez e Jeniffer Maia, ao longo do desenvolvimento do Trabalho Final de Graduação “A cidade e seus Muros”. Fonte: Maíra Ramirez, 2016.

O importante aqui é compreender a forma como estes espaços entre funcionam como instrumentos instigadores de performances e questionamentos por meio dos usuários que se apropriam de uma estrutura aberta superando a funcionalidade – enquanto sua definição clássica vinculada à ideia de utilidade direta. Trata-se aqui, de uma quase ode ao inútil, pensando uma valorização daquilo que, em sua essência, não serve para nada (pensando servir enquanto mera função produtiva) e que será apropriado de formas que fogem ao que se considera útil. Sendo assim, a apropriação do entre-lugar tem em si o potencial da marginalidade, já que pode gerar usos que fujam à lógica imposta pelo mercado e pelo capital.

Diferentemente da arquitetura formal, os espaços entre carregam em si a marca do usuário autor e não do arquiteto artista, já que o poder de determinar a apropriação se deslocou das mãos do segundo para os desejos do primeiro.

Sendo assim, as múltiplas possibilidades de construção do espaço geram diferentes formas de invenção dos próprios indivíduos que ali se projetam (figura 6). Guatelli (2012) diz, então, a existência de um “homem por fazer”, que se encontra em constante construção, podendo sempre ir além do que lhe é “oferecido, em que as impressões de sensação, advindas das livres apropriações no espaço, possam transformar-se em reflexão, condição importante para a passagem de um sujeito passivo para um ativo” (GUATELLI, 2012, p. 126-127).

Fig. 6: Deriva² realizada por Fernanda Martins e Luís Firmato, ao longo da disciplina Arquitetura em Processo, ministrada pela professora Flávia Nacif, na Universidade Federal de São João del Rei. Fonte: Fernanda Martins, 2016.

A principal estratégia para romper com a segregação imposta pelas barreiras urbanas é a apropriação destes espaços entre por meio da arte e da festa. Arte não no sentido de se pendurar obras pela cidade, mas de fazer desta a própria obra. Guy Débord (2006) nos lembra que “se nos dispusermos a praticar e estudar uma mudança criativa do meio urbano, ligada a uma mudança qualitativa do comportamento e do modo de vida, isso significa uma verdadeira criação coletiva no âmbito da arte”. Propõe-se, então, uma outra forma de perceber e praticar a cidade, baseada no coletivo e na arte, como é demonstrado na Figura 7.

Necessária como a ciência, não suficiente, a arte traz para a realização da sociedade urbana uma longa meditação sobre a vida como drama e fruição. Além do mais e, sobretudo, a arte restitui o sentido da obra; ela oferece múltiplas figuras de tempos e de espaços apropriados: não impostos, não aceitos por uma resignação passiva, mas metamorfoseados em obra (LEFEBVRE, 2016, p. 116).

Fig. 7: Caminhada performática realizada no dia 15 de setembro de 2016, em São João del Rei, e coordenada por Luís Firmato, ao longo do desenvolvimento do Trabalho Final de Graduação “A Cidade e seus Muros”. A proposta contava com outras maneiras de perceber e se apropriar da cidade, por meio de um contato sensorial e coletivo com o espaço. Foram realizadas performances ao longo da deriva². Fonte: Fernanda Martins, 2016.

A cidade não é apenas um invólucro ou o espaço de concentração e exposição de produtos artísticos, ela é a própria arte. Isso explica, por exemplo, a transformação da cidade em produto, tal qual ocorreu com toda a produção pós Revolução Industrial, tendo em vista que “havendo mudado o sistema geral de produção, o que era um produto artístico hoje é um produto industrial” (ARGAN, 1998, p. 73).

Desta forma, torna-se clara a maneira como arte e urbanidade se ligam em um movimento de valorização e crescimento mútuo. É nos momentos de encontro promovidos nos espaços urbanos residuais que se tem a maior possibilidade de diversidade. Como exemplo, podemos citar o carnaval de rua, que vem crescendo nas grandes cidades, principalmente nos últimos anos, como um dos maiores momentos de encontro no Brasil. Ao longo desta festa, os espaços públicos retomam sua função primordial e são novamente apropriados ao longo dos dias de folia. Isso pode ser percebido por meio da Figura 8, foto do bloco Tico Tico Serra Copo, no carnaval de Belo Horizonte.

Fig. 8: Carnaval em Belo Horizonte. Fonte: Rafael Brandão, 2017.

O uso principal da cidade, isto é, das ruas e das praças, dos edifícios e dos monumentos, é a Festa (que consome improdutivamente, sem nenhuma outra vantagem além do prazer e do prestígio, enormes riquezas em objetos e em dinheiro) (LEFEBVRE, 2016, p. 12).

Como consequência do processo de privatização das cidades, no qual os espaços tendem, cada vez mais, a pertencer a indivíduos ou grupos específicos e não mais serem apropriados pelos cidadãos, Bourriaud (2011) afirma que o homem contemporâneo é um ser desapossado. Isso porque, de acordo com o autor, a economia capitalista é desterritorializante, tendo em vista que ela desloca as formas de existência, e codifica e decodifica os modos de vida de acordo com seus interesses. Assim, uma maneira de agir contra este processo é a encontrada por Guattari e citada por Bourriaud (2011), por meio da qual se gera uma prática de existência que devolve a subjetividade onde ela já se esvaziou, por meio da criatividade e de novas experimentações dos espaços. A “única finalidade aceitável das atividades humanas é a produção de uma subjetividade que auto enriqueça de forma contínua sua relação com o mundo” (GUATTARI, 1992 apud BOURRIAUD, 2011, p. 69). A arte ocupa, assim, um papel fundamental no movimento de desterritorialização, por ser o elemento capaz de retomar as subjetividades, gerando uma nova relação entre sujeito e espaço, por meio da qual a cidade se torna novamente um lugar de apropriação.

A aproximação entre arte e cotidiano faz parte de um mesmo movimento, por meio do qual arte e cidade se deslocam uma em direção à outra, como numa relação de incorporação mútua. Se Lefebvre (2016) coloca que o principal uso da cidade é a festa, o uso da rua para encontro e apropriação, tal qual a convergência entre os elementos, cotidiano, arte e cidade, significa uma possibilidade de uso pleno do espaço público por meio do exercício da diversidade. Assim, ocupar a cidade com arte é elevar a potencialidade dos espaços entre rompendo com diversas formas de segregação urbana por meio da retomada do público, do questionamento do privado, do contato com o outro, da aceitação das diferenças e, por fim, da subversão do lazer retirando sua concentração no consumo e o deslocando para movimentos de arte e cultura.

Conclusão

Pode-se concluir que as barreiras urbanas, entremeadas no tecido da cidade, construídas por desenho ou por resíduo, permitem a materialização de um ideal de cidade/sociedade. Desejar a urbes da diversidade, da pluralidade e da festa, mais do que almejar o fim dos muros, é vislumbrar a criação de uma sociedade que incorpore estes conceitos em seu cotidiano, de maneira autônoma e reflexiva. A forma urbana estabelece sempre uma relação dialógica com as formas sociais e, por isso, qualquer intervenção puramente formal arrisca-se à irrelevância. As modificações devem, então, partir da percepção e sensibilidade de indivíduos múltiplos dispostos a se reunirem e atuarem.

Fica, então, o desafio de explorar as potencialidades das barreiras, dos entre-lugares, dos espaços sem utilidade, como possibilidades de encontro; de usar o vazio gerado pelas barreiras como uma arma contra elas mesmas, fazendo com que o medo se torne segurança; a angústia, encontro, e à cidade seja devolvida sua mais que merecida característica de arte.

Referências

ARGAN, G. C. História da Arte como História da Cidade. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

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BOURRIAUD, N. Formas de Vida: a arte moderna e a invenção de si. Tradução de Dorothée de Bruchard. São Paulo: Martins Fontes, 2011. (Coleção todas as artes).

CORTÉS, J. M. Políticas do Espaço, Arquitetura, Gênero e Controle Social. São Paulo, SENAC, 2008.

DEBORD, G. A Sociedade do Espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

GUATELLI, I. Arquitetura dos Entre-lugares. São Paulo: SENAC, 2012.

HARVEY, D. The Right to the City. New Left Review, Londres, n. 53, Set.-Out. 2008. Disponível em: <https://newleftreview.org/II/53/david-harvey-the-right-to-the-city>.

JACOBS, J. Morte e Vida das Grandes Cidades. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2011.

JACQUES, P. Apologia da Deriva. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2003.

LEFEBVRE, H. A Revolução Urbana. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1999.

LEFEBVRE, H. Espaço e Política: O direito à cidade II. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2016.

MUROS, territórios compartilhados. s.d. [online] Disponível em: <http://muros.art.br/?page_id=402>. Acesso em: 17 Mai. 2017.

1Os muros são colocados aqui como qualquer coisa que sirva de divisa entre espaços. De acordo com o livro Muros, territórios compartilhados, são “utilizados desde a antiguidade para defender e proteger as cidades e, ainda hoje, nos grandes centros urbanos, tem a função de separar um espaço do outro, estabelecendo um limite e demarcando um território, tornando-se, muitas vezes a fronteira entre o espaço público e o privado. Constituem-se como barreiras para a circulação das pessoas no espaço urbano, além de delimitar o olhar dos transeuntes” (MUROS..., s.d., s.p.).

2O plano urbanístico de Haussmann para Paris (1853) propôs a reconstrução da cidade seguindo a lógica de vários rasgos para a criação de vias largas e iluminadas. Entretanto, não se tratou de um projeto de melhorias que alcançaria toda a população, mas sim de uma proposta segregadora, em que poucos tinham direito de acessar os equipamentos criados. Mais que um plano urbanístico, Harvey (2008) afirma que se tratou de um projeto econômico para tirar Paris de uma crise econômica e social na qual estava afundada. O plano garantiu emprego para muitos operários e assegurou o espaço de investimento do excedente do capital, garantindo que este não ficasse estagnado. Contudo, pouco mais de uma década depois, a falta de capital para novos investimentos gerou uma estagnação econômica, desemprego e uma nova crise, que deixou ainda mais clara a divisão social de Paris.

3O conceito, criado por Jane Jacobs (2011), foi publicado pela primeira vez em 1961 no livro Morte e Vida das Grandes Cidades. A ideia dos olhos das ruas é, ainda hoje, uma das mais trabalhadas quando a questão é a segurança urbana. Para ela as pessoas se sentem mais seguras em meio aos diferentes e os olhos das ruas são a ação consciente ou inconsciente de pessoas que, utilizando os espaços públicos ou contemplando-os de suas casas, acabam por vigiá-los. As cidades tornam-se mais seguras a medida em que os espaços comuns estão ao alcance do olhar de todos, de forma que um cuida do outro e todos da cidade. Jacobs (2011, p. 32) afirma que a segurança pública, mais do que pela polícia, é feita “pela rede intrincada, quase inconsciente, de controles e padrões de comportamento espontâneos presentes em meio ao próprio povo e por ele aplicados”.

4O conceito de entre-lugares foi criado por Igor Guatelli (2012) a partir da ideia de “entre”, presente na obra de Jacques Derrida (sobretudo a partir dos conceitos de l’entre, l’espacement e Khôra). Os entre-lugares podem ser conhecidos como as lacunas ou os espaços “ociosos” que ficam entre aqueles projetados e possuem a função de ligação. Comparando arquitetura e escrita, como propõe o próprio autor, os entre-lugares não possuem função de sujeitos da frase (ou objeto e forma da arquitetura), mas são os elos que dão diferentes significados às construções da escrita e da cidade.

5Obra é um termo muito utilizado por Lefebvre (2016) que se relaciona com a criação. Segundo o autor, o surgimento da cidade industrial acabou com a obra, tendo em vista que a produção deixa de ser imaginativa e única e acaba por se tornar massiva, tendo por finalidade única a criação do maior número possível de elementos iguais de maneira a atender as necessidades do mercado e gerar lucro. Para o autor, o direcionamento da cidade para o dinheiro e a técnica, para o produto, vai de encontro à sua característica própria de obra. A cidade, por si só, é uma obra. Essa contradição é muito significativa tendo em vista que a obra tem valor de uso, enquanto o produto, valor de troca. Lefebvre defende que, mesmo nas sociedades opressoras, havia a produção de obras, ou seja, havia o valor de uso. Esse quadro se modificou quando a sociedade deixou de ser opressora e se tornou exploradora. A exploração mata a criação. Isso porque ela foca o processo no fazer e não no inventar, tornando-o prático e mecânico. O valor de troca, a generalização e a mecanização levam o foco para o produto, atingindo a cidade em sua essência, o uso.

Walls: in-between places

Maíra Ramirez Nobre, Rafael Silva Brandão

Maíra Ramirez Nobre is architect and urban planner. She studies processes of spontaneous and marginal occupation of the public space.

Rafael Silva Brandão is architect and urban planner, Doctor in Architecture Technology. He is Adjunct Professor at Federal University of São João del Rei. He studies environmental comfort, urban planning, energy and technology architecture and urbanism.


How to quote this text: Nobre, M. R. and Brandão, R. S. Walls: in-between places, uses, and utilities. V!RUS, 14. [online] Available at: <http://www.nomads.usp.br/virus/virus14/?sec=4&item=7&lang=en>. [Accessed: 01 June 2020].


Abstract

Walls are fundamental constituent elements of urban spaces, when setting or determining designs, uses and flows in the city. They are viewed in a predominantly negative way by space scholars, due to their segregating nature: they function as a division of areas, but also of realities; prevent access; harass the user to the point of making their appropriation of space impractical. But is there an underestimated potentiality in those components? This paper seeks to understand the influences of the walls in the urban quotidian, pointing out their role in the weaving of the city and their virtuality that instigates in diverse ways different social groups, classifying themselves as in-between places.

Keywords: City; Walls; Security; In-between places; Appropriation


Introduction

More than simple territorial delimitation or protection of private property, this element symbolizes a spreading social behavior: the individualization of men and his disconnection from the collective, which aggravates the shredding of urban fabric.

The urban fabric is composed of a set of interrelated spaces, intertwined with barriers, which fulfill the functions, among others, of organizing atmospheres, tracing flows and delimiting public and private areas (Figure 1). Among these obstacles, daily life takes place, in its classic activities of living, working, having fun and moving around. They thus fulfill an ambiguous task: at the same time they prevent (or hinder) displacements, they also indicate (or enable) connections. Walls1 are the clearest physical manifestations of urban barriers. More than simple territorial delimitation related to the protection of private property, this component symbolizes an increasingly widespread social behavior: the individualization of contemporary man and his detachment from the collective, aggravating the shredding of the urban fabric.

Fig. 1: Urban dérive in São João del-Rei, by Maira Ramirez and Fernanda Martins, during the study “The city and its walls”. Source: Maira Ramirez, 2016.

This may be the reason why urban barriers are usually linked to their segregating characteristic and the first impact generated by addressing the issue is generally negative. This is because when thinking about the wall as an object (and thus will be approached initially so that it can later be dissected into symbolic characterizations), the image created has in itself the indication of something insurmountable, or at least difficult to pass, having thus a break of potential communication between parts. By itself, the wall is linked to the idea of division.

But is it possible to think of walls and other urban barriers as potential spaces of appropriation? When vertical, they can be used as communication murals (Figure 2); when horizontal, in the form of streets, bridges, or train lines, for example, they can offer possibilities for use by different groups and in different ways. In order to understand those potentialities, thinking about the dual function (segregation and appropriation) of urban barriers, one must understand the emptying process of urban spaces that has led to the present state of insecurity in the cities.

Fig. 2: Collage 1. Source: Maíra Ramirez, 2016.

Walls and social discourse

Cities are not mere scenarios or random construction clusters. Even if it is not always noticed in daily life, the city is the result of social actions and discourses. According to Cortés (2008), the built space is not totally responsible for the oppression or liberation of society, but it plays the role of conditioning, leading to different ways of social practice. Therefore, the built elements help in the maintenance of a certain order and, inevitably, in the creation of a certain spatial identity, directly related to the ideas of authority and symbolic capital. The author goes on to note that urban forms act as social mirrors, influencing the construction and transformations of social reality. This becomes clear in some iconic barriers, such as the Berlin Wall (figure 3), which materialized an ideological polarization that, translated into space, meant not only the division of a country, but the separation of families and affections.

Fig. 3: The Berlin Wall Memorial. Source: Maíra Ramirez, 2011.

Even the illuminist city was based on an ideary of surveillance and social control that would cut through space in order to sustain power structures and to regulate life and flows in a way that would optimize production and consumption (Cortés, 2008). Old and dark alleys were torn apart or illuminated, setting up clear (sanitized) spaces where security was granted by the eyes of the powerful. This was usually set in place in order to counteract popular movements seeking improvements in conditions generated by capitalism’s social contradictions. Many examples of this situation happened during the 18th and 19th centuries, such as the paramount urban plan for Paris by Haussmann22 and are still present in contemporary cities. To Débord (1955, cited in Jacques, 2003) the effort of the newly established powers to maintain order on the streets after the French Revolution ended up suppressing life in them.

It is important to emphasize that the incorporation and concretization of the modernist ideals, quite contradictory to what they originally preached, contributed significantly to the maintenance of guarded and "protected" cities through sectoral and programmatic urban plans. The 20th century is even more marked by the suppression of streets and public spaces, due to the advent of the automobile and its prioritization ofver pedestrians. For Bourriaud (2011), the geometrization of space is closely linked to the fact that walking does not generate profit, which stimulated this activity to be performed as quickly as possible. The strategy used by Henry Ford to keep his workers from "wasting time" shifting was to subject this movement to "a rational organization based on the geometrization of space" (Bourriaud, 2011, p.15). Just over a century later, this measure is totally absorbed by society and walking is denied by urban planners, oblivious to the fact that the emptying of streets as spaces of use and permanence is directly linked to important issues of urban violence.

The situation has deteriorated to such an extent that people tend not to come into direct contact with the city, hiding inside their cars, which, for Jacobs (2011), is part of the second technique of coexistence with urban insecurity. It points to the existence of three techniques to date: let the danger happen freely and reach those who are most vulnerable to it; hide in cars; and cultivate institutions of the territory, which occurs when a certain group appropriates part of the city and prevents members of another group from entering this place being subjected to beatings, as in the case of the ghettos of New York addressed by the author.

It is clear, then, the existence of ideological determinations that act on the construction of space and indicate how and when it should be used. Cortés (2008, p.108) says that "architectural control of social barriers has become the true spirit of urban restructuring; residential and commercial security has been able to take the place of any form of social integration." The stifness in spatial organization strives for a perfect world with no room for "ugliness" and disorder in favor of security based on restricting access. According to Argan (1998, p.214), "the city which in the past was the closed and safe place by antonomasia, the maternal breast, becomes the place of insecurity, of the inevitable struggle for survival, of fear, of anguish, of despair".

Nowadays, what attracts people to the use of public spaces are commercial relations, which influence the characterization of contemporary society as a society of consumption. Especially in big cities, the old shopping streets have been replaced by shopping centers: closed, air-conditioned and well-lit spaces that deny urban space and seek to welcome a select target audience (which is guaranteed through architectural strategies such as pompous façades, intimidating walls and priority access for cars). The streets of the contemporary city thus became mere transit space, in which the main flow is what connects the residences to other restricted spaces as the ones previously discussed. This is a symptomatic reduction of the possible uses of the city, since its streets serve (or should serve) "for several purposes besides holding vehicles; and the sidewalks - the part of the streets for pedestrians - serve many purposes besides holding pedestrians." (Jacobs, 2011, p.29) Even recreational places are marked by segregation, either by the physical walls surrounding them, by the entry fees or by conditioning permanence to buying and selling relationships - which makes that certain social strata not have conditions of appropriation.

The social non-integration (or disintegration) and the difficulty (either by lack of will or incapacity) in making general population sensitive to diversity and to extreme social inequality greatly facilitate the maintenance of order and power by the ruling classes, generating an illusion of a safe society, guaranteed by socio-spatial segregation. According to Jacobs (2011, p.29), when people claim that a city, or part of it, is dangerous, they are basically saying “that they don’t feel safe on the sidewalks.” That is, the notion of safety or violence in a city relates directly to the population’s urban lifestyle and to its coexistence in public space. Jacobs stresses the importance of sidewalks in urban relationships when she states that “sidewalks or those who use them are not passive beneficiaries of security or helpless victims of danger”, since when people fear the streets, “they use them less, which makes the streets still more unsafe” (Jacobs, 2011, p.30). Cortés (2008, p.65) recalls that "public space ceases to be a meeting place, the center of social life, to become something more closely related to strict regularization, where everything is controlled and the individual feels safe and considers guaranteed such security".

Urban violence is, therefore, a fundamental point in the discussion about the city and its barriers, considering that it has become the central element in what concerns the contemporary justifications for the creation of spaces of segregation. It is in this context that Jacobs (2011) reminds us of the walls, often used to form urban islands. In an opposite way to conventional, where security is directly linked to the construction of ever higher walls, the author affirms that the best way to combat urban violence is the eyes of the streets33, that is, "the eyes of those who can call the natural owners of the street" (Jacobs, 2011, p.35). The smaller the walls and the more permeable the cities, the greater the contact between people and the occupation of the streets, reducing the factors that cause urban violence - one takes care of the space of the other and everyone watches what is common. More important than the police and the cameras is the constant pedestrian traffic in the cities. Informal public life boosts formal and associative public life. That is, for Jacobs (2011), the security of a street or neighborhood is guaranteed by democratic self-management, based mainly on the creation of a network of relationships.

The idea of security is often linked to surveillance, as indicated by the installation of cameras on the streets throughout many cities as a promise to minimize violence. As discussed earlier, this type of strategy is recurrent from the beginning of urbanistic thinking, when planners intended, by widening the streets and making of their drawings orthogonal traces, facilitate the sight and, consequently, control over the activities performed in those spaces. The great difference between the type of surveillance applied today and the one proposed by Jacobs (2011) is precisely an idea of hierarchy and control. The eyes of the street only work by the impulse of human curiosity, and this becomes clear when the author describes how each event in the neighborhood takes all the residents to the sidewalks and windows. However, in spite of being a "judge", this observation is more of a care than a fascist and oppressive attitude.

Walls as in-between places

Moving towards the notion of security addressed by Jacobs (2011), starting with an idea of surveillance based on the logic of trust, it is possible to think about the appropriation of streets and public spaces. Many of the neglected spaces in the city present a significant potential for use and gathering individuals. Although they are often considered as dangerous areas, these regions have the quality of multiplicity that can be enhanced through appropriation proposals.

These marginal areas, endowed with innumerable possibilities of experience and creation, are named by Guatelli (2012) as in-between spaces, that is, what is between the programmatic spaces. Unlike the latter, the in-between spaces, have no function per se and are not consciously built for or by anyone and that's precisely why they allow appropriation in different ways and by different audiences. These places are often found along urban boundaries. They are spaces capable of breaking with the notion of inside/outside, or, being outside, of being occupied, enjoyed and recreated as if it were not important to be inside. Referring to these residual spaces, Guatelli (2012, p.22) states that "they would always be open to the constant process of different appropriations, free from the influence of any imposition caused by a precondition". It is a thing among things, which is neither one nor the other, which can be many, being able to reinvent itself on a daily basis of different uses. It is the “articulation of the defined towards the undefined” (Guatelli, 2012, p.23).

Infrastructure spaces such as walls, avenues, train tracks - some of them classified as urban barriers - are in-between places4, because they can remain, unlike predetermined spaces, impassive and indifferent even in the face of momentary figurations (Guatelli, 2012). They function as support, being open to different interventions that do not act directly on their structure, and can be transformed as many times as desired.

Articulating these concepts to Lefebvre’s (1999) theories, one can say that in-between places are spaces in which there are possibilities of appropriation and, since they do not arouse the interests of the capital, they are not inserted in the logic of the value of exchange, having great potential for use value and, consequently, as spaces of creation, of the virtual, of the oeuvre55.

It would be in space, not predetermined space, but “in-between”, in spaces free from pre-configuration, that we could experience this “moments of invention” and create conditions for a devenir autre, moving beyond the limits imposed by the “natural”, by history constructed by dominant discourse (Guatelli, 2012, p.32).

In order to understand these spaces and processes, traditional rational and analytic modes of investigation become insufficient, calling for methodological reinvention and innovative approaches. One possible path is to recover the situationist dérive (Jacques, 2003) to a contemporary context, using it as a strategy for perceiving and occupying urban spaces. This derivative of the dérive (a squared dérive or dérive2) calls for a being in the city that is, at the same time, attentive and carefree, awakening new sensitivities and connecting the body to the urban.

The diagram in figure 4 shows exactly how this connections between the objects of study, the concepts addressed and the chosen processes talk, aiming to to promote a broad debate about urban barriers in the scale of body, wall and city.

Fig. 4: The investigation of the urban barriers (here called the 'wall') and its relationship with the body and the city was developed during the Final Graduation Paper 'The City and its Walls', through an analysis of dialectical concepts and the realization of dérives². This experience transcended the conventional techniques of architectural research, allowing the space of the body, the individual and the subjective in the perception of the city and the way the walls act over them. Source: Maíra Ramirez, 2016.

According to Benjamin (1982), construction occupies the place of the unconscious, in view of the inherent potential of the architecture to confirm latent logic not yet perceived (Figure 5). The innumerable potentialities of appropriation of space, ranging from instigating the user to surpassing the architect's desire, are proof that the object generated is independent of the will of a single author and dialogues with the relations of several individuals. The in-between place is thus the main space for receiving different interventions and that may, in itself, have the mark of multiple desires. It is a confrontation between places immediately perceived, which promote quick appropriation, and other spaces, where the process of perception and use is slower because it is a perversion of the original meaning that goes through the potentiation of indirect and inventive readings.

Fig. 5:Dérive² held in Barbacena, on August 22, 2016, by Maíra Ramirez and Jeniffer Maia, during the development of the Final Graduation Paper "The city and its walls". Source: Maíra Ramirez, 2016.

What is important here is to understand how these spaces function as instigating instruments of performance and questioning through users who appropriate an open structure overcoming functionality - while its classic definition linked to the idea of direct utility. It is here, from an almost ode to the useless, thinking of an appreciation of what, in essence, serves no purpose (thinking of serving as a mere productive function) and which will be appropriated in ways that escape what is considered useful. Thus, the appropriation of the in-between place has in itself the potential of marginality, since it can generate uses that flee to the logic imposed by the market and capital.

Unlike formal architecture, in-between places bear the mark of the author user and not of the artist architect, since the power to determine appropriation has shifted from the hands of the latter to the desires of the former.

Thus, the multiple possibilities of space construction generate different forms of invention by the own individuals who are projected (Figure 6). Guatelli (2012), then, says the existence of a "man to do", that is constantly in construction, can always go beyond what is offered to him, in whom the impressions of sensation, arising from free appropriations in space, can become a reflection, an important condition for the transition from a passive subject to an active one" (Guatelli, 2012, pp.126-127).

Fig. 6:Dérive² by Fernanda Martins and Luís Firmato, along the course Architecture in Process, taught by Professor Flávia Nacif, at the Federal University of São João del Rei. Source: Fernanda Martins, 2016.

The main strategy to break with the segregation imposed by the urban barriers is the appropriation of these in-between places through art and party. Art not in the sense of hanging works around the city, but of making it the work itself. Guy Débord (2006) reminds us that "if we are willing to practice and study a creative change of the urban environment, linked to a qualitative change of behavior and way of life, this means a true collective creation in the field of art." It is proposed, then, another way of perceiving and practicing the city, based on collective and art, as shown in Figure 7.

Necessary as science, not enough, art brings to the realization of urban society a long meditation on life as drama and enjoyment. Moreover, and above all, art restores the meaning of the work; It offers multiple figures of times and appropriate spaces: non-taxes, not accepted by a passive resignation, but metamorphosed into work (Lefebvre, 2016, p.116).

Fig. 7: Performance walk acted on September 15, 2016, in São João del Rei, and coordinated by Luís Firmato, during the development of the Final Graduation Paper "The City and its Walls". The proposal had other ways of perceiving and appropriating the city, through a sensorial and collective contact with space. There were performances along the dérive². Source: Fernanda Martins, 2016.

The city isn't just an involucre or a concentration of people and artistic products exposing place. It is also art itself. That explains, for instance, its transformation into product just in the same it happened to Post Industrial Revolution productions in general, bearing in mind that "as the general production system has changed, what was an artistic product is now an industrial one" (Argan, 1998, p.73).

Hence, it seems clear how art and urbanity are connected in a movement of appreciation and mutual growth. It relies on the meeting moments promoted by residual urban spaces with the most possibilities of diversity. As an example we can mention the street carnival, which is raising in the big cities, mainly in the latest years, as one of the greatest meeting places in Brazil. During this party, public spaces retake their main function, which are ownershiped again. It can be seen on figure 8, an image of Tico Tico Serra Copo carnival block from Belo Horizonte.

Fig. 8: Belo Horizonte's carnival. Source: Rafael Brandão, 2017.

The main use of the city, that is, of streets and squares, buildings and monuments, is the Party (which consumes unproductively, with no other advantage but pleasure and prestige, huge opulence of objects and money) (Lefebvre, 2016, p.12).

As a consequence of cities privatization process, where we note a growing tendency of space to belong to individuals or specific groups instead of being ownershiped by citizens, Bourriaud (2011) affirms that contemporary man is a dispossessed being. The reason why it occurs, according to the author, is capitalist economy desterrializating condition, besides its dislocating process of existence forms, encoding and decoding lifestyles in accordance with its interests. Therefore a way of acting against this process is defended by Guattari and cited by Bourriaud (2011), whereby is created an existence practice which returns subjectivity through creativity and new experimentations of space. The "only acceptable purpose of human activities is the production of a subjectivity that continuously and by its own means enriches its relationship with the world" (Guatarri, 1992 cited in Bourriaud, 2011, p.69). Art plays, thus, a fundamental role in deterritorialization movement as being an element capable of retaking subjectivities and generating a new relationship between men and space and returning the city to a place of appropriation.

The proximity between art and daily life is part of the same movement where art and city dislocate one another as a mutual incorporation relationship. Assuming Lefebvre's (2016) definition that the main use of the city is to be the locus of party, the use of streets for encounter and appropriation as well as the convergence of elements, daily life, art and the city, it means a possibility of plein use of space through the practice of diversity. Thus occupying the city with art means to elevate the potentiality of in-between places and break up with many forms of urban segregation through the retaken of public spaces by the citizens and the questioning of private, social contacts, acceptance of differences and, at last, the subversion of entertainment by withdrawing its concentration on consumption and dislocating it to movements of art and culture.

Conclusion

One may conclude that urban barriers, intertwined within the urban fabric, built by drawings or remnants allow the materialization of an ideal of city/society. Wishing urban spaces of diversity, plurality and celebration, more than striving for the end of walls, is to glimpse a society that incorporate autonomously and critically/reflexively these concepts on its daily life. Urban form always establishes a dialogical relation with social forms and, for that reason, any intervention purely based on form risks to be irrelevant. Transformations must then grow from multiple subjects' perception and sensibility who are willing to be gathered and act.

The challenge is to explore the potentialities of the barriers, the in-between places, the non-used spaces as possibilities of encounter; to use the emptyness created by the walls as a weapon against themselves, turning fear into safety, anguish into social meeting and giving back to the city its well deserved characteristic of art.

References

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Debord, G., 1997. A Sociedade do Espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto.

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Muros, territórios compartilhados. s.d. [online] Available at: <http://muros.art.br/?page_id=402> [Accessed 17 May 2017].

1Walls are defined here as anything that serves as a boundary between spaces. According to the book Muros, territórios compartilhados, they have been "used since ancient times to defend and protect cities and, even to this date, in the great urban centers, they have the function of separating one space from the other, establishing a limit and demarcating a territory, often becoming the border between public and private space. They constitute barriers for the circulation of people in urban space, in addition to delimiting the view of passersby" (Muros..., s.d., s.p., our translation).

2Haussman’s plan for Paris (1853) proposed to rebuild the city using large and well lit boulevards. However, it was not a project of improvements that would reach the entire population, but a segregation proposal, in which few had the right to access the equipment created. More than an urban plan, Harvey (2008) says that it was an economic project to get Paris out of an economic and social crisis in which it was sunk. The plan granted employment for many workers and secured investment space of capital surplus, ensuring that it did not become stagnant. However, a little more than a decade later, the lack of capital for new investments led to economic stagnation, unemployment and a new crisis, which made the social division of Paris even more obvious.

3The concept, created by Jane Jacobs (2011), was first published in 1961 in the book Death and Life of Great Cities. The idea of the eyes of the streets is still one of the most elaborate when it comes to urban security. For her, people feel safer among the different ones and the eyes of the streets are the conscious or unconscious action of people who, using public spaces or contemplating them from their homes, end up watching over them. Cities become safer as the common spaces are within reach of everyone's eyes, so one cares for the other and all for the city. Jacobs (2011, p.32) states that public security rather than the police is done "by the intricate, almost unconscious network of spontaneous controls and patterns of behavior present among the people themselves and applied by them."

4In-between places is a concept created by Igor Guatelli (2012) from the idea of “between”, present in Jacques Derrida work (especially from the concepts of l’entre, l’espacement e Khôra). The in-between places are perceived as gaps or “idle” spaces that rest between designed spaces and usually work as connections. If one compares architecture and writing, as proposed by Guatelli, the in-between places are not phrase subjects (or object and form of architecture), but are the links that give different meanings to the constructions of writing and the city.

5 Oeuvre (work) is a term widely used by Lefebvre (2016) that relates to creation. According to the author, the emergence of the industrial city ended the work, given that production ceases to be imaginative and unique and ends up becoming massive, with the sole purpose of creating as many equal elements as possible in order to fulfill the needs of the market and generate profit. For the author, gearing the city towards money and the technique towards product goes against its own characteristic of work. The city, by itself, is a work. This contradiction is very significant since the work has use value, while the product, exchange value. Lefebvre argues that, even in oppressive societies, there was the production of oeuvres, that is, there was use value. This changed when society ceased to be oppressive and became exploitative. Exploration kills creation. This is because it focuses on the process of making and not inventing, making it practical and mechanical. Exchange value, generalization and mechanization focus to the product, attacking the city at its core: use.